Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
CAMPO DE TREINAMENTO
54: Lei Marcial
Treize Kushrenada nunca teve o hábito de aceitar as coisas sem questioná-las. Contudo, a performance convincente de Quatre o fizera salivar ante a oportunidade de acabar com Duo Maxwell de uma vez por todas.
Por essa razão, ele estava determinado a não deixar passar nada. Analisou suas opções e chegou à conclusão que deveria assumir o controle do Campo Peacecraft antes da tentativa de fuga de Maxwell. Não poderia permitir que os oficiais da ASMS atrapalhassem a concretização de sua vingança.
E, até onde Kushrenada sabia, o major Merquise era o seu único obstáculo a ser levado a sério; mas estava prestes a tomar conta disso.
As luzes já haviam se apagado; nesse horário, Kushrenada normalmente checava o perímetro. Contudo, em vez de caminhar pela cerca como de costume, tinha uma reunião no canil com sua panelinha de guardas leais.
Com seu cão de ataque preferido ao seu lado, descansou a mão na cabeçorra, acariciando as orelhas do pastor. "Falta só alguns dias pra essa piada de campo de treinamento acabar, estamos ficando sem tempo para desacreditar a Iniciativa Peacecraft," ele dizia.
"O Merquise está de olho em tudo," um dos guardas resmungou. "Ele é quase tão paranoico quanto o Chang. Tem tropas vigiando a pista de obstáculos e o simulador. É impossível sabotar mais um equipamento."
"Aqueles militares ficam onde os moleques estão... durante os exercícios, as refeições e até nos alojamentos," outro acrescentou. "Duvido que a gente consiga pegar os detentos."
"Então não vamos tentar pegar os detentos," o diretor deu de ombros. "Pegamos o Merquise." Seus olhos fulvos se acenderam com malícia. "Ele corre todas as manhãs... sozinho... antes de os recrutas acordarem. Sem detentos... sem militares. Eles ficam nos alojamentos ASMS até o toque de alvorada."
"O que quer que a gente faça com o major?"
"Oh, vamos matar dois coelhos com uma cajadada só," o diretor cantarolou, deslizando uma mão para o queixo do cão e o acariciando. "O quão fácil é arrombar o cadeado do depósito de armas com um pé de cabra roubado do barracão? Qualquer detento conseguiria, né?"
"Claro," um deles concordou, sorrindo com maldade.
"Bom, então, é simples. Arrombamento no depósito... uma arma some... e nosso querido major faz uma última corrida matinal."
Os homens riram, concordando. "Quer que a gente suma com a arma depois? Ou deixa para ser encontrada?"
"Oh, deixa. Quero que seja óbvio que ele tomou um tiro de uma arma militar... e não nossa. Vai poupar trabalho da análise balística quando investigarem, aposto." O diretor se inclinou, sorrindo satisfeito. "Mas, enquanto isso, com o caos que o ataque vai criar, eu vou tomar a direção e isolar o lugar inteiro. Vai levar pelo menos uns dois dias para substituírem o Merquise."
"E o que vamos ganhar com isso?" um perguntou.
"Tempo para jogar a culpa... fazer acusações. Não se preocupe. A publicidade causada pelo assassinato bem aqui no campo de treinamento vai ser o suficiente para desacreditar a Iniciativa." Sem contar que permitiria Kushrenada estar no controle de tudo quando seu delinquente preferido tentasse escapar. Sorriu cruelmente passando a mão pela cabeça do cão outra vez. "Oh, Earl?" chamou o treinador dos cães. "Faz quanto tempo que esses cachorros comeram carne fresca?"
"Faz um tempinho, senhor... o dinheiro está curto."
"É, mas carne fresca mantém o instinto assassino afiado," o diretor ressaltou. Balançou a mão, deixando o assunto para lá. "Não se preocupe, Earl. Eu tomo conta disso. Alimente-os pouco domingo à noite, e vou me assegurar que comam bem segunda de manhã."
Enquanto a morte de Merquise criava um escândalo público, Kushrenada planejava se assegurar que a de Maxwell passasse despercebida. Afinal de contas, não podia ter um assassinato sem corpo, não é?
Considerando os padrões da Terra, era cedo pela manhã quando o videofone no escritório de Zechs Merquise tocou. Contudo, o militar estava sempre acordado antes de amanhecer para fazer sua corrida matinal e voltar a tempo de supervisionar o toque de alvorada e a calistenia.
Vestindo roupa esportiva, amarrava seu tênis, mas parou com o toque, e apertou o botão de atender.
"Merquise aqui."
A imagem estava trêmula, mas visível. A coronel Une franziu o cenho para a tela e bateu nela com um dedo. "Maldita máquina!" reclamou. "Acho que a conexão vai ter que ser assim mesmo. Tenho boas notícias, major."
O homem loiro endireitou-se, alerta, onde sentava. "Sobre Yuy?"
"Ele foi inocentado. Lowe foi morto no hospital. As autoridades de L1 estão surtadas tentando achar o culpado." Ela sorriu. "Mas o lado bom é que você vai receber o seu capitão e recruta o quanto antes."
Um amplo sorriso agraciou o belo rosto. "Não tem ideia de quantas pessoas você vai fazer feliz hoje, coronel."
"Bom, pelo menos um que eu sei." Ela franziu quando a conexão tremulou. "Porcaria de máquina. Enfim, falei para o Chang pegar o primeiro voo de L1 e vir direto para cá. Vou pedir para ele te ligar assim que chegar aqui."
"Excelente." Zechs apressou-se em terminar de atar o cadarço, sua caneca de café pela metade esquecida. "Mais alguma coisa, coronel?"
"Isso não foi o suficiente?"
"Pode apostar que sim!" O major hesitou, lembrando-se do plano em andamento do time Wing. "Estou ansioso para conversar com o Chang. Tenho novidades para ele que não podem esperar."
"Algum recado para eu passar?"
"É um pouco... complicado," falou num tom de desculpas. "É melhor eu contar diretamente."
"Vou me certificar de que ele ligue."
"Obrigado, coronel. Merquise desligando." Ele desligou o videofone e encarou a tela por um minuto inteiro antes de soltar uma exclamação contente. "Acho que nem o Maxwell vai se incomodar em ser acordado mais cedo para ouvir isso," previu, pegando sua jaqueta e saindo.
Em vez de ir para a pista de corrida, foi em direção ao alojamento. Estava no meio do caminho quando um dos guardas o alcançou, parecendo nervoso e apreensivo. "Major Merquise?"
"Sim?"
"Hum, teve um acidente envolvendo um dos seus recrutas... hum, nos chuveiros. O diretor falou que você ia querer saber."
"Pode apostar," o oficial da ASMS murmurou, perguntando-se qual dos rapazes estaria tomando banho uma hora antes do toque de alvorada, e por que nenhum dos seus soldados viera avisá-lo. "Me leve até lá."
"Tudo bem," o guarda respondeu, gesticulando para o Merquise ir à sua frente, e seguindo com um pequeno sorriso sinistro.
O estalo do tiro perturbou o silêncio da noite, e todos os integrantes do time Wing levantaram-se em suas camas.
"Que porra foi essa?!" Duo questionou, chutando as cobertas e correndo para a porta.
"Duo, não!" Quatre o alertou, saltando para acompanhá-lo. "Espera! Não sabemos o que está acontecendo lá fora." Segurou o amigo na porta, puxando-o para trás. "Não se pode correr para um tiroteio antes de olhar!"
Duo parou. Por fim, abriu a porta apenas um fresta e olhou para ver soldados correndo do alojamento em direção ao vestiário. "Bom, nossos soldados já estão em ação," falou, acalmando-se. "É melhor nos trocarmos e ver o que está acontecendo."
Os rapazes rapidamente vestiram os uniformes, então saíram com cautela, vendo outros times fazer o mesmo.
"Ei, o que tá pegando?" Duo perguntou para um militar passando.
"Alguém tomou um tiro!" o homem respondeu, sem perder o ritmo do seu passo apressado.
Duo rodou os olhos. "Por favor, que tenha sido o Kushrenada," sussurrou.
Quatre franzia o cenho, uma mão apertando o peito por reflexo. "Não é," falou em voz baixa. "Vamos, Duo... Trowa..." Correu porta afora, atravessando o complexo com seus companheiros de time nos calcanhares.
Havia um amontoado de soldados, guardas e detentos ao lado dos chuveiros, reunidos ao redor de uma pessoa caída no chão.
"Marquise!" alguém exclamou chocado com a voz entrecortada.
Duo empurrou-se pelo amontoado, ficando ao lado do tenente Li, e soltou um xingamento com o que viu. Seus olhos se arregalaram ao verem os três buracos de bala e a quantidade de sangue no peito do militar.
"Merda! Major?" Fez menção de se adiantar, mas foi parado.
Li havia se virado, estendendo um braço para segurar o rapaz. "Calma aí, Maxwell. A doutora está a caminho."
"Ele está...?"
"Não sabemos ainda," respondeu prudente. "Afaste-se e deixe que tomem conta dele."
"O que aconteceu?" Duo perguntou, sentindo as mãos de Quatre e Trowa tentando puxá-lo para longe da cena caótica.
"Alguém atirou nele," Li respondeu sem paciência, virando-se para os três jovens do time Wing. "E até descobrirmos os detalhes, é melhor vocês ficarem no alojamento!" Ele fez um gesto para o tenente Wolfe, que aparentemente era o oficial sênior, já que ele dava as ordens agora que o major estava incapacitado. "Senhor? Podemos pedir para os agentes responsáveis pelos times escoltá-los para o alojamento?"
O tenente Wolfe concordou, abrindo a aglomeração para deixar a doutora Po passar, depois gritando para os soldados juntarem os grupos e levá-los de volta em segurança.
Então, Treize estava lá, ordenando que seus guardas isolassem a prisão e montassem um perímetro de segurança. O homem alto de ombros largos caminhou entre as pessoas ao redor do militar caído, exigindo respostas que ninguém parecia ter.
Nesse momento, só por um segundo, o olhar do diretor encontrou o de Duo através da distância, e Kushrenada abriu um suave e bem pequeno sorriso.
"Caralho!" Duo xingou baixo. Agarrou o braço de Trowa, virando-se para sua boca estar na orelha do rapaz mais alto. "Olha pro K.! Foi ele, porra!"
Trowa obedeceu a instrução, discretamente olhando para o diretor sob sua franja, e vendo triunfo estampado no rosto do homem. "Merda, merda, merda!" ele sussurrou.
Foi quando Carter apareceu, empurrando os rapazes para longe da aglomeração. "Vamos indo, rapazes... de volta para o alojamento até a situação ser resolvida."
Quatre deu as costas primeiro, andando rápido para o alojamento, cabeça baixa em concentração e mãos em punhos na frente da camisa.
"Você tá legal?" Duo perguntou baixo, emparelhando-se com ele.
"Não sei," Quatre murmurou de volta. "Isso é culpa nossa? É por que começamos nossa trama?"
"Claro que não!" o rapaz de L2 insistiu. "Kushrenada fez isso."
"Mas é por que fizemos ele se sentir ameaçado?"
"Não!" Duo afirmou com mais convicção. "É porque ele é um filho da puta doente."
Trowa havia se aproximado, ouvindo a conversa, e balançou a cabeça concordando. "O cara é doido. Dá para ver nos olhos dele. Já vi leões com aquele olhar... e eles sempre precisam ser sacrificados."
Chegaram ao alojamento e o cabo Carter os guiou para dentro. "Vocês fiquem aqui. Eu vou ficar lá fora tentando reunir qualquer informação." Balançou a cabeça. "Isso é um caos total." Saiu rápido, deixando os três a sós.
"É melhor cancelarmos o plano." Quatre estava observando pela janela os soldados e guardas correndo para restabelecerem a ordem onde não havia nenhuma.
"Não!" Duo negou veemente.
"Duo – alguém acabou de atirar no major Merquise," Trowa o lembrou. "Alguém mandado pelo K. Ele cansou de ameaça."
"Não me importo!" o recruta de trança insistiu. "Caramba, Tro... Quat... não temos mais escolha. Agora, estamos mais ou menos por conta própria. Sem Chang. Sem Merquise. Não tem nada entre nós e aquele desgraçado sádico. Ele fez a jogada dele e pode apostar que ele tem um truque na manga. Se não o pegarmos, e logo, ninguém vai. Ele vai se safar de assassinato... de novo!"
"Merquise pode não estar..." o loiro começou.
"Cala a boca!" Duo rosnou. "Não vem com essa! Eu vi ele, Quatre. Ele tomou três tiros. Ninguém sai dessa assim." Esfregou os olhos com uma mão, tentando acalmar a respiração. "Merda – era pra ele... O que o Chang vai fazer quando descobrir?"
Quatre colocou um braço reconfortante ao redor do ombro do amigo, puxando-o perto. Encontrou o olhar de Trowa e o chamou com a mão. "Vai ficar tudo bem, Duo. Você está certo. Temos que continuar com o plano e conseguir provas contra o Kushrenada. Mas vai ser perigoso."
"E ser um rato de rua não era?" Duo murmurou cético.
"Passamos por um monte de merda perigosa aqui no campo," Trowa falou. "Vamos superar mais essa."
"Tá bom," Quatre falou resoluto. "Nada mudou quanto ao nosso plano geral. Ainda vamos agir como se o time estivesse em guerra e o Duo planejando a fuga." Preocupado, franziu o cenho. "Queria que o capitão e o Heero estivessem de volta. Precisamos muito das habilidades de hacker do Heero e a proteção do Chang se queremos ter sucesso."
"Bom, não temos esse luxo," Duo comentou categórico. "Precisamos que trabalhar com o que temos e ficar um passo à frente do Kushrenada. Posso usar um caminho diferente de fuga e fazer ele ter que me achar... talvez até fazer ele me perseguir e voltar para o complexo onde tenha testemunhas se ele tentar alguma coisa."
"Se...?" Trowa zombou. "Você sabe que ele vai tentar." Os olhos verdes brilharam com preocupação. "É melhor eu te seguir para te dar cobertura. Posso tentar pará-lo antes que ele te machuque."
"Vamos pedir ajuda para o Ben e o Adam?" Quatre jogou a questão na roda.
Mas Duo negou com a cabeça. "Não podemos envolvê-los. É arriscado demais." Teimoso, ergueu o queixo. "Temos um plano e vamos segui-lo à risca... por bem ou por mal... a não ser que outra oportunidade se apresente."
"Engenhoso como sempre," o loiro sorriu, embora um pouco fraco.
"É o nome do meio do Maxwell," Trowa concordou. Foi até o laptop, puxou alguns documentos que haviam adquirido e se ocupou em analisá-los.
Horas se passaram. A calmaria dentro da prisão foi interrompida apenas pelo som da ambulância aérea pousando e decolando, e o grito ou chamado ocasional de soldados ou guardas coordenados seus esforços.
"Caralho! Não aguento mais!" Duo estourou após revisarem meia dúzia de vezes o material para a prova.
"Vão nos dar notícias logo," Quatre previu, tendo ouvido atentamente o nível de atividade do lado de fora e chegando à conclusão que a ordem estava prestes a ser restaurada.
De fato, pouco depois Carter entrou com o rosto sombrio. "Vamos, rapazes. O tenente Wolfe quer todos em formação."
O tenente Wolfe conversava animado com Kushrenada e dois outros soldados ASMS, mas nenhum dos rapazes conseguiu ouvir a conversa.
Duo cutucou Quatre com o cotovelo. "Percebeu que os guardas da prisão estão nos cercando?" perguntou num sussurro.
O loiro assentiu quase que imperceptível. "Diria que é parte do plano do Kushrenada." Quis grunhir com a ideia.
Na verdade, foi o próprio diretor que se adiantou para falar para a plateia em formação. Seus olhos fulvos cintilavam triunfantes, mesmo enquanto estampava uma expressão rígida e pesarosa no rosto. "Durante a manhã, um ou mais de vocês, moleques, invadiu o depósito, roubou uma arma e atirou no major Merquise. Até nova ordem, cada um de vocês está restrito ao alojamento quando não estiverem em aula. Meus guardas estarão vigiando junto com o pessoal da ASMS para se certificarem da sua obediência. Vocês serão escoltados para e do refeitório, vestiário e classes. Não vou tolerar qualquer desrespeito à segurança por qualquer razão." Seu olhar malicioso buscou Duo, que encarou de volta. "Fiquem cientes que, enquanto este atentado está sendo investigado, vocês todos são suspeitos e serão tratados de acordo. Não saiam da linha, moleques." Retirou-se, sua postura indicando sua atitude superior, como se ele se sentisse no comando e indestrutível.
O tenente Wolfe se aproximou, balançando a cabeça de leve. "Não se preocupem, recrutas. Vamos descobrir o que aconteceu. Enquanto isso, mesmo com os guardas, vocês terão os oficiais responsáveis e outros militares da ASMS cuidando da sua retaguarda. Vamos terminar as provas como estão no calendário, mas não posso garantir a data da formatura."
Duo ergueu uma mão, e quando Wolfe assentiu, fez a pergunta que estava na cabeça de todos. "O major está...?" Ele parou, limpou a garganta e continuou. "Como está o Merquise, senhor?"
"Ele estava vivo quando o transporte médico o levou," respondeu com cautela. "Ainda não recebemos notícia do hospital."
O rapaz concordou com a cabeça, mesmo não estando nem um pouco reconfortado.
"Mais alguma pergunta?"
"Alguma coisa sobre o capitão Chang?" Quatre perguntou.
"Não que eu saiba."
O loiro suspirou, observando os rostos sombrios de seus companheiros. Não tinham como contatar o capitão e havia pouca esperança que ele ficasse sabendo da hospitalização do Merquise a tempo de voltar para ajudá-los.
"Estamos fodidos," Duo, amargo, comentou.
"Ainda não," Trowa murmurou. "Estamos por nossa conta. Mas já sabíamos disso."
O rapaz de trança mostrou um sorriso fraco para o companheiro. Em seguida, os militares escoltaram os detentos até o refeitório para uma refeição que tanto precisavam. Haviam perdido o café da manhã e quase o almoço.
A refeição foi feita praticamente em silêncio, com apenas o mais suave dos burburinhos de onde os adolescentes se sentavam. Estavam intensamente cientes dos guardas posicionados nas saídas, e os militares ao redor das mesas com eles. Agora era mais uma cadeia do que no primeiro dia quando Kushrenada anunciou as leis para eles. Foi um grupo soturno de rapazes que terminou o almoço e seguiu o soldado responsável para a prova da tarde.
"Achei que nunca chegaríamos," Wufei suspirou, saindo do ônibus espacial com gratidão e pisando no asfalto da base ASMS. Ajeitou sua mochila, olhando para Heero, enquanto andavam pelo hangar. "Feliz em ver a Terra de novo?"
"Vai ser ótimo ver o Du – meu time de novo."
"Pode falar a verdade," Wufei comentou com um sorriso. "É ele quem você quer ver."
"Só quero saber se ele está bem," Heero afirmou. "Você conhece o histórico dele e o quanto o diretor odeia ele." Um franzido enrugou sua testa. "Kushrenada me queria fora de jogo, e não consigo parar de me perguntar o porquê."
"Da última vez que falei com o Merquise, estava tudo bem."
"É, mas estamos sem comunicação há dois dias. Tudo pode ter mudado."
"Vamos descobrir com a coronel. Ela está nos esperando."
Os dois deixaram seus pertences na garagem, acreditando que não tinham motivo para carregarem-nos de um lado para outro. A coronel Une prometera um veículo que os levassem para o Campo Peacecraft, uma vez que um avião exigiria uma espera maior do que o tempo da viagem por terra.
Enquanto andavam pela base, em direção ao escritório da coronel, Heero observava os arredores com interesse. "Onde ficam os mobile suits?"
"Ah. Não aqui," Wufei informou. "Aqui é só uma estação... usada para fins administrativos e como aeroporto. Os mobile suits são mantidos nas bases e nos centros de treinamento." Ele sorriu para o amigo. "Você vai vê-los logo, logo."
"Nunca achei que veria," Heero confessou dando de ombros. "Até eu ver você no Campo Peacecraft, achei que as chances eram praticamente zero."
"Você teria se sobressaído independente do instrutor, Yuy. Você sabe disso."
O rapaz balançou a cabeça. "Não necessariamente. E com certeza eu não teria vencido a acusação de assassinato sem você me dando cobertura."
"Lembra de todas as vezes que você salvou a minha pele quando éramos crianças?" Wufei o lembrou. "Quando eu saí escondido de casa para a aula de artes marciais, mesmo os meus pais não querendo que eu aprendesse da escola local? Todas as vezes que praticamos juntos e estudamos o projeto e estatísticas dos mobile suits? Eu não estaria onde estou sem sua ajuda também. Acho que estamos quites."
Heero deu de ombros, um sorriso vago num canto da boca. "Se você diz, Fei. Mas vou continuar tentando te retribuir."
Chegaram ao escritório e bateram na porta. Foram atendidos pela secretária, que os cumprimentou com um meneio de cabeça. "Capitão Chang. A coronel está esperando vocês. Podem entrar."
Entraram no cômodo seguinte onde havia uma mulher de aparência austera sentada atrás de uma escrivaninha, papeis espalhados pela superfície. "Chang! Você finalmente chegou. E esse deve ser Yuy."
"Sim, senhora," Wufei respondeu. "Heero Yuy... conheça a coronel Une. Ela está encarregada de coordenar esse setor inteiro, desde o treinamento e estações de trabalho quanto o transporte e provisões."
Heero se inclinou, cumprimentando-a propriamente, e ela respondeu de acordo. "Podem se sentar. Não vai demorar." Eles se acomodaram nas cadeiras, e a mulher passou uma pilha de papeis para Wufei. "Suas permissões de viagem... seu veículo... e os documentos de liberação do cadete Yuy." Ela reparou na sobrancelha erguida de Heero. "Major Merquise te falou sobre os documentos de alistamento no Campo Peacecraft?"
"Sim, senhora."
"Então você é oficialmente um cadete da Academia SMS, mas você ainda precisa fazer as provas com os seus colegas e atender a graduação do treinamento."
"Estou ansioso por isso," ele afirmou.
"Todos nós estamos," ela falou com um sorriso. "O major Merquise estava bem feliz quando falei para ele que vocês dois estavam a caminho."
"Acredito que sim," Wufei respondeu. "O time Wing se manteve em primeiro lugar, em grande parte graças à excelente liderança de Heero."
O rapaz resistiu à tentação de bufar, zombando do comentário, mas manteve seu rosto neutro.
"Bom, então acredito que seja aconselhável levá-lo de volta o quanto antes," a militar sugeriu.
"Também quero voltar logo," Wufei admitiu. "Eu estava lá no início e de certo quero estar no final do treinamento."
"Só para você saber, sua cerimônia de formatura vai atrair um pessoal bem ilustre. Toda a diretoria da Fundação Peacecraft confirmou presença."
"Que bom," Wufei falou com firmeza. "Espero que vejam o sucesso da Iniciativa. Mais recrutas se qualificaram do que eu esperava."
"Sim, vi os resultados dos testes que o Merquise tem enviado. Muito impressionante." Ela pareceu notar quando Heero começou a se remexer inquieto em seu assento, e um sorriso apareceu no rosto dela. "Acredito que após dois dias viajando, vocês dois devam estar cansados de ficarem sentados." Ela deslizou o telefone pela mesa até Wufei. "Falei para o Merquise que faria você ligar para ele para avisar que pousou e está quase chegando."
Heero não pode segurar o sorriso. "Quer privacidade, capitão?"
O chinês lhe lançou um olhar assassino de resposta. "Claro que não, Yuy. Qualquer coisa que eu tenha para dizer para o major pode ser dito bem aqui."
A coronel pareceu um pouco confusa com a conversa, mas estava ocupada organizando mais papéis e não comentou.
Wufei discou o número do escritório no Campo e esperou. Contudo, após várias tentativas sem resposta, franziu o cenho. "Acho que ele deve estar supervisionando as provas," adivinhou. "Mas geralmente ele deixaria uma mensagem."
"Bom, conversei com ele bem cedo hoje de manhã," Une respondeu. "Ele estava muito feliz com o seu retorno e falou que tinha novidades para você, mas não quis deixar um recado comigo. Ele disse que era complicado."
Complicado? Heero ficou tenso com o agouro. "Ele não foi mais específico?" perguntou incerto.
A coronel negativou com a cabeça.
"Ele parecia... preocupado?" Wufei perguntou com cautela, uma carranca se formando.
"Não." Os olhos atrás dos óculos redondos semicerraram. "Alguma coisa que preciso ser informada, Chang?"
"Não que eu saiba," Wufei respondeu. "Mas você sabe como o diretor não tem cooperado."
"É, Zechs falou bastante sobre aquele babaca em nossas conversas anteriores," ela comentou com desdém. "Imagino que se a notícia dele tivesse algo a ver com Kushrenada, ele teria mencionado para mim."
"Ele não falou nada sobre os recrutas?"
"Só que eu faria várias pessoas felizes quando contei sobre a volta de vocês."
"Fei, vamos indo," Heero instigou com urgência. ""Estou com um mau pressentimento..."
O capitão se levantou, recolhendo os documentos dados pela coronel. "Acho que Yuy está certo, senhora. É melhor irmos o quanto antes. O que quer que seja a notícia do Merquise, acho que preciso saber sem tardar."
"Devo ligar para o número principal e falar com a secretária do Kushrenada? Ela deve poder achar o Merquise mesmo se ele estiver nas provas."
"Não é necessário," Wufei dispensou com um aceno. "Vamos logo tomar nosso rumo e descobrir o que está acontecendo em pessoa."
"E espero que me mantenha informada."
"É claro."
A secretária chegou naquele momento, e precisou se afastar para dar espaço enquanto os dois saíam apressados.
"Coronel," ela chamou, enquanto o par desaparecia pelo corredor. "Tem uma mensagem urgente que chegou para você. Do hospital na base ASMS do setor Alfa. Eles querem que a senhora ligue imediatamente."
"Vou ligar agora mesmo."
Em sua pressa para irem embora, Wufei e Heero partiram no carro da base apenas segundos antes de uma agitada Une chamar o guarda da torre de vigia. Considerando o terreno irregular à frente, Chang havia desligado e guardado o celular, sabendo que seria praticamente inútil. Assim, foram em direção ao Campo Peacecraft completamente ignorantes do ataque ao major Merquise e o isolamento imposto por Kushrenada.
A viagem de dez horas demorou apenas sete com Wufei passando do limite de velocidade até a estrada de cascalho que levava ao Campo Peacecraft.
"Que estranho," Heero murmurou quando pararam frente ao portão. "Parece que o complexo inteiro está aceso. O que está acontecendo?" Seu estômago se apertou com apreensão.
"Vamos descobrir," Wufei falou, esperando paciente até o guarda se aproximar. Ele mostrou o crachá de identificação com um olhar apreciativo e frio para o guarda. "Algum problema?"
"O lugar está isolado," o homem respondeu, dando de ombros. "Vou precisar da permissão do diretor pra te deixar passar."
"Do diretor—?" Wufei agarrou o guarda pelo colarinho, encarando-o. "Sou o capitão Chang da Academia da Subdivisão de Mobile Suits. Respondo apenas ao major Merquise... não àquele metido do Kushrenada."
"Hum, o major não está aqui, senhor," o homem engoliu em seco, segurando o pulso de Wufei. "Ele foi levado pela ambulância aérea essa manhã."
"Ambulância aérea?" Os olhos de Wufei se arregalaram e depois se semicerraram perigosamente. "Olha, seu pedaço de merda. Se o major não está aqui, eu estou no comando do Campo. Eu estou! Não o Kushrenada! Você trate de abrir este portão e me deixar passar ou você vai estar na fila dos desempregados a uma hora dessas amanhã!" Empurrou o homem para trás, e assistiu-o debandar para os controles do portão.
Enquanto o capitão dirigia, Heero observou as juntas dos dedos dele brancas com a força que as mãos se agarravam ao volante. "Calma, Fei. Não vamos perder a cabeça antes de entender a situação."
"Se Kushrenada isolou a área, significa que tem uma investigação acontecendo, o que, por sua vez, significa que aconteceu um crime envolvendo o Zechs."
O tom de voz quando ele mencionou Zechs fez Heero estremecer com compaixão. "Sei que você está preocupado com ele. Senti o mesmo com o Duo várias vezes. Estou sentindo agora," admitiu, procurando pelo complexo por sinal dos recrutas. "Vamos descobrir o que aconteceu antes de entrar em pânico, tá?"
"Que seja." Wufei pisou no freio e pulou fora do jipe num segundo, jogando a chave para um dos guardas enquanto caminhava brusco pelo portão interior até o pátio principal. "Cadê todo mundo?" exigiu do primeiro soldado uniformizado que encontrou.
Era o cabo Walters, um dos agentes responsáveis por um dos times, ele estava escoltando vários dos detentos do refeitório até o banheiro durante o jantar acontecendo muito mais tarde que de costume. "Capitão Chang! O que está fazendo aqui?" Dispensou a pergunta com um aceno. "Deixa pra lá. Ouviu sobre o major?"
"O que tem ele?" Wufei perguntou tenso, olhando ao redor com uma expressão de mau-humor. "Onde estão todos os meus recrutas?"
"A maioria no refeitório, senhor... exceto pelos seis que eu trouxe aqui," explicou o militar. "O tenente Wolfe está no comando desde que o major Merquise foi baleado esta manhã."
"BALEADO?!" Wufei questionou. Agarrou o braço de Heero e marchou quase correndo para o refeitório.
Quatre saiu do banheiro a tempo de ver Wufei e Heero andando rápido pelo complexo, e seus olhos se arregalaram. "Heero? Capitão Chang?" Seu sorriso congelou quando percebeu a pressa e sentiu medo e confusão vinda deles. "Droga. Eles não sabem!" Correu atrás dos dois, mas muito antes de chegar, eles já haviam subido os degraus e se encontrado com o diretor.
Já que Kushrenada supervisionava o jantar tardio, Duo e Trowa decidiram interpretar o falso relacionamento para mantê-lo acreditando. Naquele momento, os dois estavam no fim da fila para pegar comida, e pausaram para um beijo que rapidamente se tornou uma sessão de amassos.
"Duo?!"
O rapaz de trança estremeceu quando ouviu o chamado, virando-se para ver Heero e Wufei na porta. "Ro?" falou ofegante, incapaz de impedir um sorriso no rosto com a visão inesperada de seu namorado.
"Que porra é essa?" Heero exigiu saber, raiva e mágoa competindo por controle nos olhos azuis.
Duo de repente lembrou-se que o braço de Trowa ainda estava ao seu redor. "Oh." Ele se separou, dando um passo em direção a Heero antes de perceber que a expressão no rosto do líder era real. "Heero? O Merquise não...?"
Ele parou na metade da frase quando Quatre entrou correndo logo atrás do militar e do líder do time, com a expressão de pânico. Duo começou a entender. Merquise deveria ter compartilhado o plano com Wufei e Heero se soubesse que eles estavam voltando. Entretanto, ele não havia informado o time Wing, então a mensagem nunca chegara ao destino – ou ele não teve a chance de repassá-la.
"Ele não sabe," Quatre murmurou horrorizado, seu olhar passando de Duo e Trowa para Heero e Wufei, que estavam paralisados de choque.
Na repentina quietude que dominara o refeitório, Kushrenada começou a rir.
Heero deu meia-volta e com toda a intenção de sair porta afora; com um grito angustiado, Duo correu atrás dele. "Espera, Heero – você não entendeu!" Esquecendo-se do Kushrenada e do plano, ele agarrou o braço do rapaz para pará-lo.
Heero se virou de supetão, empurrando-o contra a parede. "Nunca mais toque em mim de novo, Maxwell," rosnou com os olhos faiscando. "Ou eu te mato!"
Duo ofegou para recuperar o fôlego que lhe escapara com o impacto, fazendo uma careta ao sentir o aperto do líder em seu braço. "Heero, por favor – me escuta!"
Heero o bateu contra a parede outra vez, mais forte, e Duo soltou um grunhido de dor, seguido por um xingamento arfado.
"Caralho! Eu vou matar vocês dois, porra!" Heero esbravejou, lançando um olhar para Trowa, que ainda estava no mesmo lugar.
Contudo, quando o japonês se virou para sair, Duo empurrou-se da parede e o pegou pelo braço mais uma vez.
Dessa vez, Heero girou rápido e forte, seu soco acertando Duo em cheio no maxilar e fazendo-o cambalear para o lado. Com nervos à flor da pele e reflexos aperfeiçoados com anos de brigas de rua, Duo se recuperou logo e contra-atacou, e os dois rapazes acabaram no chão, travados em combate.
Recrutas começaram a se reunir, murmurando curiosos, e Wufei, por fim, recobrou-se de seu choque. "Carter! Wolfe! Separem eles!" ordenou. Parou Trowa quando ele se adiantou para segurar Duo, enquanto Quatre foi até Heero. "Vocês dois, fiquem fora disso!" comandou abrupto. "Droga, Lareau! Vem me ajudar!"
Duo e Heero foram puxados para longe um do outro, ambos sangrando e machucados, debatendo-se e ofendendo um ao outro. O capitão Chang os analisou, avaliando os ferimentos. "Leve eles para o centro de detenção," instruiu. "Celas separadas!"
Os dois foram arrastados sem cerimônia, ainda trocando farpas.
Wufei lhes deu as costas, vendo os rapazes reunidos ao redor da cena de luta. "Quero todos os times no alojamento agora! E quero saber o que está havendo, e o que aconteceu com o major Merquise."
Enquanto os soldados obedeciam às ordens, Quatre tentou se aproximar do militar chinês para explicar o desentendimento.
Entretanto, Wufei apenas o encarou irritado e balançou a cabeça. "Você também, Winner. Volte pro alojamento. Falo com você depois." Andou com passos pesados até o diretor sorridente. "Tire seus guardas de perto dos meus recrutas!"
"Um dos seus recrutas atirou no seu querido major Merquise, Chang!" rosnou, o sorriso desaparecendo numa carranca. "Tive que isolar o lugar até acharmos o assassino."
"Assas—." Wufei se conteve, tentando não se render à sensação de ser pego de surpresa. Kushrenada usou o termo assassino, implicando que o major estava morto. "Eu vou encontrar o culpado," prometeu num tom frio, olhos negros fixos nos fulvos. Ele não era tolo e sabia que, apesar de parecer, seus recrutas não eram culpados. "Eu juro."
Kushrenada sorriu em retorno. "Boa sorte, Chang!" Fez um gesto com a cabeça para os guardas, e eles saíram deixando os rapazes e a tropa ASMS.
Wufei encarou o tenente Wolfe. "Meu escritório. Agora! Quero saber o que diabos aconteceu aqui!"
Continua...
Resposta aos comentários:
Lis Martin, menina! Há quanto tempo! Bem-vinda de volta ao Campo de Treinamento :D Sim, muitas confusões da turminha do barulho kkkkkk Ainda teremos mais uma ou outra reviravolta antes de o Treize se foder, mas está chegando lá!
Diana Lua, olha, faltou mesmo a cena do jantar 6x5 nessa fic! Eu tinha esperanças que a Snow colocasse em The Academy... "A interação do Duo com o Zechs ficou hilária em português, mais que no original." Own, obrigada! Acho que não tem elogio melhor para um tradutor do que dizer que ficou melhor que no original =^_^= Lawless Hearts está nos planos! Já tenho agendado quando vou postar o próximo capítulo. Obrigada pelo apoio! Avante, Boot Camp, rumo ao #Epílogo2017 (no máximo 2018 XD).
