Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


CAMPO DE TREINAMENTO

56: Montando a armadilha

O capitão Chang terminou de revisar as anotações do major Merquise. Não havia nenhuma menção do plano do time Wing, o quê, na verdade, era algo bom, já que Wufei não tinha certeza se Kushrenada tivera acesso ao escritório. Todas as fechaduras e arquivos protegidos por senha do mundo não seriam suficientes para mitigar os medos do chinês.

O que havia sido deixado para Wufei era uma entrada misteriosa referenciando uma missão de reconhecimento, que poderia conectar o Acampamento Peacecraft com atividades ilegais. Se tivesse lido corretamente nas entrelinhas, Wufei acreditava ser o jeito do seu superior registrar que o hackeamento do time Wing desvendara o tráfico do diretor. E, ao continuar a ler, notou que Merquise pedira para uma agência investigar mais detalhes.

Caramba! Será que o Merquise estava tão preocupado com o Kushrenada que nem quis deixar uma mensagem detalhada caso acontecesse algo com ele... como de fato aconteceu?

Wufei quase terminara de mexer nos arquivos quando pegou uma pasta, da qual o conteúdo esparramou pela escrivaninha. Ergueu uma página colorida e percebeu ser um panfleto de um restaurante na cidade próxima da Academia SMS. Olhando o resto, percebeu que eram todos panfletos com anotações de horários, escolhas e características marcantes.

Caiu a ficha que Zechs esteve pesquisando por lugares para levá-lo devido à aposta deles. Wufei precisou apertar os olhos para aliviar a ardência. Mas que droga! Bem na hora que Heero o preparara para considerar a possibilidade de um relacionamento de igual para igual, ele perdera a oportunidade. Não que ele não pudesse explorar a ideia mais para frente, caso seu mentor se recuperasse; mas estivera contando com a presença de Merquise para a semana final do treinamento.

Apressado, guardou os panfletos na pasta e colocou-a no canto da mesa. Então olhou para o vídeo-fone e apertou os números para o hospital militar. "Alô, eu gostaria de falar com o Dr. Owens... diga que é o capitão Chang. É sobre a situação do major Merquise, por favor."


Quando chegou a hora do jantar, Mitch foi à sala nos fundos da cozinha, onde Heero deixara de descascar batatas para esfregar panelas. "Ei, garoto. É hora do jantar. É melhor você ir comer com os outros."

"Acabou meu trabalho na cozinha?" o rapaz perguntou, grato por poder largar a esponja.

"Acabou. Você fez o suficiente." Mitch estudou o rapaz. "O capitão Chang disse para você ir direto ao escritório dele depois de comer. E peça para um soldado te escoltar. Ele não quer ninguém andando sozinho." Balançou a cabeça. "É uma pena o que aconteceu com o Merquise."

"Alguma pista?"

O cozinheiro balançou a cabeça. "Sei que Wolfe pensa ser algum dos guardas. Nenhum dos instrutores acha que os recrutas estão envolvidos, mas ainda não tem como provar." Fez uma careta. "Enquanto o Kushrenada conseguir argumentar dúvida razoável, ele tem permissão dos presidentes para manter os guardas alertas e patrulhando. Estamos praticamente tropeçando neles."

Heero suspirou. Seria ainda mais difícil executar o plano com mais guardas patrulhando. Entretanto, se Kushrenada planejava capturar Duo com a boca na botija, ele provavelmente faria seus homens se afastarem lhe dando espaço para tentar fugir.

Estava tão focado no plano que quando entrou no refeitório, esqueceu-se que veria seus companheiros de time e ainda deveria agir bravo. Contudo, no momento que viu Duo ao lado de Trowa na fila, lembrou-se.

Também notou Kushrenada num canto, em pé, olhos analisando os rapazes do time Wing, estudando cada movimento.

Rangendo os dentes ao ver seu namorado tão perto de outro, Heero invocou ciúme e fez questão de passar bem perto deles. No meio do caminho, esbarrou com o ombro em Trowa, fazendo o rapaz cambalear e arfar.

"Porra! Yuy, seu escroto!"

Ele parou, cruzando os braços e encarando com provocação o rapaz de olhos verdes. "Você está no meu caminho, Barton." Em mais de um jeito.

Duo piscou surpreso, lançando um olhar sobre o ombro para onde Quatre sentava-se com o time de Ben, já comendo. O loiro o fulminou com os olhos numa perfeita imitação de quem sofreu uma traição. Sem ajuda por parte dele.

Convocando suas melhores habilidades de atuação, Duo aproximou-se de Trowa, enfrentando Heero. "Quer trabalhar mais na cozinha, Yuy? Vá em frente," desafiou.

Heero balançou a cabeça. "Por você, não vale a pena – sua puta."

O queixo de Duo caiu. Atuando ou não, achou o comentário meio excessivo. "Ah, vai se foder, Yuy."

"Você já fodeu comigo," Heero respondeu com um curto sorriso. "E com qualquer outro que conseguiu colocar as mãos."

Caralho! Duo olhou para Trowa, incerto de como proceder. Não estava mais convencido se Heero apenas atuava. Se fosse, ele era muito bom. A confusão e dúvida do jovem de trança apareceu no rosto dele, e Trowa encostou-se nele num gesto sério de proteção.

"Ignora ele, amor," murmurou apenas alto o suficiente para os surpresos espectadores próximos ouvirem; alto o suficiente para fazer Heero se ruborizar.

O líder colocou uma mão no ombro de Trowa e o empurrou para o lado, entrando na fila para ficar na frente dele.

Duo ameaçou avançar, mas Trowa o pegou pela cintura, puxando-o para si. "Falei para ignorar."

"Mas ele—."

Um olhar severo dos olhos verdes lembrou Duo que a demonstração fora suficiente, e algo a mais exigiria medidas disciplinares.

Quando o rapaz de trança conseguiu administrar sua atitude, relanceou para ver Kushrenada assistindo-os com uma expressão satisfeita em seu rosto arrogante.

É, continua assistindo, filho da puta. Sua hora está chegando... Resistiu ao impulso de mostrar o dedo do meio para o homem, por pouco.


Após terminar uma conversa esperançosa com o médico cuidando do major Merquise, Wufei foi ao refeitório para se assegurar de que Heero fora liberado do serviço da cozinha, e que teriam tempo de revisar os planos do time para fazer qualquer mudança necessária. Estava a meio caminho da escada quando uma voz fria o chamou.

"Quando vai fazer alguma coisa para disciplinar seus assassinos de estimação, Chang?"

O militar olhou para Treize Kushrenada esperando por ele na porta do refeitório. "Não é problema seu, diretor," respondeu neutro, fechando a pasta que analisava enquanto andava.

"Não é—? Você tem dois moleques aqui no restaurante que acabaram de ser disciplinados e estão prestes a brigar de novo."

Wufei ergueu uma sobrancelha. Pelo jeito, Heero e seus companheiros tiveram outro show. "Maxwell e Yuy?"

"Quem mais? E agora tem o Barton no meio desse sanduíche. Você precisa manter aqueles dois longe um do outro ou se livrar deles."

"E de qual deles sugere que eu me livre?" o chinês perguntou com calma.

"Já que Yuy é quem está ameaçando Barton e Maxwell, acho que ele deve se escafeder!"

Wufei observou o diretor com diversão. "Primeiro, eu esperaria que você desse os parabéns a Yuy se ele machucasse Maxwell, considerando o quanto você o odeia. Segundo, qualquer coisa que ele tenha dito no calor do momento após ver o rapaz que ele achava que estava apaixonado se pegando com outro menos de uma semana depois de ter saído de cena, deve ser levado como expressão de raiva sem consequência. Ele não representa perigo para Maxwell nem para Barton."

"Eles acabaram de se empurrar na fila."

"Empurrar é bem diferente de apresentar ameaça real."

"Yuy já matou antes."

"Ele foi inocentado, como você bem sabe, ou ele não teria voltado," o oficial ASMS o lembrou.

"Quando um de seus recrutas acabar morto, Chang, eu não vou levar a culpa e nem os meus guardas ou funcionários," o homem de olhos fulvos avisou.

"Vai sim se você puxar o gatilho," Wufei rebateu, tentando repassar um aviso alto e claro para o carcereiro raivoso. "Por favor, lembre-se de que seu trabalho é apenas conter. Você deve manter o perímetro, patrulhar por fugitivos. Toda a disciplina é decisão minha." Deu um passo à frente, olhos negros perigosos. "Não tolerarei seu pessoal intervindo em uma altercação e usando força excessiva!"

Os olhos do carcereiro se semicerraram. "Comando uma prisão organizada, Chang. Não estou aqui apenas para ser babá do seu perímetro! Se uma rebelião estourar por causa de namoradinhos brigados, meu pessoal fará o trabalho deles e vai restaurar a ordem!"

"Você vai ficar fora disso," o militar replicou. "Você vai deixar a minha tropa lidar com os rapazes." Ergueu o queixo num gesto altivo. "Fique na sua e vá monitorar suas cercas."

"Era o que eu estava fazendo quando o seu querido major foi assassinado," Treize comentou impiedoso.

Wufei sorriu devagar, cheio de satisfação. "Assassinado?" repetiu, aproveitando o momento. "Ele não está morto, Kushrenada. Acabei de falar com o médico e parece que ele vai se recuperar."

Os olhos de Kushrenada se arregalaram. "O Merquise está vivo?"

"Ora, claro que está. Ninguém te avisou?" Semicerrou os olhos, tentando decidir se a palidez na face de Treize era apenas fruto de sua imaginação. "Espero que ele possa iluminar a investigação de quem atirou nele quando acordar."

As costas do diretor ficaram retas com a tensão, e seu queixo se ergueu. "Nossa, que coisa... boa."

"É sim," Wufei reafirmou, deliciando-se com o desconforto mal escondido do homem. "Na verdade, assim que ele acordar, vou interrogá-lo pessoalmente." Forçou-se a não sorrir com a careta no rosto do carcereiro. "Mais alguma coisa, diretor? Ou terminamos por aqui?"

Com um rápido inclinar de cabeça, o diretor girou sobre os calcanhares e saiu, deixando Wufei com uma distinta sensação de que iniciara uma reação em cadeia. Estava grato por ter insistido em uma guarda vinte e quatro horas para Zechs assim que descobrira ter sido tentativa de assassinato. Não importava qual a influência de Kushrenada, não era possível se estender ao hospital ASMS, ainda mais passar pelos guarda-costas com treinamento militar.

Por outro lado, aumentar a pressão no Kushrenada poderia ter consequências devastadoras. É capaz de fazê-lo escorregar ou deixá-lo mais perigoso. E com os rapazes do time Wing se preparando para entrar em ação, era provável que eles acabassem no caminho do homem desesperado de qualquer maneira.

Wufei, de bom grado, puxaria a tomada do plano ali mesmo, mas sabia muito bem que eles agiriam com ou sem a ajuda dele. O melhor que podia fazer era lhes oferecer assistência, conselho e apoio, e esperar que a experiência deles junto com a inteligência natural pudessem ser suficientes.

Subiu os últimos degraus e entrou no refeitório procurando seu time preferido.

Heero se sentava ao lado de Ben, Quatre e o time Clip, enquanto Duo e Trowa estavam a sós em outra mesa.

O capitão Chang foi direto até o japonês. "Yuy, Kushrenada mencionou que você pode não ter aprendido sua lição esta tarde?" Seus olhos negros analisaram seu amigo de longa data. "Ainda tem algum problema?"

"Não, senhor," respondeu com um mau-humor atípico.

"Venha, Yuy. Meu escritório. Agora." Wufei se virou e atravessou a porta.

Heero suspirou, passando sua bandeja para Quatre e adiantando-se para acompanhar o militar.

Uma vez ao lado de fora, alcançou-o. "O que foi, capitão?"

"Preciso conversar com você a sós," respondeu brando.

"Oh."

"Não achou mesmo que levei a sério a encheção de saco dele sobre vocês se empurrando na fila, né?" Wufei perguntou.

"Pelo jeito, não," o rapaz deu de ombros.

"Então, teve um bom encontro com Maxwell essa tarde?"

"O que te faz pensar—?"

"Quando Wolfe me falou que deixou Maxwell sozinho almoçando, eu sabia que aquele merdinha daria um jeito de ir te ver." Wufei deu de ombros. "Você o perdoou?"

"Eu o lembrei que ele ainda é meu."

Wufei rodou os olhos. "Não vou nem perguntar." Fixou um olhar perspicaz no amigo. "E o resto do time? Você os perdoa?"

"Você quer dizer o Barton."

O chinês assentiu.

"Ele e eu vamos ter uma conversinha mais tarde," Heero respondeu neutro.

"Não seria justo dar Maxwell um passe livre e culpar o Barton."

"Eu amo Max— Duo. Eu não amo Barton," respondeu um pouco brincalhão. "Depois de ele ter entregado o Duo de bandeja para o Kushrenada, parece irônico ele beijá-lo na minha frente. É, me incomoda, tá? Eu estaria mentindo se dissesse que não. Mas... eu vou superar."

"É melhor superar logo." Wufei avisou. "Independente de qualquer coisa, você e seu time irá para a batalha amanhã à noite. Você precisa estar com a cabeça fria e confiar no seu time."

"Isso significa que você decidiu nos deixar continuar com o plano?"

"Acho que não tenho escolha. E fiz algumas modificações para minimizar os riscos para todos nós."

Heero assentiu com a cabeça, alívio evidente nos traços de se rosto. "Obrigado, Fei."

O chinês assentiu também, sabendo porque foi agradecido. "Vou vigiá-lo. Eu prometo."

"É a única coisa que faz isso tudo suportável."

"Bom, seria ótimo se pudéssemos nos reunir e planejar," Wufei continuou. "Mas com você e eu voltando de viagem e testemunhando aquela cena no refeitório, só o que podemos fazer é juntar as peças do quebra-cabeça. Nós dois vamos revisar o plano agora. Depois vou escoltá-lo até o alojamento do time Wing para você pegar suas coisas, você vai ficar com o time Clip pelos próximos dias." Ele parou ao ver a careta de Heero, esperando por um protesto que não veio e, por fim, prosseguiu.

"Depois de escoltá-lo para sua nova acomodação, vou atualizar seus companheiros de time. A partir desse momento, não haverá comunicação entre vocês. Só se verão no café da manhã e almoço amanhã, mas não terão interação. Cada participante do plano agirá independente e em sincronia." Balançou a cabeça em dúvida. "Isso seria difícil com uma equipe bem treinada e semanas de planejamento, ainda mais..."

"Eu sei, Fei. Eu sei." Heero lançou um olhar sombrio para o amigo. "Mas vamos conseguir. Tenho confiança no meu time. Vai dar certo, vamos conseguir a evidência e trancafiar o K. para sempre." Abriu um sorriso à la Duo. "Se isso não for uma prova final perfeita, eu não sei o que é."

Seguindo o programado, ambos repassaram os detalhes do projeto, definindo como Duo agiria feito isca, com Trowa o seguindo para protegê-lo. Wufei esquematizou sair do acampamento no meio do dia, fingindo ir para o hospital militar visitar Zechs. Dar meia volta, estacionar o veículo e caminhar até onde Duo e Trowa levariam Kushrenada. Assim, haveria uma testemunha e uma figura de autoridade presentes no confronto.

Enquanto isso, Heero e Quatre receberam a tarefa de invadir o escritório do Kushrenada e acessar os arquivos no computador para encontrar detalhes de suas atividades criminais. Eles foram incumbidos de fazer o download e copiar tudo o que conseguirem encontrar e tentar abrir uma backdoor para as informações poderem ser hackeadas de fora com um código de acesso.

Se tudo saísse como planejado, Kushrenada pegaria Duo no pulo e se incriminaria falando demais preparando-se para se livrar do garoto, ou o levaria em custódia e voltaria para o acampamento na tentativa de enviá-lo para L2 pela tentativa de fuga. Se tentasse a primeira opção, Trowa e Wufei intercederiam... a segunda, eles apenas os seguiriam e monitorariam suas ações para terem certeza que continuasse dentro da lei.

"Tantas possibilidades de dar errado..." Wufei suspirou, com uma expressão sombria para Heero.

"E mesmo assim, tantas possibilidades de recompensa." Heero balançou a cabeça. "Também não estou pulando de alegria, mas é o que temos." Ele se levantou e se espreguiçou. "Você vai se reunir com os outros?"

"Pouco antes do toque de recolher."

"Então está tudo combinado, só falta pegar minhas coisas no alojamento?"

Wufei confirmou.

"Então vamos!"

Cruzaram o pátio em um silêncio confortável, e Wufei bateu na porta do time Wing antes de abri-la. "Atenção, rapazes!" chamou brusco.

Os três recrutas pularam e assumiram posição ao lado de suas camas.

Duo olhou além de Wufei e Heero, percebendo os outros dois soldados os flanqueando, assim como um guarda da prisão logo ao lado de fora. Era hora de uma atuação, fazer a dissolução do time ainda mais óbvia.

O rapaz de trança firmou uma expressão ranzinza no rosto. "O que ele está fazendo aqui?" rosnou, apontando para Heero com o queixo.

"Yuy veio pegar os pertences dele," Wufei respondeu com frieza, assumindo seu papel de superior rabugento. "E agradeço se mantiver seus comentários para si, Maxwell."

Duo encarou Heero, que manteve o rosto impassível... principalmente porque podia perceber o calor da paixão contido naquela falsa carranca irritada.

Trowa se remexeu inquieto, embora não fosse óbvio para os outros se era uma atuação ou não. "Olha, Yuy..."

"Cala a boca, Barton," Heero rugiu, entrando, ajoelhando-se para conferir o conteúdo de seu baú antes de fechá-lo e levantá-lo.

Quatre apenas ficou em pé de braços cruzados, encarando com raiva o chão, até Heero parar ao seu lado. "Te vejo por aí, Winner."

Os olhos azul-esverdeados olharam espantados para o líder, e um leve sorriso cruzou o rosto do loiro. "É... boa sorte com o time Clip."

Duo rodou os olhos, virando o rosto para o lado como se a conversa o entediasse e o enojasse.

Se um terceiro assistisse à interação dos ex-colegas de time, não veria nada além da completa ruína do grupo.

Wufei analisou-os com severidade enquanto Heero saía. "É melhor vocês três estudarem pra valer. Na prova da semana que vem, não poderão contar com as notas do Yuy."

A cabeça de Duo se virou com velocidade e seu queixo caiu, antes de perceber que era apenas parte do show. Ou, pelo menos, era o que esperava. Era melhor Chang não estar planejando separar as notas individuais de verdade ou o time Wing correria o risco de perder o primeiro lugar na colocação. Parecia um preço grande demais para pagar pela permissão de continuarem a missão contra Kushrenada. Por outro lado, já precisavam fingir odiar os colegas que apreciavam como irmãos e/ou namorados... então o que era uma colocação em comparação?

A expressão de Wufei não oferecia qualquer resposta, e após a porta se fechar atrás dele, os rapazes se olharam com agonia.

"Ele só estava atuando," Quatre falou tentando tranquilizá-los.

"Tem certeza?" Duo perguntou, sentando-se hesitante na cama vazia do líder com uma mão distraidamente apertando a coberta abandonada.

"Você confiou na minha empatia até agora, não confiou?"

Duo assentiu com a cabeça, embora franzisse a testa. "O que percebeu do Heero?"

"Difícil dizer," Quatre admitiu. "Ele está uma bagunça de emoções agora. Não consigo perceber o que é causado por estresse ou o que é real. Ele está preocupado, isso eu sei. E um pouco bravo."

"Comigo?"

Quatre balançou a cabeça. "Acho que ele só está nervoso com a situação. Talvez com Kushrenada."

"Provavelmente comigo," Trowa interviu. "Não precisamos de um detetive para deduzir que ele guarda rancor por eu ter beijado o Duo."

Quatre se virou para o namorado com uma mistura de sorriso e irritação. "Eu também," falou firme. "E eu sabia de antemão." Deu um passo na direção de Trowa como se fosse roubar um ou dois beijos, mas Duo limpou a garganta em alto e bom som.

"Hum... é melhor não. E se alguém olhar pela janela? Eu não duvidaria se Kushrenada tivesse espiões. E eu ficaria decepcionado se ele não desconfiasse o suficiente para mandar alguém vir nos checar, Quat."

O rapaz de olhos claros suspirou e concordou. "É. Eu deveria suspeitar depois de toda a merda que ele já fez." Caiu em sua cama, começando a separar suas planilhas e anotações de aula. "Então vamos partir para os estudos."


Quando chegaram no alojamento do time Clip, Wufei abriu a porta e assinalou para Heero entrar. "Bem-vindo à sua nova casa, Yuy."

"Hn." Heero entrou, cumprimentando com a cabeça Ben e os outros.

"Ei," Ben cumprimentou com um sorriso. "Bom te ver de volta, Heero. Quero dizer, apesar de tudo."

Heero não respondeu, mas olhou para as camas com uma clara interrogativa.

"Oh. Pode ficar com a cama do Jase. Inferior à esquerda, ali."

O recém-chegado parou, olhando para Wufei, que concordou com um menear de cabeça. "Vá em frente e se acomode, Yuy. Tenho que cuidar de algumas coisas." Mirou sério o rapaz. "Comporte-se."

"Sim, senhor," respondeu quase cansado. Heero colocou seu baú ao lado da cama indicada e sentou-se nela, vendo os três membros do time Clip enquanto Wufei desaparecia pela porta.

"Beleza, Yuy. Desembucha!" Ben pediu com urgência, sentando-se na cama mais próxima. "Tem alguma coisa a mais rolando no seu time e quero saber o que é."

Heero balançou a cabeça. "Não sei do que está falando, Ben. Além de descobrir que o Duo é o tipo de puta de L2 que eu não acreditei que ele fosse..."

De repente, Ben agarrava Heero pela camisa e seu rosto ficou a poucos milímetros de distância do dele. "Corta a palhaçada, Yuy! Eu sei que Jase não confiaria tanto em Duo se ele fosse um lixo humano. Os dois são muito mais do que isso, e você sabe muito bem!"

Com um rápido movimento, Heero torceu a mão que o atacava e fuzilou com os olhos o rosto contorcido na sua frente. "Você não pode nos ajudar, Ben. E se eu contar mais, posso arruinar tudo. Você precisa confiar em mim."

"Me dê uma razão. Só me diga que as coisas não são o que parecem."

"As coisas não são o que parecem," Heero confirmou sem preâmbulos.

Ben se afastou, franzindo o cenho e trocando um olhar com os companheiros. "Quando vocês precisarem de nós, estaremos prontos, Yuy."

Heero assentiu. "Vou manter isso em mente."


Por volta do horário que esperariam ouvir a ordem: "desliguem as luzes", uma batida na porta soou e o capitão Chang entrou.

Duo rolou para o lado, erguendo a cabeça. "Veio nos dar mais bronca?" questionou.

Wufei bateu a porta. "Wolfe e Carter não vão deixar ninguém nos espionar. Essa é nossa única chance de finalizar o plano."

Os três rapazes se sentaram de repente. "Então vamos em frente?" Duo perguntou ansioso.

"Depois de todo o sofrimento pelo qual vocês passaram, claro que sim," Wufei os falou. Sentou-se na mesa, encarando o trio, e repetiu o mesmo plano discutido com Heero. Ao terminar, analisou os três. "Agora é a hora para perguntas, porque vou sair por volta do meio-dia amanhã, e aí realmente estarão por conta própria."

A essa altura, Duo estava reclinado na cama de Heero, braços cruzados atrás da cabeça, olhos índigo fechados enquanto ouvia. "Tenho uma, capitão. Tem um molho de chaves para as gavetas ou armário do Kushrenada? Imagino que Heero e Quatre não sejam profissionais em arrombar fechaduras."

"O melhor que posso fazer é dar a eles uma ferramenta que funciona como chave mestra. Deve ser capaz de abrir a maioria das fechaduras ou pelo menos cortar por elas." O militar deu de ombros. "Não vai importar se Kushrenada souber que entraram no escritório dele depois que tivermos as informações necessárias."

O rapaz de trança soltou um pequeno suspiro frustrado. "Queria ter pensado em pegar as chaves quando deixei aquele desgraçado me beijar," resmungou.

Wufei ergueu uma sobrancelha. "Primeiro de tudo, Maxwell, se eu fosse você, nunca mencionaria esse incidente para o Heero. Ele já está bem enciumado do Trowa, que é do mesmo time e um amigo."

"Eu sabia que ele ainda estava bravo!" Trowa exclamou. Olhos verdes carregando traços de inquietação.

"Não tem como ele estar mais bravo com você do que comigo," Duo o assegurou. "E já falei: ele me perdoou."

Trowa não pareceu convencido.

"E, em segundo lugar," Wufei interrompeu. "Naquela hora, não tinha como você saber que precisaríamos de acesso ao escritório do Kushrenada nem aos armários trancados dele. Então pare de se lamentar por não poder prever o futuro, Maxwell."

O rapaz bufou irônico. "Sim, senhor!"

"Acha que sua ferramenta vai ser boa o suficiente para novatos?" Quatre perguntou para o capitão.

"Vai ter que ser." O chinês sorriu com um pouco de malícia. "E se não for, Yuy provavelmente consegue entortar aço o suficiente para vocês abrirem o que quiserem. Ele tem mãos muito fortes."

"Mmmm, tem mesmo," Duo suspirou sonhador.

"Affe, Maxwell! Dá um tempo!" Trowa reclamou.

Um olho índigo se abriu com preguiça. "Aw, só porque você tá na seca esses dias..."

"Não começa!" Trowa rebateu. "Não basta eu não poder arriscar ser visto perto do Quatre... metade do acampamento acha que eu estou comendo você! Não estou só na seca, estou sendo acusado de estar pegando mais do que deveria!"

Duo se sentou franzindo o cenho. "Pelo menos o Yuy não chamou você de puta!"

"Epa!" Wufei falou alto, ficando de pé e fuzilando os rapazes com os olhos. "Parem de bater boca agora mesmo! Vocês que queriam esse teatrinho, então parem de choramingar sobre os resultados. Tudo vai se resolver em mais ou menos vinte e quatro horas. Depois, vão poder dar fim a essa fofoca e continuar com suas vidas."

Tanto Duo quanto Trowa pareceram um pouco amuados pelo sermão.

"Talvez na próxima vez vocês não bolem um plano maluco que coloque seus relacionamentos em perigo."

Quatre franzia bastante o cenho. "Se revelar o monstro que é Kushrenada, senhor, vale o sacrifício de quase qualquer coisa."

"Quase," Wufei destacou. "Não vale a vida de vocês, rapazes. Tenham isso em mente quando considerarem os riscos, tá?"

"Sim, senhor!" os três responderam com entusiasmo.

Logo após a reunião com Chang, deu a hora de apagarem as luzes, e os rapazes do time Wing se acomodaram para dormirem separados em seus próprios quartos e próprias camas, esperando ser a última vez que dormiriam tão longe.


A manhã de domingo passou num borrão, cheio de atividades, com times cuidando das tarefas inacabadas do dia anterior ou praticando os testes perdidos no dia que o major Merquise foi baleado. Não haveria visitação, já que o acampamento ainda estava sob altas medidas de segurança, portanto, o almoço foi o único momento de socialização.

Para compensar os recrutas das visitas de casa, Wufei os presenteou com uma sessão de cinema. A biblioteca foi arranjada para exibir o último lançamento de ação, prometendo entreter até o expectador mais indiferente, e todos os recrutas podiam assistir.

Duo e Trowa escolheram assentos nos fundos, após terem ficado introspectivos o dia todo, embora não por escolha. Estavam sendo tratados pelos outros recrutas como párias por terem traído seus companheiros, e a hostilidade constante pesava.

Contudo, parte devido ao isolamento, Wufei não foi percebido quando levou individualmente cada membro do time Wing a um cômodo privado para uma última reunião antes da tentativa de fuga.

Quando foi a vez de Duo, o militar trancou a porta atrás deles, observando o rapaz de trança ir até a pequena janela e conferir com cuidado os arredores por sinais de estarem sendo observados.

"Tenho umas coisas que você pode usar esta noite," ele falou para o nativo de L2, dando-lhe um maço de pano preto.

Duo olhou para o maço com dúvida. "O que é?"

"Para começar, vai ajudá-lo a se camuflar. Não acho que o Kushrenada vá parar para considerar o que você estará usando ou de onde conseguiu, então não se preocupe." Tocou o colarinho da camisa. "Tem um chip rastreador costurado aqui," explicou. "Se, de alguma maneira, o K. tentar raptar você, podemos encontrá-lo dentro de minutos."

"Acha que ele não me traria de volta para o acampamento?" Duo questionou apesar da resposta óbvia.

"Maxwell... ele pode tentar matá-lo no momento da fuga ou colocá-lo num veículo de transporte para matá-lo em outro local. Ou ele pode surpreender todo mundo e prender você legalmente e trazê-lo de volta para você ser enviado para a prisão. Ou ele pode ter outro plano em mente, que é o que mais me preocupa." Os olhos negros se fixaram nas feições preocupadas do adolescente. "Como seu tutor, seu oficial superior e alguém que aprendeu a gostar de você, quero estar preparado para o pior." Seu cenho franziu. "Não quero perder você."

Duo corou com a voz cálida nas palavras do chinês. "Não vai, Fei," falou baixo. "Sou rato de rua, lembra? Duro de matar."

"Tomara," respondeu esperançoso.

Duo pegou as roupas oferecidas. "São pesadas, Chang. Muito volumoso. Vão me atrapalhar."

"Vale a pena pela proteção extra," o militar insistiu. "Não é exatamente uma armadura de corpo inteiro, mas qualquer coisa mais pesada do que o seu uniforme é melhor. Você usa ou o plano já era."

Duo assentiu. "Acho que posso fazer pelo menos isso do seu jeito."

"E aconteça o que acontecer, não resista. Quando o Kushrenada te emboscar, renda-se. Coloque as mãos acima da cabeça e caia de joelhos. Ele não pode justificar força letal nessas circunstâncias." Um sorriso passageiro passou pelo seu rosto. "Além do mais, você vai virar um alvo menor desse jeito."

"Como vou levar esse pacote para o quarto sem ninguém notar?" Duo perguntou.

"Não vai. Vou deixar para você no vestiário. Primeiro armário da esquerda. Quando sair do alojamento, vá para lá e se troque. Depois fuja como planejado."

"Pode ser," Duo falou tenso. "Espero não ser visto por um guarda filho da puta antes de estar longe o suficiente para atrair o Kushrenada."

"Não será," Wufei o assegurou. "Tenho a sensação de que mesmo se eles o vissem, deixariam você passar sob ordens do K. Ele quer encontrá-lo por si mesmo, por isso você é o único que pode ser a isca que precisamos."

"É, isca," o rapaz comentou amargo, ainda não gostando do som daquilo. "Hum, senhor?"

Wufei o encarou com atenção.

"Se alguma coisa der errado, pode dizer para o Heero-?"

"Cale a boca, Maxwell. Nada vai sair errado," o militar respondeu sem rodeios. "E não tem nada que eu possa dizer a Yuy que ele já não saiba quando se trata de você."

Ele foi recompensado por um pequeno sorriso genuíno do rapaz.

"Obrigado por confinar na gente para fazer isso dar certo, senhor."

"Me retribuía sendo bem-sucedido."


Após o filme, os detentos foram dispensados para estudarem no alojamento ou, no caso do time Wing, finalizar seu plano.

Wufei retornou ao seu escritório e arrumou uma mochila com lanterna, corda, kit de primeiros socorros e um gravador para melhor captar qualquer confissão que Kushrenada pudesse fazer quando pegasse Duo.

Em seguida, o militar foi ao escritório do diretor para sua despedida bem ensaiada.

"Entre!" foi a resposta brusca à batida na porta.

"Diretor Kushrenada," o militar falou calmo. "Só queria informá-lo que vou ao hospital falar com o major Merquise."

O homem de olhos fulvos ergueu uma sobrancelha. "Ele está acordado?"

"Acabei de receber a notícia que sim." Wufei encarou o outro com seriedade. "Ficarei fora essa noite, mas tire o cavalinho da chuva. Wolfe está encarregado na minha ausência e os soldados estão alerta. Meus rapazes serão bem supervisionados. Espero não ter qualquer incidente enquanto eu estiver fora."

Kushrenada bufou cético. "Você nunca espera," zombou. "Mas se os seus tais recrutas souberem que o gato saiu..."

"Eles não sabem," Wufei interrompeu. "Eu não falei para ninguém que estou saindo, somente à minha tropa. Os recrutas não saberão de nada diferente além da rotina."

"Ah, bom, mesmo quando você está aqui, Chang, há vários problemas. E se o Yuy der chilique de novo?"

"Já resolvemos isso," respondeu abrupto. "E postei soldados a mais para vigiar o jantar. Não haverá qualquer mau comportamento."

"Veremos. Acho que você não quer que meus guardas intervenham se houver."

Wufei abriu um sorriso animalesco. "Você acha certo." Reverenciou como um cavalheiro. "Estarei de volta em um ou dois dias. Tente manter todo mundo vivo e intacto dessa vez."

Ele foi seguido por um olhar fulminante ao sair do escritório. Então, Kushrenada pegou o telefone. O capitão Chang estava a caminho do hospital ASMS; Treize não queria que ele chegasse lá e, talvez, conversasse com Merquise. Não havia como saber o quanto o major se lembrava antes de ser baleado, mas se ele recordasse do guarda o atraindo para fora de sua rotina, ele poderia conseguir ligar os pontos.

"Alô, Campbell? Isso, preciso que você pegue o carro. Vai ter um jipe militar indo na sua direção, não quero que passe." Uma pausa seguida de um sorriso maligno. "Ah, sim. O barranco seria perfeito. Pode demorar semanas para ele ser encontrado, se for. Excelente ideia."

Ele sorriu com satisfação desligando o telefone, sentindo-se seguro de que se livraria não de um, mas de dois inimigos nas próximas vinte e quatro horas.

... Continua...