Capítulo 5
"Amélia eu a proíbo." Durante a minha infância essa foi a frase que mais se repetiu na mansão Preminger. Mesmo tendo sido uma criança bastante calma e calada, minha tia sempre arranjava alguma razão para ralhar comigo. Isso me tornou bastante reprimida, contudo, em Hogwarts pude deixar toda essa repreção para trás graças aos meus dois melhores amigos, acabando com todos os estigmas que me foram impostos em 11 anos de vida. Jamais saberia o que era um adolescente se não fosse por isso, devo dizer.
Durante as nossas primeiras férias, Elifas, Alvo e eu começamos a nossa tradição de mandar cartas semanais uns aos outros. Embora muita coisa de interessante não acontecesse com uma criança de 12 anos em uma semana, não conseguia ficar sem abrir a janela para minha coruja toda sexta feira à tarde. Sentíamos falta de nossas conversas cara a cara, e as cartas amenizavam. Elas continham todas as infantilidades de nossas mentes e também indícios de nossas novas complexidades. Narrações sobre nossas vidas diárias, sobre como tia Sarah me arrastava a lugares que certamente eu não gostava de ir. Alvo contava sobre como ele e seu irmão Abeforth conseguiam ajudar sua mãe com a irmã, mesmo que as vezes ele se fechasse para estudar.
Elifas uma vez comentara sobre as viagens que um de seus primos estava fazendo e que o inspiraram para um projeto pessoal. E o plano era sua decisão de que um dia viajaria pelo mundo, e eu respondera dizendo que jamais o deixaria ficar tanto tempo fora. Elifas prometera me mandar um presente de cada lugar para o qual fosse e, em minhas ambições infantis da época, aceitei a chantagem.
Nosso segundo ano passou normalmente, com o crescimento da popularidade de Alvo, que continuava chamando atenção para si e comigo e Elifas desfrutando dos benefícios dessa amizade. Éramos muito inteligentes, mas enquanto o senhor Gênio estivesse por perto os holofotes brilhariam somente para ele. Isso deixava o pessoal da Sonserina bufando e isso me deixava felicíssima. Os jogos de xadrez até altas horas também continuavam, com as variantes de quem jogava contra quem. A dupla dinâmica Amélia e Alvo continuava imbatível em competitividade, mas a razão não era simplesmente o xadrez...
Certa manhã, quando estava pedindo a Alvo para me passar a geleia de amora, que até então vinha sendo monopolizada por ele, minha coruja "Maggy" deixou cair uma carta. Letra do Edmundo, meu irmão caçula, e na família Preminger o mais novo sempre era o mártir para mensagens de guerra. Aquela correspondência, que deveria ter sido rasgada desde o início, dizia que eu não deveria me deixar derrotar por um garoto mestiço cujo pai fora mandado para Azkaban, mas na linguagem branda do meu irmão... ainda assim eu ouvi a voz de tia Sarah atrás de mim enquanto lia. Seus dedos finos apertando meus ombros... como senti nojo deles. Por minha tia sempre senti um misto de raiva e descontentamento pela forma com a qual educara meus irmãos e mesmo a mim. Suspeitara que pudesse vir a interferir em minhas amizades, mas nunca pensei que realmente fosse.
"Então você vai me deixar?" – Alvo pretendia ter soado sarcástico, mas seu tom foi sério. Elifas me fitava consternado.
"Ei! Que caras são essas?! Acham mesmo que eu seria capaz de deixá-los por uma ordem da minha tia?! Ela não me ajuda com a lição e nem me espera do lado de fora do banheiro feminino." – falei provocando sorrisos tímidos neles.
"Somos grandes amigos, não é?" – brincou Elifas cutucando Alvo.
"Somos e sequer nos pagam bem por isso." – comentou ele e nós três rimos.
"Eu não me importo se você é mais inteligente ou se ganha mais atenção dos professores do que eu. O que importa para mim é que você é meu amigo e já me acostumei demais a sua companhia para imaginar como minha vida seria se de repente passasse a ser meu rival. Você... vocês dois! Nada vai nos separar."
_ A tinta está um pouco borrada aqui. – comentou Ron parando a leitura para mostrar o borrão na tinta para os amigos.
_ Parece uma mancha d'água. – observou Harry.
_ Ela deve ter... deve ter chorado enquanto se lembrava disso. – deduziu Hermione com pesar. – Afinal, eles acabaram se separando...
_ O quanto ela deve ter sofrido...
_ O mesmo que vocês sofreriam. – marcou Arthur que ainda ouvia a história.
_ Continue, Ron. – pediu Hermione polidamente.
"Aquele foi um ano realmente calmo, em que os horários livres eram ocupados com passeios pela propriedade ou leituras leves, embora Alvo já assinasse o "Transfiguração Hoje". Elifas e eu passávamos horas infindáveis na biblioteca pesquisando as matérias para os trabalhos escolares, enquanto isso. Apesar de muitas vezes jogar comigo, Elifas sempre me deixava sozinha com ele quando Alvo era meu parceiro. Talvez quisesse dizer que aquele era o nosso momento. Acho que é algo inerente a um grupo de amigos, cada um dividir alguma coisa com o outro. Alvo e Elifas dividiam os assuntos dos garotos, comigo, Eli dividia os conselhos sobre a guerra entre os sexos.
"Por que as garotas sempre saem do banheiro às risadinhas?" – foi a primeira pergunta que ele me fizera sobre o mistério que é o mundo feminino.
"Não faço ideia. Geralmente eu saio do banheiro com vocês." – retruquei fazendo Elifas rir alto.
Nossas descobertas dos dois polos somente piorou no quarto ano, quando as coisas realmente tomaram um novo rumo. Mas estou me adiantando aqui. As razões começaram no ano seguinte, por causa de um garoto da Corvinal.
A primeira coisa que fiz ao chegar em Hogwarts naquele início de ano, foi correr até a sala da professora Hadassa e me inscrever para os testes de Quadribol. Meus amigos já sabiam que eu entraria, mas Alvo insistira que eu deveria ter sido escalada como batedora e não artilheira. Realizara uma primeira grande conquista naquela escola, no que tangia conseguir tanta atenção quanto o senhor Gênio. Para comemorar, Elifas prometera que me pagaria uma bebida no Três Vassouras quando fôssemos para Hogsmeade. Se me tornei uma viciada em cerveja amanteigada, é culpa dele, que fique registrado no papel. Gostava de nos pagar bebidas sob qualquer pretexto... mesmo se um dia falhássemos num teste, ele nos pagaria uma bebida por termos falhado.
E como é bom quando somos jovens... quer dizer, quando somos crianças, é encantador poder acreditar que meninos são nojentos e garotas são loucas. Mas, quando isso começa a mudar... é quando todos ficam realmente loucos. Comigo não foi diferente. É claro que, quando menina, tia Sarah me fazia acreditar que era um cravo no meio de um campo de girassóis. Ao contrário dos fios de ouro de minha mãe, eu herdara o tom chocolate de meu pai... de Colette só herdara o gênio. E havia também a questão dos olhos. Não azuis, mas amendoados, sem graça. Resumindo, fosse colocando um vestido novo e deixando meus cabelos arrumados, minha tia sempre fazia parecer que era um porco espinho. Naquele ano, contudo, algo mudaria minha concepção.
A caminho de Hogwarts, no trem, um grifinório, Michael, mesmo ano, sorrira para mim quando eu passara e também acenara. Estranho, não porque ele nunca o fizera, éramos todos muito gentis com as pessoas de nossa mesma casa, mas pelo fato de ter dirigido a mim um olhar que só o vira dar as outras garotas no ano anterior. Cheio de malícia, o que me fez corar profundamente.
"Tudo bem, Mélia?" – perguntou Alvo percebendo que eu continuava encarando a porta.
"Claro." – menti sorrindo meigamente para ele. Mas, meu amigo não engoliu facilmente. "Tem alguma coisa errada com o meu rosto?" – perguntei logo em seguida.
"Com o seu rosto? É claro que não, continua o mesmo para mim." – respondeu Alvo gentilmente. Se fosse em outra circunstância, eu teria ficado vermelha por um elogio vindo da parte dele, mas ali, eu apenas achei que estava tentando não jogar na minha cara que tudo estava errado com o meu rosto.
"Qual o seu súbito interesse nas maçãs rosadinhas do seu rosto?" – indagou Elifas sorrindo de lado.
"Michael Wood acabou de acenar para mim enquanto estávamos vindo para a cabine."
"Wood? Ele é um idiota!" – desdenhou Elifas.
"Eu sei." – concordei rindo. "Mas não foi o aceno que me incomodou, foi a cara que fez."
"Qual? Essa?" – disse Elifas imitando o olhar de Michael de forma cômica.
"Sim, essa." – respondi rindo. "E, por favor, nunca mais faça essa cara." – implorei.
"Está me reprimindo, Mélia."
"Nesse caso, é para o seu próprio bem." – interpôs Alvo rindo. "Mas, e daí que ele te olhou assim? Não é como se você gostasse dele."
"E não gosto, mas..."
"Mélia, entenda que nós homens somos criaturas frágeis quando se trata da beleza do seu sexo." – explicou Elifas.
"Eli, pelas barbas de Merlin, sou eu!"
"Eu sei... ou acha que eu diria isso a uma estranha." – desdenhou Eli me fazendo bufar de frustração.
"Não é o que tenho ouvido." – retruquei com os olhos na paisagem.
"Então mande sua tia para o inferno." – cortou Alvo com impaciência. "Se não acredita em nós, não iremos forçá-la, mas você é bonita, Mélia. A sua própria maneira, com os cabelos volumosos, os olhos amendoados e mesmo não sendo tão alta, e um pouco agressiva..."
"Eu entendi." – cortei reprimindo uma risada. "Obrigada, vocês."
"Eu vou dar umas boas pancadas nesse Michael Wood por se meter com você." – advertiu Elifas
"Deixe disso, Elifas. Somos bruxos, podemos azará-lo." – corrigiu Alvo.
"Então eu bato e a parte mágica fica por sua conta." – sugeriu Elifas, e ambos apertaram as mãos selando o acordo.
"Vocês dois são muito estranhos." – brinquei apanhando um livro dentro da bolsa.
"E você é bonita, mas não ficamos jogando isso na sua cara o tempo inteiro." – disse Alvo me provocando.
