Capítulo 7
_ Eu não quis dizer isso, senhora Weasley. – repetiu Harry pela décima vez.
Ele e a senhora Weasley passaram a tarde discutindo sobre a nova ideia de comprar um apartamento em Londres.
_ Então se quer continuar vindo até a nossa casa, por que precisa de um apartamento em Londres? – indagou a senhora Weasley também pela décima vez.
_ Molly, o garoto tem todo o direito de querer um lugar só para ele. – interveio o senhor Weasley.
_ É completamente desnecessário, Arthur. Ele e Rony trabalham juntos, podem aparatar juntos para cá e o quarto de Percy está vago. Harry não precisa de um apartamento. – insistiu Molly.
_ Senhora Weasley a questão não é essa. Andrômeda e eu conversamos e combinamos que Teddy vai passar uma semana comigo todo mês...
_ Ótimo! Traga-o. Ou você acha que vai ser capaz de cuidar de um bebê sozinho, sendo completamente imaturo no assunto?
Harry já estava começando a se arrepender por ter comentado sobre sua ideia de comprar um apartamento em Londres. A senhora Weasley encarara isso como uma grande afronta, e acusou-o de estar tentando fugir da Toca. O que o garoto retrucou como um absurdo, mas, sem sucesso. Não importava o contrargumento que jogasse, ela insistia que o garoto não precisava se preocupar com isso.
Embora ele se sentisse muito a vontade na Toca, Harry queria um espaço somente seu, para onde pudesse voltar sem acordar ninguém ou mesmo não precisar preocupar-se com o horário em que chegava. Sim, ele não conseguiria cuidar do menino sozinho, mas Teddy cresceria. Não seria sempre cômodo ficar na casa dos Weasley. E ainda havia a questão de querer começar algo mais sério com Gina.
_ Caso perdido, cara. – disse Rony enquanto caminhavam para o elevador do ministério.
_ Sabe, não me entenda mal, eu amo sua mãe e a toca sempre foi uma casa para mim. Mas, chega um momento em que...
_ Eu entendo, cara, papai também, o mundo inteiro. Mas, para realizar seus sonhos, tem que fazer Molly Weasley entender. – ponderou Rony.
_ Sou um caso perdido, então? – indagou Harry deprimido.
_ Calma, como nosso antigo diretor costumava dizer: É possível encontrar a felicidade mesmo nas horas mais sombrias, se você se lembrar de acender a luz. – enunciou o ruivo em uma imitação perfeita do tom de voz de Dumbledore.
_ Ah, nem me fale! Tenho ouvido mais esse nome do que o recomendado.
_ Quem insistiu nessa história foi você, para começo de conversa. – lembrou-o o amigo.
_ Eu sei, mas concorda que ela não facilitou nada? Um nome, ano em Hogwarts e fotos aleatórias. Ela poderia fazer como alguns trouxas e escrever o endereço no diário. – resmungou Harry entrando para a sala deles.
_ Ela não pode simplesmente ter desaparecido. – observou Rony. – Ei, eu achei que você estava nessa só pelo Dumbledore, agora me vem com essa?! – ele apressou-se em dizer.
_ Você não está curioso?
_ Harry, eu sou um homem simples com necessidades simples. Uma delas não é descobrir pessoas desaparecidas.
_ Trabalhando como auror...?
_ Não me contradiga!
_ Você é mesmo filho da sua mãe. – zombou Harry rindo.
Sim, ele se metera naquela aventura para descobrir sobre Dumbledore por uma visão diferente. Contudo, ele não esperava gostar de Amélia Preminger como estava começando a gostar. Ela, de certa forma, lembrara-o de como fora quando se apaixonou por Cho, sem saber o que fazer, confuso com tudo. Provavelmente descobrira que amava o melhor amigo, da mesma forma que ele descobrira que amava a irmã de seu melhor amigo. O ciúme que sentira por Gina o fizera entender. Ainda assim, era difícil imaginar a cena.
Queria olhar para Amélia Preminger e identificar todos os sentimentos da garota do diário. Quantos anos teria hoje? Mais de cem... E Dumbledore? Ele teria respondido a maldita carta?
_ Potter. – chamou Trawley quebrando os pensamentos do garoto. – Preciso que você vá até Hogwarts.
_ Senhor?
_ A professora Minerva e eu concordamos que o espelho de ojesed deve vir para o departamento de mistérios. Vá buscá-lo.
_ Sim, senhor.
_ Quando chegar até o espelho, mande um patrono para nós. Ele deverá ser movido com todo o cuidado de Hogwarts.
_ Pode deixar. – disse Harry quando Trawley deu as costas para ele. – Até mais, Rony.
_ Até.
Um dos lados negativos da magia que circundava Hogwarts para sua proteção, era o fato de não se poder aparatar nas propriedades. A sorte era sempre poder contar com Hogsmeade, uma lareira sempre próxima de você. Dali, a caminhada seria mais agradável.
Harry sentia saudades da época que passara ali, das pessoas, o quadribol... faziam parte dele e de seu passado, a parte mais feliz, quando finalmente conheceu a felicidade. Abandonar tudo de forma tão repentina como fizera deixava mais espaço para o saudosismo.
E então ele avistou Hagrid chegando com Canino.
_ Oh, alô Harry! – cumprimentou o meio gigante surpreso por vê-lo.
_ Olá Hagrid! – respondeu Harry sorrindo para o amigo.
_ O que o trouxe até Hogwarts?
_ Trabalho para o ministério... – ele ia respondendo até ser interrompido por Canino, que pulou em cima dele. – Também é bom te ver, Canino.
Enquanto lutava para tentar se livrar do animal, Harry não reparou que a foto de Amélia com Carlinhos escapara de seus bolsos e caíra no chão. Hagrid, porém, não deixou o detalhe escapar e arqueou as sobrancelhas ao reconhecer a mulher da fotografia. Não esperava vê-la outra vez.
_ Hagrid? – chamou Harry ao perceber que o amigo estava olhando pensativo para a fotografia.
_ Onde conseguiu essa foto?
_ Com a senhora Weasley. Por quê? – inquiriu o rapaz curioso.
_ Conhece essa mulher? – rebateu Hagrid.
_ Bem, mais ou menos, você a conhece?
_ Eu a vi certa vez, no ano do Tribruxo, na noite do baile de inverno, conversando com o professor Dumbledore. – respondeu o meio gigante.
_ Ouviu o que estavam dizendo? – perguntou Harry tentando manter o tom calmo.
_ Estava zangada por Karkaroff estar no castelo, acho.
_ Parecia chateada? Feliz?
_ Estava escuro, eu não reparei no rosto dela, mas a despedida com o diretor não foi muito feliz. – respondeu fazendo os olhos de Harry brilharem e com que o amigo se lembrasse do que aquilo significava. – Eu não deveria ter falado isso, não devia ter falado isso...
Harry riu enquanto observava-o sair, em seguida, tomou seu caminho em direção ao castelo. De repente, toda a tarefa relacionada ao espelho desaparecera de sua cabeça e apenas a ideia de Amélia e Dumbledore conversando no quarto ano permaneceu. Na noite do baile de inverno... Mas ele não se lembrava de terem anunciado a chegada de ninguém naquela noite, é claro, aproveitara muito pouco daquela festa para se lembrar totalmente. Isso deveria significar que o diretor respondera para ela... ou ela, assim como Harry, possuía um certo desrespeito pelas regras.
Os vidros com as lembranças ainda estavam no escritório dele, ele só teria que... Não. Estava ali por uma missão do ministério, não para resolver mistérios. "Quando foi mesmo que isso o impediu?" uma velha conhecida vozinha falou em cima cabeça.
_ Potter. – Minerva cumprimentou ao vê-lo entrando em seu escritório. – Veio buscar o espelho, presumo.
_ Sim, professora. Ele...
_ Na sala precisa. Acho que sabe como chegar até lá. – respondeu a professora sorrindo sugestivamente para ele.
_ Naturalmente, com licença.
Apressado, dirigiu-se ao terceiro andar, onde costumava entrar na sala para as reuniões da AD. E de repente, a voz de Hermione ecoou em sua cabeça "Conhecida como sala vem e vai, é sempre equipada com o que mais se precisa", e agora ele precisava de uma maneira de conseguir acessar a memória de Dumbledore e ver exatamente o que aconteceu naquela noite. A porta começou a surgir e ele se concentrou antes de entrar, encontrando exatamente o que queria. Uma penseira e de alguma forma, o frasco com a memória do professor.
Sem perder tempo, despejou o líquido dentro da penseira e mergulhou.
Harry voltou para o mesmo lugar que vira em uma das lembranças de Snape há dois anos. Ele e Dumbledore estavam parados próximos ao saguão de entrada conversando sobre Karkaroff, quando o diretor se afastou e Flitwick se aproximou deles.
_ Professor, tem uma mulher do outro lado do salão querendo falar com o senhor. – avisou o pequeno professor com sua vozinha esganiçada.
_ Obrigado, Filio, com licença Severo. – disse Dumbledore apressando-se, com Harry em seu encalço.
O coração do rapaz estava batendo mais rápido do que o usual com a ansiedade, assim que atravessaram o salão e chegaram do outro lado, Harry a viu. Sentada próxima a fonte, estava Amélia Preminger, vestida com uma capa de veludo vermelho sobre um vestido verde fechado até a altura do pescoço. Ergueu-se ao ver Dumbledore e removeu o capuz, revelando os cabelos brancos, presos à altura da nuca, e os olhos amendoados dos quais o garoto tanto ouvira falar. Apoiava-se em uma bengala para andar, mas ainda possuía uma postura imponente e mantinha os olhos fixos nos do diretor, não sorria.
_ Olá, Mélia. – cumprimentou o diretor com uma pequena reverência.
_ Estava me aguardando? – indagou ela com uma voz gutural bastante elegante.
_ Não, na verdade estou bastante surpreso com a sua visita, não menos feliz, é claro. – respondeu o diretor polidamente, demais para uma conversa entre dois velhos amigos.
Amélia apenas acenou a cabeça fazendo um sinal positivo.
_ Eu esperava mais juízo de você. – disse ela por fim, recebendo um olhar confuso do diretor. – Soube que o Torneio Tribruxo está sendo realizado aqui.
_ Está sendo anunciado há mais tempo, só veio me dar uma bronca agora? – retrucou o diretor.
_ Tenho evitado o Profeta desde que Rita Skeeter publicou aquelas asneiras sobre... bem, desde a época que publicou sobre mim e depois que disse que você era um debiloide ultrapassado eu praticamente preferi me isolar da sociedade a continuar a ler aquele lixo. – explicou Amélia. – Aceitou mesmo sediar esse... jogo de bárbaros?
_ Foi uma decisão...
_ Eu sei, do desajuizado do Ludo Bagman... como puderam deixar comensais da morte participarem disso, realmente não sei. Quero dizer, Igor Karkaroff, pelas barbas de Merlin! – zangou-se Amélia batendo a bengala no chão.
_ Você estava presente no julgamento. – lembrou Dumbledore.
_ E o enojo mais do que aos outros por não ter sido corajoso o bastante para Azkaban.
_ Qual é a sua preocupação, afinal? – cortou o diretor parecendo prever um discurso, e ela de repente ficou nervosa.
_ Você sabe, também está preocupado. Do contrário, não permitiria que Potter competisse, o que, em minha opinião, foi algo bastante arriscado, pobre rapaz... De qualquer forma, a marca negra e o desaparecimento de Berta Jorkins, essas não são meras coincidências e você sabe. Chego a crer que também sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. – condenou Amélia posicionando ambas as mãos sobre a bengala.
_ Eu imaginei que não seria a última vez que veríamos Lord Voldemort. – concordou Dumbledore. – Mas, com certeza não previ os assassinatos.
_ Espero que esteja começando a prever o que vai fazer quando acontecer. Todos vão esperar que faça alguma coisa, sempre esperaram. – desdenhou ela abaixando a cabeça.
E então Harry sentiu que o nervosismo de Amélia dera espaço para verdadeira preocupação. Mexia compulsivamente em um anel de pedra cor de rosa em sua mão direita, deixando até mesmo um suspiro de irritação escapar.
_ Mélia...?
_ Não, tudo bem. – disse secando uma lágrima que acabara de se formar em seu olho esquerdo. – Só não... quer dizer, você sempre foi o único bruxo que ele sempre temeu... Voldemort poderia muito bem tentar...
Harry engoliu em seco. Amélia sabia ou pelo menos suspeitava que Voldemort tentaria um ataque direto contra o professor. Dumbledore limitou-se a sorrir para ela de forma despreocupada, e a amiga retribuiu parecendo compreender o significado dele.
_ Recebi a túnica que me mandou, eu gostei muito. – comentou Alvo quebrando o silêncio.
_ Supus que gostaria, mandei uma semelhante para Elifas também. – disse ela com simplicidade.
_ Soube que ele está passando o natal em Bristol.
_ Sim, minha coruja voltou cansada da viagem.
_ E você? Está passando o natal com alguém?
_ Acabei de voltar da casa de Colin. Ultimamente ele é o único que tem me recebido. – respondeu ela com forçada indiferença, finalmente pareceu notar a movimentação de estudantes. – O que está acontecendo?
_ O baile de inverno, a confraternização entre as escolas. – respondeu Dumbledore. – Eu a tiraria para dançar, mas, acho que seria arriscado. – acrescentou com ar jovial.
_ Eu bem sei. – concordou Amélia sorrindo abertamente. Dédalo tinha razão, ela era bela mesmo com cem anos.
_ Espero que tenham acabado as suas preocupações.
_ Elas apenas começaram. – negou Amélia colocando uma das mãos sobre o rosto do diretor.
_ Conto com você, caso as coisas venham a se tornar desastrosas? – perguntou Dumbledore quando ela retirou a mão.
_ Certamente. – assegurou ela voltando a sorrir. – O que eu disse naquela carta era sincero.
Alvo sorriu e tomou uma das mãos dela, levando-a até os lábios para beijá-la. Amélia riu como se aquilo fosse algum tipo de piada interna entre os dois e o diretor também deixou escapar um risinho. Permaneceram com os olhos vidrados um no outro por mais alguns minutos, sem que ele soltasse a mão dela.
_ Obrigado, Amélia. – agradeceu por fim.
Amélia sorriu e tornou a vestir o capuz.
_ Adeus, Alvo. – despediu-se.
_ Adeus, Mélia. – despediu-se Dumbledore.
Harry e ele ficaram para trás, observando-a tomar o caminho até a entrada do castelo. O garoto ainda conseguiu notar uma singela lágrima escorrendo de um dos olhos do professor para sumir pela barba prateada. Então, foi cuspido de volta para a sala precisa.
_ Por que demorou tanto? – indagou Rony quando o amigo entrou na sala e se jogou na cadeira.
_ Por favor, eu já tive que inventar uma desculpa horrível para o Trawley. – falou Harry com as mãos na cabeça.
_ Mas para mim você vai contar a verdade, não é? – tornou a pedir o amigo.
_ Não foi você quem disse que não queria mais se meter nesse tipo de coisa? – observou Harry reprimindo o riso.
_ Ah, qual é...
_ Acreditaria se eu dissesse que estava na penseira de Dumbledore e que o vi conversando com Amélia Preminger durante o nosso quarto ano na noite do baile de inverno?
_ Possivelmente, desde quando posso me dar ao luxo de não crer em coisas esquisitas?
_ Pensei que fosse um sujeito simples.
_ Vamos empatar que, no fundo, o que eu sou mesmo é um cara complexo. – disse Rony de peito estufado.
