Capítulo 8

Ao contrário do que se acredita, não é incomum que uma pessoa dita como comportada, ponderada, apresente um histórico de ações reprováveis aos olhos mais velhos. O importante, ainda mais para um adolescente, é não ser pego. Em especial, quando seu nome é tão comentado.

Existem, ainda, creio eu, aqueles que ao ouvirem o nome de Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore abaixam a cabeça e praticamente beijam o chão à referência do maior bruxo de todos os tempos. Se ao menos o tivessem conhecido como conheci, veriam que era tão passível de erros quanto qualquer outro.

É muito pequeno o número de pessoas que se preocupam com a verdade por trás de um "ídolo". Se bem que, se o tipo de verdade que buscam é a oferecida por gente como Rita Skeeter, é preferível ficar no lugar comum. O que me impediu de escrever um obituário, como fez Elifas, foi justamente ter a perspectiva de ter essa mulher me caçando.

Desde a morte de Alvo, vários acontecimentos assombram meus sonhos. Arrependimentos... que amigo nunca se arrependeu por uma briga sem grande motivo? Uma delas, talvez a principal para a finalidade desse texto, deu-se no final do quarto ano.

Era noite e todos estavam a caminho do grande salão para jantar. Contudo, Alvo não estava conosco, e de fato não havíamos visto o senhor gênio desde a tarde. Elifas foi o primeiro a dar por sua falta, já que eu estava ocupada tentando convencer Eliza Grooves a aceitar que as Harpias de Holyhead eram melhores do que os Chudley Cannons.

_ Estou preocupado com o Alvo. – disse Elifas chamando minha atenção.

_ Por quê? Provavelmente ele resolveu estudar no dormitório. – falei com pouco interesse, servindo-me de uma taça de suco de abóbora, o que deixou meu amigo fulo.

_ Mélia isso é sério. – insistiu meu amigo. – Alvo nunca perdeu nenhuma refeição. Seria bom você subir e tentar achá-lo.

_ Muito bem, então, se isso fizer com que meu jantar seja mais tranquilo. – resmunguei ao me erguer para procurar pelo senhor desaparecido.

Os olhos de todos recaíram sobre mim, mas nenhum professor me parou ou mesmo um monitor. Então, continuei meu caminho em direção ao dormitório, imaginando o que o jovem gênio estaria aprontando, e tive uma estranha visão de uma garota. Contudo, não pareciam estar faltando garotas no salão naquele momento, o que me fez desconsiderar de vez a hipótese, ainda que a ideia fosse perturbadora.

Entretanto, o que realmente aconteceu foi um pouco menos perturbador e mais... divertido? Chocante? Hilário? Ainda hoje não consegui encontrar uma palavra correta para o que acontecera. Só sei que, quando entrei no dormitório senti um cheiro horrível de fumaça vindo do andar de cima.

_ Fumaça?! – indagou Rony reprimindo uma risada.

_ Continue Hermione, isso está ficando bom. – pediu Harry às gargalhadas.

_ Alvo! – gritei desesperada correndo em direção ao quarto dos garotos, a varinha em mãos.

_ Mélia! – ouvi a voz dele respondendo do lado de dentro.

A porta estava trancada, mas bastou um toque com a varinha e um alohomora para que tudo se resolvesse. Esperava que o quarto estivesse todo em chamas, que meu amigo lutasse bravamente com alguma criatura... mas jamais poderia prever que chegaria o dia em que veria Alvo Dumbledore lutando contra cortinas em chamas. Não sabia se deveria rir ou apagá-las, então me decidi pela primeira opção, que me pareceu mais inteligente.

_ Vai ficar aí rindo ou me ajudar?! – exclamou Al indignado.

_ Perdão, eu pensei que o grande mestre Dumbledore seria capaz de ganhar uma briga contra um pedaço de pano... ao que parece me enganei. – desdenhei limpando uma lágrima.

_ Amélia... – advertiu Alvo ficando vermelho.

Ainda rindo, ergui minha varinha enquanto ele mantinha as cortinas afastadas das outras camas, evitando maiores danos. Um jato de água forte saiu pela ponta dela quando pronunciei as palavras, e meu amigo pareceu aliviado ao sentar-se em sua cama e limpar o suor da testa com um lenço. Analisando a cena, descobri o que poderia ser a causa do fogo... embora não tivesse ideia de como aquilo poderia ter chegado às mãos de um aluno de Hogwarts.

_ Não sabia que você fumava. – comentei mirando a caixa de charutos que estavam sobre a cama dele.

Envergonhado, Alvo pegou a caixa e jogou-a embaixo da cama, fingindo-se de desentendido ao olhar para mim novamente.

_ Então, não vai me contar quando e por que esse vício começou? – perguntei cruzando os braços a espera de uma resposta.

_ Nicolau os mandou para mim. – respondeu após alguns minutos de consideração.

_ E por que Flamel mandaria charutos para um garoto de quatorze anos? – indaguei batendo as mãos contra as coxas.

A vermelhidão no rosto de Alvo aumentou quando ouviu a pergunta e eu tive de me conter para não perder minha seriedade... sempre fora divertido vê-lo corando.

_ Talvez eu tenha... mentido a minha idade?

_ E por que faria isso?!

_ Sejamos francos, Amélia, você me daria credibilidade se soubesse que eu sou um garoto de quatorze que ainda sequer terminou Hogwarts? – lançou ele sabiamente.

_ Provavelmente não... mas isso porque eu sou sua amiga e sei que não consegue sequer acender um charuto sem por fogo num dormitório inteiro. – respondi dando de ombros, juntando-me a ele na cama.

_ Ah, sim, obrigado por me lembrar disso também. – resmungou Alvo deitando-se sobre as cobertas.

_ Mas o que é isso, senhor gênio, não pode se deixar abater pelos seus míseros quatorze anos. Se já é um gênio assim, imagina quando tiver a idade de Flamel. – disse tentando animá-lo. – Eu acho que ele ficaria impressionado se soubesse a sua idade... mas, omita que não conseguiu acender os charutos, seria humilhante demais. – brinquei deitando-me ao lado dele, com a mão apoiada na cabeça.

Alvo ergueu os olhos para mim e sorriu.

_ Ah, é?! – ele tornou a exclamar me puxando para o lado dele. – E o que a senhorita acha de parar de tentar ser sempre tão implicante? – brincou ele atacando meu ponto fraco para cócegas.

_ Eu... não... sou... Piedade, Dumbledore! – implorei tentando fugir dos braços dele.

_ Eu não consigo acender um charuto e você não consegue lutar contra suas cócegas. Estamos empatados. – sentenciou ele finalmente me soltando.

_ Céus... sabia que isso pode matar alguém? – ralhei rearrumando minhas roupas.

_ Faço cócegas em você há mais de dois anos e você nunca foi parar na enfermaria por isso. – defendeu-se ele.

_ Não mentiu sua idade para Bagshot também, mentiu? – perguntei voltando ao assunto principal.

_ Como poderia? Ela conhece minha família, sabe que estudo em Hogwarts. – retrucou Alvo.

_ E as celebridades não se reúnem ou sei lá, para falar de suas novas amizades do mundo bruxo?

_ Eu não poderia frequentá-las, não é? Não posso sequer fumar um charuto de acordo com a miss sabe tudo aqui.

_ Bem, o que você faz com seus pulmões não é problema meu. – conclui tornando a me levantar. – E vamos jantar, Elifas me mandou aqui para buscá-lo e eu ainda não belisquei sequer uma asinha de frango.

_ Claro, majestade. – desdenhou meu amigo saindo atrás de mim.

_ Dumbledore me disse que havia colocado fogo nas cortinas quando estava no quarto ano, mas eu jamais imaginaria o motivo. – comentou Harry interrompendo Hermione.

_ E você acha que eu teria imaginado?! – indagou ela. – Quer dizer, eu jamais pensaria numa atitude dessas vinda do professor Dumbledore. Tentar acender um charuto longe da vista de todos...

_ De fato, você já imaginou Dumbledore fazendo qualquer coisa que não fosse sentar à mesa do jantar no grande salão e fazer aqueles discursos, ou duelar contra Voldemort e tudo o mais? – rebateu Rony.

_ O quê? – interrompeu o senhor Weasley passando por eles. – Vocês acham que ele já tinha nascido com aquela aparência? Estou com medo do que pode acontecer se continuarem.

_ Arthur! – ralhou Molly.

_ Mas ele tem razão, senhora Weasley. Ao que tudo indica, colocar fogo no dormitório foi a menor das coisas que ele já fez. – concordou Harry. – Vai lá, Mione.

Quando voltamos para o grande salão os olhares voltaram a recair sobre mim, mas não pelas razões certas. Boatos, boatos, e de repente eu entro sozinha acompanhada apenas de Alvo, mais boatos, mais boatos. E da mesa da Corvinal, Arthur nos observava com a cara amarrada, o que tentei contornar acenando. E de repente, senti a mão de Alvo sobre meu ombro, indicando para que sentasse ao lado de Elifas.

_ O que aconteceu? Onde esteve? – perguntou nosso amigo consternado, e eu preocupada com minhas asinhas.

_ Ah, nada demais...

_ Alvo estava apenas querendo brincar de gente grande. – brinquei finalmente comendo.

_ Eu não quero nem entender o que isso significa. – disse Elifas estupefato.

_ Deixa disso, cara, foram apenas uns charutos...

_ CHARUTOS?! – exclamou ele chamando atenção dos garotos da frente. – Desculpem... Charutos? Onde você arrumou charutos, cara?

_ Nicolau me mandou.

_ E porque Flamel te mandaria charutos? Você tem quatorze anos.

_ Não foi o que ele soube. – ponderei dando de ombros frente ao olhar mortal que Alvo me lançou.

_ Mentiu sua idade? – tornou a questionar Elifas ainda mais perplexo.

_ Foi, mas apenas para ganhar credibilidade, não sabia que receberia presentes como charutos...

_ O que? Ele andou te mandando garrafas de Whisky de fogo também? – arrisquei com a língua afiada, outro olhar mortal.

_ Certo, e os charutos fizeram vocês se demorarem tanto assim?

_ Não... foi o fogo. – respondi bebendo um gole de suco. – Sabe Elifas, nosso suposto gênio não é muito bom para acender charutos e acabou colocando fogo nas cortinas.

_ Fogo nas cortinas? Quer dizer que minha cama virou cinzas?

_ Não, eu cheguei a tempo. – expliquei sorrindo triunfante para um Alvo Dumbledore corado e sem saber onde enfiar a cara.

_ Tenho uma excelente ideia. – interrompeu ele. – Vamos mudar de assunto!

_ Claro, Arthur não gostou nadinha, reparou Amélia? – comentou Elifas.

Voltei-me para a mesa da Corvinal e semicerrei os olhos a procura de Arthur. Ele estava com os olhos cravados em mim também, o que me deixou bastante constrangida com a situação. Por que Elifas tinha que comentar? Quer dizer, desde o dia dos namorados, toda vez que o nome Arthur Doyle era mencionado, a atmosfera parecia mudar. Alvo fechava a cara ou simplesmente me ignorava. E embora fossem irmãos, ele não demonstrava toda aquela reprovação para com o relacionamento de Linda e Elifas.

O problema, que eu não percebi à primeira vista, não eram os Doyle, mas somente o garoto Doyle que estava flertando comigo.

_ Para alguém que não gosta de ser controlada, você parece estar se saindo muito bem. – desdenhou Alvo enquanto enchia a taça de suco.

_ O que quer dizer? – indaguei fingindo que não entendera.

_ Não precisa se fazer de idiota, não comigo. – ralhou ele batendo a taça na mesa, chamando atenção para nós. – Ele a cumprimenta sempre que a vê passando e nunca a derruba da vassoura durante os jogos de Quadribol.

_ E daí?

_ E daí que se realmente não gostasse de ser tão manipulada pelos sentimentos de alguém, não permitiria. – ponderou Alvo.

_ Al... – advertiu Abeforth vindo em meu auxílio.

_ Não a defenda. – retrucou o irmão.

_ Certo, Alvo, não sou digna de defesa simplesmente por não fazer nada para que um garoto pare de me cortejar? De uma vez por todas eles pararam...

_ Eu seria o grifinório mais obtuso do mundo, não é? – disse ele com malícia. – Quer dizer, minha namorada há mais de um ano fica se pegando com diversos garotos na biblioteca, e eu... o santo Dumbledore... não faria nada a respeito para me vingar por ela me fazer de idiota. Sim, realmente todos pensam muito bem de mim para acharem que nós realmente somos um casal.

_ Pare Alvo...

_ E agora ela simplesmente me troca por um cara absurdamente retardado que não consegue pensar em nada além de si mesmo e sobre como seu nível de popularidade aumentaria por roubar a garota de Alvo Dumbledore...

_ CALA A BOCA! – urrei jogando o conteúdo do meu cálice contra ele. Elifas deixou um gritinho assustado escapar e Abeforth nos olhava com legítima preocupação.

Os professores já haviam tolerado demais da nossa cena, e todos os alunos miravam a mesa da Grifinória como se estivessem assistindo a uma partida de Quadribol. Meu corpo todo tremia e Alvo não mexera sequer um dedo para secar-se, mantinha os olhos fixos em mim e os lábios crispados. Por um momento poderíamos ter empunhado nossas varinhas e começado a azarar um ao outro. Lembro-me de tê-lo odiado por achar que Arthur só estava sendo gentil comigo para tentar chateá-lo, quer dizer, o mundo não poderia girar em torno dele até mesmo naquele assunto, poderia? Eu possuía meus próprios méritos para ganhar a atenção de um garoto, não precisava dele para isso.

Contudo, o motivo real daquela briga não fora, como posso analisar cem anos mais tarde, o ciúme por Doyle, mas a raiva que começávamos a sentir de nós mesmos por estarmos ignorando o que estava escrito na testa de ambos. Eu amava Alvo Dumbledore e ele também ansiava por mim o bastante para mandar Arthur para o inferno. Por que também não mandei todos para lá, como fiz anos mais tarde, e vivi minha vida como bem queria?

_ Muito bem. – dissera ele por fim após um longo silêncio, quando estávamos no salão comunal sozinhos. – Se, como disse, quer que todos parem de achar que somos um casal, vou dar-lhe sua liberdade. – sentenciou ele erguendo-se da poltrona.

_ Como? – indaguei segurando-o pelo braço.

_ Eu não vou mais dar razão para acharem que somos um casal. A partir de agora, está livre de mim, Amélia.

_ Livre?! Eu não quero deixar de falar com você... é o meu melhor amigo! Só... não acha que é uma chateação quando todos ficam espalhando esses boatos infundados...

_ Infundados? – rebateu ele virando-se para mim, aproximando-se.

Se fosse outra pessoa, eu já saberia o que esperar e me encheria de confiança. Contudo, naquela noite, eu sentiria sua aura de poder crescer e me sugar fortemente, privando-me dessa conhecida coragem. Quando eu me sentia indefesa, Alvo parecia encher-se de uma coragem sobrenatural, capaz de manipular a mais independente das criaturas. Erguendo meu rosto para perto do dele com nada mais do que os nós dos dedos, me encarando com os profundos olhos azuis, esperando pela minha reação. Eu estava tremendo, incapaz de fazer qualquer coisa, limitando-me a encará-lo.

A força que nos atraía ao mesmo tempo nos repelia, e já pelo fim, nada aconteceu e eu abaixei a cabeça sentindo-me completamente desajeitada.

_ Está livre para encontrar outro parceiro de xadrez. – ele me avisou antes de tomar o caminho em direção ao quarto dos garotos.

Meus olhos se encheram de lágrimas com extrema rapidez ao passo que eu tombava para o chão, me apoiando no braço do sofá para chorar. De repente, eu senti uma mão carinhosa sobre minha cabeça e por um momento, cheguei a acreditar que ele havia reconsiderado tudo e voltado para pedir desculpas, no entanto, ao virar para o dono da mão, encontrei Elifas de hobbie sorrindo caridosamente para mim. Tentei sorrir, mas solucei ainda mais alto, caindo nos braços dele.

_ Ele me odeia... – murmurei puxando a manga do roupão de Elifas.

_ Não, não... só está chateado, confuso, vocês dois estão... vai ver, ele vai se desculpar... – disse Elifas tentando me acalmar.

Não houveram cartas de Godric's Hollow naquele verão...

_ E? – indagou Harry pedindo a Hermione para que continuasse.

_ Acaba aqui. – ela respondeu fechando o diário. – Ela não menciona mais nada.

_ Acho que nem precisa... pobrezina. – lamentou a senhora Weasley.

_ Na verdade, acho que ela foi uma grande cabeçuda. – comentou Rony cruzando os braços.

_ Ah sim, eu conheço sua sensibilidade para analisar as ações humanas. – desdenhou Hermione fuzilando o namorado com os olhos.

_ Ela estava confusa, Rony. – concordou Harry.

_ Não estava não. Ela mesma afirmou que amava Dumbledore, mais de uma vez nesse capítulo. – observou o ruivo.

_ Eu já sabia que te amava desde o quarto ano e ainda assim saí com o Krum. – lembrou-o Hermione.

_ Como eu disse, cabeça dura. – retrucou o namorado infeliz pela recordação.

Eles deixaram o diário de lado pelo resto do fim de semana, mas Harry não pôde deixar de pensar de assemelhar o que ela provavelmente sentira naquele verão, ao que ele sentira em suas férias para o segundo ano quando pensara que Rony e Hermione não mandaram cartas para ele. Retirou a carta dela de dentro do bolso do paletó, estava sempre com ela agora, bem como com as fotos, e prendeu-se a linha: "Apenas saiba que sempre estarei disposta a lhe estender a mão." Quanto alguém pode chorar e continuar a perdoar?