Capítulo 10
Se fosse possível morrer de felicidade, eu provavelmente teria naquele fim de semestre.
A tensão trazida pela aproximação dos NOMs continuava, mas agora, era uma tensão prazerosa. Os cartões de explicação com a letra de Alvo continuavam a aparecer sobre meus livros onde quer que eu estudasse. Como ele adivinhava as matérias nas quais eu estava com mais dificuldade, eu nunca cheguei a descobrir, não tinha importância, o importante era que estavam sempre lá.
Enquanto eu me afastava de um Dumbledore, me aproximava do outro. Embora Abeforth fosse um ano mais novo do que nós, era comum que as pessoas o vissem sempre ao nosso lado, pois, mesmo que tenham se separado após os incidentes em sua família, os irmãos Dumbledore eram muito unidos. Diferentes, é claro, mas ainda assim conseguiam fazer com que suas diferenças não se sobrepusessem a relação. Abb era rude e um pouco broco, mas não deixava de ser uma excelente companhia.
Contudo, Elifas me acusara de estar tentando substituir um irmão pelo outro, opinião essa que logo tratei de contornar em uma discussão colossal que nos manteve afastados por várias semanas. Isso tudo poderia ter sido evitado, claro, se eu tivesse explicado a situação para ele. Não fora, ao contrário do que ele acreditava, eu a me aproximar de Abeforth, mas, ele a se aproximar de mim.
_ Amélia. – chamou ele durante uma tarde na biblioteca em que me vira sozinha.
_ Oh, alô, Abb. – cumprimentei de volta num sussurro, sem querer chamar atenção da bibliotecária.
_ O que está fazendo aqui sozinha? Onde estão Doge e meu irmão? – perguntou cruzando os braços.
_ Você não soube? Seu irmão me odeia. – respondi sem tirar meus olhos do livro que estava lendo.
Inesquecíveis são os momentos em que uma pessoa amiga nos dá exatamente o que precisamos, sem que precisemos pedir. E eu nunca poderia esquecer o dia em que o irmãozinho do senhor gênio, Abeforth Dumbledore, brigão e rude, puxou uma cadeira e se sentou à minha mesa na biblioteca.
_ O que está fazendo? – perguntei mirando-o surpresa.
_ O que? Você quer companhia, não quer? – ele respondeu retirando os livros da bolsa. – Não prometo tirar suas dúvidas como meu irmão, mas...
_ Obrigada, Abb. – murmurei interrompendo-o, ao passo que ele apenas balbuciou alguma coisa.
Desde então, sempre que alguém falara alguma coisa contra Abeforth, sobre como ele não tinha sentimentos ou qualquer coisa do gênero, eu simplesmente o azararia até que mudasse seu ponto de vista.
As mudanças, não pararam por ali. Estava sendo iniciado o período da copa entre as casas, e infelizmente, a Sonserina vinha passando por um momento de vitórias bastante perturbador. Logo atrás estava a Corvinal e por último a Lufa-lufa... novidade... De qualquer forma, o jogo daquela semana iria decidir quem iria para as finais... e não poderia ser a Corvinal. Mesmo namorando Elifas, Linda possuía um enorme senso de protecionismo por sua casa e fizera imensas apostas com ele durante as semanas que antecederam o jogo. Quanto a mim, bem, pode-se dizer o mesmo.
_ Cuidado! – pediu Arthur quando ainda estávamos no vestiário. O contato entre os times antes do jogo era proibido, visto acidentes antigos, mas nada impedia o monitor da Corvinal e batedor do time, de pedir um beijo de boa sorte da sua namorada... Ele só não contava que a namorada fosse eu!
_ Tenha cuidado você! E vá embora, nada de águias bisbilhoteiras aqui.
_ Ganho um beijo de boa sorte?
_ Claro! – concordei me aproximando dele. – Vá pedir a sua irmã! – empurrando-o para fora e fechando a porta na cara dele.
Ele tentou arrombar a porta, havia esquecido a varinha no dormitório, mas por fim desistiu. Voltei a vestir meu uniforme e minutos depois ouvi mais batidas na porta.
_ Eu acho que te... – não era Arthur, era Alvo. – Mandei embora. Alvo?
_ Oi... eu... é... bem, eu sei que todos já deveriam estar nas arquibancadas, mas, bem eu...
_ Você...?
_ Eu queria desejar boa sorte. – concluiu ele.
_ Pensei que... não estivesse falando comigo.
_ Isso não quer dizer que eu espero que você acabe caindo da vassoura. – ele retrucou com os olhos brilhando pela brincadeira.
_ Está certo, mas saiba que se eu sentir alguém me azarando, você será o primeiro na minha lista de suspeitos. – comentei dando de ombros.
_ Eu aceito correr esse risco. Bem, bom jogo, não me decepcione.
_ Suma, gênio! – brinquei fechando a porta.
No entanto, aquela tarde não saíra exatamente como eu planejara. O jogo com certeza fora disputado e eu havia sido ameaçada de cair da vassoura mais de uma vez, mas não por uma azaração, mas pela ação dos colegas de time do meu namorado. Não houve cavalheirismos e eles estavam dispostos a fazer de tudo para vencerem... qualquer coisa.
_ Ah! – gritei quando me acertaram com um balaço, e num minuto seguinte, segurava o cabo da vassoura para não cair de metros de altura.
_ Ajudem ela! – gritou Wood. – Tudo bem, Amélia? – perguntou quando dois batedores conseguiram desviar de mais balaços e me recolocar sobre a vassoura.
_ Me dá isso. – pedi tomando um dos bastões da mão de Michael Davies e acertando o balaço que vinha em minha direção, contra a cabeça do garoto que me acertara. – Agora estou!
E as trapaças apenas continuaram, mas a partir dali foram de ambos os lados. Nós queríamos vencer, mas, não contávamos com um simples fato... para isso nós precisávamos de nosso apanhador inteiro... Entretanto, o que aconteceu foi que eles nos tiraram o nosso. Resultado: 90 a 60 para a Corvinal...
_ Seus ladrões! Trapaceiros! Carter seu idiota, eu vou acabar com você! – urrei correndo contra o capitão do time da Corvinal.
_ Saia Preminger! Vocês perderam, aceitem! – disse ele sorrindo vitorioso.
Eu sabia que iria me encrencar, mas eu simplesmente não poderia deixar Carter sair ileso daquela situação. Então, retirando a varinha rapidamente do meu bolso, eu o azarei, fazendo com que milhões de furúnculos crescessem em seu rosto. Em seguida, o virei de cabeça para baixo, com todos os alunos da Grifinória aplaudindo. Isto é, até a professora Hadassa chegar.
_ Detenção, senhorita Preminger. – disse ela sem rodeios. – E vocês, para os dormitórios! Não há nada para ver aqui. – concluiu ela utilizando o contra feitiço com Carter.
_ Eu? Detenção? Por tentar fazer justiça? Eles trapacearam!
_ Chega, senhorita Preminger! Senhor Dumbledore! – chamou ao vê-lo aproximar-se. – Ficará responsável em vistoriar a senhorita Preminger, enquanto ela limpa todos os troféus, sem magia.
Aquela não foi uma noite feliz, quer dizer, não de um modo geral. Limpar os troféus é uma tarefa praticamente suicida, digo, existem tantos troféus a serem limpos que no meio do caminho você simplesmente se esquecesse do por que levou detenção, seu nome, sua casa e afins... sim, bem dramática. O lado positivo, eu acreditava, era que poderia ficar com Alvo pela primeira vez em meses e isso me fez chegar até a sala de troféus da escola com um enorme sorriso no rosto. Ele estava me esperando com o pano e o balde na mão e mais o sorriso brincalhão nos lábios, uma combinação perigosa.
_ Pronta para pagar por seus pecados? – ele brincara abrindo a porta para mim.
_ Oh, por favor, seja piedoso, senhor. – disse fingindo implorar por piedade.
Ele gargalhou e me entregou o pano com o balde, fechando a porta atrás de si.
_ Não pode usar sua varinha e fingir que fui eu? Daí podemos voltar mais cedo para o dormitório e jogar uma partida de xadrez. – sugeri com um sorriso maroto.
_ Que tipo de monitor você acha que eu sou?
_ Um bem influenciável. – respondi entre risos.
_ Pensei que não estava mais falando com você.
_ Pois é... influenciável. Não consegue resistir ao meu charme. – brinquei jogando o cabelo para o lado.
_ Seu namorado sabe que costuma frequentar o armário de troféus para desvirtuar as mentes influenciáveis dos monitores? – rebateu ele cruzando os braços, também maroto.
Eu ri e me virei para os troféus. Céus, acho que se realmente tivesse me empenhado naquilo, até hoje ainda estaria limpando aquela sala. Contudo, quando estava prestes a alcançar o primeiro na prateleira de cima, vi a mão de Alvo se sobrepondo à minha, me parando.
Lembro que por um momento meu coração quase parara e não houve espaço para respiração. Virando meu rosto para ver a expressão dele, me deparei com os olhos dele já cruzados com os meus à medida que abaixava minha mão e a envolvia com a dele. Sorri de lado, sentindo minha pele formigar, a conhecida aura de poder envolvendo-o como fizera da primeira vez que tentara fazer aquilo. Dessa vez, no entanto, nada o impediu e ele começou a brincar comigo, mordiscando meus lábios, traçando linhas com a boca pelo meu pescoço antes de finalmente me beijar.
Eu deixei um longo suspiro escapar quando ele o fez, passando meus braços pelo pescoço dele, enquanto ele me trazia mais para perto. Então era assim? Eu pensei, ser beijada por quem realmente se ama? Sentir como se de repente o mundo inteiro fizesse silêncio e parasse para observar a cena. E se em algum momento entre aqueles anos eu julgara o beijo de algum dos meus namorados como satisfatórios, o que Alvo e eu dividimos ali superou-os todos em paixão e empenho. Linda tinha razão, ele tinha razão, eu não podia continuar a mentir para mim mesma... não depois de pensar que poderia ter permanecido ali pelo resto da noite.
Contudo, não podíamos...
_ Não. – murmurei colocando uma mão entre nossos rostos. – Não posso...
_ Você me ama, Mélia. – ele dissera com naturalidade.
_ Quem disse? – rebati me fazendo de desentendida.
_ Você.
_ Quando?
_ Quando ao invés de permanecer no seu vagão com seu namorado, você foi até a nossa cabine me procurar, quando ficou toda feliz ao receber meus cartões de resposta, quando não bateu a porta do vestiário hoje na minha cara, como fez com o seu namorado, quando tentou me mandar um milhão de cartas nas férias para tentar falar comigo. Nesse ínterim você estava deixando isso bem claro. – ele respondeu dando de ombros.
Eu sorri e deixei um riso conjunto de uma lágrima escapar dos meus olhos, tornando a beijá-lo e envolvê-lo num abraço de puro saudosismo.
_ Não foi fácil ficar sem meu parceiro de xadrez. – eu disse tornando a fitá-lo. – Mas, ainda assim... eu não posso... Arthur... ele nunca me fez nada para merecer que eu fizesse isso com ele. Quer dizer, eu já fiz, já beijei você, mas...
_ Está disposta a desistir da sua felicidade por causa dele? – interrompeu Alvo sabiamente.
_ O que? Não, não. – respondi de pronto. – Eu só não acho que isso seja certo... não assim... Ai, droga... e as provas são amanhã! Que bela coisa para ficar na minha cabeça para os N. ... Digo, não que eu não tenha... Ah! Merda de dragão!
_ Eu entendo, Mélia. Está dividida entre seus votos de lealdade para com Arthur e ao mesmo tempo sentindo-se seduzida pela possibilidade de realizar seu sonho de ser minha. – ele observara numa perfeita imitação do tom sábio do chapéu seletor.
_ Isso não é hora para as suas célebres imitações. – ralhei sem conter uma risada. – Eu...
_ Não, tem razão, eu não deveria...
_ Não diga isso. – me apressei em dizer num impulso de abraçá-lo outra vez. Nos beijamos uma segunda vez, até que eu nos separei. – É melhor eu voltar ao trabalho.
Entretanto, antes que eu voltasse a pegar um troféu, ele acenara com a varinha e limpara todos sem que eu precisasse mover um dedo.
_ Pode ir, está liberada. – disse sorrindo gentilmente para mim. – Boa noite, Mélia. – completou abrindo a porta para mim.
_ Alvo, eu...
_ Seja qual for a sua escolha, Mélia, saiba que eu não quero mais ficar nesse silêncio com você. Fez tanto mal a mim quanto a você. Haja o que houver, ainda seremos amigos.
Eu sorri uma última vez para ele, acenando positivamente com a cabeça, sem saber ao certo por que.
_ Boa noite, senhor gênio. – me despedi tomando o caminho para o dormitório.
