Capítulo 12

A abstinência do quinto ano fora superada no sexto. Havia mais cartas de Alvo endereçadas a mim do que eu era capaz de ler, e todas com vocativos bastante carinhosos. Entretanto, bastou deixar isso escapar que voltamos a normalidade, mas ainda apaixonados. E, de certa forma, também se notava que falávamos mais sobre o "nosso futuro" do que qualquer outra coisa.

Para minha infelicidade, porém, outra pessoa também começara a falar sobre o meu futuro. Tia Sarah sempre respeitara as tradições da família Preminger, então era claro que cedo ou tarde eu subiria no altar com algum bruxo de puro sangue. Até aquele momento, a identidade do escolhido fora um completo mistério par mim. Talvez, se alguém tivesse me avisado antes, eu poderia ter me preparado melhor para os vários anos que se seguiram. Assim, a minha relação com Alvo permanecia em segredo entre minha família.

Enquanto permanecíamos assim para tia Sarah, para o resto de Hogwarts éramos a maior novidade. Os alunos das outras casas referiam-se a nós como "o casal poderoso", ríamos e apostávamos entre nós sobre quem era o mais poderoso. Já na Grifinória, éramos simplesmente os "Finalmente, eu sempre soube que eles ficariam juntos." Elifas gabava-se por ter sido o primeiro a pensar assim e Linda retrucava que fora ela a responsável pela concessão do irmão.

Dentro desse campo minado, Alvo e eu apenas observávamos dos bastidores, ocupados com a nossa própria felicidade, independente do que os outros achavam. Quando próximos de Linda e Elifas, estudávamos sob o carvalho às margens do lago negro; quando distantes deles, namorávamos sob ele e azaração em quem viesse nos atrapalhar. Era comum também, visto que eu ainda era uma briguenta, pegar detenções apenas para ficar a sós com Alvo.

_ Acho que a professora Hadassa vai me expulsar se eu continuar assim. – comentei enquanto subíamos das cozinhas. Dessa vez, eu passara a noite ajudando os elfos com a bagunça do banquete, enquanto Alvo supervisionava.

_ Você não está fazendo nada de errado. Isso só reafirma que está sendo você mesma. – respondeu Alvo dando de ombros.

_ Ah é? – resmunguei me apressando para roubar o distintivo de monitor dele. – E te irritando? Eu estaria sendo eu mesma?

_ Quer fazer o favor de me devolver, Preminger?

_ Vem pegar, Dumbledore. – provoquei me apoiando na parede mais próxima, esticando o braço com o distintivo para o alto.

_ Isso é ridículo, eu sou mais alto que você. – retrucou ele achando graça.

_ Então vem pegar. – insisti sorrindo inocentemente.

Assim que ele começou a se aproximar de mim, eu abaixei o braço e prendi o distintivo no centro da minha capa, bem acima dos meus seios, o único lugar em que ele ainda não se atrevera a tocar. Contudo, a provocação fora um excelente estímulo.

_ A senhorita me obriga a isso. – ele sussurrara ao meu ouvido enquanto suas mãos não davam qualquer atenção para o distintivo roubado.

Eu ria por dentro enquanto as mãos dele traçavam vários caminhos diferentes pelo meu corpo, até retornarem para o meu rosto e prendê-lo em um beijo. Aquelas noites com certeza criaram uma nova relação entre mim e aquela escola.

_ Com o perdão do casal, - interrompeu Michael Dorny, monitor da Lufa-Lufa.- Mas eu odiaria ter que tirar pontos dos dois.

_ Já estávamos subindo. – Alvo disse sem graça, tornando a prender o distintivo em sua capa.

_ Você, eu sei que estava, Dumbledore. – gracejou Michael, dando a volta.

O conhecido bom humor dos lufanos me fizera gargalhar durante todo o trajeto de volta para o dormitório da Grifinória, à medida que Alvo ficava cada vez mais vermelho. O assunto deve ter sido comentado com Elifas, pois eu nunca o vira me encarar tanto quanto naquela manhã. Contudo, a malícia de Alvo não diminuíra por isso. Com as próximas provas decisivas acontecendo dali um ano, eu tive tempo para aproveitar aquele ano para dedicar minha completa atenção aos meus maiores amores. Meus amigos, meu namorado, o quadribol e as detenções.

Por vezes quem me supervisionava era Emma Meyer... e somente Merlin sabe o quanto eu a fizera sofrer uma vez. Mas, essa narrativa não cabe a esse diário. Então, a exceção das ocasiões em que isso acontecia, Alvo era quem me supervisionava e compensava pelas vezes em que tinha que aturar a presença dela. Foi nessa época que ele me ensinou a usar somente o feitiço de desilusão para ficar invisível, com ele passávamos horas escondidos na Torre de Astronomia.

_ Eu nunca entendi direito como se usa isso. – comentei certa vez, mirando o telescópio que ficava no centro da torre, quando entramos.

_ Como conseguiu passar nas provas, então? – ele me perguntou achando graça do comentário. – Por acaso andou pagando a professora Cassiopéia?

_ Não! A única pessoa que eu já subornei foi você no primeiro ano. – defendi-me cruzando os braços. – E você? Sabe como ele funciona?

_ Mas é claro, por favor, permita-me dar-lhe uma aula de astronomia particular, querida. – ele falou tomando minha mão e me guiando para perto do telescópio.

E então pegamos um dos mapas de Cassiopéia para vasculhar os céus de Hogwarts. Alvo me mostrou a Ursa maior, as estrelas polares, a constelação de Cão maior e até reconheceu algumas constelações que na mitologia trouxa passariam a simbolizar os símbolos do zodíaco. E então, chegamos a Andrômeda.

_ Você conhece a história dela? – ele me perguntou olhando pela lente do telescópio.

_ E isso impediria você de me contar? – retruquei sorrindo.

_ Bem, ela era a princesa de Etíopes. E sua mãe, Cassiopéia, declarou-se mais bonita do que as ninfas marinhas que viviam no litoral. Elas, furiosas, mandaram um terrível monstro devastar a praia. Desesperado, o rei consultou o oráculo, que mandou-o expor sua filha para ser devorada pelo monstro.

_ Excelente família.

_ Pois então, daí apareceu Perseu, o nobre herói que há pouco derrotara a horrenda Medusa, predisposto a ajudar Andrômeda assim que ela lhe revelou seu nome. O rei ficou tão satisfeito que cedeu a mão da princesa como forma de agradecimento. Perseu aceitou e prometeu fazer por merecer o amor de Andrômeda. Na festa de casamento, o antigo noivo dela apareceu e tentou roubá-la de Perseu, mas, ele retirou a cabeça da górgona e transformou-o em pedra. – concluiu ele de forma bastante teatral.

_ Impressionante. – disse. – E você transformaria alguém em pedra por minha causa?

_ Eu não sabia que você era dessas que gostava de trazer a fantasia para a realidade, mas, claro, por que não? – respondeu Alvo piscando para mim.

Passávamos várias noites assim, apenas conversando ou então trocando carícias. Contudo, nada se comparava aos momentos em família. Sim, porque Elifas, Linda, Alvo e eu nos considerávamos a melhor família de Hogwarts. Tanto que já naquele ano, começávamos a comentar sobre aspectos mais certeiros sobre o futuro.

_ Vocês já decidiram o primeiro destino da viagem pelo mundo? – perguntei para Elifas durante uma manhã. Meses antes ele e Alvo decidiram que realmente iriam fazer a viagem pelo mundo, inspirados no primo de Elifas.

_ Nós votamos e chegamos a conclusão de que a Grécia é a melhor escolha. – respondeu Elifas.

_ Ainda há muitos resquícios de magia, especialmente em Atenas. – acrescentou Alvo.

_ Se passarem pelo oráculo, não se esqueçam de perguntar se Amélia Preminger vai conseguir dominar o mundo. – brinquei unindo meus dedos em uma expressão malévola.

_ Nós jamais nos esqueceríamos de fazer a pergunta do século. – queixou-se Elifas fingindo estar ofendido.

_ Sei... já falou com a Linda? – inquiri.

_ Por quê?

_ Por quê?! Ela é sua namorada, homem! – exclamei surpresa com o pouco caso dele.

_ Alvo falou com você? – ele rebateu.

_ É claro, desde o terceiro ano. – afirmei indignada. – Vocês vão vagar pelo mundo e eu vou para a França, vagar por Montmartre.

_ E a Linda vai começar os testes para Auror... olha, eu realmente não entendo por que vocês estão fazendo essa tempestade...

_ Amélia tem razão, cara. Linda vem de uma família tradicional, eles devem esperar que vocês...

_ Eu quero me casar com ela, mas não vejo razão para a nossa viagem atrapalhar isso, quer dizer, vocês não estão preocupados. – observou ele fazendo menção ao fato de Alvo e eu nunca falarmos de nossos planos sobre casamento.

Entretanto, isso acontecera pelo simples fato de ambos sabermos que era impossível. Sendo nascida em uma família de puros sangues, era esperado de mim que me casasse com alguém puro sangue, o que não era o caso dele. É claro, um pensamento extremamente preconceituoso visto que não existe um bruxo atualmente que não seja mestiço, contudo, como eu poderia ir contra algo que já havia sido promulgado antes mesmo de eu nascer? Ainda assim, tentamos lutar contra isso, a nossa própria maneira, mas tentamos. O resultado... bem, o resultado é isso aqui, não é?

E finalmente estou chegando onde os verdadeiros problemas começaram, a metade do sexto ano até o final do sétimo marcou minha vida com o turbilhão de fatos que acarretariam em meu exílio da família Preminger. O dia mais uma vez começa a nascer lá fora e eu ainda não sinto sono, nenhuma vontade de me recolher e interromper essa narrativa. Possivelmente porque é mais fácil continuar depois de ter começado, então prosseguiremos e transcreverei o aconteceu na noite de 12 de Fevereiro de 1897.

_ Está tarde, é melhor irmos dormir. – comentou Hermione interrompendo a leitura de Harry.

_ Mas agora que ia começar a ficar interessante! – protestou Rony.

_ Podemos continuar na semana que vem. – ponderou a morena.

_ Semana que vem?! – exclamou Harry agora indignado. – Acha que eu vou aguentar até semana que vem para saber o que...

_ Vai sim, senhor Potter, porque eu tenho o direito de ouvir, tanto quanto vocês. – protestou Hermione cruzando os braços. – E para garantir... – acrescentou lançando um feitiço de tranca no diário. – Pronto, agora só eu posso abrir.

_ Isso não é justo. – zangou-se Harry.

_ Sem choramingo, para cama! – ordenou Hermione puxando Rony pelo braço para que fossem dormir.

_ Elas às vezes me lembra muito a mamãe. – comentou Gina subindo com o namorado.

_ Verdade, mas não deixe ela ouvir isso, se não vai acabar azarando você. – advertiu ele.

_ E quem disse que eu também não sou boa em azarações?

_ Tem razão. – cedeu o garoto quando entraram no quarto.

_ Olha, eu andei olhando as fotos da Amélia e, não sei por que, mas, ela me parece estranhamente familiar. – comentou Gina.

_ Deve tê-la visto antes no Ministério, quer dizer, se há um retrato, quem sabe se também não há outros... Sem falar na foto com Carlinhos...

_ Não, não é isso... foi em outro lugar...

Harry mirou sua namorada por alguns instantes tentando pensar nas possibilidades. Onde Gina teria visto uma foto de Amélia que não naqueles lugares? Era praticamente impossível tê-la conhecido antes...

_ Tenho certeza de que vai lembrar... Agora, vamos para cama, ruivinha. – disse ele entrando embaixo das cobertas.

_ Boa noite, Potter. – gracejou ela imitando o tom desdenhoso de Draco.

Ele, porém, não conseguiu pegar no sono de imediato. O feitiço de Hermione realmente o deixaria inquieto até o próximo fim de semana.