Capítulo 15

A raiva que estava sentindo de Elinora Hadassa não durou por muito tempo. E não somente pelos fatos que viriam a seguir, mas também porque minha atenção se desviou para outra pessoa.

O mês dos namorados passara e com ele o boato de que Alvo e eu havíamos feito alguma coisa para chatear a diretora da Grifinória. Continuamos com nossas vidas normalmente, com os encontros se dando em plena luz do dia, já que Alvo afirmara que não tinha vergonha de me beijar a vista de todos.

E mais do que nunca a nossa amizade como um quarteto foi revitalizada. Aquele preconceito inicial contra amizades femininas fora potencialmente esquecido, graças a Linda. Nem eu e nem Elifas conseguíamos imaginar nossas vidas sem ela. Até mesmo Alvo encontrara uma parceira intelectual, mesmo que eu ainda fosse a favorita nas partidas de xadrez.

Por fim chegara a páscoa e todos seriam enviados para casa a fim de comemoração. Embora muitos preferissem permanecer na escola, o número de alunos no trem fora surpreendente. Inclusive Alvo e Abeforth resolveram voltar para Godric's Hollow de última hora, o que me pegou completamente de surpresa, já que teria que mandar a minha coruja mudar a rota de entrega dos doces também de última hora.

_ Foi sua tia que a convocou? – indagou Alvo com os olhos presos num livro.

_ Ela insistiu, de fato. Mas tia Sarah nunca me forçou a voltar para casa. – retruquei fingindo estar ofendida com a declaração dele sobre meu desejo de rever minha família.

Na mansão Preminger nós não escondíamos ovos de chocolate pela propriedade, como no mundo trouxa, para que fossem caçados pelas crianças. Mas oferecíamos um grande almoço para toda a família. A cada ano a festa era em uma casa diferente, naquela vez a festa seria dada na mansão em Londres. Tia Sarah sempre valorizava esses eventos como uma forma para demonstrar o quão boa era sua administração da mansão. Todos os elfos ficavam loucos com as ordens surpresa dela, e no que concernia a mim e a meus irmãos... cada um era chamado no gabinete dela para uma conversa.

_ Pode entrar, Amélia. – a voz naturalmente imperativa de tia Sarah é uma das impressões mais vivas que possuo do meu passado. – Sente-se.

Ainda que fosse a mais velha, ela sempre me chamava para conversar por último.

_ Edmundo saiu daqui aos prantos. – comentei ao me sentar. – Devo me preocupar?

Havia momentos em que tia Sarah conseguia deixar sua máscara de ferro cair, mesmo que raros, e eles serviam para me lembrar de que ainda havia um ser humano por baixo daquela estátua. Tudo isso para dizer que ela havia deixado um sorriso escapar no canto dos lábios.

_ Seu irmão insiste em explodir bombas pela casa, e enquanto isso acontecer ele terá que se preocupar. – disse ela tornando a assumir uma postura fechada.

_ Ele tem dez anos, é normal que...

_ Bem, ele terá que abandonar a normalidade por uns dias, até que seu avô vá embora. – concluiu tia Sarah.

O único parente capaz de fazer Sarah Preminger gaguejar era seu pai.

_ Não sabia que ele estava em condições de viajar. – comentei feliz.

_ E alguma doença já o impediu de fazer o que quer que fosse? – exasperou-se tia Sarah suspirando de irritação.

Não. Archibald Preminger ou vovô Archie, como o chamávamos, era o tipo de homem capaz de enfrentar um dragão e ainda ter forças suficientes para uma partida de quadribol.

_ E a senhora já decidiu se vai para a Lua ou para o Chile? – perguntei, sem conseguir esconder meu tom de brincadeira.

_ Amélia...

_ Ué, a senhora sempre diz que quando vovô Archie está vindo, é a hora perfeita para procurar um bom lugar para se esconder. – expliquei fazendo-a corar.

_ Não a chamei para discutirmos isso, Amélia. Há algo mais importante para discutirmos. O seu casamento. – disse ela removendo o pincenê.

Meu sangue gelou.

_ Sei da sua ambição de viajar com Cornélia para a França quando ela finalmente for se juntar ao corpo docente de Beauxbatons. Contudo, você também tem obrigações com a sua linhagem. Para sua irmã eu fiz uma proposta válida e, para que não diga que não sou uma pessoa justa, a repetirei para você. – ponderou ela com as mãos apoiadas sob o queixo.

_ É bom que o senso de justiça continue intacto. – retruquei sem esconder o escárnio.

_ No momento estou fazendo apenas negociações com a família de seu noivo e comentei o espírito livre que você tem.

_ Eu evitaria isso se pretende me casar.

_ O filho deles concordou em lhe oferecer um ano de férias na França, enquanto toma as devidas providências para tê-la em casa. Além disso, deixei claro que as mulheres Preminger sentem necessidade de trabalho e revelei seu desejo de se tornar uma inominável. Eles... ficaram surpresos, é claro, mas me prometeram que não terá problemas em seguir sua carreira. – continuou ela sem dar atenção ao meu comentário.

_ Obrigada. – agradeci prontamente.

_ E agora quero saber de você, aceita os termos? – ela tornou a me ignorar.

Fugir daquele casamento era impossível, mesmo nas minhas condições. As alternativas oferecidas por meu noivo eram justas, um ano era o suficiente para realizar minhas metas no país, além de aproveitar o pouco da companhia livre que ainda me restava com Cora.

_ Aceito. – disse por fim.

_ Sensato. – aprovou tia Sarah tornando a colocar o pincenê. – Agora pode ir, Amélia.

_ Não posso saber a quem devo agradecer pela generosidade? – indaguei.

_ Não até seu aniversário de dezessete anos. Até lá, basta se lembrar de que isso não é um sonho romântico. Você, como todas as mulheres da família Preminger, deve honrar a sua linhagem.

_ Facilitaria se eu soubesse com quem estou condenada a encerrar meus dias. – retruquei gesticulando como Linda me acusara uma vez.

_ Eu não sabia que iria me casar com Edward Selwyn, e isso não me impediu de cumprir meu dever.

_ Eu não sou como a senhora, tia Sarah. – observei corando de raiva.

_ Sim. – concordou seca. – Tem o sangue dos Delacour. Seu pai sempre gostou da garra da sua mãe e isso foi a ruína dos dois...

_ Não ouse! – exclamei empurrando a cadeira.

_ Então saia. – ela ponderou apontando para a porta.

A minha audiência com tia Sarah estava encerrada, a menos que eu desejasse iniciar uma discussão mais cortante que envolvesse o nosso passado. Tais situações eram frequentes entre nós, pois eu defendia minha mãe a qualquer custo e certa vez deixara escapar que ela – Sarah – não entendia o que eu estava passando. A dor nos olhos de minha tia me fez lamentar tais condenações e sempre foi o meu bicho papão... "Eu perdi meu irmão", ela replicara. Todos na família viam testrálios, e a dor de ninguém era pior ou melhor.

Os Preminger eram conhecidos pela rapidez com a qual conseguiam se deslocar de um lugar ao outro, e logo a casa estava cheia de parentes. Tias-avós, primos em segundo e seus conjugues de famílias variadas. Meus favoritos vinham dos Weasleys ou dos Potter, embora os Lovegood também fossem boa gente. Forcei um sorriso para todos, com a conversa com a tia Sarah ainda me atormentando, o único verdadeiro veio ao avistar vovô Archie intimidando o neto, Colin, quanto a se aventurar nos jardins com a namorada.

E a festa continuou normalmente; até a hora de voltar a Hogwarts e encontrar mais uma vez a serenidade. Alvo estava realmente se esforçando para fazer com que eu me sentisse melhor enquanto estávamos dentro do trem. Falava sobre sua família e uma conversa que tivera com a senhorita Bagshot durante o feriado sobre seus N.O.M.s. Elifas não parava de se exibir sobre como sua conversa com o pai com relação a se casar com Linda havia sido um sucesso, e essa nos fez o favor de calar a boca dele com um tapinha atrás da orelha.

Embora a familiaridade com o local e com os amigos realmente fizesse com que eu me sentisse melhor, ainda não conseguia me esquecer completamente dos problemas pessoais que me assolavam. O senhor Gênio, em toda a sua percepção, era incapaz de me deixar sozinha, por mais que soubesse que eu preferisse ficar só quando estava com problemas. E realmente eu estava só quando Elinora chamou-me até sua sala naquela noite de 21 de Abril de 1897.

_ Sente-se, senhorita Preminger. – ela estava absolutamente calma, mesmo que eu a encarasse com indiferença. – Eu... pensei na conversa que tivemos antes do feriado e ainda considerando a atitude da senhorita e do senhor Dumbledore uma afronta, acho que não deveria mas... Bem, eu mudei de ideia quanto a ajudá-los a resolverem seus impasses. – Elinora esperou pela minha reação, provavelmente aguardando um sorriso ou qualquer sinal de aprovação.

_ E o que fez a senhora mudar de ideia? – indaguei curiosa.

_ Com certeza não foi o seu apelo emocional sobre não conseguir dormir sabendo que estraguei sua vida.

_ Entendo... então?

_ Como eu disse, eu conheci Sarah Preminger e ao que me consta eu tenho uma dívida a quitar com sua tia. Que maneira melhor de pagar do que ajudando a sobrinha dela a se safar de um... escorregão. – ela disse colocando um pequeno vidrinho perolado sobre a mesa.

_ Deve ter sido algo grande. – comentei. Havia vários aspectos do passado de tia Sarah que nunca me foram revelados e que eu nunca busquei descobrir, no que concernia a mim bastava saber um pouco sobre a senhora que mantinha a mim e aos meus irmãos a salvo. Nunca imaginei uma Sarah adolescente ou coisa parecida, a visão seria muito perturbadora.

_ Beba assim que chegar ao dormitório. – ela alertou assim que eu alcancei o vidro. – E espero que o delito não se repita.

_ Que eu saiba a senhora removeu todas as possibilidades disso acontecer. – retruquei com ironia.

_ Claro, mas, sendo seu namorado quem é, eu sempre posso ser surpreendida. – ela rebateu com uma pitada de orgulho sob a voz.

_ Não parece tão chateada, professora. – comentei sem deixar o tom dela passar despercebido.

_ Mas estou, senhorita Preminger. Contudo, me apego muito facilmente aos meus alunos e alguns, às vezes, tendem a aprontar tanto que imagino como seria a punição caso fossem meus filhos. – explicou Elinora despreocupadamente.

_ Nada muito simples, suponho. – sugeri sem conter um sorriso.

_ De fato.

_ Podemos nos considerar com sorte, então? – retruquei agora realmente maliciosa.

_ Suba para a cama e faça o que tem de fazer, senhorita Delacour e nada de gracinhas. – finalizou ela me fazendo corar.

Nunca nenhum professor usara o sobrenome da minha mãe comigo antes. Principalmente porque ela havia estudado em Beauxbaton e não em Hogwarts, o que me fez questionar ainda mais o nível de amizade entre Elinora e tia Sarah. Contudo, como eu disse antes, havia vários aspectos sobre o passado de minha tia que eu desconhecia e ainda desconheço. O que me bastou naquela noite foi apenas voltar para a torre da Grifinória, beber a poção e sentir algo crescendo dentro de mim novamente. Na manhã seguinte, até mesmo os sonserinos perceberam meus passos mais leves em direção a aula de Defesa Contras as Artes das Trevas.

_ Devo perguntar? – Alvo indagara quando nos sentamos lado a lado para assistir a aula.

_ Não se preocupe. Digamos apenas que voltei a ser um botãozinho de rosa. – respondi piscando manhosamente para ele.

_ E eu não devo me preocupar? – gracejou ele entendendo tudo.