Capítulo 16
E finalmente chegamos ao sétimo ano. Vésperas de nossas viagens e sonhos prontos para serem realizados. Nada mais nos preocupava, nenhum exame, nenhuma possível gravidez como Elifas passou a brincar, e por um breve período de tempo pudemos ser apenas adolescentes apaixonados pela vida e por sapos de chocolate, sentados a beira do lago negro impedindo que primeiro anistas fossem pegos pela lula gigante. Entretanto, nada marcou mais aquele ano do que o pedido de casamento que Elifas fez a Linda.
Sim, eu sabia que eles acabariam juntos, mas sinceramente julguei que algo tão grandioso só fosse ser feito quando ele voltasse de sua viagem com Alvo. Então, é claro que me espantei quando ele correu para falar comigo na noite anterior a quarta viagem até Hogsmeade. Eu estava sentada perto do fogo terminando mais um calendário lunar, quando ele chamou atenção de metade do dormitório ao gritar meu nome a plenos pulmões.
_ Calma aí, Eli, não precisa lembrar a todo mundo que meu nome é Amélia. – desdenhei deixando os rolos de pergaminho de lado, sabendo que seria inútil tentar continuar aquela altura.
_ Sem tempo para seu sarcasmo, senhorita Preminger, preciso desesperadamente da sua ajuda. – retrucou ele se sentando ao meu lado.
_ Então diga, meu amigo desesperado. – de todos nós, Elifas sempre fora o menos dramático – tirando a vez em que quase arrancou meu braço – então eu sabia que se ele queria dizer alguma coisa, deveria ser importante.
_ Amanhã nós vamos para Hogsmeade e eu quero... bem, eu queria pedir a mão da Linda. – e era. Muito importante. A minha reação foi branda.
_ COMO É?! – exclamei, mais uma vez chamando atenção para nós. – Desculpe, como é?! Amanhã! Doge, essas coisas precisam ser preparadas com antecedência. Especialmente se você quer que seja memorável. Eu podia ter contratado um bufê, reservado mesa num dos pubs, arrumado uma banda...
_ Por que você precisaria de uma banda? – perguntou Alvo, como sempre chegara no momento oportuno.
_ O nosso amigo quer pedir a mão da namorada e acha que vai tornar isso memorável da noite para o dia. – respondi ainda em negação.
_ Para a sua informação, Mélia, eu já tenho todo o esquema preparado. – rebateu Elifas ofendido. – Eu só precisava que vocês distraíssem a Linda por alguns minutos até eu ir pegá-la.
_ E acha que é só você que faz planos para esses passeios? Nós íamos fazer compras na Zonk's. É o nosso último ano, temos que deixar a nossa marca na memória da Sonserina. – eu disse com um olhar maligno na direção de Alvo. Nós havíamos descoberto uma forma de passar pelos monitores e chegar ao andar do dormitório... e estávamos preparando uma surpresinha envolvendo bombas de bosta para as cobras.
_ Suas infantilidades são mais importantes do que ajudar seu melhor amigo? – ponderou Elifas me fazendo corar.
_ Ora, seu... Está bem. O que eu tenho que fazer? – perguntei.
_ Na verdade eu quero a ajuda de vocês dois.
_ Ora, e você achou que ela ia se envolver nessa sem me meter no meio também? – acusou Alvo sentando-se entre nós dois. – Qual o plano, Romeu?
E então Elifas nos contou sobre sua ideia de recriar todo o trajeto que fizera com Linda durante aquele dia dos namorados em que Alvo e eu fingimos que éramos um casal e também passeamos por Hogsmeade. No entanto, agora estávamos realmente juntos e aquilo soava mais como a comemoração de um aniversário. Só que ao contrário do que seria esperado, não seríamos o centro das atenções, mas os anjinhos que cuidavam para que tudo desse certo na vida de outras duas pessoas. É, eu poderia viver com isso. Primeiro deveríamos convencer Linda a nos acompanhar até o vilarejo, nada muito complicado, a desculpa seria afirmar que Elifas estava gripado... da noite para o dia? É senhorita esperta, eu responderia, seu namorado é um péssimo mentiroso. Em seguida, manteríamos a vítima longe do Café da Madame Puddifoot até que o chefe nos mandasse um sinal.
_ E qual vai ser esse sinal? – perguntei já preocupada com as ideias que fervilhavam na mente de Elifas.
_ Vou mandar o Miguel até a Zonk's e ele vai dizer que está tudo pronto. – ele respondeu.
_ E já falou com o Miguel? – quis saber, antes que ele também dissesse que precisava falar com ele.
_ Já, já falei com o Miguel. Só precisei vir aqui para conferir com vocês quando percebi que não poderia resolver tudo sozinho. – eu ainda me sentia ofendida por ele ter recusado aceitar a minha ideia da banda.
_ Bem, você quer que nós mintamos para sua namorada, que a seguremos numa loja de logros por algumas horas e que depois a deixemos em segurança na porta da Madame Puddifoot, é muita coisa, senhor Doge. O que ganhamos em troca? – brincou Alvo lançando um olhar de cumplicidade na minha direção.
_ Eu não conto para o pessoal da Sonserina que vocês querem explodir o dormitório deles amanhã à noite.
_ Justo. – concordamos em uniosso. – Mas, como...?
_ Por que mais vocês iriam querer passar esse dia na Zonk's?
_ Nós o subestimados, querido. – comentei com Alvo.
_ Nunca subestimar o Elifas. – brincou ele fingindo que anotava algo num caderninho. – Bem, vamos dormir, amanhã vai ser o dia mais importante de nossas vidas.
E com o raiar do sol começamos a colocar o plano de Elifas em prática. Como a ideia dele de fingir que estava doente era ridícula para ser crível, parti diretamente para a mesa do café a fim de falar com Linda sobre como seu namorado me parecera muito mal na noite anterior. O sorriso dela sumiu no mesmo instante e eu fiquei realmente mal por estar mentindo descaradamente, preocupada, ela disse que gostaria de subir para vê-lo.
_ Ah, eu acho melhor não! Quem sabe, pode ser contagioso...
_ Eu não tenho medo de ficar doente por causa do meu namorado, Amélia. – ela rebateu convicta.
_ Linda... Eu realmente acho que não é uma boa ideia. Sei lá... pode ser letal!
_ Está dizendo que meu namorado vai morrer?
_ Todos vamos morrer um dia, né? – eu sempre menti tão bem, não entendi porque agora estava fazendo papel de ridícula.
_ Você está estranha, Amélia. Mas não tão fora do seu normal. – comentou ela. – Bem, vamos ter que aproveitar o nosso dia como melhores amigas, então.
Hein?
_ Ah, claro. Podemos ir até a Zonk's, Alvo disse que chegaram mercadorias novas.
_ Entendo, eu vou ter que passar o dia sem o meu namorado, mas você não pode abrir mão do seu. – Linda comentou arqueando as sobrancelhas.
_ Basicamente. – disse.
A partir dali as mentiras começaram a ficar mais elaboradas e logo nós estávamos caminhando em direção ao vilarejo. Somente as duas, pois eu conseguira convencer Alvo a nos encontrar como uma falsa aparição casual. Passamos pelo Três Vassouras e a Dedos de mel, até que por fim adentramos na Zonk's. Ao contrário do que se acredita, Alvo Dumbledore nem sempre foi o mestre das mentiras ou da sutileza. E assim que nos viu, agiu como se nos esperasse há um bom tempo... Embora eu tenha pedido para que parecesse um encontro casual.
_ Ela tinha me dito que você ficou com Elifas na enfermaria. – observou minha amiga, fazendo Alvo recuar alguns milímetros.
_ Ah, ele me pediu para vir e garantir que vocês não se preocupassem. Está tudo bem com ele, é só um resfriado a toa. – mentiu ele descaradamente.
_ Bem, então... Vamos olhar essa mercadoria nova. – alegrou-se Linda, ainda que desconfiada.
_ Você precisa aprender a mentir melhor. – ralhei quando conseguimos alguns segundos sozinhos.
_ Ah, então me dê um curso sobre, professora. – retrucou ele me empurrando para voltar a ficar perto dela.
Compramos todas as bombas de bosta que seriam necessárias para fazer com que a Sonserina se lembrasse de nós para sempre, mesmo que Linda tivesse tentado nos dizer que era uma ideia totalmente absurda, era tarde demais. Ficamos com as sacolas cheias e já não dava mais para dizer que a loja de logros continuava a ser um fator interessante para distração. Então, dei graças a Merlin quando vi Miguel se aproximando de Alvo e murmurando algumas palavras.
_ Por que não vamos até o Madame Puddifoot? – sugeriu o senhor Gênio, sem esperar resposta, nos puxando para fora dali.
_ Meu braço! – reclamei tentando me soltar. Elifas estava parado na porta do bar, o que fez Linda olhar para nós como quem desmascarava uma criança prestes a fazer uma travessura.
_ Eu sabia que havia coisa errada. – disse ela dando o braço para o namorado.
_ Eles apenas estavam me ajudando a fazer uma pequena surpresa... – começou Eli, ficando imensamente vermelho.
_ O que?
_ Vamos entrar. – convidou ele abrindo a porta para ela e mirando Alvo com significado antes de segui-la.
_ E nós vamos...
_ Venha!
Certo, alguma coisa estava realmente errada naquilo tudo e eu sinceramente não queria ficar para descobrir o que era. Mas, é claro que meu namorado não me deu escolha.
_ O que foi? Quantas vezes vou ter meu braço potencialmente arrancado?
_ Precisamos arranjar uma coisa com a cozinheira antes. – disse ele retirando uma caixinha preta de dentro do bolso da blusa. – Elifas me deu o anel e pediu para que eu garantisse que ele chegasse de surpresa na mesa, junto com o doce de ânfora. – a joia era simples, mas muito bonita.
_ Doce de ânfora? Sério? Foi isso o que eles comeram no primeiro encontro?
_ Algo contra?
_ Bem, entre torta de caldeirão de chocolate e algo que parece mingau... eu prefiro a torta, mas, enfim, vamos resolver isso então.
E a partir daqui tudo ficou interessante. Assim que entramos na cozinha, Madame Puddifoot ficou escandalizada com a nossa ousadia e insistiu para que saíssemos logo. Após explicar detalhadamente a situação, Alvo insistiu que precisávamos muito ficar ali atrás e garantir que tudo saísse perfeito para o nosso amigo. Contudo, não esperávamos que a velha senhora fosse dizer:
_ Sinto muito, crianças, mas, o doce que vocês requisitam saiu do meu cardápio há um ano. Mas, se quiserem outra coisa, eu posso...
_ Não, a senhora não está entendendo! Tem que ser exatamente como da primeira vez, se não o meu amigo vai perder a mulher que ele ama! – a dramatização sempre foi um ponto alto na eloquência Preminger.
_ Não há nada que a senhora possa fazer? Digo, ainda tem a receita guardada...
_ É! Eu posso fazer o doce! – aquilo não era o que Alvo tinha em mente.
_ Você? – ele me fitou por milésimos de segundo até perceber que eu estava tentando gerar comoção. – Ah, sim, a Amélia pode fazer, para não incomodar os seus elfos...
_ Hum... Bem, eu posso checar. Só um minuto. – disse ela fechando a porta de seu escritório.
_ Que ideia é essa? Você não sabe cozinhar, Amélia. Tem uns mil elfos trabalhando na sua casa que a poupam disso.
_ Não deve ser tão difícil, é igual poções. Você mistura um tanto de coisas e elas viram outra!
_ Ai se os preparadores de poções pudessem ouvir você agora...
_ Enfim, Elifas está contando com a gente e não podemos decepcioná-lo.
_ Ué, você queria deixá-lo para pregar peças na Sonserina...
_ Sim, mas depois eu mudei de ideia. Isso também é importante!
_ O que? Provar que você sabe fazer tudo?
_ Sim. Não! Ajudar o Elifas!
_ Tudo bem, vamos cozinhar.
_ Ah, aqui, meus caros. Para a sorte de vocês. – disse a velha senhora retornando com a receita em mãos. – Se precisarem, meus elfos estarão à disposição.
_ Não se preocupe, minha namorada gosta de fazer tudo sozinha. – ironizou Alvo.
_ Nem tudo, meu amor. – eu retruquei fuzilando-o com os olhos. – E eu gostaria muito que me ajudasse aqui.
_ Tudo para impedir que a cozinha da Madame Puddifoot exploda. – disse ele bagunçando meu cabelo.
A princípio a receita parecia ser bem simples, e de fato era, mas colocar uma garota filha de puros sangues dentro de uma cozinha e esperar que ela já soubesse como tudo ali funcionava, era a mesma coisa que sonhar com tia Sarah distribuindo flores no natal. Contudo, para minha sorte, eu arranjara um excelente ajudante. Mas é claro que com uma irmã mais nova doente e uma mãe constantemente ocupada, Alvo sabia exatamente o que fazer dentro de uma cozinha.
_ Me passe aquele pote, Mélia. Por Merlin, Abeforth já estaria doido se estivesse aqui. – gracejou ele tomando o bote para bater as gemas da minha mão.
_ Então eu deveria agradecer por ter escolhido o irmão paciente? – brinquei enquanto o observava batendo. Ele se limitou a sorrir para mim. – Até o momento eu não estou aprendendo nada, professor.
_ Mas vai aprender agora. – disse ele. – Pegue três cubos de açúcar e jogue-os naquela panela ali e mexa sem parar, precisam cristalizar sem queimar.
_ Parece complicado.
_ É só pensar que está fazendo a poção do morto vivo, querida. – ele tornou a brincar. Como conseguia ser tão chato?
Por fim, conseguimos terminar o doce sem maiores acidentes do que eu ficar completamente suja de açúcar. Entretanto, ainda não poderíamos respirar em paz.
_ Ops.
_ O que quer dizer com ops, Alvo? – perguntei já colocando a mão no prato com o doce.
_ O anel... não o guardei na caixinha depois que te mostrei e não está mais aqui. – ele respondeu olhando para os potes sujos.
_ Simples! Usamos um Accio...
_ E se estiver dentro do doce? Vai arriscar estragar a massa?
_ Prefere ver nossos amigos morrendo engasgados?
_ Accio! – conjurou Alvo dando-se por vencido. E o anel saiu de dentro do doce de ânfora e voou para a minha mão... no mesmo instante em que Linda invadiu a cozinha.
_ Está demorando... Que anel é esse?
_ Anel? – eu repeti sorrindo sem jeito.
_ Eu não acredito que você ia pedir a mão dela escondido de nós! – Linda estava irritada, Elifas estava a ponto de ter um colapso e eu só queria me limpar. – Na verdade, eu achei que vocês não iam...
_ Mas...
_ Era para ser surpresa, Linda. Quer diz, eu sei que é contra as regras, porque eu sou mestiço... Mas, o que podemos fazer...?
_ Seu traidor, duas caras, Judas! – eu juro que nunca mais vi o Elifas tão vermelho.
_ O que foi, Elifas? – indagou Linda, confusa.
_ O anel é meu, digo, é seu, Linda! Eu pedi para eles me ajudarem a... a arrumar tudo para...
_ Para quê, Elifas?
_ Alvo. – ele pediu o anel. – É... Linda, eu sei que nós combinamos em fazer isso quando eu voltasse da viagem com Alvo, mas, eu só...
_ Fala logo. – murmurou Alvo impaciente.
_ Linda você quer se casar comigo?
A cena foi engraçada. Estávamos parados entre a porta da cozinha e os fundos do salão do Café da Madame Puddifoot. Alvo e eu estávamos um pouco – muito – sujos e Elifas esperava a resposta de Linda num misto de expectativa e derrotismo. Eu jamais a culpei por ter deixado uma risada alta escapar antes de responder.
_ Elifas Doge... Nada me deixaria mais feliz!
Terminamos aquele dia comemorando na porta do dormitório da Sonserina, ouvindo os alunos gritando do lado de dentro e ninguém nunca soube o que aconteceu.
_ Moral da história? – perguntou Alvo quando já estávamos sozinhos jogando xadrez.
_ Qual é, meu caro?
_ Nunca deixar você cozinhar.
E foi a minha vez de me limitar a apenas um sorriso, enquanto o impedia de ganhar aquele jogo.
