Capítulo 17
Os dias frios começaram a chegar ao final daquele ano e com eles vieram grandes mudanças. Parece até um clichê pensar assim. Eu passei metade da minha infância e adolescência lendo sobre as epopeias de heróis, cujas vidas sofriam grandes mudanças nos momentos em que tudo parecia estar mais perfeito, mas nunca imaginei que, mesmo sendo uma bruxa, algo dessa magnitude pudesse acontecer comigo. Entretanto, estive em meio a tantas reviravoltas e guerras quanto é possível lembrar.
Orgulho-me da participação que tomei no progresso. Sempre acreditei que vivemos para causar impacto no mundo, benéfico ou maléfico, deixar que outros façam história é o mesmo que permitir que outra pessoa viva a sua vida. E posso afirmar com certeza que, mesmo sendo herdeira de um nome de puros sangues, não permiti que ninguém mais vivesse por mim. Houve momentos de fraqueza, como para toda jovem, mas me muni de amigos verdadeiros capazes de me ajudarem a enxergar a luz mesmo nas horas mais sombrias.
Julho marcava uma época feliz para mim e Alvo, mês dos nossos aniversários. Na minha família, apesar das desavenças, era comum sempre marcarmos essas datas com um jantar, mas, aos dezessete anos, na maioridade bruxa, fazíamos diferente. Um grande baile para apresentar a sociedade, como valor de troca, a mais nova mulher da família Preminger. Confesso que quando fiquei sabendo disso pela primeira vez, quis ficar mais velha no dia seguinte, só para ter um baile em minha honra... como somos ingênuos quando jovens...
Ainda assim, fiquei satisfeita com a chegada da carta de tia Sarah me avisando que os meus amigos de Hogwarts que fossem comparecer ao evento, poderiam passar os dias que antecederiam a festa na mansão. Linda ficou encantada com a perspectiva de conhecer a minha casa, visto que seus pais haviam falado muito sobre a propriedade da família. Elifas e Alvo ficaram emocionados com a possibilidade de conhecer a minha tia, o que me deixou ainda mais ansiosa para o dia.
_ Você nunca descreveu ela fisicamente, Mélia. – observou Elifas, já quando estávamos dentro do trem.
_ Isso, Amélia, conte como é o monstro. – Alvo também brincou.
_ Bem... ela é alta, magra...
_ Mais que o Alvo? – Elifas fingiu seriedade.
_ Não...
_ Ah, então você está me chamando de vareta... senhor músculos.
_ Ei, eu...
_ Rapazes! – interrompeu Linda achando graça. – Continue, Mélia.
_ Não, não... vocês vão vê-la com seus próprios olhos. – retruquei querendo evitar uma nova discussão.
E viram mesmo. Ao chegarmos em Kings Cross, tia Sarah já estava a nossa espera com a sua habitual expressão indecifrável. E finalmente o fantasma do qual eu tanto falava e que tanto lembro, tomava forma para meus amigos. Sim, ela era alta e magra, mas, ao contrário das velhas que assombravam as garotinhas nos livros, minha tia estava longe de não ser atraente aos olhares externos. Os cabelos eram castanhos amendoados, como os meus e olhos eram de um tom verde bem ácido, herdados do meu avô. Mas, o que marcava tia Sarah era sua voz.
_ Amélia. – gutural, imponente e ao mesmo tempo melodiosa. – Despediu-se bem da escola?
_ Vai ser uma lástima não voltar nunca mais. – acrescentei com pesar.
_ Não fique assim, a tristeza não faz bem a você. – respondeu minha tia com a naturalidade de sempre. – E estes são os amigos que convidou para a festa...
_ Exato. Tia Sarah eu gostaria de apresentar Alvo Dumbledore, Elifas Doge e Linda Doyle. – disse apontando para cada um.
_ Senhora Preminger. – cumprimentaram meus amigos em uniosso.
_ Pelo visto minha sobrinha deixou escapar que não me chamam de senhora Selwyn na família. – observou tia Sarah reprimindo uma risada. – Bem, é um prazer. Senhorita Doyle e senhor Doge, acho que devo cumprimentá-los, tomei chá com sua mãe há dois dias e ela me contou sobre seu noivado.
_ É muita gentileza sua, senhora Preminger. De fato, foi uma surpresa muito bem bolada pelo meu noivo, e Amélia e Alvo o ajudaram. – agradeceu Linda nervosa.
_ Fizemos o trabalho sujo. – brinquei trocando olhares significativos com Alvo.
_ Bem, fico contente que tudo tenha saído como planejado. – mas seu tom deixava claro seu desinteresse. – Vamos, senhores.
Seguimos até o lado trouxa da estação e peguemos um trem para Bath, quase não conversamos durante o caminho, devido ao embaraço causado pela presença de minha tia. Contudo, logo que chegamos até a cidade, tomamos o carro até a mansão Preminger e tudo se resolveu. Uma construção imponente próxima da cidade, é claro que os turistas ainda hoje ficam impressionados com a construção Vitoriana. Um lar... do qual sinto saudade. Embora saiba que não é o mesmo sem Cornélia tocando o piano, Edmundo correndo pelos corredores, Colin contando piada com os empregados e mesmo com os passos rápidos de tia Sarah pelo corredor... É duro viver mais do que a sua família.
_ Você cresceu aqui? – indagou Linda admirada com a beleza do jardim na entrada. Era um labirinto enorme, no qual Colin gostava de se perder com suas namoradas... até Lilian.
_ Amélia nasceu na casa de praia, senhorita Doyle, e existem outras mansões ao redor do mundo, mas, a casa de Londres sempre se pareceu mais com um lar. – comentou tia Sarah antes que eu pudesse responder.
_ Sim, os cômodos são mais aconchegantes. A casa na França parece...
_ Um bordel. – concluiu tia Sarah com desgosto.
_ Tia Sarah. – ralhei sendo reprovada por olhos ácidos. – A casa de tia Olímpia não se parece com um bordel.
_ Ah, você nunca admitiria nada contra aquela mulher. – desdenhou minha tia.
Alvo estava prestes a retrucar em meu favor, mas eu o silenciei com um aperto de mão.
_ Bem, subam. O jantar é às oito horas, não se atrase, Amélia. – lembrou tia Sarah quando estávamos subindo para o meu quarto.
Ainda me lembro de que sempre que chegava em casa, no meu quarto havia novas flores no vaso perto da janela e uma caixa com caldeirões de chocolate sobre o travesseiro na cama, cortesia dos elfos. Eu costumava deixar um galeão embaixo de cada travesseiro para cada um dos que arrumavam meu quarto... tentei convencer meus irmãos, mas eles acharam que era desnecessário.
_ Espera! – gritou Rony, assustando Harry.
_ O que?
_ Isso é muito Hermione. – comentou o ruivo.
_ E daí? Eu fico feliz em não ter sido a primeira a perceber que os elfos mereciam uma vida melhor. – retrucou Hermione com orgulho.
_ Bem, mas mesmo assim... E Mione, você tem olhos amendoados...
_ São castanhos, Rony...
_ Sim, mas, são meio amendoados...
_ Onde você pretende chegar? – indagou Gina com impaciência.
_ Aff... o seu irmão passou a noite passada tentando me convencer que a Hermione era parente da Amélia. – explicou Harry com descaso.
_ Mas faz sentido... nós somos! – ressaltou Rony apontando para si e para o amigo.
_ Somos puro sangue. Também somos parentes dos Black e dos Malfoy... a Hermione é... trouxa, sem ofensa, Mione. – lembrou Gina sem jeito.
_ Tudo bem. – tranquilizou-a a amiga. – E, francamente, Ronald, não há relatos de outros bruxos na minha família, só eu!
_ Ainda assim, eu acho que...
_ Cale a boca, continue Harry. – censurou-o Gina, dando espaço para Harry continuar sua leitura.
Linda queria mexer em todos os meus pertences e tentar simular uma manhã na minha vida, o que Elifas achou muito engraçado. Alvo, no entanto, se concentrou no fato de que uma música estava ressoando pelas paredes desde a nossa chegada.
_ É a Cora. – sussurrei no ouvido dele. – Sempre toca antes do jantar e quando estou em casa, sempre escolhe as minhas favoritas. Essa é Wild Rose. – acrescentei.
_ Não quer descer para ouvir? – ele sugeriu.
_ E nos apresentar a sua irmã. – acrescentou Elifas.
_ Ainda não terminei de ver os vestidos dela... mas, por que não? – brincou Linda fechando meu armário.
Cornélia sempre amou a música e a usava como um escudo contra as palavras de nossa tia, mesmo que elas raramente viessem para ela. Ainda assim, minha irmã gostava de fazer parecer que também era uma perda de tempo para nossa protetora e sendo assim, realmente minha irmã. Bem como a voz de tia Sarah , a visão de Cora sentada ao piano também é uma forte lembrança. Os dedos leves nas teclas brancas e os olhos baixos, com as sobrancelhas arqueadas, como se nada mais importasse.
_ Papai adorava essa música. – comentei quando ela terminou.
_ Amélia! – alegrou-se Cora, correndo para me abraçar. – Que bom ver você! E...
_ Olá, eu sou Elifas Doge e essa é minha noiva, Linda Doyle. – apresentou-se ele apertando a mão da minha irmã.
_ Olá, é um prazer conhecê-la. Amélia sempre falou muito bem de você. – cumprimentou Linda.
_ O prazer é todo meu. E você deve ser Alvo Dumbledore. – falou minha caçula com um brilho esperto nos olhos.
_ Ah, sim, muito prazer. Um belo instrumento e você toca muito bem. – elogiou Alvo.
_ Obrigada. É uma honra ouvir isso do garoto que obteve mais N.O.M.s do que a nossa Amélia. – observou Cora.
Elifas e Linda riram, enquanto Alvo e eu trocamos olhares nervosos que pareceram divertir a minha irmã. Não dividi meu segredo sobre namorar Alvo com ninguém da família, então, é claro que dei o merecido mérito a Cornélia, quando ela descobriu por si mesma. Em seguida a conversa prosseguiu normalmente, com meus amigos perguntando coisas embaraçosas a meu respeito, o que, graças a Merlin, Cora recusou-se a revelar, pois eu sabia mais sobre ela e com a chegada repentina de Edmundo, que correu para se sentar ao meu lado.
_ Tia Sarah disse que se receber mais uma carta da diretora sobre mim, ela vai me proibir de brincar com as bombinhas. – contou ele aflito.
_ Não se preocupe, eu te ajudo a esconder algumas. – garanti desarrumando o cabelo dele. – Ed estuda em Beauxbatons.
_ Só você foi para Hogwarts? A ovelha negra da família. – brincou Elifas.
_ Era desejo de papai que ao menos um de seus filhos fosse para a escola que ele frequentou. E como Amélia era a mais velha e... a única que sofreu mais influência dele...
_ Sinto pela morte de seus pais, Cornélia. – disse Linda.
_ Não se preocupe, Linda. É só que...
_ Quando a casa está prestes a ficar cheia, sempre temos a sensação de perda. Como se nada fosse ser tão divertido sem a presença deles. – expliquei. – Mas, ora, vai ser o meu leilão, Cora, vamos ficar alegres e pensar em quem daria o maior lance.
_ O vovô Archie disse que vai oferecer cem mil galeões pela primeira valsa. – respondeu Edmundo empolgado.
_ O vovô não precisa pagar para dançar comigo. – rebati.
_ É, mas ele disse que ninguém superaria esse lance. – explicou Edmundo. – E os seus amigos?
_ Elifas não pode dar um lance sem parecer um traidor. – falei mirando-o com malicia. – E Alvo...
_ Estou liso. – completou ele piscando marotamente para o meu irmão.
_ Acho que Amélia não se importaria em fazer as honras de graça dessa vez. – comentou Cora voltando para o piano.
Alvo sorriu para mim à medida que eu reprimia minhas bochechas de corarem.
_ Cora, ainda conhece aquela canção? Aquela que a tia Sarah odeia. – perguntei indo me sentar ao lado dela.
_ É claro. – disse minha irmã como se eu a tivesse ofendido. – Vamos. Senhores, eu gostaria de registrar que minha irmã nunca é vista tocando e que, no máximo, ela conhece duas músicas. Então se considerem com sorte, pois verão as irmãs Preminger tocando. – anunciou Cora tentando manter-se séria.
A música em questão resumia muito bem o que nós sentíamos sem relação aos nossos casamentos arranjados. Minha tia não gostava dela pois era verdadeira e ao mesmo tempo assustadora. Contudo, nós não conseguíamos nos conter em cantá-la próximo aquelas ocasiões. Nós ríamos enquanto a cantávamos, mas assim que ouvimos o berro de tia Sarah, paramos e começamos a gargalhar ainda mais alto. Meus amigos e meu irmão ficaram desconfortáveis com a situação, mas nada disseram, não precisaram. Então, seguimos aqueles dias até a hora da festa.
Linda queria que eu usasse algo mais ousado e vermelho, mas minha irmã deixou transparecer que se por acaso Amélia Preminger fosse vista descendo as escadas do grande salão vestindo algo parecido, meus parentes achariam que eu estava sob o domínio da maldição imperius. E era bem uma verdade. Além disso, eu já havia escolhido o meu vestido durante o feriado da Páscoa. Um modelo típico inglês de ombros à mostra e mangas longas, todo bordado em azul escuro, esvoaçante.
_ O que nós vamos fazer com o seu cabelo? – indagou Lilian. A namorada do meu primo chegou mais cedo para me ajudar e estava deixando Cora e Linda chateadas com a monopolização.
_ Eu tinha pensado em um arranjo com pérolas. – sugeriu Cora.
_ Ou então um coque clássico com as flores. – interveio Linda.
_ E o que eu acho? Conta? – perguntei nervosa.
_ Não. – responderam as três.
_ Obrigada. – desdenhei revirando os olhos. – Meninas, sério... eu estou bem... E eu vou usar o arranjo da mamãe no cabelo.
_ O que? Não mesmo...
Virei-me tão bruscamente para mirar Lilian que ela se afastou alguns centímetros.
_ Muito bem... Amélia tem tudo sob controle... Vamos embora. – entendeu Cora, empurrando as duas para fora do quarto.
Um lado positivo de ser bruxa, é que você sempre pode contar com magia para ajeitar seus cabelos rebeldes. Minutos depois, o arranjo de brilhantes da minha mãe estava posicionado no coque, eu já havia colocado o vestido, os sapatos e estava literalmente pronta para dançar. Contudo, o mesmo não poderia ser dito das minhas convidadas. A família Preminger, embora pontual, era cheia de mulheres vaidosas, mesmo tia Sarah, o que deixou a casa vazia para mim enquanto esperava por eles.
Toda aquela ansiedade realmente lembrava o dia do enterro dos meus pais. Estavam a poucos metros da propriedade, o que conferia um ar quase assombrado a mansão. Entretanto, nenhum fantasma nunca foi encontrado... eles teriam prosseguido. A sala do piano possuía a melhor vista para os jardins... Sentei-me na banqueta enquanto esperava. Embora não tocasse muitas canções, o instrumento de minha irmã continha uma simbologia muito especial para mim...
_ Mélia. – chamou Alvo entrando na sala. Estava lindo no seu traje a rigor negro.
_ Sente aqui. – convidei dando espaço na banqueta, ajeitando meu vestido.
_ Você está linda. – ele disse ao se sentar.
_ Acha que vai ser o bastante para eles? – brinquei.
_ Ora... se não for, eu anuncio os grandes idiotas que eles são. – ele respondeu me fazendo rir. – Aquela música que você estava tocando com sua irmã... era bastante triste, não me admira que sua tia não goste.
_ Não era nada... só uma brincadeira... – comentei tentando desviar o assunto, mas ele estava sério. – Minha tia Olímpia não era feliz no primeiro casamento e, um dia, Cora e eu perguntamos a ela porque havia se casado com o nosso tio. Ela respondeu que, na época, só estava pensando nos belos vestidos que usaria e nas coisas bonitas que teria. A conversa nos inspirou para toda a letra da música. Quando tia Sarah ficou sabendo, brigou muito com tia Olímpia e é por isso que vive falando mal dela...
_ E qual é a outra canção? – quis saber Alvo dedilhando as notas sol e la.
_ Na verdade, é uma longa história...
_ Antes de descer eu ouvi Linda falando com Cora sobre um corpete novo, então acho que ainda temos tempo. – insistiu ele risonho.
_ Certo. – concordei, tomando fôlego para começar. – Quando meus pais morreram, tia Sarah foi a primeira a saber e correu para cá. Eu chorei até pegar no sono naquela noite. No dia seguinte, o funeral aconteceria aqui no jardim da mansão e a casa estava tão silenciosa quanto agora... e eu corri para cá. Eu nunca soube por que, mas sempre me recolhi nesta sala quando estava triste... talvez porque na biblioteca a vista não seja tão bonita. De qualquer forma, fiquei observando o piano e me lembrando de como a mamãe se sentava aqui para tocar... quando dei por mim, tia Sarah estava do meu lado. Começou a tocar e a me ensinar essa canção...
"Nossa relação nunca foi boa, desde que eu era criança. Contudo, eu sempre penso que naquele dia, por menor que tenha sido aquele momento, ela realmente chegou a se importar comigo de verdade... a me amar de verdade. Eu era apenas a sobrinha mais velha dela e ela era minha tia, não a Amélia e a tia Sarah Preminger. É a lembrança mais feliz que tenho dessa casa desde que eles partiram, de verdade."
Alvo não me abraçou e eu sempre o agradeci mentalmente por não tê-lo feito. Falar sobre aquilo me deixava... me deixa muito sensível, pensar que nem sempre tia Sarah foi uma muralha inalcançável. Bem, depois de ouvir a história, ele insistira para que eu tocasse a música de Sarah, e acabei cedendo.
_ I've been living with a shadow overhead
I've been sleeping with a cloud above my bed
I've been lonely for so long
Trapped in the past, I just can't seem to move on
I've been hiding all my hopes and dreams away
Just in case I ever need 'em again someday
I've been setting aside time
To clear a little space in the corners of my mind
All I wanna do is find a way back into love
I can't make it through without a way back into love
I've been watching, but the stars refuse to shine
I've been searching, but I just don't see the signs
I know that it's out there
There's got to be something for my soul somewhere
I've been looking for someone to shed some light
Not somebody just to get me through the night
I could use some direction
And I'm open to your suggestions
All I wanna do is find a way back into love
I can't make it through without a way back into love
And if I open my heart again
I guess I'm hoping you'll be there for me in the end. – cantei, escondendo algumas lágrimas que se formaram.
_ Acho que agora... sempre que eu precisar me sentir melhor, sei de qual canção lembrar. – comentou ele dando um beijo na minha testa.
Os convidados começaram a chegar em massa e aquilo pareceu deixar Linda ainda mais ansiosa do que eu. Naquela noite, eu descobri que minha melhor amiga tinha uma pequena síndrome de cumprimentar muitas pessoas ao mesmo tempo, o que gerou muitas cenas constrangedoras brilhantemente contornadas por seu noivo. Alvo, ao contrário, estava se saindo muito bem, como se aquela festa fosse sua. Tia Sarah havia me mandado ficar escondida no meu quarto até ser anunciada para descer com vovô Archie.
_ Amélia! Olhe só você! Está mais bonita que a sua mãe! – cumprimentou meu avô, beijando-me as bochechas à moda francesa. – Não deixe Cornélia me ouvir...
_ Ela não se importa. – respondi meigamente. – Edmundo disse que o senhor está disposto a pagar cem mil libras pela minha cabeça... isso não seria incestuoso? – brinquei. Vovô Archie deixou escapar uma de suas famosas risadas estrondosas.
_ Você perguntou isso ao seu irmão? – ele devolveu maroto.
_ Não, deveria?
_ Não sei... minha filha cria vocês como se fossem monges, isso está errado, mas nunca consegui explicar nada quanto a isso a Sarah. – comentou vovô. – Só espero que ela tenha escolhido o rapaz certo para você... Se não bonito, pelo menos com um bom senso de humor, igual ao seu avô.
_ Archibald Preminger, o senhor sempre foi um homem bonito. – retruquei numa imitação perfeita do tom da vovó Moira.
_ Obrigado, minha querida, mas assim como a sua avó, você é muito gentil e uma excelente mentirosa. – rebateu ele.
_ Eu não contaria com isso. – disse corando, lembrando-me das vezes que mentir bem me fez falta.
_ Bem, pelo menos nunca mentiu bem para o seu avô. – gracejou ele. Rimos juntos. Vovô Archie tinha o bom humor do meu pai... uma pena que viveu mais do que o filho... talvez eu tenha herdado esses anos dele. – Opa, hora do show. – ele disse ao ouvir a voz de tia Sarah. – Pronta?
_ Promete me segurar com força enquanto descemos?
_ Como seguraria um Rabo Córneo teimoso. – garantiu ele me oferecendo o braço.
Se um bando de dementadores está prestes a sugar a sua alma, você ainda consegue achar a varinha e liquidá-los. Contudo, se metade da população mágica está ao pé da escadaria principal da sua casa, você não consegue se lembrar qual pé vai a frente, muito menos o seu nome. Nunca entendi porque as pessoas aplaudem em festas de debutante... eu não era um membro ativo do ministério ainda, não havia feito nada de importante... se bem que entrar naquele vestido e conseguir andar sem tropeçar, realmente deveria ser visto como um grande feito. Esperava reconhecer o noivo que tia Sarah havia escolhido de cara... ele estaria olhando para mim? Todos me olharam com cobiça naquela noite, inclusive um amado par de olhos azuis brilhantes.
_ Eu poderia ter a honra? – perguntou meu avô em tom solene.
_ Claro. – fiquei imensamente aliviada por ele ser meu primeiro parceiro da noite. Os outros casais nos seguiram e logo eu deixaria de ser o centro do universo.
_ Posso interromper, senhor Preminger? – perguntara um rapaz alto de olhos muito azuis e cabelos quase brancos. Malfoy. Septimus Malfoy.
_ Mas é claro, Septimus. Cuide bem dela. – disse meu avô me lançando um olhar de "boa sorte, Amélia."
_ Incrível o que uma mudança de penteado pode fazer a uma mulher. – comentou Septimus ao tomar minha mão.
_ Incrível como os rapazes de hoje estão dispostos a fazer elogios. – devolvi com ironia. – Pensei que já estivesse noivo, Septimus.
_ E isso não vai me impedir de dançar com uma mulher bonita, Amélia. Ainda mais com tantos olhos ambiciosos sobre a sua pessoa. – comentou ele me girando.
_ E que vença o melhor lance? – indaguei com uma risada zombeteira.
_ O melhor lance já foi dado, mas não serei eu que irei estragar a grande surpresa da noite, não é?
_ Não... você não parece ser o tipo de pessoa que estraga surpresas, Malfoy. Contudo, ouso dizer que se eu fosse fácil, você gostaria de estragar outra coisa mais... interessante? – observei com as sobrancelhas arqueadas. Eu perdi minha virgindade e voltei a ser virgem... o que me impedia de brincar com isso?
_ Meu amigo jamais me perdoaria. – desculpou-se ele.
_ Ah, então estamos falando de um Rosier, Black ou um Lestrange?
_ Você é tão esperta quanto bonita, minha cara. Meu amigo nunca ficará entediado. – pontuou Septimus se aproximando da minha orelha. – E não se preocupe, ele está ansioso para ter esse momento com você... Amélia. – acrescentou, se afastando em seguida. – Excelente dança.
_ Você também não foi mal. – elogiei com uma reverência.
_ Minha vez! – exclamou Elifas aparecendo de súbito do meu lado.
_ Elifas. – repreendi rindo. – O que? Você é noivo!
_ O Malfoy também... qual é! – insistiu ele me puxando. – Seu melhor amigo merece uma valsa.
_ Meu melhor amigo merece um tapa. – brinquei permitindo que ele conduzisse. Olhando discretamente para os lados, pude perceber que Linda e Alvo também dançavam muito próximos a nós. – Ela está linda.
_ Ela é Linda e se chama Linda, os pais dela não foram muito criativos, eu sei. – brincou ele me girando. – Alvo disse que se não conseguir a próxima dança, vai ficar muito chateado.
_ Eu também vou ficar chateada se não conseguir pisar no pé dele hoje.
_ Ah, não se preocupe, está se saindo bem. Mas, cá entre nós, eu também não sou o maior pé de valsa do mundo bruxo, então...
_ Está muito engraçado hoje, senhor Doge.
_ É essa roupa idiota... e essas pessoas me olhando... eu fico sem jeito.
_ Então me deixe salvá-lo. – disse Alvo colocando a mão no ombro dele. – Ainda não tive o prazer de dançar com a aniversariante. – comentou me olhando com um brilho obscuro nos olhos.
_ Toda sua, meu caro. – disse Elifas tomando as mãos de Linda. Com ela, ele conseguia dançar normalmente.
_ Quando foi a última vez que dançamos? – perguntou ele colocando a mão na minha cintura.
_ Se me lembro bem, na mesma noite em que tomamos banho juntos. – murmurei com um sorrisinho imperceptível.
_ Ah, sim... eu me lembro daquele dia. – brincou ele com um sorriso decididamente malicioso. – Você estava com a sua melhor aparência... ao natural?
_ Alvo. – ralhei, sem conseguir conter uma risada. Quem não estivesse atento pensaria que éramos apenas dois melhores amigos contando piadas sobre como todos pareciam ridículos e não dois adolescentes lembrando-se de uma noite memorável.
_ Com licença, Dumbledore, eu gostaria de dançar com a senhorita, agora. – ronronou uma voz conhecida. Contudo, eu não conseguia acreditar em quem estava vendo.
_ Black?! – indaguei sem soltar as mãos de Alvo. – O Septimus eu entendo... mas você? E aquele papo de que a minha família é uma vergonha para os puros sangues?
_ Águas passadas, minha cara. Por favor? – insistira ela esticando a mão para mim.
_ Não. – respondi simplesmente tornando a voltar minha atenção para o meu namorado.
Se eu tivesse dito sim... quem sabe? O que poderia ter sido diferente? Contudo, não é possível mudar o passado, ainda mais depois de tanto tempo. Mais do que a noite em que Alvo e eu fizemos amor à primeira vez, aquela noite marcaria o início das mudanças que marcam o motivo deste diário. As mudanças que motivaram anos de mágoa.
_ Posso interromper? – indagou tia Sarah com imponência, já com as mãos no meu ombro, pressionando-os.
_ É claro. – respondeu Alvo de imediato.
Sarah me conduziu até as escadas. Vovô Archie estava ao meu lado, sério. Os únicos a sorrir eram os convidados e minha tia... aquilo não fez com que o clima melhorasse.
_ Senhora e senhores, é um prazer recebê-los em nossa casa aqui esta noite, muito obrigada a todos. Agora, gostaria de poder aproveitar a ocasião do aniversário de dezessete anos de minha sobrinha para dar uma boa notícia. O que tenho para dividir com os senhores é que, esta noite, nossa Amélia ficou noiva de Sirius Arturus Black. – e então as palmas começaram e eu senti a cabeça latejando, ele veio na minha direção e tomou minhas mãos para beijá-las, sabendo que se tentasse algo mais eu o empurraria na frente de todos.
O resto da noite foi passado ao lado dele, recebendo cumprimentos e votos de felicidades... mas eu não me sentia mais feliz por sentir que olhos azuis conhecidos me fitavam seriamente... E, de fato, mais do que nunca eu queria que meus pais estivessem ali.
