Capítulo 18

Quando acordei, estava em Londres. Não me lembro de ter me dado ao trabalho de aparecer pela casa depois daquela noite. Arranjei tudo o que precisava para a viagem e organizei minhas lembranças de Hogwarts no quarto... eu não precisaria delas quando voltasse e fosse direto para a mansão Black. Cornélia e eu partiríamos para Marselha ao mesmo tempo em que Alvo e Elifas partiriam para a Grécia. Contudo, minha irmã não foi nossa companhia no Caldeirão Furado, visto que ainda tinha algumas papeladas para organizar em sua migração definitiva para a França. Logo, éramos apenas nós três, Alvo, Elifas e eu, acampando na cidade.

No entanto, parecia que, mais do que no começo do quinto ano, eu estava mais sozinha e distante do que jamais estive de meus amigos. Ordenamos quartos separados para Tom e eu permaneci trancada no meu durante toda à tarde, enquanto deveria estar aproveitando meus últimos momentos ao lado de meus companheiros. Uma vez ou outra, Tom aparecia para levar uma bandeja ou tentar me convencer a descer para o salão, tendo sempre minha recusa como resposta. Estava absorta em meus próprios pensamentos. "Por que ela não me disse nada?" pensava eu, "Por que esconder qual seria o meu destino? Conforto?", de todas as formas, eu jamais chegaria a saber o que realmente se passava na mente de minha tia.

É evidente que as Preminger mais velhas sempre sofreram com seus casamentos. Não que em todos houvesse ódio entre os conjugues, contudo, a elas nunca foi revelada a identidade de seus pretendentes. Tia Sarah, e isso Colin me contara, nunca chegou a saber que se casaria com um Selwyn. Certa vez, Cornélia e eu discutimos que talvez ela tivesse ocultado de mim e não dela, para tentar manter uma tradição... mas isso é outra história. O que consta aqui é simplesmente o relato de como essas decisões tiveram consequências em meu relacionamento com Alvo... mas, talvez, na hora certa, eu deva acrescentá-la aqui... outra lembrança que eu gostaria de poder esquecer.

Ao cair da noite, já estava cansada de ficar sozinha no meu quarto e resolvi descer para ver como meus dois amigos estavam se saindo quanto às despedidas. Encontrei-os rindo, quase aos gritos, com outros visitantes do pub, enquanto um dos companheiros fazia apostas numa mesa de jogos. Ao ver-me, Alvo desligou-se deles e veio direto na minha direção. Carregava consigo um sorriso gentil e complacente, o qual inevitavelmente carregarei sempre comigo.

_ Naturalmente eu diria que seu semblante está muito bonito, mas, dadas as circunstâncias. – brincou ele me guiando até uma mesa.

_ E eu me esforcei tanto para parecer apresentável. – desdenhei sem conseguir reprimir uma risada tristonha. – O que está acontecendo ali? – indaguei ao ouvir mais um grito de "viva" vindo de Elifas.

_ Ah, só estamos torcendo pelo lado vencedor da mesa. Elifas, no entanto, também apostou metade dos lucros com o seu parceiro. – explicou Alvo me fazendo rir.

_ Não sabia que agora vocês jogavam. – comentei.

_ E não jogamos... mas ficamos sem a sua má influência por tanto tempo que tivemos que achar um novo líder do mal. – brincou ele fingindo seriedade.

_ Bem, sua antiga líder está morrendo de fome... já jantaram? – perguntei.

_ Estávamos esperando você. – contou ele. – Ei, Tom, pode nos servir o jantar?

_ Mas é claro, senhor Dumbledore. É bom vê-la, senhorita. – cumprimentou o atendente do pub, cordialmente, deixando-nos sozinhos outra vez.

Alvo parecia determinado a não comentar os acontecimentos da noite anterior, ainda assim, eles insistiam em perpetuar em nossas mentes. Então, eu o beijei. Se algo é certo, é que beijos sempre são melhores do que qualquer conversa desagradável que se possa ter. Naquela noite, principalmente, eu só pensava que poderia ser a última vez que poderia fazê-lo sem ser repreendida.

_ É um conforto saber que poderei fazer isso por mais uma noite, antes que você...

_ Pare! – exclamei antes que ele dissesse a palavra. – Eu não quero falar sobre isso... não hoje, não agora.

_ Ignorar isso não vai mantê-la longe do fato de que em um ano você estará subindo num altar para se tornar a senhora Black. – sentenciou Alvo sabiamente.

_ Às vezes eu odeio a sua sinceridade. – comentei sentindo meu coração se apertar. – Muito bem, nada me afastará disso. Mas eu posso querer ser apenas a senhorita Preminger por mais uma noite... ser a sua namorada por mais uma noite...

Ele estava prestes a responder quando Tom chegou com a nossa comida. Faisão. E dos bons, como só a cozinha do Caldeirão Furado sabe servir. Junto a ele, duas taças com cerveja amanteigada... em pensar, que depois do fatídico dia, eu nunca mais a bebi... nunca mais bebi nada tão fraco. Em todo caso, qualquer coisa que ele fosse dizer foi cortada pela entrada de Elifas na conversa, e sim, eu agradeci por isso. Não aguentaria ouvir um discurso apaixonado e não chorar na frente de toda aquela gente.

_ Vocês começam a comer e nem se lembram de convidar o amigo. – resmungou ele sentando-se ao meu lado.

_ Não queríamos interromper o seu jogo, meu caro. – respondi na defensiva.

_ Não! Vocês não queriam era que eu atrapalhasse. – comentou ele com malícia. – Em todo caso, Mélia, você tem que aprender a jogar com o nosso amigo Fred. Ele é o melhor na mesa de cartas que eu já vi. – acrescentou Elifas animadamente.

_ E por que eu deveria? – indaguei curiosa.

_ Ora, não se vai a Paris sem saber como criar uma mão de sorte. – explicou ele rindo. – Como o bom Fred disse: A beleza da vida está em se ter sempre uma mão de sorte. Vou pedir a Linda que borde isso nas nossas toalhas.

_ Acho que você está bêbado, meu amigo. – observou Alvo. – E só foi preciso uma taça de Whisky de Fogo.

_ Bebendo, Eli?! – exclamei fingindo estar surpresa. – Ah, quando eu contar a Linda você vai estar encrencado!

_ Minha noiva é uma mulher compreensiva, Mélia, e facilmente subornada... Principalmente quando se sabe onde beijá-la. – retrucou Elifas, realmente dando sinais de que Alvo estava certo.

_ Agradeceria se não me desse maiores detalhes. – implorei fazendo-os rir. – Quem diria, nós três no Caldeirão Furado e Eli está bêbado. Alguém precisava fotografar isso.

_ Não seja por isso. – interveio Alvo. – Mark! – um rapaz com uma câmera no pescoço vinha em nossa direção. – Por favor, uma foto. É a primeira vez que nosso amigo se embebeda.

_ Compreendo perfeitamente, Alvo. – disse ele posicionando a máquina. – Todos dizendo: Bosta de Dragão!

Rimos, bebemos e eu realmente aprendi a jogar cartas. Foi uma noite inesquecível e insubstituível, que nem todo o ouro Black seria capaz de comprar. Contudo, ela estava longe de terminar por ali. Não tornei a me perder nos braços de Alvo, mas quem ousa dizer que não é possível se perder somente nos olhos do homem que se ama? E foi exatamente o que aconteceu. Estava terminando de me arrumar para me recolher, quando ouvi suas batidas leves na madeira da porta.

_ Eu posso entrar? Prometo que me comportarei bem. – disse ele pela fresta que abri.

_ E em que fatos devo me basear para acreditar na sua palavra? – sussurrei achando graça da situação.

_ No fato de que eu jamais faria nada para magoá-la, ainda mais agora. – respondera ele seriamente. – Que mudança de cenário. – comentou ele ao reparar nos meus trajes. – Há um minuto atrás estava de saia e agora parece estar usando um saco de batatas.

_ Alvo! – ralhei sem conseguir reprimir o riso. – Está certo que ela é horrível, mas, convenhamos, os ingleses não são muito criativos quanto a criar roupas para dormir. Acho que vou ter de reavivar meu armário na França. – comentei puxando uma das pontas da enorme camisola.

_ Não preciso opinar quanto a isso. Você sempre teve bom gosto para suas roupas... espero apenas nunca mais vê-la usando isso. – concluiu ele sentando-se na minha cama. – Não consegui pegar no sono...

_ Eu nem tive oportunidade de tentar. – brinquei me sentando ao lado dele. Ele não riu. – Está preocupado? Comigo em Marselha?

_ O que? Não! Eu sei que os franceses nunca teriam chance com você. Só estou... despreparado para dizer adeus a você para sempre? Acho que isso resume muito.

E mais uma vez um beijo foi melhor do que palavras. Ainda assim, eu deixei que algumas lágrimas se desprendessem dos meus olhos à medida que nos deitávamos. Ele tentou descer pelo meu pescoço, mas de maneira nenhuma eu permitiria que se afastasse da minha boca. Independente de qualquer situação, era ali que parecia que nos completávamos totalmente... mesmo que dúvidas tivessem sido instaladas em mim mais tarde quanto à completude, nada pode ir contra o fato de que ao menos antes dele aparecer, nós pertencemos inteiramente um ao outro.

Não sei ao certo por quanto tempo ficamos daquela forma, mas, ao nos soltarmos, estávamos ambos sem fôlego. Eu não queria que ele me possuísse ou qualquer outra ação do tipo. Só queria abraçar o meu melhor amigo pelo resto da noite e nunca mais soltá-lo. O fato é que não estava triste apenas por perder meu amante, mas acima de tudo, estava perdendo meu parceiro de xadrez, meu professor, meu conselheiro e insubstituível ouvinte... Estava perdendo o senhor gênio e não somente Alvo Dumbledore.

_ Eu não quero ser a senhora Black. – disse no tom mais mimado do mundo.

_ Eu não quero que você seja. – respondeu Alvo segurando a minha mão.

_ Então prometa... prometa que irá me sequestrar quando eu menos esperar. Que vai me salvar da minha miséria... que ao menos tentará me ver... eu posso aprender a viver sem seus beijos, mas nunca sem ter os seus olhos me analisando como um menino travesso.

_ Amélia...

_ Eu posso mentir para um milhão de pessoas que sou a senhora Black, mas no meu íntimo eu sei que jamais serei leal a ele... Eu viveria em pecado com você.

_ A conheço o suficiente para saber que esse não é o caminho certo...

_ Você sabe muitas coisas, Alvo, mas o que há no íntimo do meu coração... nas profundezas dele, não é uma delas. Eu não me importo com o que irão dizer... que ele fique com o meu nome... eu não preciso dele, eu sei, para ser querida por você.

A corrente fria fez com que permanecêssemos abraçados durante toda a noite, e só houve um sonho. Eu nunca tinha deixado Hogwarts, estávamos todos lá, Elifas, Linda, Alvo e eu, e parecia que o tempo nunca iria passar. Seríamos sempre o quarteto inseparável que estava protegido do mundo por aquelas paredes...

Apenas um sonho...

Harry fechou o diário com cuidado e o colocou sobre a mesa, incapaz de falar. Ele sabia que o professor e aquela mulher haviam se separado em vários momentos. O que ele não conseguia imaginar era aquela sensação que as palavras de Amélia lhe proporcionavam, ela deveria estar num misto intenso de emoções por ter se apaixonado pelo seu melhor amigo e não ser capaz de abrir mão dele ao passo que seria capaz de abrir mão de seu amante, contudo, ambos eram uma pessoa só... e Harry não conseguiu deixar de sentir muito por aquela desconhecida. Mais do que nunca ele queria saber se Dumbledore havia respondido àquela carta.

_ E agora... bem... a mãe dele... – lembrou Rony sussurrando. – Isso é horrível...

Hermione não conseguiu conter um pequeno soluço e foi rapidamente amparada por seu namorado. Gina também deixou algumas lágrimas escaparem, mas foi capaz de alcançar uma das fotos de Amélia saindo do diário. Aquela que ela havia enviado da França para Elifas.

_ Agora me lembro de onde já a havia visto. – falou com pesar. – Quando estávamos ajudando mamãe na limpeza, no Largo Grimmauld, eu a vi num quadro acompanhada de um homem... deve ser esse Sirius Black com quem ela se casou.

_ Deve ter sido queimada na tapeçaria que Sirius me mostrou, porque não me lembro de ter visto o rosto dela. – observou Harry. – Mas, mantiveram o quadro?

_ Eu não sei por que. – respondeu Gina. – Bem, acho que é o último antes da separação definitiva, digo, da viagem. Vamos acabar logo com isso.

_ Desçam para comer, crianças, o jantar está pronto! – chamou o senhor Weasley do andar de baixo.

Hermione foi a primeira a sair, seguida pelos outros amigos. Ao alcançarem a mesa do jantar, os Weasley perceberam as carinhas de tristeza deles:

_ O que aconteceu com ela? – deduziu o senhor Weasley.

_ Ficou noiva de um Black e estava tentando conviver com a ideia de nunca mais poder ver Dumbledore. – respondeu Harry rapidamente.

_ Nunca mais? – indagou Molly.

_ Acho que ela pensava que seu marido não a deixaria mais ver seus amigos. – comentou o garoto.

_ E eu aposto que foi assim. – disse Hermione finalmente se pronunciando. – Ela já havia vivido toda a vida dela e escreveu o diário, ela sabia o que estava por vir e teve que se lembrar de tudo para escrevê-lo. Não notou a lágrima, as palavras finais... ela não foi capaz de ver Dumbledore com a mesma frequência, nem mesmo o senhor Doge e a senhora Doge.

_ Elifas foi casado? – indagou Arthur surpreso.

_ Com uma moça chamada Linda... quer dizer, ao menos agora estão noivos, mas acho que se casaram sim. – explicou Gina. – Não sabia?

_ Bem... ele nunca falou de uma esposa, muito menos de uma moça chamada Linda... se me lembro bem ele...

_ Não usa aliança. – completou Harry mirando Rony com dúvida. – Vamos descobrir os detalhes no diário. Mas nas lembranças dela, eles pareciam muito apaixonados... não acho que...

_ Bem, chega de assuntos fúnebres! Vamos comer e falar sobre coisas que nos deixam felizes por um momento! – interveio a senhora Weasley. – Recebi uma carta de Andrômeda hoje, Harry, e ela virá trazer o pequeno Ted em três dias.

_ Excelente! – exclamou Harry.

_ Vamos ensinar a ele tudo o que precisa saber sobre como ser um aluno memorável de Hogwarts. – brincou Rony. – E para isso só precisamos de um novo Voldemort e mistérios malucos...

_ Ronald Weasley, nem ouse brincar com isso! – ralhou Molly dando um peteleco na cabeça de seu filho, fazendo todos na mesa rirem.