Capítulo 19

Estávamos abraçados contra o frio quando ouvi batidas na janela. A noite anterior parecia ter sido há séculos, tanto que ao acordar, senti meus ossos mais pesados como se tivesse envelhecido cem anos depois dela. Ainda um pouco atordoada, abri e senti a brisa cortante enquanto pegava uma carta de uma coruja desconhecida. Fechando a janela em seguida, me virei para encarar Alvo dormindo. Tateava o lugar que antes eu ocupava, percebendo a minha ausência e aquilo me fez sorrir. Deixei a carta de lado sobre a cabeceira e corri de volta para os braços dele.

_ Que horas são? – ele perguntou ainda sonolento.

_ Ainda é cedo. – respondi me aconchegando nele. – A que horas o trem sai?

_ Duas horas da tarde. – ele respondeu, passando as mãos pela minha cintura. – Logo estaremos na Grécia e você em Marselha... e que os jogos comecem. – brincou em seguida.

_ Para você e o Elifas ele começou já tem um tempo, ontem à noite, lembra-se?

_ Ele jogou, eu não. – disse ele na defensiva. – Mas, enfim, o que fez você se levantar?

_ Uma coruja batendo na janela, trazia uma carta. – disse me desviando do toque dele para alcançar o envelope na cabeceira e ver a quem havia sido endereçado. Por um momento pensei que era tia Sarah dizendo que se arrependia de ter me deixado viajar, mas não, era para Alvo. – É para você.

_ Talvez uma despedida melosa de minha mãe e Ariana. – comentou ele pegando o envelope.

_ Não de Abeforth? – indaguei.

_ Meu irmão não é muito de palavras gentis, minha querida. – explicou ele. – Vá tomar um banho enquanto eu me emociono com as doces palavras de minha mãe e minha doce irmãzinha. – sugeriu ele depositando um beijo na minha testa.

_ Está bem. – concordei tomando meu caminho para a banheira. Embora fosse completamente imprudente tomar banho no Caldeirão Furado, eu não tinha escolha. Era isso ou chegar toda descabelada em Marselha e Cora acharia imperdoável. Enfim... não sei como reviver tudo, mas... bem... Quando voltei para o quarto, Alvo havia saído e havia pergaminhos e tinta espalhados pela mesa. Aflita, vesti-me com o primeiro conjunto que consegui alcançar na mala e me dirigi ao quarto de Elifas.

Foi uma cena grotesca, claro, nunca vi Alvo tão destruído quanto naquele dia... lá estava ele, abraçado a Elifas aos prantos. Nosso amigo, ao ver-me, não disse nada, apenas indicou-me a carta que recebi mais cedo. Reconheci a caligrafia de Abb, estava trêmula, mas era claro. A mãe deles, Kendra, estava morta e Alvo teria que voltar imediatamente para casa. Eu reprimi um gritinho, mas não minhas lágrimas... eu nunca cheguei a conhecê-la, mas sempre ouvi falar tão bem dela que foi como se tivesse perdido minha mãe uma segunda vez.

Sem deixar que Elifas o soltasse, coloquei minha mão sobre o ombro dele e lhe desejei meus pêsames. Ao ouvir minha voz, ele sozinho se soltou de Eli e me abraçou. Eu fiquei sem ar, ele estava me apertando como se estivesse com medo de que eu fosse evaporar a qualquer momento. Quem poderia culpá-lo? Acabara de perder sua mãe e sua chance de realizar seu sonho de conhecer o mundo, no mesmo dia. A vida nunca mais fora a mesma para ele. Elifas acabou por nos deixar sozinhos, avisando que iria descer para falar com Tom sobre a mudança de planos.

_ Amélia... – sussurrou ele com pesar.

_ Está tudo bem... eu estou aqui. – disse tentando acalmá-lo. – O que vamos fazer agora?

De repente ele enrijeceu e se desvencilhou do meu abraço, parando para me fitar nos olhos. Uma sombra assustadora passou pelos olhos azuis de Alvo Dumbledore naquele dia. A mesma sombra que passaria a existir em seus olhos em todas as situações em que sua alma emanava o brilho característico de poder. Nesses momentos, poderiam pensar que havia possibilidade daquela mente gentil tornar-se má, bastaria um empurrão.

_ Você e Elifas vão seguir com a viagem. – disse ele por fim como se fosse óbvio. – E eu vou voltar para Godric's Hollow e cuidar dos meus irmãos, sou o chefe da família agora. – aquelas últimas palavras saíram com dificuldade, eu bem notei, mas nada disse, aquela sombra ainda me assustava.

_ Haverá uma cerimônia, suponho? Um funeral? – indaguei.

_ Abeforth não me disse nada, mas, é claro que vamos dar a ela um enterro decente...

_ E nós estaremos lá com você. – disse Elifas voltando para o quarto.

_ Com certeza! – concordei de imediato tomando as mãos dele nas minhas.

_ Mas, a viagem de vocês...

_ Como ousa insinuar que algo seja mais importante do que estar com você nessa hora? – indaguei apertando nossas mãos. – Sinceramente, senhor Gênio...

_ Podemos adiar nossa partida até...

_ Não a Mélia. – interveio Alvo voltando-se para mim. – Você combinou com sua irmã de encontrá-la às duas horas em King's Cross, não pode se atrasar.

_ Minha irmã vai entender se eu explicar a situação e tia Sarah não vai me negar essa gentileza a um amigo. Por mais que ela não vá com a sua cara, já teve a sensação de perder entes queridos e sabe que nessas horas precisamos estar junto de quem amamos. – retruquei convicta.

_ Amélia você acabou de defender sua tia. – observou Elifas.

_ Para que vocês entendam o quanto estou falando sério. – falei. – E se um dia contarem isso a ela, eu mesma dou cabo nos dois. – adverti sem conter uma risada tristonha. – Vou escrever para Cora.

Cornélia entendeu bem e pediu-me para transferir seus sentimentos a Alvo, chegaríamos em Godric's Hollow ainda naquela tarde e o enterro aconteceria no dia seguinte. Elifas resolvera ficar na estalagem do vilarejo, mas eu insisti para permanecer próxima de Alvo em sua casa. Ele retrucou a ideia, mas por fim acabou aceitando. Abeforth não ficou muito feliz em me ver, horrorizado com a ideia de eu passar uma noite na mesma casa que Alvo, mas aceitou meus sentimentos e concordou em me abraçar. Contudo, o que marcou aquela visita foi Ariana.

Eu posso afirmar com certeza que fui uma das únicas pessoas que chegou a vê-la e até mesmo a falar com ela ainda em vida, mais do que isso, parecia que a irmãzinha doentinha de Alvo gostara de mim. Fato que me conforta até os dias de hoje, saber que ao menos uma mulher Dumbledore gostara de mim. O que se passou foi que, ao chegar na casa, me deparei com uma cozinha extremamente bagunçada e paredes, móveis, todos gastos e finalmente entendi porque Alvo sentia-se mais à vontade em Hogwarts, sob qualquer movimento aquela casa dava a impressão que estava prestes a desmoronar.

Quando Abb indagou ao irmão sobre onde eu dormiria, deixei escapar um sorriso tenro, afirmando que poderiam me por no chão que eu ficaria bem. De repente, ouvi um barulho no andar de cima e percebi que a irmã estava em casa. Sem esperar por convite, subi as escadas e quando estava prestes a abrir a porta, Abeforth me parou.

_ Quem você acha que é? Para ir invadindo a casa dos outros?! – exclamou ele me lançando para longe.

_ Abb sou eu, Amélia. Você me conhece.

_ Conheço? Só o que eu sei é que gosta do meu irmão, mais nada. Você não conhece minha irmã, ver gente faz mal a ela.

_ Ficar trancada aí dentro vai fazer mal a ela, vamos, Abb, me deixe passar.

_ Ele tem razão, Mélia, é melhor...

_ Sabe como minha mãe morreu, Amélia? Um feitiço de Ariana se descontrolou e minha mãe estava com ela e não aguentou, já estava cansada...

_ Mais um motivo para que eu a veja. Vocês tem ideia do que ela deve estar sentindo? Ela pode ser doente, mas não é burra. No mínimo está se culpando pela morte da sua mãe. É isso que você quer que ela pense? Que é culpada? Saia da minha frente, Abb, está na cara que os dois são incapazes de compreender o que se passa na mente dessa menina.

_ Ousa dizer que conhece minha irmã melhor do que eu?

_ Sob essa circunstancia? Sim. Agora, por favor, saia. – insisti tentando alcançar a maçaneta.

_ Não!

_ Abeforth, deixe-a! – interveio Alvo, tentando nos apartar.

_ Vai ceder aos caprichos dela? Ela não manda nessa casa!

_ Mas tem razão, não fará bem a Ariana ficar trancafiada ali dentro. Abra a porta!

_ Vou abrir quando ela for embora.

_ Não seja ridículo!

Aproveitei a oportunidade para passar por eles e abrir a porta. Lá estava ela, Ariana, num canto encolhida chorando baixinho. Era loira e demasiadamente branca, de aparência doentia devido a extrema magreza, se não fosse por isso, eu poderia registrar aqui que fora a menina mais bela que já havia visto, desde Cora quando criança. Contudo, o medo em seus olhos e a falta de expressividade deles a deixavam completamente apática. Alvo e Abb estavam do lado de fora me pedindo para sair dali, mas eu continuei a adentrar o quarto com passos leves.

_ Olá, muito prazer, eu sou Amélia Preminger. – disse permanecendo a uma distância boa dela, para que se acostumasse a minha presença. Sentei-me no chão e mirei-a com gentileza. – E você deve ser, Ariana Dumbledore.

_ S-Sou. – respondeu ela com muito custo. – V-Você está aqui para... me levar?

_ Não, não sou curandeira... eu sou amiga dos seus irmãos e só vim dizer o quanto sinto pela morte da sua mãe. Sabe... eu também perdi meus pais quando era muito nova. – disse brandamente.

_ V-Verdade? – murmurou ela ganhando certa expressividade.

_ Verdade. – respondi engolindo o choro. – Minha mãe era uma mulher muito bonita devido a sua descendência Veela, mas ao contrário de mim, nunca tivera uma profissão acertada. Meu pai era quem trabalhava, enquanto mamãe tinha que estar sempre linda, promovendo jantares e cuidando de mim. Acredite ou não, a última parte era a mais difícil. – comentei fazendo-a rir um pouco. – Ainda que não trabalhasse, ela sempre se interessava pelo que acontecia no Ministério e fazia milhões de perguntas ao meu pai... ela era muito inteligente.

_ M-Mamãe também. – comentou Ariana sorrindo.

_ Foi o que eu soube. – respondi me virando para fitar o casal de irmãos que nos observavam da porta. – Mas, então, meus irmãos nasceram, dois irmãos, igual a você e mamãe de repente largou tudo pela nossa criação... Contudo, um dia, papai chegou em casa dizendo que havia sido ameaçado... e que... deveria encontrar-se com certo bruxo se quisesse que nada acontecesse a sua família. Mamãe descobriu e... acabou indo no lugar dele usando a poção polissuco. Quando papai soube que ela havia morrido, ele... ele se matou. Nos amava, mas... bem, a família é grande e ele sabia que não ficaríamos desamparados... crescemos com nossa tia e nosso primo, Colin. Meses mais tarde, quando descobriu quem fora o responsável, meu avô conseguiu que ele fosse para Azkaban. Seu último ato como auror antes de se aposentar...

Eu nunca havia revivido os fatos que destruíram nossa família em voz alta e aquilo me deixou mais vulnerável do que jamais estivera. As lágrimas escorriam do meu rosto e então eu senti alguém me abraçando. Pensei que fosse Alvo e o abracei de volta, mas na verdade, era Ariana, que engatinhara até onde eu estava para me consolar. Num momento era eu quem precisava de um ombro e não mais ela, o gatinho assustado de antes.

_ Eu também estava com medo, achei que nunca mais alguém me amaria como meus pais me amaram... eu reclamava com todos que queria ir para onde eles estavam, mas então eles me repreendiam e diziam que eu precisava ficar com meus irmãos para cuidar deles. Eu era a mais velha e precisava dar o exemplo, mas você... você não precisa ter medo, Ariana. Você tem dois irmãos mais velhos que a amam mais do que tudo e eles, eu sei, vão cuidar muito bem de você. Não foi sua culpa, eu sei que não quis fazer aquilo e sei que sua mãe sabe disso... ela iria querer que a filha dela fosse forte, como tem sido durante todos esses anos... Querendo ou não, Ariana, a mulher da família é sempre a mais forte.

Foi a vez dela de chorar nos meus braços e eu a deixei ali, alisando os cabelos loiros enquanto sentia suas lágrimas molhando meu ombro. Éramos duas crianças a procura de afeto, tentando evitar a perdição e por um momento, conseguimos encontrar um porto seguro nos braços uma da outra. Quando ela me soltou, correu para seus irmãos e os abraçou. Ambos me fitaram em agradecimento e eu sequei algumas lágrimas, enquanto observava os três Dumbledore se abraçando. No fim, Ariana voltou para mim e abraçou minha cintura, era muito pequena e delicada... mas os olhos brilhavam como os de Alvo.

_ Alguém está com fome? – perguntou Alvo e Ariana mirou-o como um gatinho pidão. – Ótimo, eu vou fazer o jantar.

_ Certo, Ariana me ajuda a arrumar tudo, precisamos mostrar nosso melhor a visita. – disse Abb acenando para a irmã, que correu para segui-lo escada abaixo.

_ Que gracinha oferecendo um jantar... – ia dizendo quando ficamos sozinhos, mas fui interrompida por um beijo admirado e ao mesmo tempo triste.

_ Você é o melhor ser humano que eu já conheci, sabia disso? Eu a amo hoje mais do que nunca, e sei que não a mereço.

_ Pare já com isso! – exclamei depois de dar-lhe um rápido selinho. – Agora vamos, eu ajudo você.

_ Não se lembra da moral? Eu nunca devo deixar você cozinhar!

_ Cale-se e venha.

Daquela vez eu não destruí a cozinha, até porque Abb ficou de olho em nós. A casa estava silenciosa e ainda em clima de luto, Alvo não estava rindo com a mesma disposição e mesmo Abb não parecia disposto a brigar, mas conseguimos controlar tudo para que o jantar corresse normalmente. Eu fiz Ariana comer naquela noite, para ciúme de seu irmão do meio e nós ficamos conversando até tarde no quarto, pois ela insistira que eu deveria dormir com ela. Uma doce menina foi Ariana Dumbledore e é uma pena que tenha vivido tão pouco.

Depois foi tudo tão rápido. Ao acordar no dia seguinte, me esforcei para sair silenciosamente até a cozinha, onde Alvo já estava tomando uma xícara de café quente.

_ Bom dia. – cumprimentei sorrindo.

_ Bom dia. – ele respondeu retribuindo o sorriso de forma amena. – Aceita uma xícara?

_ Sim, obrigada. – agradeci quando ele me entregou. – Era silencioso assim com sua mãe?

_ Um pouco menos. – confessou ele bebendo outro gole de café. – Eu agradeço o que fez por Ariana. Abeforth e eu... bem...

_ Foi um prazer. – garanti piscando para ele. – Quase me fez lembrar de quando Cora era pequena...

_ Eu sinto muito pelos seus pais.

_ Está tudo bem. – disse querendo desviar o assunto. – Mas, eu nunca falei sobre isso antes, então, digamos que apenas vocês saibam. Espero que fique assim.

_ Prometo. – garantiu apertando minha mão. – Agradeço muito por estar aqui.

_ Não há nenhum outro lugar no mundo em que eu gostaria de estar. – reconheci me erguendo para abraçá-lo por trás.

_ Nem mesmo Marselha? – retrucou Alvo com uma pitada de veneno na voz, que naquele momento deixei passar.

_ Nem mesmo Hogwarts. – falei com determinação, beijando o ombro dele. – Não há nenhuma chance de alguém cuidar da casa ao menos por seis meses? Assim você passa um pouco de tempo com Elifas na Grécia e tem a chance de me visitar na França.

_ Nenhuma. – ele respondeu tristemente. – Não há dinheiro suficiente para viajar e manter a casa, vou ter que usar todas as minhas economias nisso. Além disso, não posso deixar Abeforth sozinho com Ariana, nenhum vizinho conhece a fraqueza dela.

_ Posso pagar passagens para os três. – intervim. – Tenho certeza que uma mudança de ares faria bem a ela e...

_ Amélia, não insista nisso. – ele disse abruptamente afastando-se de mim. – Percebi que não gosta de falar no assunto, mas existe alguma relação entre o ódio de sua tia por você e a morte de seus pais?

_ Ela culpa minha mãe pela morte do meu pai. Diz que se ela tivesse se colocado no lugar que cabia a ela ocupar, o de dona da casa, nada teria acontecido. Chama isso de "o glamour dos Delacour"... Cornélia é parecidíssima com mamãe em aparência, mas só isso não bastou para tia Sarah, ela viu que meu espírito era mais Delacour do que o da minha irmã. E Edmundo também, mas ele foi domado e eu não.

_ Eu também era mais parecido com minha mãe, ao contrário do Abeforth que é puro e simplesmente Percival Dumbledore. – comentou Alvo com saudosismo.

_ E Ariana? – perguntei tornando a me aproximar dele, permanecendo ao seu lado fitando os olhos azuis brilhantes pelas lágrimas.

_ Ela também se parece com mamãe, da maneira dela. Ela gostava de você, sabe? Pelo que lia nas nossas cartas.

_ Sua mãe lia nossas cartas?! – exclamei segurando o riso. – Só espero que eu nunca tenha escrito nada demais...

_ De vez em quando ela entrava no meu quarto e observava o que eu estava lendo. Raramente comentava, mas nas vezes em que o fez, disse que você deveria ser osso duro de roer. – explicou ele sem conter uma risada.

_ Sua mãe disse isso?

_ Disse.

_ Ela era muito sábia. – conclui às gargalhadas. – Eu queria ter falado com ela. Mas acho que nunca me perdoaria por não poder me casar com o filho dela só porque ele não tem a mesma quantia que Sirius Black tem em Gringotes.

_ Ao contrário, ela teria sido mais compreensiva do que todos nós. Ela sabia guardar para si o que sentia de uma forma que às vezes era bonito de ver.

_ E você aprendeu com ela. – deduzi.

_ E eu aprendi com ela. – concordou ele virando-se para me encarar. – Contudo, de repente apareceu alguém que me ensinou que gritar sobre o que se acredita, de vez em quando, pode ser muito libertador. – disse tomando meu queixo com o nó dos dedos.

_ Quem? – perguntei fingindo inocência. – Por acaso não foi aquela garota da Grifinória que eu via jogando xadrez com você até a madrugada, foi? Nossa, ela é osso duro... como foi capaz de aprender alguma coisa com ela?

_ Foi bem fácil, até. Ela não é tão ruim depois que se conhece. Claro, é uma péssima cozinheira e é bastante impulsiva, mas outras qualidades compensam isso. E nem estou me referindo somente ao fato do beijo dela ser incrível. – brincou ele me puxando para perto dele.

_ Ela agradece os elogios e respeita suas críticas, mas sem garantia de tentar melhorar. – retruquei passando os braços pelo pescoço dele.

_ Eu não quero que ela melhore. – respondeu ele simplesmente.

_ Então a beije. – e sem rodeios, ele obedeceu.

_ Bom dia. – cumprimentou Abeforth batendo a porta da cozinha com violência, sendo seguido por Ariana.

_ Bom dia. – respondemos em uniosso, corando.

Elifas chegou somente quando tudo começou a ser arrumado na entrada do cemitério. Ariana não fora vista entre os ocupantes das cadeiras e eu percebi que isso fora muito comentado entre os presentes. Abeforth permaneceu até metade do discurso do orador e então saiu para ficar com ela na casa, mais comentários inapropriados e eu senti que incomodavam Alvo até mais do que a própria morte da mãe. Rita Skeeter pode escrever o que quiser, mas eu não acredito que alguém com o mínimo de sensibilidade não entenda as razões que levaram os Dumbledore a serem como eram. Contudo, esperar sensibilidade de pessoas ignorantes o bastante para lerem Rita Skeeter, seria demais da minha parte.

_ O que vai querer que seja posto na lápide, senhor Dumbledore? – indagou o coveiro.

_ Eu conheço uma citação. – disse ao lado dele. – Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. – enunciei lançando a Alvo um dos meus olhares mais significativos. Eu queria que ele entendesse, e já era bom em legilimência para entrar na minha mente, que apesar de estar perdendo seu sonho de conhecer o mundo, não havia nada mais importante do que a família. E onde quer que a sua família estivesse, ali também estaria o seu coração. Minha mãe dissera aquelas palavras a mim certa vez, quando eu já era grande o bastante para entender... um ano depois, a perdi, mas nunca suas palavras. Essas se cravaram para sempre na minha memória.

_ Obrigado, Amélia. – agradeceu de pronto com um sorriso terno.

_ Então, serão estas? – interveio o coveiro.

_ Sim, senhor. – respondeu Alvo e em seguida, o homem, com um aceno da varinha, perfurou as palavras na pedra.

Deixamos o cemitério de mãos dadas, Elifas nos esperava do lado de fora. Logo, assim que o sino da igreja bateu, o som do motor de um carro repercutiu pela rua e eu o reconheci imediatamente.

_ Hora de ir, Amélia. – avisou Cora apoiando-se pelo vidro entreaberto e eu acenei positivamente, virando para encarar meus amigos. Era a hora da despedida e nunca nenhum até logo soou mais como um adeus.

_ Prometam que vão me escrever todos os dias. – implorei.

_ Eu jamais sonharia em deixá-la desinformada. – disse Elifas me abraçando. – Me avise se conseguir comer as pernas de rã.

_ Vai ser o primeiro a saber. – garanti dando um beijo em cada uma das bochechas dele. – Já para me acostumar à moda francesa. Eu espero a sua visita, senhor Eli Doge.

_ Pode contar com ela. – disse me abraçando uma última vez.

_ E o senhor também, senhor Gênio. – exigi me atirando nos braços dele. – Quero rolos e rolos de cartas.

_ Não posso prometer que terei tempo para rolos e rolos de cartas, mas prometo ao menos uma por semana. – disse retribuindo o abraço com força.

_ Eu vou sentir sua falta. – sussurrei.

_ Quando menos esperar já estará de volta. – garantiu tomando meu rosto entre as mãos. – Mas nesse ínterim eu também sentirei a sua falta.

_ E do pobre Elifas? Ninguém sente falta? – indagou Eli cruzando os braços, nos fazendo rir.

_ Eu ganho um beijo de despedida? – pedi com um sorriso malicioso. – Prometo voltar para buscar outros. – disse depois que ele me soltou num estalo.

_ Você também quer um beijo, Elifas? – indagou Alvo, ao passo que até mesmo Cora gargalhou.

_ Não... você não faz o meu tipo. Eu prefiro belas garotas altas de cabelos longos e loiros, sabe, como a minha noiva. Sinto muito. – desculpou-se Elifas fingindo decepção.

_ Vejo vocês em um ano! – gritei de dentro do carro, acenando freneticamente. – DIGA A ARIANA QUE ADOREI CONHECÊ-LA! – urrei para que ele me escutasse quando já estávamos mais distantes.

Fiquei sentada de modo a vê-los acenando até que o carro virou a esquina. Enquanto beijava Alvo, o que pode parecer como besteira ou mesmo mentira agora, eu senti como se algo estivesse prestes a mudar. E embora eu soubesse que estava mesmo mudando, quer dizer, passaríamos pelo maior período de nossas vidas sem nos ver, esse algo me dizia que não era puramente por isso. Era como se a partir daquele momento nenhum de nós fosse mais o mesmo. De fato, não fomos e nenhum beijo fora mais o mesmo. Olhando para trás agora, posso afirmar com certeza que aquela despedida marcou o adeus entre a Amélia, o Elifas e o Alvo de Hogwarts e deu olá para a Amélia, o Alvo e o Elifas do mundo.

_ É isso. – concluiu Harry fechando o diário.

_ Eu não sei se quero continuar a ouvir. – disse Rony com as mãos nas de Hermione. – Se estou preparado para a Amélia, o professor Dumbledore e o senhor Doge do mundo. – explicou.

_ Como assim? – indagou Gina.

_ Acho que o entendo, Gina. – interveio Hermione. – E acho que entendo também o que Amélia quis dizer nessa última linha. Em Hogwarts, parece que estamos protegidos de todo o mal, como se ele nunca pudesse nos atingir. Convenhamos que nossas melhores lembranças são do nosso tempo lá... e eu estou realmente hesitante pelo dia em que essas aulas extras que estou tendo acabarão. O tempo deles acabou... e agora eles terão que encarar o mundo como ele é e se adaptar ao que ele quiser fazer com eles. Por isso ela diz que nunca mais foram os mesmos.

_ Nenhum de nós é, Hermione. – disse o senhor Weasley aparecendo no vão da porta. – Bem, por que não aproveitamos o resto do dia para falar das coisas boas?

_ É! Hermione volta para Hogwarts amanhã! Podemos passar em Hogsmeade e na Dedos de Mel. – disse Rony animando-se.

_ O nosso Rony! Com quem ele se parece, senhor Weasley? – indagou Hermione risonha.

_ Tem havido uma discussão sobre isso desde que ele nasceu, mas Gui insiste que ele é tão contraditório e preocupado quanto a mãe dele, e eu concordo plenamente. – respondeu Arthur bagunçando o cabelo do filho.

_ Qual é, pai! – reclamou o ruivo. – E eu suponho que a Hermione se pareça com o pai, afinal, somos sempre o contrário do outro!

_ Errou, Rony! Eu sou muito parecida com minha tia avó.

_ E essa tia avó se chamava Amélia Dumbledore? – indagou ele com um sorriso esperto.

_ Não, ela se chamava "Cale a boca e pare de ser ridículo, Ronald." – ralhou a morena.

_ Que nome estranho para uma pessoa. – ele tornou a brincar e logo estava levando almofadadas da namorada.

Mais tarde, eles seguiram para Hogsmeade e após compras de valor imensurável na Dedos de Mel, pararam no Três Vassouras. Todos conversavam, exceto Harry. Ele, Gina percebeu, estava mais ocupado imaginando, numa das mesas de canto, três amigos sentados conversando sem preocupações e fazendo apostas sobre quem conseguia beber mais cerveja amanteigada. Enquanto o fazia, o garoto ainda pensava na ideia que havia tido há poucos dias... um plano louco, claro, mas que talvez trouxesse bons frutos. Bastava agora saber se Rony e Hermione topariam entrar nessa com ele, pois ele sentia que o espírito de Amélia Preminger já estava com ele cem por cento.

_ Ei, pessoal, ouçam essa...