Capítulo 23
A verdade é uma coisa bela e terrível, por isso deve ser tratada com grande cautela. E para mim, a verdade chegou num pacote de cartas. Assim que meus relatos chegaram até Godric's Hollow e a Grécia, eu recebi as respostas de meus melhores amigos em dois envelopes. Elifas contava sobre os bruxos anciãos que conhecera, bem como a sua quase chance de lutar contra uma quimera. De longe mais emocionante do que as minhas notícias.
Contudo, qualquer coisa superava o diário de Alvo. Para uma mente brilhante, ainda mais quando a conhecia tão bem, era quase um disparate ler sobre Alvo Dumbledore fazendo cálculos sobre contas caseiras, e rotinas corriqueiras de casa. Ele estava trabalhando… pensar em Alvo trabalhando com algo tão simplório quanto um caixa… simplesmente não entrava na minha cabeça.
E então veio o último parágrafo da carta. "Entretanto, nem tudo é tedioso. A senhora Bagshot me apresentou ao seu sobrinho, Gerardo Grindewald, o rapaz é ex-aluno de Dumstrang e tão brilhante quanto eu. É um conforto para mim, na falta de vocês, poder contar com a companhia de alguém tão atencioso." Houve mais sobre planos para o futuro, mas não consigo me lembrar das palavras exatas…
_ Amélia? Está tudo bem? - eu sequer desconfiava do efeito que aquelas palavras provocaram em mim. Foram singelas, se fôssemos apenas amigos, a falta da despedida carinhosa não afetaria em nada. Contudo, tendo lido tanto tempo sobre "beijos, querida", não podia crer que de repente ele não os julgava mais importantes.
_ Está. - menti para Cora. Muito embora soubesse que ela desconfiava de mim. - Elifas enfrentou uma quimera e Alvo está trabalhando numa mercearia em Godric's Hollow.
_ Dumbledore trabalhando? E não é no ministério?! Pelas barbas de Merlin! - exclamou minha irmã se apressando em minha direção para tomar a carta.
_ Ei, nada disso. Assuntos particulares. - disse guardando a carta de volta no envelope.
_ Ah, perdão. - zombou ela afastando-se com as mãos para o alto.
Junto à carta de Elifas veio um embrulho de papel pardo, que logo descobri esconder um belo tecido azul fino. "Para você levar algo da Grécia mesmo estando em Paris. Comprei-o fora do templo de Atena." Analisando melhor o pano que tinha em mãos, percebi que poderia ser usado para confeccionar a minha fantasia para o baile no Jardim das Tulheiras.
_ Que tal uma fantasia à la grega? - indaguei abrindo o pano todo.
_ Vai ficar ótimo. Elifas inspirou você? - retrucou Cora sorrindo.
_ Sim, Eli me inspirou. Ou talvez eu vá de Cleópatra… ou…
_ Vista-se de Cleópatra, Mel, e eu serei o seu César. - disse Marius entrando em nosso quarto de supetão, acompanhado de Rudy.
_ Mas você já ia se vestir de Luís XVI, mon ami. - retrucou ele.
_ Pois então, me vestirei de Maria Antonieta e guardarei o tecido para outra ocasião. - respondi tornando a fechar o pano. - E quanto ao senhor, senhor Rudy, qual será sua fantasia?
_ Eu serei um francês qualquer. - respondeu ele com uma reverência. - Com uma máscara vinda de Veneza para completar.
_ E a mademoiselle Cora? - quis saber Marius aproximando-se de minha irmã enquanto ela terminava de arrumar o penteado de frente ao espelho.
_ Eu fingirei ser uma francesa entre vocês. - gracejou ela, lembrando-se de meu comentário no outro dia. - Já que tenho o olhar, mas não o falar, serei a muda entre vocês.
_ Adorável! E instigador para uma poesia. Rudy, lembre-me dessa mais tarde. Os amigos do Moulin Rouge podem gostar. - comentou Marius.
_ Anotado. - respondeu Rudy terminando de copiar qualquer coisa numa pequena caderneta de bolso. - E então? Aonde as moças pretendem ir hoje? Estávamos pensando num passeio pelo Sena.
_ Seria ótimo. - assegurei saindo do quarto com o chapéu em mãos. - Mas, Cora e eu precisamos visitar uns parentes… Nossa tia, Olímpia e também…
_ Preciso resolver uns assuntos na escola em que começarei a lecionar no ano que vem. - completou minha irmã vestindo as luvas.
_ Mon Dieu! Mademoiselle Delacour, eu jamais suspeitaria que possuía ambição para lecionar. - observou Marius risonho. - Embora, tenha a altivez necessária e o senso de controle de uma exímia educadora.
_ Guarde seus elogios para sua doce Mel, senhor Depardieu. A última coisa que quero ouvir é que pareço com uma professora… - zangou-se Cora.
_ Ele não queria ofendê-la. - interveio Rudy. - Mas é realmente surpreendente que moças vindas de uma família rica pensem em trabalho.
_ Não somos como a maioria. - respondi. - Perdoe minha irmã, Marius. Ela está nervosa com essa "entrevista". - falei ajeitando as luvas. - Bem, nos vamos. À bientôt, mis ami. - me despedi.
Seria a primeira vez em dias que voltaria a me envolver com meu próprio povo. De fato, estava me acostumando a todo aquele contato com os trouxas, mas sentia falta de bruxos ao meu redor. De dois bruxos na verdade. Minha irmã sentou-se com violência no carro que nos guiaria para a casa de tia Olímpia, e de lá aparataríamos para o castelo da escola de Beauxbatons. Cornélia não quisera ser grossa com Marius, isso era um fato, mas ainda assim eu podia perceber que não estava de todo gostosa com a presença deles.
_ Mal posso esperar para saber as últimas do campeonato de Quadribol. - comentei tentando iniciar uma conversa.
_ É mesmo? Seu gosto por Cricket estava começando a soar tão natural. - desdenhou minha irmã, azeda.
_ Pelas barbas de Merlin, Cora, até parece que está odiando passar esse tempo comigo. - comentei.
_ Ah, não é isso. É só que parece que estamos sempre sendo seguidas por esses homens e mal os conhecemos. Eu sei que você gostou muito deles, mas temos que concordar que você tem um pendor para gostar das pessoas em geral. Exceto que elas venham de uma longa família puro sangue e tenham suas iniciais com a letra B. - disse ela referindo-se ao Black. - Também estou nervosa com a entrevista e sinto falta de falar sobre assuntos mágicos… você não?
_ É claro que sim. Não acabei de dizer que quero saber sobre o meu time de quadribol? E sim, também sinto falta de usar a minha varinha e tudo o mais. Entretanto, isso tudo parece um trabalho de campo de Estudos dos Trouxas, é incrível. É como ainda estar em Hogwarts. - retruquei sorrindo.
_ Espere até ver Beauxbatons, ela dá de dez a zero em qualquer castelo. - respondeu minha irmã.
_ Nem que as paredes fossem feitas de ouro. - rebati com orgulho. - Imagine só! Ter que me levantar toda vez que um professor se apresenta em sala e nos jantares… e depois dizem que os ingleses são conservadores. Somos muito liberais.
_ É, eu percebi. Mademoiselle Delacour. - brincou Cora. - Ainda acho que ele está só esperando o momento certo para agarrar uma de nós.
_ Pelo gosto francês eu diria que você é a escolhida. - disse na defensiva.
_ Não sou eu quem ele diz ser mais doce que mel. - tornou a brincar minha irmãzinha. - Estamos quase chegando.
A casa de tia Olímpia ficava ao fundo da cidade, uma bela construção moderna e que realmente… ficava próxima de um bordel, mas que não se assemelhava em nada com um, ao contrário do que tia Sarah poderia dizer. De fato, ao contrário de tia Sarah, tia Olímpia possuía um vivo traço de disposição a qualquer alegria que a vida pudesse oferecer. Embora seu primeiro casamento tivesse lhe tirado um pouco desse brilho, ela nunca deixou de ser resplandecente. Ninguém ousaria não reparar nela quando entrasse num salão, e ela fazia por onde, estava sempre bem vestida.
_ Cornèlie! Amèlie! - cumprimentou ela da porta de casa, apressando-se para nos apertar até a morte. Era um tanto gordinha, mas possuía o sorriso mais sedutor que eu já vira. - Vocês me entrristecerram muite demorrande tante para vir me ver. - queixou-se ela quando já estávamos instaladas na sala.
_ Desculpe, tia Olímpia, mas ficamos encantadas com o movimento da cidade. - respondi serenamente, ela entenderia.
_ É clarro. Nunca entendi como os ingleses conseguem dizerr tantes coisas boas sobrre Londrres, quande se tem algo como Parrí. - concordou nossa tia acenando para que o elfo doméstico trouxesse o chá. - E como vai sua tia Sarah? Ainda ache minha casa um borrdel?
_ Sim. - respondi com um riso sem graça.
_ Ah, que seje… Mas, e vocês, menines… Os últimos meses de liberrdade estón cainde como uma luve. Não me lembrro de vê-las mais bonites. - elogiou tia Olímpia.
_ E olhe que estamos passando noites em claro pelos cafés da rua do Rivoli. - comentei rindo maliciosamente.
_ Oho… Amèlie… vejo que stá realmente desgostose com o casamente com Sirrius… Non se prreocupe, mon chèr, ele pensarrá duas vezes antes de ir contrra o sangue de uma Delacour. - assegurou minha inocente tia.
_ Uma pena que assim que deixar Paris, eu volto a ser uma Preminger. - respondi com leve amargura. - Mas, estou me apresentando como Delacour em todos os lugares.
_ Quase não me sinto mais uma Preminger. - concordou Cora.
_ Pois fazem vocês muite bien. O nome angles non trás bem nenhum na França. - comentou tia Olímpia. - E já stón de namorrico?
_ Claro que não! - exclamou Cora indignada. - Estamos praticamente noivas…
_ Amèlie, sim. Mas, você non Cornèlie.
_ Mas eu conheço meu futuro marido. Um Potter, e eu gosto muito dele… é um bom rapaz. - retrucou minha irmã corando.
_ Eu gosto dos Potter. - comentou minha tia. - Lamente por você, Amèlie… Un Black…
_ Qualquer coisa eu mordo ele. - brinquei fazendo minha tia rir. - Bem, precisamos ir até Beauxbatons. - disse depois de mais alguns minutos de conversa fiada.
_ Oui. - disse minha tia erguendo-se para pegar o pó de flu. - Mande lembrrances minhes para Apolinne. - acrescentou antes de entrarmos na lareira.
Aparatamos direto na sala da diretora, Apolinne Martin, uma mulher bastante rígida e de descendência veela. Era comum que ficassem encarando-a por algum tempo antes de dizerem o que tinham para dizer, fato que nunca agradou-a muito. Ainda assim, minha irmã gostava muito de sua antiga diretora e apesar de nervosa, não conseguiu conter um sorriso ao vê-la.
_ Bounjour, madame Martin. - cumprimentou com uma reverência polida. - Esta é minha irmã, Amélia.
_ Enchantée, Amèlie. - cumprimentou a diretora com um sorriso amigo. - Poderia deixarr Cornèlie e eu a sós? Para a análise…
_ É claro. - concordei de pronto.
_ Fará companhia ao professeur Kocsis, por favor?
_ Sim, senhora.
Paris me fez acreditar na validade do destino, e aquele encontro por si só fez com que tais crenças aumentassem ainda mais. Acontece que, na época, Elemer Kocsis era professor de feitiços avançados na escola de Durmstrang, de onde Gerardo Grindewald havia acabado de ser expulso… contudo, num primeiro momento eu sequer desconfiava dessa identidade e conversava com o homem sobre assuntos que me interessavam na magia, aos quais ele respondeu polidamente. Ao final, quando eu indaguei sobre o porquê de estar há tanto tempo aguardando pela professora Martin, ele me respondeu que precisava falar sobre a transferência de um aluno…
_ Ah, o senhor é professor, afinal. - observei espertamente.
_ Em Durmstrang. - ele me respondeu com orgulho.
_ Mas isso é… uma coincidência notável. - murmurei.
_ Acaso conhece algum aluno de lá? - inquiriu o professor.
_ Eu? Não… mas um amigo meu me escreveu dizendo que se encontrara com um ex aluno, enquanto faziam estadia num hotel. - menti.
_ Ora, e qual ex aluno? Talvez seja um dos meus favoritos.
_ Grindewald. Gerardo Grindewald. - respondi de pronto. - O senhor o conheceu?
Por um momento o rosto de Kocsis perdeu um pouco da cor, que já não era muita, enquanto ele tentava esconder sua reação. Ficara espantado e ao mesmo tempo preocupado.
_ Eu prefiro não falar nesse aluno, senhorita. - cortou o diretor. - Mas, seu amigo…
_ Já se despediram. - tornei a mentir. - Ele disse ter achado o rapaz muito brilhante.
_ Ah, de fato, muito brilhante. - desdenhou o professor com visível nojo. - Eu lhe digo, senhorita, é melhor permanecer nas trevas do mundo a usar a mente em razões como o senhor Grindewald. - acrescentou ele prontamente.
_ O que ele fez para deixar tamanha mancha em sua memória, senhor? - insisti.
_ Realmente, senhorita… eu prefiro poupá-la disso. - disse ele.
_ Mas…
_ Consegui! Amélia, eu consegui! Vou começar no ano que vem como professora de Defesa Contra a Arte das Trevas! Isso não é maravilhoso?! - indagava minha irmã aos berros de alegria.
_ Meus parabéns, mademoiselle Premingerr. - parabenizou Apolinne saindo de sua sala. - Vamos então, professeur Kocsis?
_ Claro, madame Martin. - respondeu ele. - Espero realmente que fique bem, senhorita. - disse despedindo-se de mim.
_ Obrigada, professor Kocsis. Desejo o mesmo para o senhor. - respondi um tanto decepcionada.
Dali não usamos pó de flu, apenas aparatamos de volta para a casa de tia Olímpia. Comemoramos com uma taça de vinho dos elfos o novo emprego de Cornélia. No entanto, eu estava completamente à parte daquele momento, tentando imaginar que tipo de atrocidade aquele dito Grindewald poderia ter feito para manchar tanto sua reputação. E pior, preocupava-me com Alvo, afinal, eles pareciam estar se tornando tão íntimos… Mais tarde apenas que cheguei a saber que Gerardo havia assassinado dois alunos de Durmstrang em sua ambição por dominar as artes das trevas… Mesmo em cartas eu já não havia simpatizado com ele, e nada melhorou depois de tudo o que passei por sua causa… a prisão de Nurmengard não fora o suficiente para mim, ele deveria ter sofrido mais.
_ Amélia… você está calada desde que voltamos de Beauxbatons. - observou Cora enquanto ainda estávamos dentro do carro. - O que aquele professor quis dizer com "espero que fique bem"?
_ Nada, eu apenas fiz algumas perguntas a ele com relação a magias antigas e comentei meu interesse em me tornar inominável. O professor Kocsis apenas demonstrou preocupação por um moça se envolver num assunto tão perigoso. - menti. Cornélia riu.
_ Ele mal teve a chance de te conhecer. - comentou ela, me fazendo sorrir de lado.
Ao voltarmos para o hotel, Cora perguntou se eu queria que chamasse Marius e Rudy para uma noite no Moulin Rouge. Recusei alegando estar muito cansada por ter passado a tarde inteira fora, e realmente, a carta de Alvo e a conversa com o professor de Durmstrang me deixaram mais exausta ainda… aquele dia passou depressa demais. Contudo, me esquivar de sair também não me ajudaria, visto que eu não conseguiria dormir sem a ajuda de um bom entorpecente. Então, resolvi aceitar a ideia e partimos os quatro para o Moulin Rouge. Marius declamou o poema inspirado na fala de Cora e nós duas cantamos a nossa conhecida canção ao piano, sob a condução de Cecile.
Pela primeira vez em dias eu finalmente vi a fada verde, e já na cama, dormi numa questão de segundos. Sem me lembrar de Alvo ou Grindewald, presa apenas ao vazio do nada causado pela bebida. Eu tive muito tempo para me preocupar mais tarde, pelos cem anos que se seguiram.
