Capítulo 24

As correspondências continuaram a ser enviadas entre Paris e Londres, Le Ritz e Godric's Hollow. Diários intermináveis sobre uma vida vazia que não parecia ser a da mesma pessoa. Talvez fosse mesmo injusto relatar a ele sobre todas as maravilhas que me aconteciam em Paris. Contudo, como diria em carta posterior - e que viria a ser a última trocada naquele espaço de tempo - aquela era a minha rotina, tanto quanto seus planos com Grindewald e sua nova vida para sustentar a família era a dele. De fato, naqueles últimos tempos, desde que começou a falar de Gerardo, eu sentia que Alvo estava se comportando de uma maneira muito estranha, fora de seus padrões. Não parecia mais ser aquele por quem me apaixonara e isso me assustou, na época. E as suspeitas de uma possível paixão continuaram.

Bem, em meio a toda aquele torrente de sentimentos estava completando quase um mês desde a nossa partida para Paris, e durante todo aquele tempo, eu tive o prazer de conhecer pessoas maravilhosas e suas histórias intrigantes. Cecile, que eu descobri ser uma fotógrafa de primeira linha e bissexual, passou a nos acompanhar em todos os jantares e é alguém de cuja lembrança nunca me afastei. Seus olhos expressivos e sorriso icônico foram cativantes e mesmo Cornélia admitiu que ela a encantava. Também o sarcástico e rabugento George Dufrenóy que, apesar de tudo, tinha um sorriso muito bonito e conseguia conquistar todas as prostitutas com seu falatório esperto. Em suma, personalidades atrás de personalidades amigas de Marius e Rudy. Dentro de toda aquela balburdia, eu ainda tive meus momentos de "presentes de casa".

O baile de máscaras no Jardim das Tulheiras se aproximava e em Paris não se falava de outra coisa. Começaríamos por lá e depois seguiríamos a pé, dançando, para Versailles. Uma noite de várias recordações, porém, antes que ela chegasse, outra tarde também muito marcante aconteceu primeiro. Estávamos todos reunidos na Place des Vogues outra vez, frente à casa de George, conversando e bebendo, quando senti duas mãos tapando meus olhos. Antes de tê-los fechados, vi Cora reprimindo um grito de surpresa e uma risada. Há alguns anos, essas cenas seriam evitadas com um aceno de varinha, mas ali, eu era apenas a filha de algum magnata. Tateei as mãos até os braços, mas não consegui definir quem era, até ouvir o cantarolar de uma canção conhecida.

_ Vem nos ensinar, quer sejamos velhos ou novatos no lugar. - cantei sem me importar se os meus amigos fossem me achar lunática. - Elifas! - gritei a plenos pulmões pulando por cima dele, fazendo com que caísse no chão e me abraçasse quase corando pelos olhares alheios.

_ Muito bem, vamos parar com essa demonstração de carinho… - pediu ele pondo-se de pé. - Vejo que Paris fez muito mal às suas maneiras, Mélia. - comentou me ajudando a levantar.

_ E eu vejo que a Grécia o tornou desleixado com a sua aparência. - retruquei analisando seu rosto. Eu nunca o vira de barba antes e muito menos com o cabelo tão sem corte, estava quase à altura dos ombros, o que nunca aconteceu.

_ O que? Não gostou do meu novo visual? - brincou ele risonho. - Ah! - suspirou correndo para me abraçar de novo, me erguendo do chão. - Que saudade eu senti! Juro que se fosse a Linda eu a beijaria agora! Também morro de saudade da minha loirinha. - acrescentou ele cheio de emoção.

_ Então é melhor eu me afastar antes que destrua esse relacionamento. - brinquei soltando-me dos braços dele. - Vem, venha falar com a Cora e quero que conheça meus amigos. - apressei-me em dizer puxando-o pela mão.

_ Elifas! - cumprimentou Cora erguendo-se para abraçá-lo. - Você está parecendo um homem das cavernas. - disse ela ao olhá-lo melhor.

_ É… eu realmente vou aparar isso antes de visitar a Linda. - ponderou ele fingindo decepção. - Está mais bela do que nunca, Cornélia.

_ São os ares de Paris. - disse pondo-me atrás de Marius e Rudy. - Estes são Marius Depardieu e Rudolph Chevallier, nossos guias turísicos de Paris. Esta é Cecile Tattou, fotógrafa por paixão e nossa especialista em fitas e laços franceses. E por último, mas não menos importante, George Dufrenóy, pintor, boêmio e rabugento por vocação. - apresentei-os, fazendo Marius rir na última parte.

_ Ela o pegou de jeito, mon ami. - disse bebendo outro gole de vinho.

_ A mademoiselle Delacour foi agraciada com a minha paciência. - retrucou George piscando para mim. - E quem é esse senhor tão mal estilizado?

_ Elifas Doge. - apresentou-se ele. - Delacour? - indagou Elifas confuso.

_ Sim, Eli, aqui sou conhecida pela minha mãe francesa e não pelo meu pai inglês. - expliquei. - Há quanto tempo está na cidade.

_ Alguns segundos, digo, minutos. - respondeu ele, se dando conta da gafe em falar sobre aparatação. - Mas, gostaria de saber se não poderíamos almoçar juntos…

_ É claro, qualquer amigo da minha Mel é bem vindo para almoçar conosco. - respondeu Marius pondo-se de pé. - Que tal irmos até o restaurante do Ritz?

_ Magnifique. - concordou Cecile.

Elifas pareceu um pouco decepcionado por ter que dividir minha presença com os franceses, mas soube fingir bem essa decepção. Tomamos um carro de volta ao Hotel e passamos como um bando de revolucionários pelo saguão, até a porta do restaurante. Apontei meus amigos como meus convidados e conseguimos uma mesa perto das janelas. Rudy enchia Elifas de perguntas acerca de sua vida e "negócios" na Grécia. Estava visivelmente interessado em saber mais sobre meu curioso e desmazelado amigo. Já Marius flertava com as garçonetes, enquanto Cecile troçava com Cora a respeito dos vários homens que ali estavam e que ela conhecia de noitadas passadas. Quanto a mim, eu me resumia a observá-los em perfeita sincronia, como se aquela reunião fosse uma ópera… e logo chegaria a minha ária.

_ Onde você está hospedado, Eli? - perguntei.

_ Na verdade, é uma viagem de um dia só. Vim apenas cumprir minha promessa e visitá-la, Mélia. - respondeu ele terminando de mastigar o escargot. - Meu Mer… Deus! Como conseguem comer isso?

_ Não é tão ruim quando se joga o vinho por cima. - comentou Cecile sorrindo. Ela também nunca gostara muito da iguaria.

_ Há quanto tempo conhece minha doce Mel, senhor Elifas? - perguntou Marius curioso.

_ Somos amigos de infância, senhor Depardieu. - Eli respondeu. - Nos conhecemos na escola e desde então, temos sido bons amigos.

_ Ah! Então pode nos contar mais a respeito do misterioso noivo? - tornou a perguntar.

_ Sinto muito, senhor Depardieu, não sei mais do que vocês. E, além disso, eu jamais arriscaria falar sobre algo que Amélia não quisesse ouvir… ela tem seus meios de aterrorizar os amigos. - rebateu Elifas me olhando com significado.

_ Com esses olhos tão doces e um sorriso tão coloroso me custa acreditar em suas palavras. - observou Marius tomando minha mão para beijá-la.

_ Acredite, ele sabe o que diz. - comentei com visível tensão sobre aquele olhar. - Ao final, quem gostaria de ir ao Louvre? Fica ao lado do Jardim das Tulheiras e… não aguento mais me conter para conhecê-lo antes do baile.

_ Excelente ideia. - concordou Rudy erguendo a taça para um brinde. - Bem, vamos dar espaço para que as moças subam e vistam-se apropriadamente. - brincou ele.

_ Você é um sexiste, Rudolph Chevalier. - zangou-se Cecile. - Mas eu irei com minhas amigas, para lembrá-las de que menos é mais.

_ Você que é muito avant-garde, Cecile Tattou. - retrucou Rudy também sério.

No quarto, procuramos nos trocar o mais rápido possível com a ajuda de Cecile. O olhar que Elifas me lançara não saía da minha cabeça e eu não conseguia entender o que aquelas palavras queriam dizer. Claro, poderiam ser somente uma brincadeira, mas o tom sério de seus olhos não o foram.

_ Você deveria tomar cuidado. - advertiu Cecile entrando na minha suíte do quarto.

_ O que quer dizer? - indaguei risonha, achando que ela estava prestes a pregar uma de suas peças.

_ Marius está muito saillant para o seu lado.

_ Oh, não se preocupe. Ele jamais faria nada contra mim, Cecile… ele me chama de Mel, mas eu lhe dei liberdade para tal. Me divirto muito em sua companhia, mas é só e ele sabe. - tranquilizei-a enquanto terminava de ajeitar o chapéu na cabeça.

_ Marius é francês e você sabe o que dizem sobre os homens franceses, eles têm uma palavra diferente para tudo. E nesse caso, amizade seria cobiça. É como ele olha para você… e estamos acostumados a sermos bem sucedidos em assuntos do coração, mesmo que de forma trágica. Soins, Amélia. - disse deixando-me sozinha outra vez.

Descemos de volta para o saguão e encontramos os rapazes nos esperando. Marius me olhava encantado, como sempre fazia, mas, somente depois do alerta de Cecile é que eu pude ver, ao fundo de seus olhos, um pouco do brilho de cobiça. Em todo caso, era Elifas que me preocupava naquele momento. Assim que chegamos ao museu, eu disfarcei meus passos para ficar ao lado dele. Havia muitas pessoas ao redor para que aparatássemos sem sermos percebidos, então eu tornei a me aproximar de Cora, aproveitando que Rudy falava sem parar sobre a arquitetura do museu.

_ Distraia-os enquanto estivermos fora. - sussurrei para minha irmã.

Corri com Elifas para o outro lado, em direção ao Jardim das Tulheiras. Vários trouxas o visitavam e visitam ainda hoje, o que facilitou para que converssássemos sem sermos percebidos por mais ninguém.

_ O que há com você? O que foi aquela cara? Alguma coisa errada? - comecei a perguntar de pronto.

_ Você me responda. Há tempo percebi que seu entusiasmo diminuiu em suas cartas quando fala sobre Alvo e embora eu achasse isso reconfortante já que muitas vezes é estranho saber de certas intimidades, não posso deixar de me preocupar. Diga-me, Amélia, aconteceu alguma coisa? - perguntou ele suspeitando.

_ Ele não te falou sobre ele? Nada sobre Grindewald? - indaguei perplexa.

_ Algumas palavras, por quê? - retrucou ele ainda com visível preocupação.

_ Alvo está cego! - exclamei sem rodeios, sentindo as lágrimas se formando em meu rosto. Por quase um mês eu aguentei aquilo sem falar com ninguém, mas agora eu tinha Elifas ao meu lado. - E suspeito que seja de amor, ele não me chama mais de minha querida no início das cartas, não fala mais em nós como se fossemos a única coisa importante… Ultimamente ele só fala em Grindewald e seus brilhantes planos para o mundo bruxo, em como pretende fazer a raça trouxa se curvar… Não é o meu Alvo, Eli… não mais.

Elifas ficou sério e quase sem expressão enquanto me fitava.

_ E tem mais, eu escrevi a ele dizendo o que penso sobre esses planos e ele me repreendeu, dizendo que o chamei de invejoso, só porque disse a ele para que tomasse cuidado com Gerardo Grindewald e seus brilhantes planos. Ousou ainda afirmar que um dia serei capaz de entender… E deve ter percebido que suspeito dele, porque pela primeira vez em semanas de cartas ele falou em me beijar. Elifas… - eu não consegui conter um soluço, e ele me abraçou antes que alguém nos olhasse. - Eu passei tempo suficiente com os franceses para entender certas artimanhas amorosas e se ele não me deseja mais, se prefere um homem a mim, eu entenderei, mas não é isso o que me chateia… é que ele plantou suas novas emoções em alguém terrível!

_ Fala como se soubesse mais do que ele sobre esse rapaz. - observou Elifas, astutamente.

_ E sei. - garanti me afastando para secar as lágrimas num lenço. - Há alguns dias eu fui até Beaxbatons com Cora e lá eu encontrei um professor de Durmstrang, a escola que Grindewald frequentou antes de ser expulso. Quando perguntei o por que da expulsão o professor se recusou a me responder… O que mais eu posso pensar disso?

_ Entendo. - disse ele por fim. - Mas, o que pretende fazer? Voltar a Godric's Hollow e dizer a ele para sumir?

_ Alvo nunca me perdoaria está muito apaixonado por ele. - respondi com amargura.

_ Como tem certeza?

_ E você também não suspeita? Nas suas cartas, quantas vezes o nome de Gerardo Grindewald foi mencionado? Quantas? E mesmo você, Elifas, quantos homens interessantes, brilhantes deve ter conhecido esse tempo todo e sobre quantos falou para mim? Nenhum! Tudo bem, ele deve estar se sentindo sozinho e ficou impressionado por encontrar alguém que se diz tão brilhante quanto ele e se deixou levar por uma paixão, que seja. Mas e se Grindewald não suspeita disso e está usando-o para atingir seus objetivos? E se não estiver manipulando o Alvo?

_ Ele é muito inteligente para se deixar manipular, quase foi para a Corvinal.

_ Ninguém é inteligente o bastante quando está apaixonado! - exclamei descrente. - Pense em você, Elifas, se Linda estivesse beijando você, levando-o ao delírio em sua paixão e lhe pedisse qualquer coisa enquanto isso, mesmo que absurda, você não acataria?!

Ele demorou para responder, mas assentiu com a cabeça.

_ E então por que não volta a Godric's Hollow e faz com que ele se lembre de por quem é realmente apaixonado? - indagou como se fosse a solução mais óbvia.

_ Porque, às vezes… às vezes no fim da noite eu penso que… que ele não me ama mais; e que nem mesmo a lembrança daquela noite no banheiro dos monitores o faria me amar de novo. - respondi com dificuldade.

A falta de espanto e indagação da parte de Elifas me fez entender que realmente ele sempre soubera sobre Alvo e eu, e tal conforto me permitiu chorar mais um pouco em seus braços. Eu não sabia o quanto eu sentira falta do meu amigo, até não ter ninguém que entendesse para conversar. E ainda assim, eu queria que Linda também estivesse ali.

_ O que eu faço, Eli? - murmurei num sopro.

_ Não diga nada, ainda. Espere até seu tempo aqui acabar e tente não pensar nisso enquanto vive Paris. Aquele pessoal parece fazê-la feliz, foque suas energias neles e na sua irmã. - sugeriu ele, sendo sincero.

_ São péssimos conselhos. - disse tentando rir. - Eu não vou conseguir esquecê-lo. É a cidade dos amantes, não sabe?

_ Não precisa esquecê-lo, apenas… se o que diz é certo e se ele realmente não mais falará sobre seus beijos… apenas deve aprender a viver sem isso, não é?

_ Eu odeio quando é você quem está certo, Eli. - disse tornando a abraçá-lo. Continuamos ali até o pôr do sol, Cora deveria estar se saindo muito bem em distrair Marius e os outros para que não nos interrompessem. Ao soar das seis horas, com os sinos de Notre Dame, Elifas anunciou que era hora de ir embora. Caminhamos até um lugar mais afastado onde ele poderia aparatar sem ser notado.

_ Não se preocupe, Mélia. As coisas vão voltar a ser exatamente como eram.

Eu ri com um pouco de desdém.

_ Não, Eli… as coisas nunca são as mesmas depois que algo acontece, elas só melhoram ou pioram.

_ Nesse caso, que Merlin concretize seus sonhos, querida. - disse antes de partir.

E fiquei ali, sentindo a brisa.


Boa taaaarde, amadooos! Sim, foram muito capítulos, um atrás do outro... mas, mesmo assim, me deixem saber o que estão achando, ok? Reviews são sempre bem vindas para não fazer com que a autora se mate, hehehe... beijinhos e até o próximo!