Capítulo 26
E os dias horríveis passaram, mas para a minha pouca sorte não foram rápidos o suficiente. As horas pareciam se alongar apenas para que eu tivesse mais e mais razões para me sentir infeliz, e nem Cora, nem Marius ou Rudy, sequer Cecile e Georgie faziam com que a sensação passasse. Embora apenas minha irmã e o meu amigo poeta soubessem o que realmente se sucedia, era visível que os outros já desconfiavam da minha súbita mudança de humor. Conversava com mais calma e ria mais baixo, o que teria deixado tia Sarah orgulhosa quando eu ainda estava em meus 12 anos.
A dor era insuportável e se intensificava ao passo que a negação aumentava. Contudo, as tentativas para esquecer tal sentimento de perda me fizeram aprender várias coisas da vida boêmia. Cecile me fez experimentar o cigarro, que repudiei à primeira tragada… impossível entender como tantas pessoas conseguem gostar disso. Depois foi a vez de andar a cavalo sem a habitual sela especial para senhoras, aquela coisa que lhe permite trotar de saias e prender a barra do vestido no pé ao descer pelo estribo, mas isso apenas se alguém for tão desastrada quanto eu. Em todo caso, esse dia foi memorável… E, finalmente, o grande acontecimento da temporada..
Não me lembro de ter ficado tão satisfeita com a possibilidade de ter meu quadro pintado por Toulouse Lautrec até que, naquela manhã, Marius lembrou-me de tal promessa feita um mês antes no Moulin Rouge. O melhor desenhista da cidade exigia um retrato meu… tive razões para me sentir a belle d' pari. A fantasia, contudo, continuava a ser um mistério. Era bem verdade que estava de posse de um excelente tecido grego em mãos e que poderia muito bem usá-lo para fazer alguma coisa. Entretanto, eu queria guardá-lo para uma ocasião no mundo bruxo. Cora considerou válido e eu sentia que esperava que a ideia brilhante acerca de nossas vestes viesse de mim.
_ Eu não tenho ideia do que podemos vestir e não espere que algo brote do nada. - eu disse enquanto vasculhava minha mala. - Sabe que não ando muito inspirada para ter ideias brilhantes.
_ Ah, esqueça isso pelo menos hoje… eu não quero chegar parecendo uma mendiga… ou, será que sim? - indagou minha irmã me olhando sugestivamente. Ergui os olhos para fitá-la com descrença.
_ É claro que não vamos nos vestir de mendigas, Cornélia Preminger. - respondi de pronto. - E você brigando comigo sobre honra da família quando chegamos…
_ Foi só uma ideia. - retrucou ela jogando-se contra o meu colchão. - Mas, e então?
Nós tínhamos vários vestidos de noite bons, mas nenhum que se parecesse com uma fantasia. Contudo, de repente, a grande verdade me ocorreu. Éramos bruxas habilitadas a usar magia com varinhas guardadas a sete chaves com as jóias, por que raios ainda estávamos pensando no que fazer?
_ Cora, acho que passamos tanto tempo entre os trouxas que nos esquecemos de quem somos. - observei completando meu raciocínio.
_ Amélia e Cornélia Preminger. - ela respondeu como se fosse óbvio. - Ou Delacour, como você gosta de se apresentar por aqui. - acrescentou com um sorriso.
_ Certo. - concordei, correndo para pegar minha caixa de jóias com a varinha. - E Amélia e Cornélia Preminger Delacour não são meras turistas parisienses. Somos bruxas, descendentes de duas das mais puras dinastias do mundo mágico e capazes de fazer com que qualquer um desses vestidos se transforme na mais bela fantasia. - conclui erguendo minha varinha para cima.
_ Esse foi, sem dúvida, o discurso mais pretensioso que você já fez na sua vida, minha cara irmã. - comentou ela. - Mas, tem sua parcela de razão. Onde é que estávamos com a cabeça? Vamos logo transfigurá-los.
_ Primeiro tranque as portas por dentro. Vamos ficar somente no meu quarto. - sugeri pensando na camareira que poderia entrar para checar as roupas de cama. - E agora vamos decidir…
_ Bem, se vamos usar magia e se realmente é um baile a fantasia, nada mais justo do que sermos nós mesmas. Lembra-se daquela pintura de mamãe usando o vestido cerimonial de celebrações do dia de todos os santos?
_ Não comemoramos o dia de todos os santos propriamente desde que os trouxas inventaram o Halloween. - ponderei com descaso.
_ Exato, o que torna aquele vestido a fantasia perfeita. - concluiu minha irmã com um sorriso brilhante.
_ Tem razão, Cora. - concordei imediatamente, sem pensar. - Vá pegar nossos chapéus também, vamos transformá-los em obrimas primas dignas de Madame Malkin.
Os vestidos cerimoniais do dia de todos os santos não eram como as fantasias espalhafatosas que a maioria das mulheres trouxas costumavam usar nessas ocasiões de liberdade formal. Eram longos, com um profundo decote em V no centro e mangas de tecido fino, como asas de morcego. O decote deveria ser bordado de acordo com o símbolo da família ou o ano que estivessem tendo. Em épocas mais antigas da bruxandade, costumava-se nomear os anos em relação a animais ditos como poderesos: leões, tigres, fênix ou qualquer outro. Na família Preminger, o símbolo era um arranjo de rosas bordadas impreterivelmente ao centro, deixando menos espaço para expor a carne dos seios.
Depois de escolhidos os vestidos que iríamos transfigurar, um azul bordado de Cora e um esverdeado meu, começamos a decidir onde seriam feitos os cortes. Segundos depois já estávamos vestidas, de frente ao espelho, apontando as varinhas em várias direções. O fato de nossos vestidos já terem mangas facilitou muito a transfiguração, logo os pedaços de pano antes colocados em nossos braços desciam em cascata por eles. Os bordados foram mais difíceis, até porque transfigurar um pássaro lateral em um arranjo de flores não era tão fácil quanto creem os inocentes. Entretanto, após muito praguejar, terminamos.
_ Brilhante! - exclamei mirando nosso trabalho no grande espelho do quarto. - Cora… você está igualzinha a mamãe. - comentei com a voz embargada.
_ E… me perdoe, mas… você está me lembrando a tia Sarah nesse tom de verde… - era visível que temia me ofender. De fato, naquela época ofendeu e eu quase troquei a cor do vestido, mas olhando para o passado agora, percebo que em certos aspectos tia Sarah e eu quase nos parecíamos de vez em quando.
_ Não me faça trocar a cor do vestido e desejar ter nascido com a sua cara. - foi o que respondi.
_ Perdão. O que sugere para nossas pequenas cabeças de vento? - brincou tentando me fazer mudar de linha.
_ Ora e o que mais? Os chapéus que compõem o vestido. Venha, me ajude a fazer um coque descente.
Alargamos os chapéus e os enchemos com as flores dos vasos do hotéu e transfiguramos fitas em tule azul e verde para combinar.
_ Eu estou me sentindo uma das julgadas de Salem. - comentei enquanto arranjava o grampo para prender o chapéu.
_ Não me lembre disso… e as máscaras?
Rudy tivera a bondade de mandar fazer um par de máscaras para nós em prata, parecia adivinhar a cor das bruxas. Eu adoro Paris e com certeza tenho boas lembranças da cidade, mas sentia falta de estar entre a minha gente. Poder empunhar a varinha sem medo e usar qualquer tipo de roupa que quisesse. Existiam bruxos em Paris, mas eram mais discretos do que os de Londres. Enfim, quando descemos para o hall, Marius, Rudy e Cecile já nos esperavam também prontos. Nossos amigos inovaram como os três mosqueteiros mais bem caracterizados que eu já havia visto.
_ Os três mosqueteiros. - anunciei com uma reverência prontamente devolvida. - Agora sim me sinto mais protegida para andar nas ruas escuras de Paris.
_ Vocês estão vestidas de quê? - indagou Rudy curioso.
_ Bruxas. - respondi com uma piscadela cúmplice para Cora.
_ Mas, bruxas não se vestem assim. - respondeu Rudy.
_ E o senhor conhece quantas bruxas para saber como se vestem, senhor Chevalier? - quando Cora volta a chamar alguém pelo sobrenome, já tendo usado o primeiro nome, é ofensa na certa.
_ O que importa? Serão as mais belas bruxas da festa. - comentou Marius.
_ Obrigada, Marius. - agradeceu Cora. - O senhor deveria aprender com ele, senhor Chevalier. Muitas vezes as histórias que contam não são verdadeiras. - acrescentou enquanto dava o braço a Marius e saíam juntos pela porta do hotel.
_ Eu não sabia que a sua irmã…
_ Não se preocupe, querido Rudy. Até o final da noite ela terá pregado uma peça em você e estarão quites. - respondi dando meu braço a ele e a Cecile.
_ Eu vivo dizendo a ele que ainda encontraria uma mulher que o faria se arrepender de falar demais. - comentou Cecile achando graça. - Sua irmã superou as expectativas.
_ Cora costuma fazer isso quando está vestida para a ocasião. - brinquei com uma risada alta.
Se existe uma visão incapaz de ser esquecida, seria o Jardim das Tulheiras decorado para um baile. Era como o natal… nem mesmo as árvores passavam despercebidas, todas iluminadas, brilhando como milhões de estrelas. As mesas ficavam próximas das casas ao redor, liberando o centro para uma grande pilastra de madeira cheia de fitas que seriam usadas na dança mais tarde, os rostos felizes das outras pessoas com suas máscaras ajudavam no ar de mistério. Naquela noite, naquele lugar e naquele frisson, a sensação de que qualquer coisa poderia acontecer era inevitável.
Todos pareciam conhecer uns aos outros, e imediatamente a nossa chegada, Toulouse parou a Rudy e ela para desenhar seu retrato. Segundo ele, pintaria o vestido de rosa mais tarde, pois valorizaria mais minha delicadeza. Tentei discutir, mas meu amigo me impediu, provavelmente por conhecer o artista melhor do que eu, em todo caso, logo em seguida saímos para junto dos nossos amigos que, já reunidos num canto, riam alto e conversavam animadamente. George vestira-se de Pierrot, o que me fez rir… seus quadros sempre coloridos e ele todo em preto e branco.
_ As fantasias de mademoiselles Delacour são as mais excêntricas que já vi. - comentou com o tom de quem repetia-se. Por certo o assunto até então fora nossas vestes.
_ Ao menos parecemos mais felizes. - retruquei com um sorriso bem humorado. - Mas, você, George, tem sempre que ser a nuvem negra.
_ Ben dit, Amélia. - aplaudiu Cecile. - Esse fanfarrão não consegue passar uma noite sem atacar alguém com suas opiniões.
_ E mademoiselle não consegue passar um dia e noite sem ir contra a feminilidade, mademoiselle Tattou. - defendeu-se George.
_ O que é feminino para mim pode não ser o mesmo que para você, monsieur Dufrénoy. - rebateu ela sem se dar por vencida.
_ Vamos deixá-los discutindo à vontade, meus caros. Mademoiselle Delacour, fais-moi l'honneur d'une danse? - perguntou Rudy num francês demasiado galante para Cora.
_ Bien sûr, monsieur Chevalier. - respondeu ela concedendo-lhe sua mão. Perdoara-o, afinal.
_ Mel? - disse Marius estendendo a mão para mim.
_ Oui, monsieur Depardieu. - concordei sendo girada por ele até o centro da pista de dança.
Já havia dançando com Marius antes, mas especialmente naquela noite ele parecia mais leve, mais solto do que nunca. O brilho em seus olhos por trás da máscara era o mais genuíno em meses, sem qualquer vestígio da boêmia. Estava ainda mais satisfeita por isso, como se fosse responsável por sua cura. Rodamos e saltamos entre os pares ao centro da pista e por vezes, invertemos os parceiros com Rudy e Cora, que ficaram felizes por juntarem-se a nós em nossa visível brincadeira. Minha irmã ria como nunca e eu conseguia entender porquê.
Aquela fora a primeira festa verdadeiramente feliz a qual fomos em anos. Sem qualquer sombra de convidados dos quais não gostávamos ou dos olhares sempre atentos de tia Sarah acerca de nosso comportamento. Dançávamos com amigos de verdade e não com parceiros designados por outros parentes, embora eu já tivesse o feito antes… lembranças tão distantes ali. Quando dançara com Alvo a última vez? Quando o vira pela última vez? A recordação mais presente que possuía era a da visita de Elifas e das tardes com Rudy, Marius e George… Alvo não era mais nada do que uma silhueta escura num mar de cores, embora seu nome pronunciado em voz alta ainda causasse certo furor em mim.
_ Alguém aceita uma bebida? - indagou Marius parando próximo de minha irmã e seu parceiro.
_ Por favor. - dissemos Core e eu em uniosso.
Champagne à vontade… que noite maravilhosa! E eu não conseguia parar de sorrir.
_ Vamos apostar em quem consegue ficar menos bêbado até amanhã? - indaguei depois de beber minha primeira taça.
_ Haha, Marius vai perder. - provocou Cecile risonha.
_ Pois eu discordo, Ceci. E eis aqui o meu motivo de querer permanecer sóbrio. - disse me puxando de volta para a pista de dança, fazendo com que eu derramasse minha taça no chão e rir descontroladamente. - Pretendo dançar com mademoiselle até o amanhecer.
_ E mademoiselle aceita ser conduzida por você até lá. - concordei rindo.
_ Você é a criatura mais bela que eu conheci, Amélia Delacour. - declarou ele me girando no ar e trazendo-me de volta ao chão.
_ E quanto a sua antiga… amada? - perguntei.
_ Ela sequer alcança seus olhos, quem dirá seu coração. - respondeu ele sorrindo alegremente para mim, no que eu retribuí.
_ E eu posso dizer que é o maior poeta que já conheci, Marius Depardieu. E espero ser para sempre sua inatingível Mel. - declarei após um giro rápido.
_ Promete visitar meu túmulo se eu morrer antes de você?
_ Marius! - ralhei. - Incrível como consegue mudar uma conversa de algo feliz para algo miserável…
_ Só estou garantindo que alguém se dará ao trabalho de lembrar-se de mim. - explicou ele sem perder o bom humor. - Então? Irá? Com rosas brancas?
_ É claro! E você levará camélias vermelhas ao meu? Caso eu morra primeiro?
_ Não se leva flores vermelhas a um morto, Mel.
_ Pois então, será como se eu nunca estivesse morta se levar camélias vermelhas. - expliquei com um sorriso matreiro.
_ Muito bem, terá suas camélias vermelhas… e amarelas… e azuis. - e recitou todas as cores do arco-íris enquanto me rodava no ar.
_ Cuidado ou ela vai vomitar! - advertiu Cora sofrendo do mesmo mal com Rudy.
Mais tarde, após a dança no centro com as fitas, todos entraram na casa central do jardim. Era o conhecido pega-pega no escuro, famoso jogo francês. Todos os rapazes escondiam-se cada qual em um quarto, enquanto as moças faziam o mesmo. No escuro, elas saíam correndo de seus quartos e os rapazes puxavam-nas para fazer o que bem quisessem com elas em seus quartos. Cora e eu ficamos receosas de brincar, mas Marius e Rudy garantiram que seriam eles a nos pegar. Fiquei mais tranquila e entrei num dos quartos com Cora.
_ Você vai primeiro, se não reconhecer o Rudy, grite e eu puxo você de volta. - disse tentando acalmá-la.
_ Certo. - concordou Cora e abriu a porta cautelosamente, mirando o corredor escuro. Passou andando e logo foi puxada. Sem gritos, o plano dera certo. Minha vez e Marius logo me agarrou para dentro do quarto ao lado.
_ Agora eu a peguei, Mel. - brincou ele ainda com as mãos firmes na minha cintura e eu ri, parando para olhá-lo.
_ Beije-me. - pedi de súbito e, para minha surpresa, realmente satisfeita por ter meu pedido atendido tão prontamente.
Foi maravilhoso, no ínicio, ser beijada por Marius. Ele não relutava e não parecia se sentir culpado por isso, mesmo sabendo que eu amava outra pessoa. Na verdade, fazia tanto tempo desde a última vez em que fora beijada por Alvo, que eu sequer me lembrava de como era ser beijada por ele. Talvez por isso tivesse ficado tão inclinada a aceitar um beijo de Marius. Contudo, assim que nos aproximamos da cama e eu pensei no que poderia acontecer… eu abri os olhos e me senti sendo jogada dentro de uma memória… água quente e um feitiço abbafiatto… o piso frio de um banheiro e vozes dizendo "eu te amo"...
_ Não. - disse afastando Marius. - Não posso… por mais que queira… não consigo… sinto muito. - completei me sentando na cama.
_ Não, a culpa foi minha. - desculpou-se Marius. - Eu não deveria ter beijado você.
_ Não vamos nos culpar por isso. - ponderei tentando me acalmar. - Quer dizer, eu amo você, Marius. Mas, nunca da mesma maneira que amei… que amo Alvo… Merda de Dragão!
_ Como? Merda de dragão?! - exclamou ele achando a minha maneira de praguejar peculiar.
_ Lemos muita fantasia em minha família, é como se eles existissem…
_ Entendo. - murmurou ele. - Eu lamento, Mel… é uma pena que ele seja seu melhor amigo, do contrário seria mais fácil. Mas, ele já é parte de você.
_ Uma parte que eu gostaria de não precisar.
_ Não gostaríamos todos? - perguntou-se ele sendo filosófico, o que me fez rir um pouco. - Bem, vamos esperar até que todos estejam satisfeitos ou vamos sair e voltar para junto dos outros?
_ Sim, vamos chamar Rudy e Cora para procurar George e Cecile…
_ Ah, não. Eles devem estar ocupados em orgias. Vamos pegar o caro Rudy e a doce Cora e sair daqui.
_ Muito bem… Marius! - chamei da cama.
_ Sim? - ele respondeu parando para se virar e me encarar.
_ Obrigada, por tudo. - agradeci de coração.
_ Foi um prazer, minha querida Mel.
Pegamos Cora e Rudy e voltamos para o Ritz, sendo deixadas por nossos mosqueteiros logo em seguida. Aquela foi a minha útlima noite em Paris. E então o grande acidente… que pareceu não perturbar tanto o mundo bruxo, mas que foi o suficiente para acabar com o que restava da minha sanidade em meus dezoito anos de idade…
_ A morte de Ariana. - disse Hermione em meio a um silêncio mortal na Toca.
