Capítulo 27

Era Dezembro, se aproximando do natal, embora eu mal estivesse pensando naquela data, e Cora e eu estávamos tomando café no quarto completamente acometidas de ressaca. Não tinha fome e ainda assim ousava mordiscar um pão doce, quando a camareira bateu à porta. Murmurei um entre em francês de boca cheia e esperei para que ela dissesse o que queria, contudo, ela apenas colocou uma carta com a caligrafia de Elifas ao lado do meu prato e saiu.

— O que será? - indagou Cora com nítida preocupação, visto que a correspondência endereçada a mim andava fraca nos últimos dias. Enquanto isso, eu lambia meus dedos freneticamente para conseguir pegar no papel sem melá-lo.

A carta era breve. Ariana falecera na tarde anterior e o funeral seria às 15:00 horas daquela tarde. Elifas insistia para que eu fosse a fim de confortar os irmãos Dumbledore, e eu me perguntava se isso seria possível. Minha cabeça formulava mil ideias sobre como o assassinato teria acontecido e conseguia chegar em apenas um culpado. Grindewald. Mais do que nunca senti ódio por aquele homem que fora capaz de olhar nos olhinhos assustados de Ariana Dumbledore e desprender um Avada Kedrava contra ela.

Mélia? - chamou Cora.

A irmã de Alvo faleceu e o funeral será às 15:00. - respondi guardando a carta. - Elifas insisti que eu vá.

Mesmo sabendo que você e Alvo…

Sim. - cortei antes que ela pudesse concluir. - Então, quando sai o próximo trem?

Às 11:30… não vamos nos despedir de Rudy, Marius, Cecile e George? - indagou confusa.

Vou escrever uma nota para eles, se queremos chegar ainda a tarde, precisamos partir já. - disse me levantando em direção ao quarto.

Em todo caso não vamos chegar a tempo… - ela insistiu caminhando atrás de mim.

Não pretendo assistir a tudo. - retruquei fechando a porta antes que ela dissesse outra coisa.

— Nesse caso não irei oferecer sequer a lareira de tia Olímpia. - ouvi-a dizer por trás da madeira.

— Eu não aceitaria de maneira nenhuma. Imagine ter que dar explicações do por que estarmos saindo mais cedo. Agora, pare de resmungar e vista-se Cora. - pedi brandamente. Ela bufou do lado de fora, como bem me lembro e daí ouvi sua porta batendo.

Deixar Paris não pareceu tão doloroso, dadas as circunstâncias, mas depois, já dentro do trem, quando olhei para trás, percebi que não me afastava somente de uma cidade, mas de uma grande amiga. Eu amadureci aqui como jamais teria feito em nenhum outro lugar. Na nota que deixei aos meus amigos, me desculpei pela pressa e agradeci pelas boas lembranças que me proporcionaram. Garanti, também, que um dia voltaria a vê-los. Ficamos em silêncio boa parte do caminho, até chegarmos a King's Cross e apanharmos um táxi que nos levaria o mais rápido possível para Godric's Hollow. Eram 16:00.

Cora resolveu permanecer dentro do carro, como da última vez. O primeiro a me ver foi Elifas e eu corri para abraçá-lo. Em seguida Linda… e por Merlin como estava bonita! Eu quase deixei meu queixo cair, mas apenas mirei Eli e sorri maliciosamente. Ele entendeu e me cutucou. Nós duas nos abraçamos como duas irmãs que não se viam há tempo. E, de fato, era o caso.

— Você está ótima. - disse quando nos soltamos.

— E eu também deveria ir a Paris, você está melhor do que nunca. - ela respondeu me fazendo corar.

E então, ouvimos uma voz alterada vindo do túmulo que estava sendo feito para Ariana, ao lado de Kendra. Era Abeforth e ao que parecia Alvo estava com ele. Corremos os três até lá e vimos quando o irmão mais novo acertou o mais velho com um soco tão forte que foi capaz de quebrar o nariz do outro. Linda soltou um gritinho, enquanto Elifas corria para tentar afastar Abeforth e eu observava Alvo, esperando por uma reação, mas ele sequer se defendeu.

— Me largue, Doge! É tudo culpa dele! Você destruiu nossa família! - urrava Abeforth, apontando o dedo para o irmão.

— Acalme-se, pelas barbas de Merlin. - implorou Elifas com as duas mãos repousadas nos ombros dele.

— Mas é claro que vocês vão defendê-lo, seriam capazes de beijar merda pelo meu irmão. - desdenhou se soltando de Elifas, caminhou até Alvo e cuspiu em seus pés. - Eu nunca vou perdoá-lo. Eu odeio você. - e saiu com os passos pesados.

Alvo sequer fez menção de seguir o irmão, parecia aceitar tudo. Sua culpa e o ódio de Abeforth. Elifas me olhou e em seguida para Linda, puxando-a para longe dali a fim de nos deixar sozinhos. Alvo permanecia imóvel enquanto me olhava, e nenhum de nós teve sequer o ímpeto de nos mover em direção ao outro. Eu o encarava com uma expressão neutra ao passo que os olhos dele estavam frios, mas eu não desviei os meus olhos dos dele.

Veio me dizer que me avisou? - perguntou calmamente, mas sem conter uma pitada de veneno em suas palavras. Eu estava pronta para aquilo e para pagar na mesma moeda.

Foi Ariana quem morreu e estou aqui por ela e não por você. - respondi, finalmente dando alguns passos até o caixão. - Contudo, eu não acho que Abeforth deveria culpar você, quer dizer, tenho certeza de que a culpa é…

Eu sou culpado. - ele me interrompeu.

Você a acertou com um Avada Kedavra? - perguntei calmamente depois de um minuto de choque contido.

Talvez. - ele murmurou e lágrimas formaram-se em seus olhos.

Alvo, como exatamente ela morreu? - quis saber olhando do caixão para ele.

Estávamos prestes a partir, Gerardo e eu, para ir atrás das relíquias. Ariana conosco, e então Abeforth abriu meus olhos para a verdade… Ela era frágil demais para viajar… Começamos uma discussão e Gerardo lançou a maldição cruciatus contra Abeforth… E então começamos a duelar e Ariana deveria estar assustada, ela nunca se controlou muito bem ao realizar magia, acho que queria nos ajudar… e um de nossos feitiços a acertou. Qualquer um pode tê-la matado… mas Abeforth está certo, a culpa é minha… se eu não tivesse, como você disse, me cegado, ela ainda estaria aqui…

Ele estava despedaçado, isso era visível e admitia minha sabedoria acerca das intenções de seu suposto amigo. Confesso que nem mesmo no enterro de Kendra eu o vira daquele jeito, contudo, ali ele chorava por mais do que apenas a morte de Ariana. Chorava por sua culpa, por sua idiotice em ter acreditado em Grindewald, e por ter descoberto que seu amor não era correspondido da maneira que ele pensava. E por isso eu o abracei. Não havia me dado conta do quanto sentira sua falta até aquele abraço e então não contive minhas lágrimas.

Eu tenho certeza de que não foi você. - eu queria fazê-lo acreditar em mim, mas era impossível. - Ele se foi? - perguntei ainda abraçada ao meu amigo.

Assim que ela caiu…

Então está terminado, quer dizer…

Não, nem tudo. - disse ele me segurando pelos ombros. - Amélia, eu quero que vá embora e não olhe para trás, eu quero que me esqueça.

O- o que? - gaguejei completamente confusa.

Por alguma razão todos que eu amo acabam mal. E eu não quero que um deles seja você.

Alvo, você está se ouvindo? Porque eu acho que perdeu completamente o juízo…

Não, eu estou gozando de todas as minhas capacidades mentais. Veja bem, nós dois temos estado cegos há muito tempo. Você vai se casar…

Com alguém que eu não amo e você sabe disso, já discutimos naquela noite…

Pois então tente amá-lo. Tente porque nós dois… nós dois estamos amaldiçoados e fadados a caminhos diferentes… Eu… Adeus, Amélia. - e me soltou, a caminho de casa.

Eu senti vontade de gritar, de chorar ainda mais, mas as lágrimas não saíam. Começava a nevar…

Não, não… - murmurava loucamente enquanto corria para agarrá-lo pelo braço. - Por Merlin, não! Eu prometo… Alvo, eu prometo… Nunca mais beijá-lo ou qualquer outra coisa do gênero, mas, por favor, diga que ainda somos amigos, melhores amigos, não lembra? Quando me pediu para terminar com Arthur disse que, qualquer que fosse a minha escolha, seríamos amigos para sempre… Vai dar para trás com a sua palavra? - perguntei segurando-o pelas mãos. A minha voz embargada.

Eu sinto muito, Amélia, mas não vou voltar atrás. É o melhor para nós dois… - ele hesitou por um momento antes de me responder, e continuou a seguir em frente, eu atrás dele e finalmente demos de cara com Elifas e Linda que nos olhavam confusos. Aquela hesitação me irritou ainda mais. Eu via que no fundo ele não queria fazê-lo… era apenas por uma causa nobre própria, que ele achava ser melhor...

Mas será que você não entende…? Eu preciso de você. Alvo! Você é o meu melhor amigo! - urrei a plenos pulmões, sentindo as pernas cedendo.

O que está fazendo? - perguntou Elifas segurando-o pelo ombro.

O que eu deveria ter feito assim que ela partiu para a França. - disse voltando-se para olhar para mim. - Pensei que devolvendo suas cartas entenderia. - comentou depois de um suspiro cansado.

Posso até ter entendido que me devolvia meus sentimentos, que não os queria mais. Nunca entendi que não queria mais minha amizade. Isso eu nunca aceitaria!

Você não vai viver enquanto eu estiver no seu caminho, Amélia. - ele insistiu sério, eu via seus olhos ficarem vermelhos. - E eu não aguentaria saber que se foi por minha causa…

Pois eu não vou. Eu me recuso a morrer por sua causa… seu… seu… DESGRAÇADO!

Amélia. - ouvi Linda dizer. - O que deu em você?

Achou que estava me fazendo um grande favor ao devolver suas cartas? Ao guardar os detalhes dos seus planos com Grindewald apenas para mim? E acha que agora vai me fazer bem ao me mandar para longe de você? Para longe do meu melhor amigo? - indaguei incapaz de chorar mais e agora vendo-o chorar. - Acertou apenas em uma coisa, Alvo Dumbledore. Eu nunca vou conseguir viver enquanto você estiver no meu caminho. Mas não porque eu amo você… MAS PORQUE VOCÊ ME DESTRUIU!

Ele não fizera menção a seguir o irmão, mas quando eu me virei para voltar ao carro, onde Cora me esperava do lado de fora assustada com meus gritos, ele tentou me segurar.

Eu espero que pense que o feitiço tenha sido seu pelo resto de seus dias. Assim poderemos partilhar da mesma miséria… Eu odeio você, Alvo Dumbledore! Eu odeio você. - disse entre dentes, batendo a porta do carro com violência. Cora não fez perguntas e eu a censurava com o olhar sempre que tentava.

Chegamos à mansão Preminger horas depois e eu subi direto para o quarto. Alguma coisa mudou no meu coração aquele dia, porque até então eu não sabia o que era guardar rancor de alguém querido. Eu sabia alguma coisa sobre rancor graças a tia Sarah, mas não daquela magnitude. Fiquei trancada no quarto o resto da tarde, até receber a visita da tia Sarah.

Então, é verdade. Você e Cornélia chegaram mais cedo de Paris. - ela disse sentando-se na cadeira da minha mesa. - Alguma razão especial?

A irmã de Alvo falaceu e eu fui até o funeral. Mas, quando cheguei lá… não foi o meu amigo quem eu vi… e não quero conhecê-lo.

Devo entender que o seu faz de conta com Alvo Dumbledore terminou?

E isso realiza seus sonhos, não é? É incrível a maneira como consegue tudo o que quer…

Não me culpe por sua briga. Se você terminou sua amizade com ele foi por sua conta e não por mim. - retrucou tia Sarah na defensiva. - Mas, talvez seja melhor mesmo. Assim dará uma chance ao menino Black…

Tia Sarah, por mais que eu odeie admitir… ainda que eu tente evitar, nós duas somos muito parecidas. E eu sei que a senhora nunca se deu bem com o seu marido Yaxley.

Esperemos que tenha aperfeiçoado meu gene, então. - ponderou ela saindo do quarto.

— E termina aqui. - anunciou Gina, fechando o diário. - Vamos dar um tempo.

O quarteto estivera ocupado com o diário de Amélia Preminger desde o feriado de natal na quinta- feira. Hermione fora liberada de Hogwarts e já estava louca por novidades. Não pararam de ler nem por um momento, tirando as horas em que Molly se zangava e tomava o livro das mãos deles. Ouvir os acontecimentos da morte de Ariana pelos olhos de Amélia não tornou a situação menos infeliz para Harry. O garoto lembrava-se da reação que aquela cena causava em ambos os irmãos Dumbledore, e o que ela anotara, das palavras de Alvo, só confirmava isso. Contudo, agora era noite da véspera do natal e a senhora Weasley os queria longe de mistérios.

— Andrômeda vai chegar com o Teddy a qualquer momento. - comentou Harry enquanto arrumava a mesa com Rony.

— Ele deve ter crescido muito desde a última vez em que o vimos… Acha que ele vai se parecer com Tonks ou com Lupin? - perguntou o ruivo.

— Tonks. Ele é até metamorfogo como ela. - pontuou Harry.

— Sobre o que estão falando? - perguntou Gina.

— Sobre o Teddy. Com quem acha que ele vai se parecer? - tornou a perguntar Rony.

— Claro que é com a Tonks, Rony. - respondeu Gina como se fosse óbvio. - Mamãe está te chamando na cozinha.

— Por quê?

— E acha que ela se preocupou em explicar? Vai logo! - falou Gina e o irmão saiu para a cozinha. - Enfim, sós. - disse indo de encontro ao namorado. - Sabe, eu entendo muito bem a reação da Amélia quando Alvo colocou daquela maneira…

— Você também me odiou? - perguntou Harry preocupado. Ele sabia que Gina se referia a vez em que terminara com ela no sexto ano.

— Um pouco… - assumiu Gina. - Mas, Amélia parecia quase assassina… quero saber como vai ser esse reencontro. Afinal, é óbvio que voltaram a se ver.

— Depois do natal falaremos sobre isso. - concluiu Harry, pondo-se a beijar a namorada.

— Harry! - chamou o senhor Weasley.

— Sim? - respondeu empurrando Gina para o lado.

— Preciso de sua ajuda no galpão. Depois vocês terminam a conversa. - disse ele com um sorriso malicioso.

Na cozinha, Rony e Hermione fatiavam os legumes enquanto a senhora Weasley escolhia uma galinha.

— Aposto que eles me expulsaram para ficarem sozinhos. - resmungou Rony.

— Normal. - respondeu Hermione. - Estamos lendo esse diário dia e noite e por mais que Gina seja sua irmã, ela não está acostumada as nossas aventuras. Agora, termine isso ou sua mãe vai pirar.

Rony riu e continuou com o que estava fazendo.

— Vou sentir falta de ouvir Amélia sobre Paris. - tornou a dizer o ruivo sorrindo. - Hermione, eu pensei e acho que quando casarmos, deveríamos ir até lá.

Hermione quase cortou o dedo e fitou o namorado surpresa.

— Casarmos? - repetiu sem conter um sorriso. - Rony, você quer casar comigo?

— É claro, você é incrível Hermione. E em seguida, vamos para Paris…

Ele foi interrompido pelo beijo da namorada, que quase o arrancou do chão.

— Eu não posso dar as costas por um segundo… - interrompeu Molly entrando na cozinha, mas sem conseguir conter um risinho satisfeito.

— Desculpe, senhora Weasley. - falou Hermione voltando ao que estava fazendo, corada.

— É, desculpe, mãe… A culpa não é minha se minha namorada é louca por mim.

— Ronald! - repreendeu-o Hermione, sem conter uma risada.


Bem, para compensar meu atraso, eis dois capítulos de uma só vez. Espero que gostem. Deixem reviews para que eu saiba, ok? Bjoos e até o próximo. Agora com férias, prometo postar loucamente!