Capítulo 30
Chegava finalmente Outubro e com ele o Outono, a estação da mudança em que as folhas velhas caem e se preparam para o longo sono do Inverno até estarem prontas para o renascer da Primavera. Em outros tempos, isso proporcionava diversão para mim e meus irmãos que brincávamos entre as folhas, entretanto, naquele ano de 1900, tudo o que me vinha a cabeça era o quanto eu havia perdido em tão poucos meses e o quanto mudaria a partir dali. Uma vida que não era propriamente minha, se tivesse me sido concedida a chance de escolha.
Nove de Outubro de 1900. Essa fora a data estipulada pelos meus sogros e eu aceitei de bom grado, visto que ainda estávamos em Dezembro quando decidido, por um momento ignorei o quanto o ano consegue passar rápido… A cerimônia seria realizada na Mansão Black, sempre na casa do noivo, como mandava a tradição, já que passaria a ser a minha casa. Uma semana antes, tudo estava sendo organizado para a minha mudança. Meus pertences embalados e eu me ocupava na propriedade aproveitando meus últimos momentos de uma vista conhecida.
— Tem certeza de que não quer levar seu malão? - perguntou Cora durante a última vistoria do meu quarto. Os Black não permitiram a minha chegada de carro já que a máquina era considerada extensão do território trouxa, então, eu só teria que aparatar na lareira… rápido demais para quem sequer queria partir.
— Tenho certeza de que ele vai estar melhor aqui. - garanti com um sorriso saudoso. - Imagino que Sirius poderia queimá-lo para me magoar durante uma discussão. - acrescentei para o choque de minha irmã.
— Ainda espero que não será tão ruim quanto você faz parecer. - disse minha irmã apertando minha mão carinhosamente, parando para olhar ao redor. - Tantas noites que dividimos aqui… tantas aventuras nos jardins e horas na sala… eu sei que ainda poderá nos visitar, mas, só de pensar que não estará sempre disponível para mim no quarto ao lado…
— Eu sei. - concordei tentando conter minhas lágrimas, sem sucesso. - Mas, não poderíamos permanecer solteiras para sempre, não é? Quer dizer, mesmo que meu marido seja desprezível, eu não gostaria de permanecer no anonimato pela eternidade…
— Só gostaria de que fosse com…
— Já não sei mais. Não diga o nome dele. - pedi um pouco rudemente e me apressei em abraçá-la. - Prometa que vai me visitar sempre que puder e que escreverá. Nem que seja para me contar que uma borboleta passou por sua janela… odiaria perder o contato com a casa.
— Prometo. - Cora falou me fitando. - Agora, vamos. Tia Sarah está esperando.
— Como se já não tivéssemos feito ela esperar antes. - zombei arrancando uma risada em meio às lágrimas de Cora.
Tia Sarah estava parada, com as mãos entrelaçadas, ao lado da lareira. Parecendo indefesa pela primeira vez desde que a conhecera, contudo, não foi suficiente para quebrar o gelo entre nós naquele dia. Ela não me abraçou e eu agradeci internamente por não fazê-lo, apenas fez uma pequena reverência e apertou minha mão.
— Eu suponho que não sentirá minha falta. - ela disse por fim quando estava prestes a entrar na lareira. - E que no futuro eu deva tratá-la como senhora Black.
— Pelo contrário, tia Sarah. Será uma pena para mim e para a senhora perdermos nosso contato, no que concerne as discussões e a vida que elas traziam para essa casa, mas espero que Cora consiga se culpar por alguns de seus fios brancos aparentes. - disse sem qualquer pingo de ironia na voz, o que fez minha tia sorrir um pouco. Na verdade, me apressei para entrar na lareira antes que ela percebesse a lágrima que se formava por sua causa… não gostaria de lhe dar esse luxo.
Ursula me esperava do outro lado e, por incrível que possa me parecer até hoje, não pareceu forçar o sorriso. Assumo aqui que muitas vezes eu mesma fui preconceituosa a respeito dos sentimentos dos sangues puros em geral. Como se certos pensamentos os impedissem de terem sentimentos humanos… por um momento eu me esqueci daquela rixa e tentei realmente ser educada, sem desdém, pois ela ainda não demonstrara nenhum para comigo. Mostrou-me a casa e ditou os nomes dos criados. Três elfos domésticos e três criados normais. Os Black não gostavam de elfos mexendo com a comida, então, mantinham uma cozinheira.
Conheci Meg naquele dia. Um aborto de uma família bruxa que seria minha camareira e, pelo que eu poderia somar, a única pessoa realmente confiável para mim. Embora feitiços existissem para que os cabelos ficassem em perfeitas condições e as roupas também, era comum que as senhoras de grandes casas não precisassem erguer suas varinhas a não ser que um castigo mais duro aos criados se fizesse necessário. Ela ficara encarregada de me arrumar para o casamento.
Deixei a Mansão Preminger ainda pela manhã e o casamento tomaria o tempo de toda a noite e quem sabe da madrugada, o que me deu tempo para explorar mais a minha nova casa. A decoração não era tão absurda como o que ouvi dizer sobre as alterações de Walburga… cabeças de elfos domésticos, que maluquice… Em geral, era até aceitável, não fosse o visível favor a Sonserina na paleta de cores. Tudo, naquele dia, encontrava-se enfeitado com arranjos florais escolhidos pelas matriarcas Black e Preminger. Minha tia, por mais que me doa admitir, deve ter intervindo para que algum tom Grifinório aparecesse.
Por fim, adentrei o escritório. Não havia nada de muito suspeito ou Sonserino no lugar, o que deu a entender que aquele era o cômodo onde eu deveria permanecer a maior parte do dia ou que fora concedido a mim. Sorri internamente, ainda que meu semblante estivesse neutro e tencionei a subir para ver o quarto do casal, onde meus pertences estariam.
— Amélia. - ouvi a voz de Sirius me chamando. - Vejo que está explorando.
— De fato, estou. - respondi um pouco áspera. - Achei que fosse uma tradição de sua família que o noivo e a noiva não devam se ver…
— Antes do casamento. - ele concluiu com uma risada desdenhosa. - Francamente, acho que nós dois somos melhores do que isso. Já que, na sua opinião, o azar já se encontra no fato de estar se casando comigo.
— É realmente uma pena saber que meus pensamentos já se tornaram previsíveis. Na minha família isso só acontece depois de quatro anos de convivência. - retruquei sem conter um sorriso de concordância.
— E espera que duremos tanto tempo? - devolveu ele subindo um degrau para ficar à mesma altura que eu.
— Pelas barbas de Merlin, Sirius, - disse revirando os olhos. - sabe muito bem que o divórcio é quase intolerável entre os bruxos. - lembrei-o para meu desprazer.
— Quase não é mesmo que totalmente, Amélia, e sabemos que, graças a Merlin, você ainda prefere que seja assim. Pelo menos pode ter esperança.
— Com as nossas leis?! - exclamei sem conter meu desdém. - Você só precisaria provar que eu me deitei com outro homem e eu teria que ter uma marca vermelha nas costas para conseguir que me escutassem. Ainda assim, sua família tem mais mercenários no Ministério do que eu.
— Quem sabe? Agora que vai entrar para o jogo, quem sabe não consiga alguns aliados? - ele disse com uma pontada de desdém que eu preferi ignorar. - E quanto a se deitar com outro homem… a senhorita sempre foi uma moça de muito respeito, não é? Imagino que a traição seja algo… nojento em sua família tanto quanto na minha.
— Sim, mas ficaria surpreso com a nossa semelhança com Salazar Slytherin no que concerne desrespeito às regras. - eu disse dando de ombros.
— Eu a avisei…
— E eu também. - cortei. - Não serei uma marionete. Em todo caso, não se preocupe, eu seria discreta depois de cumprir com meu dever…
— Você é bonita, Amélia. Não gostaria de dividi-la com ninguém. - observou Sirius pondo-se a subir ao meu lado.
— Fala de mim como se eu fosse um osso. - comentei com um olhar esperto para ele. - Enfim, acho que essa audiência está encerrada e eu gostaria de continuar o resto dessa caminhada sozinha.
— Vamos ser marido e mulher em poucas horas…
— Exatamente. - cortei-o séria. - E eu quero aproveitar enquanto ainda tenho o poder para mandá-lo ficar longe de mim. - conclui fechando a porta do que eu entendi ser meu quarto de vestir.
Havia uma porta no meio dele que me separava do quarto de Sirius. Típico das casas antigas inglesas ter quartos para cada um dos conjugues, mas uma porta entre ambos caso um deles quisesse companhia durante a noite sem ser visto pela criadagem. Permaneci sozinha ali pelo resto da tarde, até ouvir a batida de Meg.
— A senhora Ursula me pediu para vir arrumá-la, senhorita. - anunciou ela após permitida sua entrada. - Primeiramente, gostaria de dizer que é um prazer trabalhar para a futura senhora Black e espero que a senhorita fique satisfeita com meus serviços.
— Obrigada, Meg. - agradeci com um sorriso torto. - E, por favor, pode me tratar como senhora Preminger depois…
— Oh não, senhorita. - ela me interrompeu como se eu tivesse cometido uma heresia. - A senhora Ursula foi muito clara sobre como devo tratá-la, como senhora Black, ou serei despedida…
— Ao que me parece eu serei sua patroa e a dona desta casa e, portanto, competirá a mim decidir como meus criados deverão me tratar e qual deles demitir. - intervi friamente. - Se vai ser minha camareira, Meg, quero deixar uma coisa muito clara. Não receberá ordens de mais ninguém além de mim, entendeu? Não do senhor Black mais velho ou sua esposa e muito menos de meu marido, mas de mim.
— Sim, senhora. - ela assentiu com uma reverência.
— Agora venha, vamos acabar com essa má primeira impressão que causamos uma a outra. Eu consigo ser gentil, você verá… contanto que eu não fique muito tempo perto dessa gente. - disse me encarando no espelho.
— Perdoe-me, senhorita, eu sei que não é da minha conta mas, não está feliz por se casar? - ela perguntou brandamente.
— Conheceu meu noivo?
— Ouvi-o conversando com um dos elfos… - sua voz tremia um pouco.
— E o que me diz?
Ela não respondeu e eu entendi que ela mesma chegou a conclusão de sua pergunta. Em seguida, começamos os preparativos com Meg inquirindo de que maneira eu gostaria de arranjar meu cabelo. O fato era que eu não estava ligando para como ficaria, em todo caso, eu sabia que o vestido que usaria era o de minha mãe e a tiara que ela usara também era a mesma, então, eu queria copiar o visual de minha mãe em seu casamento… Mas quando eu pensei nisso, eu tinha dez anos e imaginava que me casaria com alguém completamente diferente de Sirius, alguém com quem realmente me importasse e que gostaria que me visse apenas em minha melhor aparência…
— Prenda-o em um coque, mas não alto, baixo, embutindo o cabelo e deixe um cacho caindo do lado esquerdo e que minha franja não tampe meu olho, mas um pouco da sobrancelha. E a tiara. - disse apontando para a tiara de minha mãe em cima da cama.
— Como quiser, senhorita. Vai ficar linda. - Meg respondeu sorrindo confiante para mim, ao passo que eu tentei retribuir, mas, sem sucesso para copiar o brilho que ela carregava em seus olhos ao estar finalmente trabalhando com uma senhora tão poderosa.
A noite foi chegando cautelosamente, como se temesse pela minha fúria. Eu já estava pronta. O vestido de mamãe serviu como uma luva, apenas alguns ajustes na cintura visto que eu estava mais magra, mas todo o resto funcionou muito bem. Um dos lacaios chegou em seguida trazendo o buquê que eu havia requisitado, copos de leite, como os de mamãe. Dali em seguida era apenas esperar vovô Archie para me buscar e me guiar até a guilhotina.
— Estamos prontos, Amélia. - disse ele ao bater na porta. Quando entrou, deixou escapar um suspiro de admiração e algumas lágrimas se formaram. - Amélia Preminger… achei que estava vendo a sua mãe.
— Eu queria que ela estivesse aqui… Ela e papai. - disse engolindo as lágrimas.
— Eles estão, tenho certeza e com certeza torcendo por você. - vovô Archie me assegurou. - Antes de descermos, queria lhe entregar isso. - e ele estendeu um envelope amarelado pelo tempo para mim, que eu rapidamente peguei. - Sua mãe lhe escreveu essa carta e me pediu para que entregasse a você no seu casamento.
Eu me prendi em admirar a caligrafia de Colette Preminger que se assemelhava muito a minha e deixei que duas lágrimas escapassem para a minha bochecha, mas logo as sequei e repousei o envelopei sobre minha penteadeira. Estava pronta para descer. Ainda me lembro como se fosse hoje… Todos os olhos recaíram sobre mim assim que entrei com vovô Archie. Cora chorava por eu estar tão parecida com mamãe naquele vestido - a única vez em que tenha ficado mais parecida do que ela - e tinha os braços nos ombros de Edmundo, que sorria confiante para mim, tia Sarah tentava permanecer forte, pelo que notei e não contive um sorrisinho ao passar por ela. Aos olhos de todos, eu parecia uma noiva feliz.
— Senhoras e senhores, estamos aqui reunidos para celebrar a união de dois fieis… - começou o bruxo cerimonial. Eu estava parada de frente para Sirius e sustentava seu olhar com dignidade, mas esse mesmo olhar conseguiu se perder ao visualizar Elifas e Linda sentados na fileira da frente. Meus amigos sorriam compadecidos e por um momento eu travei, o toque da mão de Sirius me trouxe de volta a realidade. - Sirius Arturus Black, você aceita Amélia Preminger como sua esposa?
— Aceito. - disse Sirius solenemente, como se tivesse ensaiado.
— Amélia Preminger, você aceita Sirius Arturus Black como seu marido?
— Aceito. - disse no mesmo tom solene, após segundos de hesitação.
— Então eu os declaro unidos para toda a vida. - e com um aceno da varinha, ele conjurou uma linha prateada que envolveu a Sirius e a mim como um voto perpétuo.
Elifas e Linda foram os primeiros a me alcançar para os cumprimentos, e antes que eu pudesse dizer mais do que apenas "obrigada", minha cunhada os empurrou para ter a chance de falar comigo. Não lembro de tê-los visto depois disso… acho que não quiseram ficar para presenciar o resto daquele dia trágico, como gosto de chamá-lo. E não somente por ter me casado com Black, mas sim pelos outros acontecimentos da noite… achei que nunca mais precisaria revivê-los, mas, tanto melhor poder encará-los com um pouco menos de medo agora.
Após os cumprimentos, todos os convidados se reuniram em um círculo para os brindes. Sirius e eu ao centro, bebendo a cada vez que um parente dizia alguma coisa. O mais comovente foi Edmundo, que exigiu que meu marido cuidasse bem de sua irmã mais velha, sem medo dos olhares alheios. Por fim, Phineas, irmão de Sirius, lembrou a todos da cerimônia de consumação. Ursula foi muito específica ao enfatizar que era uma tradição da família e que os noivos deveriam se retirar para consumar o casamento e então o noivo deveria descer primeiro com o lençol sujo de sangue para que todos vissem, e depois buscar a noiva.
Engoli o resto do meu vinho em seco e mirei Sirius, implorando, mas meu marido não me deu atenção e me levou para o andar de cima… para o nosso quarto.
— Sirius… por favor… poderíamos fazer isso em condições menos… humilhantes. - eu disse enquanto ele fechava a porta. - Quer dizer, isso tira todo o romantismo da situação.
— Romantismo? - indagou ele. - Amélia foi você quem disse que tudo isso não passa de dever. - ponderou ele caminhando até mim.
— Entretanto, poderia ser um pouco menos assustador se não tivesse um bando de pessoas lá embaixo esperando para ver um lençol sujo de sangue… Eu posso cortar a minha mão e sujar o lençol, depois quando a festa acabar… terminamos com isso. - sugeri um tanto desesperada.
— Não seja ridícula, Amélia, o que eu diria sobre a sua mão cortada?
— Não foi você quem disse que estamos acima dessas tradições? - lembrei-o como uma última tentativa. Ele me fitou por alguns minutos, até dar sua resposta.
— Está bem, vou descer e falar com eles. Troque esse vestido se quiser ficar mais à vontade. - disse por fim virando para a porta. Eu suspirei aliviada. - Quer que eu chame a sua camareira para ajudar?
— Sim, obrigada. - disse sem pensar. - Sirius! - chamei. - Obrigada. - agradeci com sinceridade.
— Eu disse que era um cavalheiro, Amélia, e você teve uma vantagem, usou meu discurso contra mim. - ponderou fechando a porta.
Meg entrou em seguida e me ajudou a retirar o véu e o vestido. Optei por um menos trabalho, mas ainda perolado para não quebrar o clima da festa e deixei a tiara onde estava. Quando Meg saiu, voltei minha atenção para o envelope de minha mãe em cima da penteadeira e o abri…
"Minha querida Amélia, desde o dia em que você nasceu, eu sabia que seria uma mistura mirabolante do sangue Preminger e Delacour. Assim como Cora, foi um bebê calmo e nunca tivemos problemas em fazê-la rir. Sua transformação, é claro, começou quando seus primeiros momentos de magia aconteceram. Embora fosse uma criança calma, sempre que fazia as coisas voarem ou a si mesma, eu conseguia me ver completamente em você, minha querida. E ali eu já conseguia ver que minha Amélia seria difícil de agradar.
É notável como herdou meu temperamento irritadiço e zombeteiro com as tolices dos outros e que ao mesmo tempo encontra espaço para a amabilidade e carinho com os entes queridos e amigos. Tudo isso junto ao senso de justiça de seu pai e o bom julgamento dele. Ainda que seja um pouco cedo para julgar isso numa garotinha de oito anos, eu não poderia ficar mais orgulhosa de você no futuro do que já sou agora nessa idade tão tenra. Eu sei que vai ser uma bruxa extraordinária… sem modéstia alguma, você é nossa filha.
Seu pai achou errado eu escrever essa carta, que espero entregar a você no dia de seu casamento se me permitirem, sendo que você ainda nem entrou em Hogwarts. Contudo, olhando-a brincar com Edmundo em seu bercinho há pouco, não consegui me conter. É difícil pensar que um dia terei que dizer adeus a você, minha amelinha. Que direi adeus a vê-la correndo pelo jardim atrás de mim ou de seu pai, a sua inocência quanto às criaturas de seu mundo e mais importante, a sua presença constante nessa casa. E, realmente, espero que seja para um homem muito bom.
Entretanto, é claro que você se proverá com essa parte… como já disse, você vai ser difícil de agradar. Imagino que escolherá entre os melhores bruxos e se casará com o mais poderoso. Aquele que te faça rir e seja tão esperto quanto você, assim sempre poderão competir… Ele deverá jogar xadrez, porque eu sei que vai acabar se tornando uma especialista de tanto observar seu pai com seu avô Archie jogando. Enfim, você saberá julgá-lo bem.
E agora a parte mais importante, deixo com você o anel que seu pai me deu em nosso segundo aniversário de casamento. Na esperança de que você o use como sua aliança e amuleto da sorte para uma vida próspera e feliz. Casamento não é fácil, meu amor, esteja certa. Por mais que amemos alguém, sempre esperamos demais um do outro, então aprenda a perdoar… Esses são os meus conselhos e o meu presente de casamento para você. Agora, preciso ir, você está chamando para que eu faça os saleiros dançarem novamente.
Eu sempre amarei você,
Mamãe."
As palavras saem com facilidade, por incrível que possa parecer. O anel caiu de dentro do envelope assim que o abri. Uma safira rosa enfeitando o ouro branco. Eu tinha me esquecido de como adorava ver os saleiros dançando… Me lembro de como as lágrimas ficaram embargadas pelo riso, e não somente por isso, mas, pela ironia do fato de que minha mãe parecia ter previsto que eu me apaixonaria por Alvo. Ele se enquadrava em todas as suas palavras, especialmente no perdão. Sabia que um dia teria que faze-lo, mas não naquele momento… ainda assim, eu me permiti chorar enquanto colocava o anel em meu dedo. Não uma aliança, mas um amuleto de sorte.
— Amélia? - chamou vovô Archie do lado de fora. - Estão todos se perguntando onde você… O que foi? - ele perguntou ao ver minhas lágrimas e eu apenas mostrei a carta e o abracei. - Pronto, pronto, minha querida… vai ficar tudo bem...
— Eu sei… não se preocupe, vovô… sabe que eu nunca fico chateada por muito tempo. - disse secando os olhos com um lenço.
— O que eu sei é que você tem um espírito forte, querida. E, por isso, é capaz de aguentar qualquer coisa. - retrucou ele sorrindo para mim.
E mal sabia meu pobre avô que esse espírito seria posto à prova ainda naquela noite. Quando todos desaparataram, Sirius e eu subimos para o quarto. Ainda estava muito agradecida por ele ter me privado daquela cerimônia mais cedo e me despedi para o meu quarto com o mínimo de educação que consegui reunir. Entretanto, quando Meg entrou para me ajudar a retirar o vestido, Sirius a parou e disse que ele mesmo cuidaria de tudo a partir dali. Por um segundo meu sangue gelou, mas eu mesma dissera que seria menos… ruim se estivéssemos sozinhos quando acontecesse.
Ele começou a desabotoar meu vestido por trás e a beijar a carne exposta, me virando em seguida para uma tentativa de me beijar a boca. Eu permiti, visto que continuava sem saída do fato de que estava casada e de que possuía obrigações. Entretanto, bastou abrir os olhos durante o beijo, para que o meu sangue voltasse a gelar e eu me afastasse como um animal sendo caçado.
— Não posso… - murmurei apreensiva.
— Amélia, você disse…
— Eu sei o que eu disse. - retruquei aumentando o tom, tornando a abaixá-lo logo em seguida. - Mas não posso… ainda não… Acho que devemos esperar até que pelo menos respeitemos…
— Sabe muito bem que nunca nos respeitaremos o suficiente para que você permita que isso aconteça. - condenou ele friamente. - E sinceramente, eu não sou tão paciente assim. Você é minha mulher e hoje é a nossa noite de núpcias. Já fui gentil em privá-la de uma tradição familiar, não espera que eu a prive de suas obrigações, espera?
— E o que vai fazer? Não pode me forçar. - disse segurando o vestido para que ele não caísse. E então Sirius ergueu a varinha. - Não… Sirius!
— Imperio!
Acredito, se não estiver errada, que aquela foi a única vez em que usaram essa maldição comigo. Minha cabeça ficou leve por um instante, todo o meu corpo, até que a primeira ordem veio. "Solte o vestido" e uma voz sussurrou na minha cabeça "Por quê? Eu não quero.", mas tão rápido quanto essa réplica veio, ela foi embora e eu soltei meu vestido… "Deite-se" e eu me deitei… dali em seguida foi como se eu estivesse enlouquecendo, quando ele ordenou que eu me entregasse… a voz me dizendo para parar, para fazer o contrário, era constante. Eu beijava Sirius e deixava que ele fizesse o que queria comigo enquanto minha consciência me gritava para parar. Todo gesto que eu tentava fazer para afastá-lo se transformava num gesto de carinho ou carícia inconsciente… meus gritos de apelo e mesmo meu grito de dor - pois eu a senti dessa vez - se convertiam em gritos e gemidos por um prazer que eu não sentia…
E nada que eu fizesse conseguia pará-lo… A gota d'água foi quando minha consciência me impulsionou a dizer "pare", mas o que eu me ouvi dizer foi "Sirius…". Quando ele finalmente se saciou e me libertou, eu já não tinha mais forças para nada. Sequer estapeá-lo… não… o máximo que fiz naquela noite foi chorar até cair no sono… pensando em quão decepcionada minha mãe estaria de onde quer que estivesse me olhando.
Esperoooo que gostem amados! Deixem reviews para que eu saiba, ok? Bjooos. Com certeza um dos capítulos mais difíceis de escrever, por enquanto...
