Capítulo 31

Não acho que seja válido colocar aqui como foi meu primeiro ano de casamento. Acredito que a abertura que fiz para narrar em poucos detalhes a minha noite de núpcias foi suficiente para deixar claro que não era uma convivência feliz. E que a cada dia, eu morria aos poucos… pior do que quando apenas não tinha Alvo. Naquelas circunstâncias eu ainda tinha outros amigos, estes que acabei perdendo quase totalmente depois do casamento. A prisioneira na torre de marfim da família Black, a exceção das visitas de Cornélia quando ela conseguia sair de Beauxbatons. Edmundo ainda muito novo para compreender a complexidade por trás de tudo aquilo, ainda que fosse difícil fazê-lo acreditar que estava feliz.

Contudo, cabe aqui resumir o meu psicológico durante aquele ano. Eu passei a ser uma consumidora assídua de vinho, pois não me era permitido chegar perto das garrafas de whisky de fogo. Eu não ria mais com a mesma facilidade em público e não me esforçava para fazer amizade com o círculo que me foi apresentado. Minha única alegria era meu trabalho como inominável no Ministério e os únicos seres humanos de quem realmente gostava, eram os que trabalhavam comigo. Só recebia notícias de conhecidos através de cartas, pelo fato de meu marido sempre inventar uma desculpa para que eu não saísse… E as cenas semelhantes a minha noite de núpcias foram tão frequentes… que eu não tinha mais forças para retrucar com a voz mais alta que a dele.

Resumindo para mim mesma: de uma jovem viva e cheia de opiniões, passei a ser uma mulher casada submissa e infeliz, completamente passível de ser taxada como alcoólatra. E foi em Abril de 1902, caminhando para completar dois anos de cárcere, que eu recebi a carta que mudaria minha vida outra vez. Era Sábado, Sirius e eu estávamos tomando café com dez cadeiras de distância, quando Roxy, uma elfa doméstica entrou com a bandeja de prata trazendo minha correspondência. Geralmente eu só recebia coisas do trabalho e de Cora, mas naquele dia eu reconheci a letra de Linda num envelope e não contive um suspiro de felicidade.

Elifas e ela estavam finalmente marcando a data do casamento e me convidavam para ser a madrinha. Seria em Setembro, dali a quatro meses, no dia sete. Linda explanava o quanto estava feliz e eu ficava realmente feliz em meses apenas por poder reconhecer sua escrita e ouvir sua voz na minha cabeça. Porém, ao final da carta, havia uma ressalva. Alvo seria o padrinho de Elifas e minha amiga pedia para que eu preparasse meu psicológico para a ideia de vê-lo outra vez, em outras palavras, implorava para que eu não fizesse um escândalo. Como poderia? Não tinha notícias de Alvo há séculos, completavam três anos sem vê-lo em Dezembro. Tudo o que sabia era que agora dava aulas em Hogwarts.

Lembro de como achei irônico como meu palpite acabou se provando verdadeiro e ele realmente "foi um bom professor". Sirius esperou que eu terminasse de ler a carta para perguntar o motivo da minha súbita mudança de humor.

— Linda vai se casar e me convidou para ser a madrinha. - respondi simplesmente. - Lembra-se dela? Linda Doyle? Ela nos cumprimentou no nosso casamento…

— Ah sim, lembro muito bem da senhorita Linda Doyle. - confirmou Sirius. - E quem é o escolhido?

— Elifas Doge. - respondi guardando a carta no bolso do meu hobbie. - Qual o motivo da graça? - indaguei pacientemente ao ouvi-lo rir.

— Nada, é só que Linda é uma mulher bonita e os Doyle são uma família sangue puro respeitável. Escolheram justamente os Doge? Ele não teve… varíola de dragão quando criança? Lembro-me de quando fui falar com Dumbledore no trem ele ainda tinha as marcas. - desdenhou meu marido bebendo um pouco do vinho em seguida.

— Acho que vou visitá-la para desejar os parabéns e agradecer o convite. Faz tanto tempo que não vejo Linda ou Elifas e ambos são meus melhores amigos, e além disso podemos começar a preparar a cerimônia. - disse encarando minha xícara de chá. - A não ser que você tenha outros planos para me manter em casa.

— Claro que não. Eu concordo, deve ir até a casa de sua amiga. Detesto fazê-la pensar que é uma prisioneira nessa casa, Amélia. Não a deixo ir ao Ministério sempre que precisa? - disse Sirius com falso tom de indignação. - Linda mencionou quem ela pretende usar como padrinho?

— Não, que coisa estranha, não mencionou. Perguntarei a ela enquanto estiver lá, mas antes preciso ir até o Ministério resolver um assunto. - conclui me levantando.

— O sigilo ainda a impede de falar o que quer que seja comigo? - interpôs Sirius, me segurando pela mão quando passei por ele.

— Como sempre. - retruquei com um falso sorriso gentil. - Posso? - e ele me soltou sem mais perguntas.

Além de uma alcoólatra, uma esposa infeliz e abusada, naquele primeiro ano, eu tinha desenvolvido um poder de oclumência acima do normal. As raras vezes em que guiava uma conversa com Sirius era o meu momento favorito de testá-la, pois, enquanto eu manipulava o assunto, algum plano se formava em minha mente. Naquela manhã, depois de saber que Alvo estaria no casamento, o plano era visitá-lo sem que meu marido ficasse sabendo. Ainda que meu caso com meu melhor amigo não fosse do conhecimento dele, não poderia arriscar.

Por sorte, trabalhar no departamento de inomináveis me dava carta branca para conhecer os mais variados tipos de magia que ainda não eram detectados pelo Ministério. Entretanto, o objeto que eu tinha em mente ainda estava sendo estudado e testado, as consequências, eu sabia, poderiam ser inimagináveis. Os últimos vestígios daquela jovem bruxa, no entanto, me impulsionaram a persistir na ideia. Era a única saída. Não tínhamos um nome exato na época, mas hoje, e com um pouco de crédito para mim, o objeto em questão chama-se vira-tempo.

— O quê?! - exclamou Rony, interrompendo a leitura de Gina. - Amélia tinha um vira-tempo?

— Rony, - ralhou Hermione. - Não se lembra da batalha no Ministério? Passamos por uma sala cheia deles. Acho que na época ainda estavam descobrindo as propriedades da areia.

— Mas ela usou um vira-tempo. Igual a você, Mione. - observou Harry animado. - Brilhante! Continue, Gina.

Uma meia mentira foi necessária para consegui-lo. Eu realmente tinha que ir até o Ministério naquela tarde para resolver uns problemas quanto a transferência de um espelho muito curioso. Alguns bruxos o encontraram na sala de espelhos em Versalhes, possivelmente uma brincadeira de mal gosto de algum desocupado, em todo caso, o problema era que o tal espelho não refletia as pessoas e sim seus desejos mais profundos. Claro que não preciso lembrar aqui o quanto de rebuliço provocou nos trouxas ambiciosos que achavam ser possível prever o futuro.

— Trouxas acreditam em cada coisa. - resmungou Barney Charson, um mestiço que trabalhava comigo e de cujo olhar esperto me lembro bem. - Imagine só! Como se prever o futuro fosse simples. Se sequer a nossa gente consegue com precisão.

— Pelo menos eles não expulsam a magia de suas vidas. - retruquei com um risinho.

— Como não? Já ouviu falar na eletricidade? - e eu não contive um risinho baixo. - Mas então, vocês vão até Versalhes?

— Eu com certeza não vou. - respondi com um sorriso maroto. - Mas, você, Sawyer e Dawson vão, meu caro.

Amélia… como conseguiu sair dessa vez? - riu Barney. - Ah, já sei.

Disse que ia ajudar com a areia do tempo. - dissemos em uníosso. - Você me conhece… qualquer coisa para me afastar do passado. Além do mais? Não eram os trouxas que a chamavam assim?

É claro… touchée, Amélia. - concordou ele. - Então, até Segunda.

A sala de testes do Departamento de Mistérios era o lugar mais impressionante que olhos humanos já haviam visto. Decorada com os mais variados tipos de instrumentos mágicos… bons tempos.

Painswick. - chamei ao me colocar ao lado de um bruxo baixinho e franzino. George Painswick. Um camarada meticuloso e engraçado… ainda hoje dou risada do susto que ele levou depois que chamei seu nome. - Perdão, às vezes me esqueço de como você se assusta fácil.

Não é bom para a profissão, mas ainda assim continuo sendo um dos mais habilitados. - comentou ele sem tirar atenção do protótipo do vira-tempo. - Não deveria estar com Barney e o resto da trupe de desbravadores?

Já sei o que me interessa sobre aquele espelho, o trabalho duro pode ficar para eles. - respondi dando de ombros. - Além disso, isso - disse apontando para a areia. - é muito mais interessante. Descobriu tudo sobre ela?

Claro que não, Amélia! - ralhou George. - Quando um bruxo conseguir descobrir tudo sobre o tempo, ele nunca mais precisará temer a vida.

E então o que sabe?

A areia pode ser usada para viajar ao passado, contudo, até que ponto, não sei. E seria muito arriscado descobrir. - começou George com ar sombrio.

Por quê? - perguntei logo em seguida.

Ora, Amélia, você é inteligente, achei que poderia chegar a conclusão por si mesma. Suponha que alguém volte tanto ao passado, digamos, antes de ter nascido, não haveria como seguir os próprios passos…

E com seguir os próprios passos, você quer dizer que a expressão "estar em dois lugares ao mesmo tempo" é real. Ou seja, quando usamos o vira-tempo cria-se dois de nós e se voltássemos muito ao passado, como antes de nossos nascimentos… ficaríamos presos e teríamos que viver a nossa vida a partir dali como perfeitos estranhos… nasceríamos e dali então nossa vida seguiria o curso normal como estava antes de voltarmos…

Isso se não fizéssemos alterações no tempo enquanto estivermos em antagonismo com a época.

Então, deixe-me ver. - interrompi tentando entender melhor o funcionamento do objeto sem parecer suspeita. - Digamos que eu pegue uma dessas ampulhetas agora e a vire o suficiente para equivaler a uma hora atrás, uma de mim estaria dormindo na minha casa, enquanto eu poderia andar por Londres… só teria que ter certeza de chegar aqui novamente depois que minha outra eu tiver ido embora para que o tempo siga seu curso sem riscos. Faria duas coisas ao mesmo tempo. - conclui ainda um pouco confusa.

— Exatamente, Amélia. O mais importante seria garantir para que seus dois eus não se encontrassem… trouxas inexperientes ficaram loucos com isso. - recomendou George.

— É claro, seria desastroso e ao mesmo tempo é brilhante. - admiti. - Uma pena que vai demorar tanto para que possamos usar uma dessas…

— Na verdade, elas já podem ser usadas. Só queríamos encontrar um desing mais… cômodo. - ponderou ele.

— E como funciona o sistema de voltas? - perguntei com falso desisteresse.

— Bom… essas ampulhetas são de horas, então, uma volta para cada hora.

— Senhor Painswick, precisam do senhor na outra sala. - chamou um dos estagiários.

— Claro, não me demoro, Amélia.

— Não se preocupe, eu já estou saindo. - disse com um sorriso afetado. Assim que a porta se fechou, mirei a sala e não havia mais ninguém. - Gemini. - murmurei para uma das ampulhetas e peguei a verdadeira, partindo em seguida para a casa de Linda.

A casa dos Doyle ficava no certo sul de Londres e quem quer que passasse sequer notaria que era a morada de uma família bruxa de puro sangue. Enquanto passava pelos jardins até a soleira, consegui imaginar Linda brincando entre as margaridas, fazendo coroas e não contive um sorriso. Finalmente, quando bati na porta, aquela garotinha apareceu e me abraçou com força.

— Mélia! - ela gritava ao me puxar para dentro. Fazia tanto tempo que ninguém me chamava assim que eu não contive uma lágrima pelos velhos tempos. - Venha sentar, estou tão feliz por você ter vindo tão depressa, tão cedo.

— Qualquer coisa para me tirar de casa. - respondi com um sorriso torto. - E onde está Elifas? Eu pensei que o senhor sou o homem mais sortudo da Terra estaria aqui.

— Ele vai vir para almoçar. Quer ficar? - Linda convidou enquanto entrávamos para a sala de visitas.

Claro. - aceitei mais pela necessidade de tempo do que pela vontade de ver Elifas, confesso. - Mas, preciso falar com você sobre um assunto.

Primeiro, eu preciso dizer que você está diferente, Amélia. Pode ser somente uma impressão, mas, seus olhos… estão mais escuros, e costumavam brilhar tanto! E a sua voz… por um momento eu pensei…

Não diga. - interrompi imediatamente. - Cora me disse isso da última vez que me visitou e eu não preciso que minha melhor amiga diga que eu peguei o maneirismo de falar da tia Sarah. Dói muito… Algumas mulheres se tornam suas mães quando se casam, mas Amélia Preminger se tornou a sua tia. - comentei tentando rir. - Posso beber alguma coisa?

Oh, claro… aceita uma xícara de chá? - ofereceu ao estalar os dedos para chamar o elfo doméstico.

Na verdade, para o que eu vou te dizer, preferiria algo mais forte. - corrigi com um sorriso amargurado.

Vinho? - sugeriu Linda.

Conhaque. - corrigi outra vez. Ela não questionou, embora eu tenha reparado seu olhar preocupado, mas também, eu não melhorei as coisas… Quando o elfo retornou com a taça de conhaque, voltamos a falar.

Desde quando você bebe? - Linda perguntou me fitando profundamente.

Desde que me casei. - respondi simplesmente. - Mas não se preocupe, eu nunca fui pega bêbada ou fazendo algo inapropriado. Descobri que sou bastante forte com isso. - comentei achando de graça de finalmente ter admitido para mim mesma.

Sirius é tão ruim assim? - provocou Linda com um sorriso solidário.

Para você ter uma noção, estou surpresa que tenha me deixado vir até aqui. Entretanto, é um conforto saber que ele só morde para me machucar quando provocado de verdade. - respondi dando tempo para um pequeno silêncio sombrio. - Mas não foi isso que eu vim discutir com você e quero falar antes de Elifas chegue.

Eu acho que sei o que quer fazer. - disse ela séria. - E sei porque não quer falar sobre isso com Elifas.

Nossa. - murmurei. - Já pensou em trabalhar com adivinhação, eu estou vendo um grande futuro para você. - me permiti brincar.

Eu conheço meus amigos. - retrucou Linda como se fosse óbvio. - Você quer ir falar com Alvo para minimizar a tensão para quando se encontrarem no casamento. E Elifas vai achar que não deve, como achou que não deveria falar com ele sobre Grindewald.

Como você sabe? - exclamei surpresa.

Acha que Elifas me deixava no escuro? Ele não consegue mentir para mim. - condenou ela. - E se tentasse, veritaserum sempre foi uma especialidade da casa. - acrescentou me fazendo sorrir.

Enfim, sim. - disse voltando para o assunto principal da conversa. - Eu quero ir falar com Alvo. A sós para minimizar os danos… quer dizer, eu o chamei de desgraçado, pelas barbas de Merlin! Elifas dirá que seria melhor numa situação social, pois isso nos obrigaria a sermos corteses um com o outro. Contudo, eu acho que ele não seria capaz de dar com a porta na minha cara. Mesmo depois de tudo, ser rude não faz o estilo dele.

Tem razão. - concordou Linda. - Mas, e Sirius? Ele não se chatearia por você ir até lá.

Para a sorte do mundo, Amélia Preminger pode estar infeliz, mas ela não é menos esperta. - disse retirando a ampulheta de dentro da bolsa. - Tcha-ran.

O que é isso? - perguntou Linda rindo.

O pessoal e eu ainda não demos um nome. - respondi. - O que importa é que essa ampulheta pode me fazer voltar no tempo e… bem, digamos que, enquanto eu estou aqui falando com você, eu também vou estar falando com Alvo. Um álibi perfeito!

Não, ainda nem demos um nome ou falamos com o Ministro sobre elas. Só começarão a rastreá-los daqui a um mês. - disse vibrando.

Então, você aceitou almoçar para ganhar tempo. - concluiu Linda cruzando os braços. - Certo, eu me chatearia se não fosse por uma causa nobre. De quanto tempo precisa?

Acho que para ter certeza, três horas.

Três horas? Vocês vão conversar ou tentar reconstruir suas antigas vidas? - exclamou minha amiga desesperada. - Posso te dar duas horas aqui, e vai ter que bastar para falar com Alvo.

E quanto ao jeitinho? Eu tinha que chegar com jeitinho. Não dá para chegar a Hogsmeade, caminhar até Hogwarts, bater na porta do escritório dele e dizer "Olá, senhor gênio, Lembra-se de mim? A garota com quem você transou no banheiro dos monitores e depois disse para nunca mais procurá-lo. Bem, ela ainda não dá atenção para regras e veio até aqui para tentar recomeçar!" - exclamei gesticulando com os braços.

E ela ainda gesticula com os braços. Já disse que não consigo te acompanhar assim. - gracejou Linda. - Em todo caso, é claro que você não vai dizer isso.

É, só foi um exemplo muito ruim do que vai acontecer se eu não tiver tempo.

Mélia! - chamou Elifas aparecendo de surpresa na sala, correndo para me abraçar.

Eli! - disse me apertando contra ele. - Eu… senti saudade. - disse engolindo o choro.

Eu também, Mélia. - ele falou sentando-se ao lado de Linda no sofá. - Como vai, senhora Doge? E por que você precisa de tempo?

Eu estou ótima, senhor Doge. E Amélia precisa de tempo para conseguir voltar no tempo e falar com Alvo. - Linda respondeu antes que eu pudesse dizer.

Você, por acaso, prestou atenção no que você mesma disse antes da conversa começar? - indaguei chocada.

Sinto muito, mas, o lance da mentira também funciona para mim. - lamentou Linda sorrindo maliciosamente.

Que lance… em todo caso, falar com Alvo é o fato mais importante da conversa. - interveio Elifas. - Amélia, eu acho…

Eu sei o que você acha. Que eu devia esperar pelo casamento para falar com ele, assim não há chances de…

Não, não é o que eu acho. - ele tornou a interromper. - Eu concordo com você. Já se passaram três anos e… eu realmente acho que vocês precisam se falar. Digo, eu ainda falo com Alvo e percebo que ele sente saudade de você. E é visível que você sente falta dele.

Eli…

Quando ele se afastou de você em Hogwarts, a despedida no funeral de Kendra, Paris. E agora eu chego aqui e pego você bebendo… - ele se aproximou para cheirar o meu copo. - conhaque antes do almoço. Sem falar que seus olhos não estão brilhando mais. - eu não contive um sorriso aberto.

Quem precisa de terapia com vocês dois por perto? - brinquei e eles se entreolharam cheios de sorrisos. - Então? Acham que eu devo?

Claro. - assegurou Linda. - E seu plano é ótimo.

Qual plano? - e contamos tudo a Elifas, mas antes que ele pudesse discordar, o elfo nos chamou para o almoço. O senhor e a senhora Doyle ficaram felizes por receberem uma Black e estranharam quando eu pedi -ordenei - para que não usassem esse nome. Ao final do almoço, eu subi até o quarto de Linda e dei as voltas no vira-tempo.

Certo dez e meia, eu ainda estava no Ministério. - e aparatei antes que alguém aparecesse. Eu tinha exatas duas horas e meia para falar com Alvo, e graças a Merlin, já estava em Hogsmeade. Subi o mais rápido que pude para as escadarias de pedra de Hogwarts, e logo alcancei o portão principal… ofegante, mas a tempo. - Com licença, eu gostaria de falar com o professor Dumbledore. - disse quando o zelador me atendeu.

Ah sim, venha. - ele deveria estar ocupando o antigo escritório da professora Hadassa, pois andar até lá foi como caminhar no tempo. Quando chegamos, eu me contive para abrir… deveria bater primeiro? Eu pensei. - Bem, com licença.

Ah, sim. Obrigada. - agradeci tomando ar. E se ele ainda não quisesse me ver… Em todo caso, eu bati e meu coração acelerou de ansiedade.

Entre. - e depois de anos eu ouvi aquela mesma voz calma e gentil. Levou alguns segundos, mas eu consegui girar a maçaneta.

Olá, Alvo.

Ele parou de mexer no que pareciam ser lições de casa e se ergueu imediatamente ao olhar para mim. Eu entrei e fechei a porta. Pelo que pareceram horas, nós ficamos parados olhando um para o outro como dois idiotas. Sem conseguir dizer ou fazer alguma coisa. Contudo, valeu a pena somente por poder ver que não havia mágoa ou tristeza naqueles olhos azuis. Apenas calor e um imenso sorriso escondido. Eu senti vontade de chorar e de pedir desculpas, mas o transe era maior.

Amélia, sente-se, por favor. - ele convidou, finalmente quebrando o silêncio. - Que surpresa você vir até aqui.

Bem, Elifas e Linda vão se casar e ao que parece nós seremos os padrinhos. Eu não queria que essa reação acontecesse no dia. As pessoas poderiam comentar. - respondi me sentando numa das poltronas de frente para ele.

Sim, sim. - ele estava mais sem jeito do que eu me lembrava. - Nossa, já três anos… Quer… quer beber alguma coisa?

Uma taça de vinho, se tiver. Assim eu evito gaguejar. - respondi.

E, como estão as coisas? - ele começou a conversa ainda nervoso, enquanto servia o vinho. - Eu soube que você tem se destacado com os outros inomináveis.

Ah sim. - concordei. - Digamos que meu trabalho é a minha vida. - acrescentei sem graça. Ele ficou sério de repente, mas depois sorriu calorosamente. Ainda assim, toda a situação estava estranha.

E o seu casamento? - ele perguntou por fim.

Está gostando de ser professor? - devolvi tentando mudar o rumo da conversa. - Eu sei que disse uma vez que você seria ótimo nisso. Pelo que vejo, acertei.

Ah sim, é ótimo… Pelo menos aqui eu não… machuco ninguém e posso ser útil de verdade. Usar a minha grande inteligência para algo bom. - ele respondeu bebendo um gole do vinho. - Mas, você não respondeu a minha pergunta…

E não vou. - disse de pronto. - A última coisa que quero é estragar esse reencontro falando sobre o quanto… enfim, sobre o meu casamento.

Pelo que eu entendo, você veio para fazermos as pazes e tentarmos voltar a ser… bem, melhores amigos. Há algum tempo, você teria me contado. - comentou Alvo.

Wow, você ainda é sábio. - brinquei. - Bem, se quer mesmo saber…

Eu quero. - ele se apressou em dizer. - Sinto muito pela dor que lhe causei, Amélia. Depois que você foi embora aquele dia eu percebi o quanto a decisão era ruim. Você estava certa. Somos amigos acima de tudo e…

Eu fiquei mal, mas… te perdoei, ainda que silenciosamente, algum tempo depois. Não quero falar sobre aquele dia, sobre nada daquela época agora. Quer dizer, eu tenho pouco tempo e agora que vamos reatar teremos como discutir isso com calma mais tarde. O fato é que eu perdoo você Alvo e nesses três anos… eu só pensava nisso. Em sermos amigos de novo.

Considere feito. - ele disse erguendo a taça. - É claro, vai demorar um pouco para ser normal como antes…

Em alguma hora foi normal? - indaguei sorrindo.

É, tem razão. Mas, eu coloco toda a culpa em você.

Em mim?

Claro! Elifas queria pedir Linda em casamento e você sugeriu uma banda, quer dizer, ahn? - e eu ri. De verdade e alto, depois de três anos. - Senti falta dessa risada, admito.

E eu do seu senso de humor.

Espero que ele te trate bem. - interveio ele mudando de novo de assunto.

Se usar a maldição imperius em você sempre que quiser reivindicar seus direitos de marido quer dizer isso. - respondi com amargura.

Ele usa maldições em você?! - exclamou Alvo horrorizado. - Amélia você precisa reportar isso, é ilegal.

Metade do ministério trabalha para que Blacks e Malfoys ajam como bem entendam. - retruquei cansada. - Além disso, nada que uma boa dose de whisky de fogo ou conhaque não cure. O vinho somente para chateações durante o dia.

Em pensar que você sequer bebia. - observou ele.

Comecei em Paris, na verdade. A vida boêmia… mas, deixemos meus anos dourados para outra hora. - disse olhando para o relógio. - E Abeforth?

Não estamos nos falando mais. - explicou Alvo. - Desde a morte de Ariana.

Mas vocês são a única família um do outro. - contestei chocada.

Meu irmão não pensa assim. - lamentou meu amigo. - Resumindo, para nós dois, o trabalho é a única fonte de alegria. - ponderou depois de um breve silêncio.

Ao trabalho. - disse erguendo minha taça para um brinde.

Ao trabalho. - concordou ele batendo as duas taças. - E aos verdadeiros amigos. - eu sorri. - Então, como conseguiu vir aqui sem que Sirius te impedisse?

O resto do tempo foi disposto entre falar sobre as propriedades do vira-tempo e sobre o casamento de Linda e Elifas. Em apenas alguns minutos depois daquela introdução fatal, Alvo e eu já parecíamos estar voltando ao normal.

É melhor você ir, vai sumir no quarto da Linda daqui a pouco.

Sim, claro. Desculpe fazer você passar por essa conversa duas vezes.

Vou aproveitar em ambas. - disse se levantando para a despedida. - É bom que tenha acabado. - comentou ao abrir a porta.

É… excelente. - concordei. Sem me conter, eu o abracei e comecei a chorar. - Eu realmente senti sua falta, senhor gênio.

Eu também, Mélia. Agora vá, antes que encontre você e fique louca. - disse sem me soltar. Por fim, eu saí correndo enquanto secava as lágrimas. Foram os cinquenta minutos mais corridos da minha vida. Sem ser vista, cheguei a Hogsmeade e aparatei para dentro do banheiro do quarto de Linda e me esperei sumir para voltar.

Amélia? Mas… - indagou Linda.

Está tudo bem, o plano deu certo. Agora preciso ir embora. - disse dando um beijo apressado na bochecha da minha amiga.

Ao chegar na Mansão Black naquela tarde de Sábado, até mesmo os quadros perceberam como meu andar estava mais leve. E Sirius jamais poderia atribuir aquela sensação a qualquer coisa que não a visita a Linda. Mais tarde, foi essa lembrança que usei para ajudar a dar o nome a ampulheta, depois que seu design ficou pronto. Um pouco clichê, mas aquela tarde realmente deu uma virada na minha vida… graças a uma virada no tempo… Acredito que nem mesmo Alvo poderia ter pensado num trocadilho tão horrível para um propósito brilhante.


Oláaaa! Volteeeei *-*! Espero que gostem da volta do ruivo maravilha, como minha querida Sra. McGonagall.D insiste em chamar. Eu me esforcei muito para que esse capítulo ficasse bom e espero que concordem. Deixem reviews para que eu saiba se gostaram, ok? Bjoooos e até o próximo capítulo!