Capítulo 34

Passaram-se dois dias e não havia nenhum sinal de que Alvo fosse voltar para o chalé. Contudo, eu não poderia dizer que seu plano não estava funcionando bem. Ninguém suspeitava que eu poderia estar escondida na propriedade dos Flamel e assim eu conseguia dormir tranquilamente, já me acostumando a falta da presença de Sirius Black. Na manhã de Segunda-feira, logo depois da partida de Alvo, o elfo doméstico prometido por Perenelle apareceu para me fazer companhia enquanto meu amigo se mantinha ocupado com Hogwarts.

Livy era seu nome e pelo que me pareceu gostava muito da família para qual trabalhava. Ainda não conhecia os Flamel, mas já os tinha na mais alta conta. A elfa recebia pagamento, um galeão por dia de trabalho. Pareceu-me justo; se somarmos todos os dias do ano, ela tinha uma pequena fortuna. E embora fosse consciente do seu papel na sociedade bruxa, Livy não me deixava mover um dedo sequer.

— Não preciso de ajuda, senhorita Preminger, minha senhora. A senhora Perenelle deixou claro que a senhorita estava aqui para descansar, logo, deve descansar. - dizia ela sempre que eu me oferecia para ajudar.

Perguntei-me onde ela teria aprendido que não devia me chamar de senhora Black e logo deduzi que Alvo deve ter mencionado algo assim na sua carta para Nicolau. Alvo… ficar sem trabalhar me fazia pensar nele o tempo inteiro, o que quase me comparava a uma adolescente. Ainda era jovem com apenas vinte e um anos, mas, não me dava mais o direito de pensar como uma menininha ingênua. O que Cora diria se tivesse estado comigo durante aquela reclusão? Ela teve seu tempo para me dizer o que achou dessa escapada, mas isso ainda terá seu momento de ser comentado, Amélia…

Agora você readmitindo para si mesma o quão patética foi durante três dias. Quer dizer, é claro que eu tinha o direito de sentir saudade do meu amigo, todavia, tudo aquilo chegava à obsessão. Alvo estava certo. Eu sempre os teria por perto enquanto tivesse as lembranças… e então foi o que eu fiz. Passava as tardes lembrando. Caminhava pelos jardins com algum livro em mãos caso sentisse vontade de ler, o que não acontecia. Sentava num dos bancos e lembrava de Hogwarts. Os banquetes no grande salão, as noites estudando no dormitório…

E impreterivelmente eu me lembrava das noites fazendo ronda nos corredores com Alvo, jogando xadrez… Eu tinha achado um tabuleiro com as peças entre as caixas de Nicolau e logo sorri. Depois o dia do pedido de casamento do Elifas… Alvo e eu na cozinha fazendo bagunça… A primeira vez que nos beijamos, uma corrida pelos jardins da escola… e a noite no banheiro dos monitores… E em meio a todas aquelas lembranças eu ria sozinha. Eu me lembro de rir sozinha e sorrir para o nada durante a tarde toda. Não podia negar que ainda estava apaixonada por ele…

— Amélia? - e então ouvi a voz dele me chamando. - Mélia?

— Ei. - cumprimentei sorrindo abertamente. - Que surpresa!

— Estava sozinho na minha sala e resolvi ir tomar alguma coisa em Hogsmeade. - respondeu ele piscando significativamente para mim.

— Sutil com selo de garantia do senhor gênio. - comentei abrindo espaço para ele se sentar.

— Passou a tarde toda lendo… Animais Fantásticos e Onde Habitam? Sério? - indagou ele risonho tomando o livro das minhas mãos.

— É uma leitura muito boa. - retruquei sorrindo. - Mas, logo foi interrompida por lembranças…

— Boas lembranças?

— Ótimas lembranças… nós dois jogando xadrez. - disse com ar sonhador.

— Ora, não seja por isso. - ele falou se levantando, me oferecendo a mão. - Vamos? Uma competição saudável…

— Como nos velhos tempos? - interrompi adivinhando o que ele ia dizer.

— Como nos velhos tempos. - repetiu ele com um leve aceno de cabeça.

Aceitei a mão que ele me oferecia de pronto e o segui para dentro da casa, onde Livy nos esperava com sugestões para o jantar. Alvo tomou a dianteira e disse que comeríamos na biblioteca, apenas alguns sanduíches reforçados serviriam. Eu concordei, não estava com muita fome. Assim que nos sentamos para começar uma partida limpa de xadrez de bruxo, os sorrisos maliciosos começaram a aparecer. Provocações durante os jogos eram comuns entre nós e isso sempre trazia essa reação. Contudo, durante o meio do jogo, ele começou a rir abertamente.

— Por acaso perder para uma garota é engraçado?

— Você tem suas lembranças, eu tenho as minhas… - retrucou ele dando de ombros, bebendo um gole do vinho que Livy disponibilizara com os sanduíches.

— Não, não, as suas lembranças não podem ser muito diferentes das minhas. Estávamos juntos sempre. - protestei visto a nítida vontade dele de ser misterioso. - Diga, Dumbledore, no que está pensando?

— Em como você dança mal. - ele disse simplesmente, mas eu percebi as segundas intenções porque a única vez que dancei realmente mal na frente dele foi na mesma noite que fizemos amor no banheiro dos monitores.

— Pois eu me lembro de dançar muito bem em todas as ocasiões. - retruquei na defensiva.

— É, você e essa ideia de que faz tudo muito bem. - brincou Alvo acabando de se livrar do meu rei.

— Ué, você estava lá… sabe que é verdade. Bem mais do que uma teoria. - disse pegando um dos cavalos dele. Rimos, mas logo em seguida o silêncio. Por fim, acabei vencendo a partida e bati palmas de alegria. - Ótimo, vamos comemorar?

— Comemorar a minha derrota. - resmungou Alvo. - Realmente, preciso escolher melhor os meus amigos.

— Não fique tão magoado. - disse num falso tom de consolação. - Afinal, você não perdeu sem lutar. Foi uma das estratégias mais difíceis que já usou, senhor gênio e nisso não estou querendo alisar seu ego.

Certo, então vamos brindar a uma excelente partida. Digna dos velhos tempos. - concordou ele por fim. - Aonde vai?

Pegar as taças. - respondi indo até a cozinha.

Mas, já temos copos. - retrucou ele indo atrás de mim.

Honestamente, senhor gênio. Às vezes ainda me surpreendo por você não fazer certas coisas do modo mais apropriado. - rebati com um sorriso esperto. Ele resmungou atrás de mim, enquanto eu erguia a mão para alcançar as taças de vinho na prateleira de cima do armário.

Em seguida um flashback instantâneo sem precisar pensar muito. Alvo segurou minha mão no ar antes que ela pudesse tocar uma das taças e eu senti minha respiração falhar por um instante quando me virei para encará-lo surpresa; sequer suspeitava que ele fosse capaz de fazer algo assim novamente. E lá estavam aqueles olhos azuis me encarando com um sorriso divertido nos lábios, ao contrário da seriedade da noite na sala dos troféus.

Contudo, também ao contrário daquela vez, ele não foi delicado. Aproximou-me dele com um só puxão na minha mão e me beijou. Eu não fechei os olhos e me deixei levar de pronto, como no passado… Arregalei-os ainda mais e fiz menção a afastá-lo, mas ele não demonstrava ter intenção alguma de me soltar. Eu mesma não encontrava muitas razões para lutar contra a velha chama que se reacendia depois de anos enegrecida. E por fim retribui o beijo com a vontade da velha Amélia.

Deixei que três anos de sentimentos e vontades reprimidas se extravasassem no silêncio daquela sala, me apoiando na força com a qual ele segurava meu rosto. E se os beijos do jovem Alvo Dumbledore já me deixavam completamente sem noção de decoro, o beijo do mais velho Alvo Dumbledore me fez esquecer de vez aquele que trocara com Marius, o fato de que ainda era casada e que provavelmente levaria uma surra quando voltasse para casa. O mundo inteiro parecia mais uma vez ter feito silêncio para nos olhar e eu não saberia mais dizer o que era medo ou tristeza.

Então, de repente, ele parou e ajeitou um fio do meu cabelo que estava fora do lugar. Parecia estar acordando de um sonho, ou um pesadelo como pensei no momento em que ele se afastou assustado de mim.

Alvo? - murmurei estendendo a mão para tocar o ombro dele.

— Sinto muito, Amélia… eu… eu não deveria…

— Está tudo bem. - apressei-me em dizer brandamente. - Você não…

— Acho melhor eu ir andando. - interrompeu ele correndo para pegar sua capa. - Vão estranhar minha demora.

— É claro. - concordei sem conter minha decepção, o acompanhando até a porta.

Ele se virou para mim e por puro ímpeto tomou minha mão para beijá-la, parando milímetros antes de tocá-la com os lábios.

— Fique bem, Mélia. - disse nervoso, soltando a minha mão e saindo alguns metros para longe da casa antes de aparatar.


Bem, amados, mais um capítulo para vocêees! *-* Espero que gostem de verdade! Deixem reviews lindas, ok? Bjooos e até o próximoo!