Capítulo 39
Partimos para Dover naquela mesma tarde, como tia Sarah havia estipulado. A notícia sobre a partida da nobre senhora Black repercutiria pelos salões assim que eu deixasse Londres, por mais que algo fosse feito para evitá-lo. Contudo, os cochichos sobre a razão da minha súbita partida devido a problemas de saúde não seria pior do que cochichos sobre uma criança bastarda, o que me faz lembrar do quanto as pessoas podem ser cruéis. A casa de campo em Dover era espaçosa e possuía uma boa biblioteca para me distrair durante aqueles meses. Nada comparado a mansão, mas ainda assim me encheu de recordações familiares.
Cornélia não conseguiu deixar Beauxbaton para ficar comigo e tive que recorrer a Linda. Nem eu e nem tia Sarah queríamos que aquele assunto se estendesse a muitas pessoas, mas depois de tudo, não achei que minha melhor amiga devesse ser excluída. Como não podia contar a Alvo, a única a quem poderia recorrer emocionalmente seria a ela, afinal, não aceitaria tia Sarah de forma nenhuma. Linda recebeu a notícia muito bem, na minha opinião, sem nem um pouco da surpresa de vovô Archie, o que me fez sentir melhor.
— Obrigada por ter atendido ao meu chamado tão depressa. - disse a ela quando chegou, alguns dias depois, assim que a abracei.
— Sempre que precisar. - retrucou ela me segurando fortemente pelas mãos. - É uma casa adorável. Estou começando a questionar se a fortuna dos Preminger é maior do que a dos Malfoy… seria um bom argumento para fazê-los desempinar o nariz. - acrescentou admirando o hall.
— Elifas não ficou zangado comigo por tê-lo feito abrir mão de você tão de repente? - perguntei com um sorriso brincalhão.
— Conhece o meu Elifas, ele faz tudo pelo bem dos amigos. Seria capaz de matar por eles. - respondeu Linda sorrindo docemente para mim. - Mas, não posso dizer que tenha ficado completamente feliz. Ele me ama e adora minha companhia, não é?
— E eu o julgaria um tolo se ousasse pensar o contrário. - disse empinando o nariz. - Você disse a verdade a ele? - indaguei depois de um pequeno silêncio.
— Na carta você não mencionou ter dito nada ao Alvo e então eu supus que pior seria contar ao melhor amigo dele, que acabaria revelando a verdade mesmo que eu o fizesse jurar para não contar.
— Sim, acho que sim. - concordei acenando freneticamente a cabeça.
— E, se me permite dizer, não acho que esteja tomando a decisão certa ao não contar isso ao Alvo. - comentou Linda cautelosamente. - Ele é o pai, afinal de contas. Tem o direito de saber sobre a criança, Mélia.
— Foi uma das imposições de tia Sarah. - disse de modo incisivo. - E no Ministério? Não estou criando problemas para você, estou? - perguntei querendo mudar de assunto.
— Não, fique tranquila. - assegurou ela. - Agora, vamos, vou trocar de roupa e você pode me mostrar a casa. - disse com me puxando escada acima.
Passaram-se seis meses e minha barriga já estava maior do que eu poderia ter imaginado. Minhas bochechas também haviam engordado e eu corava facilmente com qualquer mera exposição ao sol. Linda não perdeu o bom humor em nenhum momento e escrevia frequentemente para Elifas em Londres. Tia Sarah sempre acompanhada de um medibruxo para consultas de rotina pré-natais, mas nunca se demorava sabendo que isso não faria bem a nenhuma de nós. Alvo foi pouco mencionado naquele período, mas Linda deixou claro que Elifas dissera que ele estava preocupado com o motivo da minha súbita fuga.
— Ele não é burro. - disse uma vez enquanto jantávamos. - Sabe o que acontecesse quando se faz sexo muitas vezes sem dar a devida importância a proteção.
— E incomoda você que não tenha feito nada para tentar contatá-la ainda? - Linda perguntou arqueando as sobrancelhas.
— Não, na verdade, acho até melhor. Assim, evitamos discussões antes que tudo tenha acabado. - menti e minha amiga deve ter percebido porque não se calou.
— Amélia… estamos aqui há seis meses e em nenhum momento a vi falar qualquer coisa sobre essa criança. - falou brandamente. - Não sei se está tentando ser forte e guardar suas emoções só para você, mas, não está agindo como uma mãe que espera seu filho nascer. Seis meses é tempo o bastante para desenvolver certo vínculo maternal e você não demonstrou sequer se importar com…
— É claro que me importo, Linda. - confessei reprimindo o choro. - Desde que minha barriga começou a crescer eu me pergunto se vai ser menino ou menina, com quem ela vai se parecer, para qual casa será selecionada, afinal, ela vai ser uma bruxa ou ele vai ser um bruxo. Enfim, essa criança deveria ser minha, mas, não vai. Assim que desmamar será levada por um casal estranho e eu nunca mais poderei vê-la… Entenda, não quero me apaixonar por ela porque…
— Pronto, pronto, está tudo bem, não chore. - implorou Linda segurando minha mão. - Perdão, eu deveria saber o que está sentindo. Por favor, não chore, Mélia, não vai fazer bem para você agora.
Estávamos chegando perto do tempo em que os medibruxos disseram que o parto deveria ocorrer quando Cora finalmente conseguiu me visitar. Eu não estava mais conseguindo andar com tanta velocidade e preferia passar os dias deitada na cama, repousando. Ela chegou durante a tarde para o chá e me olhou com condescendência, como sempre fazia quando eu me metia em encrenca por uma razão que outros não compreendiam.
— Você está ótima. - ela disse se sentando perto da cama com a xícara de chá.
— E você também. - respondi. - Desculpe por não ter conseguido visitá-la quando adoeceu.
— Estávamos ambas ocupadas com nossas vidas. - Cora retrucou olhando para a vista da janela, a fonte do jardim da frente.
— Tia Sarah escreveu e disse que finalmente encontrou alguém para você. - comentei puxando o assunto.
— Charles Potter. - confirmou minha irmã. - Ele é um pouco mais velho do que eu, acho que a mesma diferença de idade entre você e Sirius. Nos falamos algumas vezes depois que tia Sarah começou os planejamentos. É um homem gentil e acho que vou gostar de estar casada com ele. Nada como a paixão entre você e Dumbledore, mas…
— Irmãzinha, pelo menos você não vai ser toturada. - interrompi rindo. - E se ele tentar, tenha em mente que meu estado nessa cama é temporário e que minhas habilidades com maldições imperdoáveis são tão boas quanto as de qualquer bruxo puro sangue. Ele que tente se meter com a minha irmãzinha. - adverti fazendo Cora rir.
— E valeu a pena? - ela perguntou em seguida. - Amar como você e Dumbledore amaram?
— O que você acha? - retruquei com doçura.
— Acho que certos sofrimentos valem a pena, especialmente quando levamos em conta o histórico da nossa família. - brincou minha irmã, também com doçura. - Só é mesmo uma pena que não poderei mimar minha sobrinha como planejei durante toda a minha adolescência.
— Como nós costumávamos cantar para enlouquecer a tia Sarah: E quando eu for decapitada pelo menos estava casada, e quando eu estiver enterrada pelo menos estava casada e esconderei meu comportamento tendo o vinho como meu salvador. Mas, oh, que coisas bonitas usarei. - cantarolei fazendo-a soltar uma risada abafada.
— Parece que foi há tanto tempo…
— Foi há algum tempo, Cora, já estamos com mais de vinte anos. - ressaltei com ênfase. E ela acenou com a cabeça suspirando. - Mas você ainda é a mais bonita.
— E você ainda é uma encrenqueira. - rebateu minha irmã rindo. Continuamos a conversar aleatoriamente até a hora da despedida. - Boa sorte. - ela desejou antes de sair do quarto, me beijando na testa como mamãe teria feito.
Durante aquele período, estava pensando muito nela, na verdade, em mamãe. Como ela teria reagido e se teria me dado razão… afinal, até mesmo vovô Archie ficou surpreso com minha atitude. "Mas se até mesmo a sua mãe conseguiu respeitar tradições"... as palavras ficaram ecoando pela minha cabeça até o momento do parto. Foi como se milhões de ossos estivessem se partindo e não houvesse nada a ser feito. Eu gritei e chamei o medibruxo de todos os nomes feios possíveis, enquanto afundava minha mão contra as de Linda. Por fim, um choro alto preencheu o quarto e eu descansei… era uma menina…
Era tão branquinha como qualquer Delacour deveria ser e fios ralentados de cabelos ruivos na cabeça, eu sorri ao perceber que seria parecida com Alvo. Contudo, quando finalmente abriu os olhos me surpreendi porque eram iguais aos meus. Tia Sarah, aquela altura, já havia encontrado uma família trouxa para cuidar da minha garotinha… Um casal consciente da existência de bruxos, os Hughes, ao que parecia. Para minha tristeza, ela não demorou muito a desmamar e então foi marcada a data da entrega.
Apenas o homem compareceu, o que eu achei melhor. Ele estava parado do lado de fora da casa a alguns metros do carro, ao lado de tia Sarah, e me esperavam silenciosamente. Eu desci as escadas da soleira com Linda ao meu lado e a menina em meus braços. Não tinha dormido na noite anterior e estava consciente de que minha aparência não era das melhores, mas o homem - que aparentava estar em seus vinte e poucos anos - não pareceu se incomodar e se curvou um pouco para mim.
— Senhorita Preminger, eu sou Charles Hughes. - apresentou-se ele polidamente. Acenei formalmente com a cabeça e mire Linda significativamente. Minha amiga puxou um envelope de dentro de um dos bolsos da capa e entregou-o ao rapaz. - O que é isso?
— Escrevi uma carta para ser entregue a ela quando completar dezessete anos. - respondi contendo as lágrimas. - É uma tradição em nossa família e, embora eu não vá ficar com ela, gostaria de lhe desejar boa sorte quando o momento chegar. Mas, é claro, a decisão de entregar ou não cabe a você e a sua esposa, senhor Hughes… - expliquei forçando um sorriso de lado. Ele acenou positivamente com a cabeça.
— Bem, vamos evitar uma cena. - disse tia Sarah, tentando não soar tão dura, sem sucesso. - O senhor Jones vai estar à disposição, caso o senhor e a senhora Hughes precisem de alguma ajuda com a menina… principalmente quando os poderes começarem a se revelar. Os Preminger sempre foram muito difíceis de controlar nessa idade e considerando que o pai também é considerado um bruxo capaz…
— Asseguro-lhes que cuidaremos muito bem dela. - respondeu o senhor Hughes. - Ella e eu sempre quisemos uma filha… agradecemos a oportunidade, ela será muito amada e ainda mais por ser tão especial. - acrescentou ele olhando especialmente para mim. Eu consegui sorrir e acenei.
— É um conforto saber, senhor Hughes. - falei.
— Muito bem, então, Amélia se você puder… - começou tia Sarah indicando a criança e o senhor Hughes com o indicador.
Todas as sensações daquele dia ficaram gravadas em mim. O cheiro doce do meu bebê, o toque macio dos dedinhos dela contra os meus e o sentimento de vazio que se apoderou de mim quando ela não mais se encaixava em meus braços. Enquanto olhava o senhor Hughes pelas costas, afastando-se, não consegui pensar em mais nada além do fato de que jamais saberia quais eram suas matérias favoritas em Hogwarts, se seria fã de Quadribol, se teria problemas com garotos e quem seria o amor de sua vida. Qual torta doce iria preferir em seu aniversário e se teria a minha risada ou a de Alvo. Contudo, em meio a todo aquele turbilhão de emoções, um único pensamento certo passou pela minha cabeça. O único direito que, aquela altura, eu achava que ainda merecia ter.
— Senhor Hughes! - chamei antes que ele entrasse no carro. - O nome dela é Nicole. - Hughes sorriu para mim e entregou a menina para um homem que o acompanhava no banco de trás do carro. Não sabia se ele iria acatar com a minha decisão, mas eu precisava dizer qual era a minha escolha. A forma do nome da minha mãe num francês mais arcaico.
Por fim o motor do carro ligou e ele começou a se mover, eu fiquei lá parada observando enquanto ele se afastava, me sentindo mais impotente do que jamais sentira. Em seguida, senti os braços de Linda me abraçando pela cintura e ouvi a voz dela me dizendo para sair dali. Contudo, eu apenas me apoiei nela e afastei seus braços um pouco para baixo e ergui a cabeça, querendo ver mais. E então… eu ouvi o choro de criança ao longe. Comecei a me posicionar para correr ao seu encontro, se possível para o carro, mas Linda me segurava com força, me impedindo e eu comecei a gemer de dor enquanto deixava as lágrimas correrem. Abraçada completamente a ela, eu vislumbrei os últimos relances do automóvel desaparecendo pela estrada…
Dizer que o tempo conseguiu curar essa ferida como fez com as outras, seria mentira. Afinal, ao contrário de uma joia de família ou um grande amor, um filho não é algo que se substitui tão facilmente...
Oláaaaa, amadoooos! Espero que estejam gostando até aqui... e que estejam melhores do que eu... o Direito está me consumindo. Agora vou começar a ter provas e provas, não sei quando poderei postar de novo, então, tentei fazer com que esse tivesse um ápice dramático com selinho de garantia de lágrimas e corações apertados. Ao menos eu chorei escrevendo e comparando com a trilha sonora... Espero que gostem, reviews são bem vindaaas! Bjooos!
