Capítulo 40
Passamos apenas mais algumas horas na casa em Dover, antes de aparatarmos de volta para Londres e direto para a mansão Black. O hall da casa estava vazio quando eu entrei e nenhum dos criados pareceu notar que a sua senhora havia chegado. Exceto Meg… ela me esperava ao pé da escada com um sorriso solidário do qual nunca me esqueci. Levou-me até o andar de cima e conseguiu com que eu me trocasse para um vestido mais confortável e que comesse alguma coisa. O sol estava se pondo quando Sirius entrou.
Posso entrar? - perguntou ele batendo duas vezes na porta.
Isso nunca o impediu de entrar antes. - respondi com veneno. - O que você quer, Sirius?
Dar um aviso. - ele disse simplesmente. - Agora que voltou, espero que as coisas atinjam certa normalidade. Sua tia mandou um elfo, vai dar uma festa na mansão Preminger para celebrar o noivado de sua irmã. Achei que seria melhor nós irmos para... dar uma prova de união.
Eu simplesmente acenei positivamente, cansada demais para pensar em qualquer resposta. Sirius começou a fazer o caminho para a saída, quando uma pergunta me ocorreu.
Quem vai estar lá? - indaguei com ele já a porta.
Todo mundo. - respondeu ele me olhando significativamente. Tornei a acenar e ele fechou a porta.
"Todo mundo". Toda a alta sociedade bruxa e os meus amigos, disso eu tinha certeza. Cornélia não teria porque convidar Elifas ou Linda, nem mesmo Alvo e os Flamel, mas tia Sarah com certeza sugerira numa espécie de teste. Durante toda uma noite eu seria forçada a agir como se a presença de Alvo não significasse grande coisa para mim.
Diferente da minha, a festa de noivado da minha irmã foi uma ocasião feliz. Os Potter e os Preminger sempre se deram bem, qualquer reunião entre as duas famílias era sinônimo de extravagância e grandiosidade. E, como nos dávamos bem com os Weasley, também podia ser entendido como risadas alteradas até a madrugada. Era como se tivesse voltado para Paris, nada daquelas caras tristes e carrancudas que observava nas festas dirigidas pelos Black, por mais que tivesse defeitos, verdade seja dita: tia Sarah sabia organizar uma festa.
Contudo, ainda assim tínhamos que dividir o espaço com os outros sangues puros. A divisão do salão não era tão notável quanto poderia, mas a nuvem de tensão pairava no ar sempre que um Malfoy cumprimentava um Weasley. Depois de cumprimentar metade do salão e dedicar um bom tempo para a minha irmã, me juntei ao grupo da minha família, o mais longe possível dos Black.
E pensávamos que Charles nunca fosse se casar. - comentou Dorella Potter, risonha. - Preocupante, afinal, quando se chega numa certa idade...
O que está dizendo, Dora? - exasperou-se meu avô. - Charlie ainda não tem a minha idade.
Tem sorte por ainda estar vivo. - brinquei apoiando o braço no ombro dele. - Dorella só está abismada por ele ter se esguiado das convenções por tanto tempo. Quase trinta anos se esquivando. - comentei olhando para o belo homem que acompanhava minha irmã.
Ele foi esperto. - concordou vovô Archie. - Conseguiu a nossa Cora. Uma esposa mais jovem e bonita do que ele poderia sonhar.
Um grande safado, isso sim. - provocou Kirk Weasley, um jovem amigo de Colin que odiava seu nome. - Mas, nós bruxos sempre fomos muito ousados, não é Archie?
Vovô?! - exclamei fingindo estar exasperada. - Algo que eu deveria saber e que a vovó Moira não sabia?
Andou escutando as histórias do velho Shrimpie outra vez, Kirk? O seu avô... aquele maluco... - retrucou meu avô.
Maluco? Eu o considero um visionário! - defendeu-se Kirk entrando na roda.
Claro, dançar somente com as roupas de baixo numa festa torna mesmo uma pessoa memorável. - provoquei bebericando a taça de vinho. - Acho que foi a única coisa que não fiz até hoje para tentar causar boa impressão. - acrescentei fazendo todos no círculo caírem na gargalhada, minha reputação na família me precedia, é claro.
Amélia. - quando ouvi aquela voz, pensei "já estava demorando."
Tia Sarah. - cumprimentei ao me virar para olhá-la nos olhos. Ela fez uma mesura com a cabeça e me pediu para chegar mais perto.
Veja quem está aqui. - disse olhando para Linda, Elifas e Alvo cumprimentando Cora. - Já sabe o que fazer.
Respirei fundo e comecei a caminhar na direção do meu grupo de amigos, calmamente. Sirius, no entanto, me parou no meio do caminho para tomar o meu braço no dele. Ao que parecia, a prova de união seria fazermos aquilo juntos... confesso que senti-lo tão perto fez com que meu estômago revirasse. Mantive a calma até chegar até Linda, minha amiga mirava Sirius com nojo controlado.
Olá, pessoal. - disse conseguindo me soltar para abraçá-los, voltando para as garras de Sirius em seguida. - Todos bem?
Sim. - Linda respondeu sem conseguir tirar os olhos de Sirius. - Você está melhor? - indagou ao conseguir olhar para mim.
Sim, estou, obrigada. - menti.
Gentileza de Cornélia nos convidar. - pronunciou-se Alvo. - Afinal, não podemos dizer que a conhecemos bem...
Tá brincando? Ela adora vocês! - garanti sabendo que era verdade.
Além disso, minha cunhada sabe o quanto os amigos são importantes para a nossa Amélia. Elas fazem qualquer coisa uma pela outra. - comentou Sirius. - Bem, aproveitem a festa.
Senhor Black. - chamou Alvo dando um passo a frente. - Posso falar com Amélia, a sós? - pediu polidamente.
Estaremos no jardim. - disse polidamente.
Muito bem, podem ir, mas traga-a de volta, Dumbledore. - advertiu Sirius e Alvo sorriu enquanto me oferecia seu braço. Caminhamos direto para o jardim sem falar, até alcançarmos a primeira fonte.
Obrigada por me tirar de lá. - agradeci sorrindo delicadamente.
Não por isso. - disse Alvo também gentil. - Espero que sua irmã seja realmente feliz.
Ela vai ser. - assegurei. - Casar com um Potter não é o pior que pode acontecer a alguém, mesmo que ele seja mais velho do que você.
Ela não parece se importar, de fato. - observou meu amigo e eu ri um pouco. - Por que ficou afastada por tanto tempo? - perguntou ele por fim.
Direto, hein? - brinquei ficando tensa.
Por favor, Mélia. - ele estava quase implorando, provavelmente imaginando o pior... e de fato, nada poderia ser pior do que a verdade naquele caso. Eu me afastei alguns metros dele antes de responder... graças a Merlin ele não tentou se aproximar.
Eu estava em Dover porque... porque estava grávida. - disse com a voz falhando. - Fiquei só o tempo suficiente para a criança nascer e entregá-la para uma família trouxa que tia Sarah arranjou para criá-la. Apenas o homem se apresentou a mim... um bom homem, Alvo, eu asseguro a você. - acrescentei a última parte rapidamente, as mãos dele tremiam e estava andando de um lado para o outro sem encontrar o que dizer. Contudo, eu sabia que estava furioso. Sua aura de poder começava a envolvê-lo da forma mais ameaçadora.
E você estava pensando em me contar? O pai dessa criança? - tornou a indagar reprimindo o ímpeto de gritar.
Tia Sarah e eu concordamos que seria melhor você...
Ah, agora você e a sua tia tem as mesmas opiniões? Que maravilha! - exclamou ele chutando uma pedra contra um arbusto.
Alvo, se acalme... - pedi olhando para a casa de soslaio, com medo de alguém ouvi-lo.
Não me diga para ficar calmo, Amélia Preminger! - ele finalmente explodira. - Você dá a luz a uma criança minha, a entrega a uma família estranha e não planeja me contar nada porque você e a sua maldita tia acharam certo, e espera que eu não me importe? Que eu não fique furioso? Pensei que me conhecesse!
Era exatamente esse tipo de reação que queríamos evitar. - disse tentando manter a calma. - Eu sabia que você soubesse, viria correndo para a mansão e possivelmente mataria Sirius...
Não sei por que já não estou lá dentro desafiando-o. - cuspiu ele empertigado. - Como se aquele idiota fosse bom o bastante para me enfrentar... E você, senhorita Preminger, depois de tudo o que passamos, mentiu para mim!
Alvo...
Eu nunca menti para você! Ocultei coisas de Elifas que jamais fui capaz de omitir de você. Meu passado todo é um livro aberto para você como nunca será para mais ninguém do mundo mágico. E como retribui? Esconde de mim que tivemos um filho...
Filha. - cortei-o, fria. - E não ouse achar que foi fácil para mim entregá-la. Fala como se somente você sentisse a perda dela. Eu a segurei, Alvo, e nunca nada se encaixou tão bem nos meus braços... Acha que eu estava feliz por entregá-la a um estranho? Cuja única referência que tenho de que irá cuidar bem dela é a sua palavra? Quando contei a Sirius sobre ela, ele tentou me matar... se eu não tivesse entregado Nicole para os Hughes ela não estaria viva... Eu não tive escolha!
Essa é a sua desculpa para tudo? "Não teve escolha"? É claro que teve uma escolha. Poderia ter saído dessa casa sem contar nada ao Black e procurado abrigo na casa de Nicolau e Perenelle, depois me avisado e então poderíamos ter pensado em como conseguir o divórcio de vocês. - bradava ele como se fosse simples. - Teve a chance de escolher entre o que era certo e o que era mais fácil, e acabou por se decidir pelo mais fácil. Por quê? Porque ao contrário do que pensa e diz, você não odeia ser uma sangue puro. Se fosse assim, já teria desistido do seu nome há muito tempo.
Você perdeu completamente o juízo! - exclamei, agora também furiosa. - Eu não vou ficar aqui para ouvir isso!
Uma vez você me disse verdades dolorosas pelo papel, agora permita-me retribuir o favor dizendo-as na sua cara! - insistiu ele me segurando pela mão com força, fazendo com que ficássemos de frente um para o outro. - Olhe nos meus olhos e diga que estou mentindo. Que por mais que você não sinta preconceito pelos trouxas, jamais abriria mão dos benefícios que ser a mais velha da família Preminger lhe traz. Você gosta do poder.
Só que ninguém da minha família morreu por causa disso. - eu disse sem pensar, de um modo completamente gelado. Alvo me soltou no mesmo instante, ajeitando-se para me olhar de cima para baixo - era muito mais alto do que eu - e eu as vi... prateadas lágrimas se formando em seus olhos... e me arrependi instantaneamente.
Ambos tínhamos a fraqueza pelo poder, isso era verdade. Nenhum de nós estava mentindo, isso era verdade. E eu nunca perdi ninguém pela minha ambição... isso era uma horrível verdade. Algo terrível para trazer a tona no meio de uma discussão como aquela, porque por mais que ele tivesse sido ambicioso no passado, nunca quis que nenhuma daquelas mortes acontecesse. Ele os amava tanto qualquer um jamais amou a sua família. E quando eu percebi quantos fantasmas aquela simples frase revivera, já era tarde demais. Alvo já caminhava em direção à mansão.
Idiota. - soprei batendo os punhos contra o banco de pedra ao me sentar, deixando as lágrimas caírem.
Quando voltei para o salão, Alvo não estava mais lá. Nem Linda e Elifas... mais tarde descobri que tinham seguido-o com medo de que fizesse alguma besteira devido à raiva. Nada mais me restou a não ser voltar para perto do círculo da minha família. Aquela altura, Cora e Charles também haviam se juntado a ele, Kirk e Colin faziam piadas sobre a noite de núpcias, as quais meu cunhado respondia de forma muito inteligente e rápida, deixando minha irmãzinha corada e ao mesmo tempo encantada, pelo que percebi.
Vocês são mesmo terríveis, não conseguem deixar nem mesmo um pobre casal em paz. - provoquei piscando para minha irmã.
Finalmente alguém que está do nosso lado. - observou Charles.
Estou do lado da minha irmã, senhor Potter. - retruquei tentando forçar um sorriso. - O senhor ainda terá que conquistar minha lealdade, fazendo-a muito feliz.
Será fácil, então. - assegurou ele olhando para minha irmã do mesmo modo que Alvo costumava olhar para mim quando estávamos a sós.
Colin, posso falar com você? A sós? - perguntei de pronto.
Claro, claro, com licença, senhores. - disse meu primo saindo atrás de mim. - Algum problema?
Quantas vezes a palavra divórcio foi mencionada no seu departamento? - perguntei de pronto.
Não muitas, na verdade, é quase uma palavra proibida. - ele respondeu com desconfiança. - O que está armando, Amélia?
Exatamente o que você está pensando. - disse segura. - Eu não estou feliz, Colin. E nunca vou sorrir da mesma maneira que Cora está sorrindo agora se eu continuar atrelada a família Black. Já estou cansada de fingir que estou envergonhada de ser quem eu sou. Eu sei quem eu sou e isso independe do meu sangue ou do meu nome. Então, eu vou me livrar de quem pensa assim... Eu vou pedir o divórcio e quero que você me represente.
Não posso, Amélia. Somos primos, isso seria mal visto... minhas palavras não seriam ouvidas na Suprema corte...
Então, arrume alguém, Colin. - disse a última pessoa que eu esperava. - E eu pagarei pelos serviços dela. - tia Sarah apareceu atrás de mim, com uma taça de vinho.
Mamãe... a senhora? - indagou meu primo surpreso.
A senhora já me ajudou o bastante tia Sarah. - cortei com os punhos cerrados. - Mas, isso eu quero resolver sozinha.
Amélia...
Sozinha, tia Sarah. Eu já lhe devo uma, por favor, não me faça passar por isso outra vez. Eu não suportaria. - conclui tornando a olhar somente para Colin. - Eu tenho meios para pagar por um advogado, quando consegui-lo, fale comigo.
Pode deixar. - respondeu meu primo um pouco tenso.
Eu apenas acenei, voltando para o meu círculo. Mais tarde, Sirius se aproximou, era hora de irmos.
Não, sinto muito, vou ficar. - disse sorrindo. - Amanhã ou no mais tardar possível você saberá por quê. No momento, só posso prevenir que meu maior sonho desde que me casei com você está para se realizar.
Ele entortou um pouco a boca, mas não fez cena.
Entendo... Então, que a batalha comece? - desdenhou ele com as sobrancelhas arqueadas, tentando parecer ameaçador.
Que a batalha comece. - concordei com uma mesura de cabeça, indicando a saída com o braço, sorrindo com desdém.
Bem, aqui estamos. O ponto que todos esperávamos, Amélia vai se divorciar de Sirius - ou menos almeja conseguir... já os previno que não será fácil... as leis do divórcio eram precárias na Inglaterra daquela época, o que só deixará tudo isso mais emocionante - eu acho -. Enfim, espero que gostem e que não desistam de mim! Obrigada a todos que têm me acompanhado até agora, espero não desapontar. Reviews sempre bem vindas! Uma excelente páscoa para vocês, embora eu ache que consiga postar outro até lá! Bjoooos!
