Capítulo 41
Hermione havia voltado para Hogwarts depois dos feriados de natal e ano novo, e recebia as notícias sobre o progresso com Amélia diariamente através de cartas enviadas por Ron. Ele começava a se sentir sozinho sem a presença da namorada, visto que precisava engolir Gina e Harry pelos cantos sem poder fazer nada a respeito. O trio estava intercalando o tempo entre viverem suas vidas e lerem o diário da senhorita Preminger. Naquele sábado à tarde, por exemplo, avançariam em mais capítulos.
─ O que vocês acham que aconteceu com ela? - perguntou Rony enquanto desciam as escadas para a sala, onde continuariam a leitura da noite passada.
─ É o que pretendemos descobrir quando terminarmos, não? - desdenhou Gina, revirando os olhos.
─ Não me refiro a Amélia, "tô" falando da filha dela, Nicole. - especificou o ruivo, irritado.
─ Acho que nunca soube que era filha de Dumbledore... Então, deve ter tido uma vida normal. - respondeu Harry dando de ombros.
─ Ou, se descobriu, herdou o dom para a mentira do pai e nunca abriu o bico. - comentou Gina, maliciosamente.
Harry riu um pouco e se acomodou na poltrona que, em condições normais, pertencia ao senhor Weasley. Rony apressou-se na cozinha para providenciar o café com Molly e correu para a sala com uma bandeja cheia de comida. O correio chegou em poucos minutos trazendo notícias de Hermione. Ela comentava as últimas descobertas deles, e parecia estar bastante interessada em descobrir Nicole Hughes. Contudo, não achou muita coisa nos arquivos de Hogwarts.
─ Estranho. - comentou Rony. - Tinha aquele monte de jornais sobre a mãe do Snape, mas não sobre ela? A garota tinha os genes necessários para ser uma celebridade.
─ Não devemos esquecer que Dumbledore foi professor dela... deve ter dado um jeito de encobrir pistas de uma garota que deveria ter tanto talento quanto ele e que, possivelmente, chamava a atenção por isso. - lembrou Gina, pensativa.
─ Vamos continuar, talvez Amélia fale alguma coisa sobre isso. - disse Harry abrindo o diário. - Aqui ela começa a falar sobre o divórcio, vejam...
Em 1914, uma guerra viria para assustar tanto o mundo bruxo quanto o mundo trouxa. Enquanto isso, eu travava a minha própria guerra com o sistema judiciário do mundo mágico. Na Inglaterra de 1904, em ambos os lados, um pedido de divórcio seria quase impossível de ser aceito e julgado, porém, por sorte, eu tinha as armas certas. Nome e contatos. O caso foi abafado do Profeta Diário mediante grave pagamento por parte da família do meu marido e cobranças de favores da minha.
No fim, parecia que aquele divórcio que levou quase seis anos para ser concedido não passara de uma mera mancha na história da bruxandade. O começo, confesso, foi a pior parte. Encontrar um apartamento em Londres que me servisse, suportar os cochichos sempre que passava pelas ruas da cidade, calar repórteres insistentes. Até que consegui me acostumar a tudo aquilo como uma espécie de celebridade já muito antiga.
Todos os bruxos com quem convivo parecem se gabar de como somos superiores aos trouxas, ainda assim, em matéria de leis, somos tão ultrapassados quanto eles. - desabafei um dia com Perenelle, enquanto ajudava-a no jardim do chalé.
Devo entender que o pedido de divórcio não foi bem aceito pela suprema corte? - indagou minha amiga, com um sorriso de lado solidário.
Não se preocupe, Donovan e eu estamos trabalhando nisso. Posso não considerá-lo brilhante, mas se Colin confia nele, eu também confio. - disse tentando tranquilizar tanto a ela quanto a mim.
As leis quanto ao desquite eram muito claras quanto a qual dos sexos era superior. Ao homem cabia apenas provar o adultério da mulher. A ela cabia provar os maus tratos do marido, sua infrequência em seus deveres matrimoniais, entre tantas outras condições. Tudo aquilo me dava dor de cabeça. Afinal, era a minha palavra contra a de Sirius no que concerniam os maus tratos. E eu tinha certeza de que ele compraria metade dos juízes.
Nicolau falou com Alvo... - começou minha amiga, calmamente.
Ah, nem me fale nele! Ainda deve estar furioso comigo e com razão! Como pude me deixar ser manipulada durante todo esse tempo? E tão facilmente! - bradei cerrando os punhos, apertando os passos.
Bem, tenho certeza de que irá se redimir alterando as leis precárias do nosso sistema legislativo. - brincou Perenelle me fazendo rir. - Quando foi a última vez que se falaram?
Você quer a resposta do particular ou do público? - retruquei com uma pitada de desdém.
Tão discrepantes assim? - ela parecia realmente surpresa.
Comparecemos em todos os jantares da Linda. Até ao noivado do irmão dela, Arthur, um ex-namorado, nós fomos. Contudo, posso dizer que nossas conversas em particular foram reduzidas a estados de saúde que pouco importam e comentários maldosos sobre pessoas de quem não gostamos. Sempre que um de nós menciona... os velhos tempos, por assim dizer... parece que um silêncio estranho se instaura. - respondi sinceramente.
Ah, que ótimo! Pensei que não estivessem se falando de jeito nenhum. - disse Perenelle com a mão no peito. - Bem, talvez tudo melhore depois que nada estiver no seu caminho.
Algo sempre vai estar no meu caminho, Perenelle. - retruquei sem conter um riso abafado frente ao meu azar insuperável.
Por exemplo?
Bem, para começar, ele é Alvo Dumbledore, a mente mais brilhante do mundo bruxo. E mentes assim sempre têm seus inimigos. Ele se recusaria a tornar qualquer fato público por um ato nobre idiota. Como se eu não soubesse me defender sozinha... - resmunguei.
Nem todos os bruxos maus do mundo mágico são tão idiotas quanto o seu marido, querida. Alguns realmente são capazes de coisas grandiosas. E Alvo está certo em temer a sua segurança frente à eles. - eu ignorei a última parte e me ative a gargalhar ao ouvir Perenelle Flamel chamando Sirius de idiota. Um fato que começava a se tornar universal entre meus amigos, mas que nunca perdia a graça.
Enfim, amanhã teremos outro grande jantar na casa da senhora Dodge! - o aniversário de Linda, e por Merlin, como eu estava ansiosa para entregar o presente a ela. - Você e Nicolau irão, eu espero...
Não perderíamos por nada. - assegurou Perenelle tomando meu braço junto ao dela.
Quando cheguei na casa dos Doge naquele Sábado à noite, foi como se todo o peso colocado sobre meus ombros naqueles últimos dias desaparecesse. Aqueles dois realmente sabiam como dar uma festa. Ao fundo, o piano tocava eloquentemente uma melodia que, até então, era desconhecida por mim. Claude Debussy foi um grande compositor de raízes parisienses, com um passado amoroso questionável - como todo francês deveria ter - e um charme irresistível.
Linda o adorava. Sua maior fã no mundo mágico, e por mais que os convidados pedissem por alguma coisa mais dançante, ficamos ouvindo a L'isle joyeuse - composta ainda naquele ano - até que a aniversariante se cansasse e pedisse ao pianista que parasse.
O amor dela só se compara ao de Cora. - comentei ao me aproximar de Elifas e Alvo, que conversavam animadamente sobre qualquer coisa.
O que ela me pedir, querida Mélia, eu darei... não consigo lhe negar nada quando ela está feliz desse jeito. - respondeu meu amigo com um olhar apaixonado em direção a sua esposa.
Nem mesmo quando ela está zangada você consegue. - provocou Alvo me fazendo rir, o que deixou nosso amigo um pouco constrangido. Um segundo depois, o senhor gênio e eu trocamos um olhar, o que fez a risada parar e um silêncio desconfortável surgir...
Mais tarde, depois do jantar, entreguei o presente a Linda. Um relicário de ouro, oval e com uma lembrança minha a respeito dela. Estávamos sentadas na torre de astronomia, como fazíamos quando queríamos conversar a sós, e ríamos para o céu. Minha amiga chorou ao recebê-lo e o colocou na mesma hora. Nem mesmo o presente de Elifas, uma joia muito mais valiosa do que aquela, a fez sorrir tanto...
Depois, todos os convidados começaram a dançar e o pai de Linda me tirou para um rag... aquela música pavorosa... Enquanto dançava, pude ver Alvo sozinho na sala de jogos, com um copo de hidromel na mão. Assim que a música terminou e eu aplaudi devidamente a banda, me dirigi até a sala tentando parecer menos preocupada possível. Ele não se virou ao ouvir meus passos.
Ainda está bravo comigo? - perguntei me aproximando da mesa de bilhar.
Um pouco, mas não o suficiente para te mandar sair. - foi a resposta dele, e por mais que as palavras tenham sido duras, elas saíram macias e sem nenhum pingo de frieza. - O que achou do senhor Debussy? Lembrou-a dos seus dias em Paris? - perguntou ele tratando logo de mudar de assunto.
Mais das minhas noites do que dos meus dias. - comentei com um sorriso malicioso inconsciente. Rudy, Marius, Cecile, George... me perguntava o que eles estariam fazendo. Provavelmente jogando cartas no Moulin Rouge, enquanto se afundavam em Abysinto. Meu olhar recaiu sobre Alvo, que sorria marotamente frente ao meu possível olhar sonhador pelas lembranças.
Eu realmente gostaria de ter estado lá para vê-la dançando cancan. - ele disse por fim.
Quem disse que eu dancei cancan?! - exclamei rindo. - Mas eu queria que você tivesse me visto comprando briga com duas prostitutas que ficavam dando em cima do Marius. Tudo brincadeira, claro, mas elas levavam a sério.
Não sei por que, mas acho que deveria sentir muito ciúme desse tal Marius. Ele a beijou e fez com que brigasse com duas prostitutas. - ponderou Alvo, pensativo.
Você me fez passar por situações muito piores. - lembrei-o me aproximando com um olhar lascivo. - Ou não está lembrado?
De cada detalhe. - concordou ele sorrindo de lado. - Principalmente de que eu não devo ser considerado totalmente culpado.
Eu ri e subi um pouco na ponta dos pés para beijá-lo no rosto, mas acabei atingindo metade dos lábios dele devido a diferença de altura. Foi a vez dele rir e se abaixar um pouco para alcançar minha boca, num beijo lento e apaixonado de perdão.
Eles vão ver. - eu disse me soltando rapidamente, checando meu batom no reflexo da taça dele. - Ótimo, e agora eu estou corada.
Depois de todo esse tempo e ainda não...
Cale-se, Dumbledore! - ralhei, reprimindo uma risada nervosa. - Vamos voltar ao salão antes que deem pela nossa falta.
Na verdade, as atenções dos convidados estavam voltadas para as mais variadas conversas e a nossa entrada não chamou tanto a atenção. Elifas e Linda dançavam ao centro do salão e pareciam imensamente felizes. E por que não? Com a sorte a seu favor, tinham tudo o que queriam. Lembro-me de olhar para eles e por um momento desejar que a minha vida fosse a mesma.
Uma história de amor bastante simples e que não encontrou muitos empecilhos durante o trajeto. Entretanto, histórias de amor simples não significam que o sentimento passado por elas seja, em nenhuma circunstância, menos poderoso. A menina bonita que se apaixonou pelo garoto estranho da escola... um grande clichê, na verdade... mas acredito que nunca houve um que houvesse feito duas pessoas mais felizes. Uma pena que...
Amélia? – a voz de Nicolau me chamou de meus devaneios. – Podemos? – perguntou ele me oferecendo o braço.
Perenelle não vai ficar com ciúme? – brinquei, aceitando o convite.
Confiamos em você. – respondeu ele, feliz.
Festas na casa dos Doge significava dançar até que os outros convidados fossem embora e não restasse mais ninguém que não os integrantes do quarteto fantástico para jogar uma partida saudável de bilhar. Linda e eu éramos imbatíveis nos jogos trouxas, ao passo que Alvo e Elifas demoravam mais para entender as regras, o que nos concedia certa vantagem.
Por um momento, me peguei pensando no fato de que durante muito daquele tempo que se passou desde a entrega de Nicole, Alvo e eu tínhamos mais tempo para sermos melhores amigos do que amantes. A culpa seria do divórcio? Parando para pensar agora, não acredito que o processo não tenha me ocupado tanto quanto ocupou o advogado. Exceto na obtenção de provas, é claro.
Em todo caso, aquele hiato seria interrompido em quatro anos. E para um dos mais impactantes motivos.
─ Paramos agora e escrevemos para Mione? – interrompeu Rony.
─ Não... algo me diz que o tem depois dessas páginas será mais do interesse dela. – respondeu Gina, tomando o diário das mãos de Harry com um sorriso bastante malicioso.
Não irei me prolongar aqui, porque, como a Gina disse, TEMOS QUE CONTINUAR!
