Capítulo 42

O décimo tribunal é um daqueles lugares onde, uma vez que você entra, é impossível esquecer a sensação de se estar lá dentro. Como eu disse, o mundo trouxa enfrentaria sua guerra em poucos anos, e deixaria seu número de mortos para a prosperidade, a minha seria travada entre aquelas paredes azul marinho. Era uma Terça-feira qualquer quando eu passei por aquelas portas pela primeira vez... usando o mesmo modelo de terninho preto que usaria em todos os funerais da minha vida. Com uma saia longa, sapatos fechados e tailleur.

Embora já tivesse passado por vários altos e baixos ao longo dos anos, e que nada me marcara tanto quanto a perda da minha filha e o desdém de Alvo no funeral de Ariana, ainda assim acredito que ao meu processo de divórcio possa ter sido creditado alguns dos fios brancos prematuros que surgiram meio aos meus cabelos aos quarenta e dois anos. O juiz que precedia era Oliver Bones. Proveniente de uma longa linhagem de lufanos me senti aliviada por poder contar com, pelo menos, uma cabeça justa ao lado de cem manipuláveis.

Para as provas iniciais, ao contrário do que sugeriu Colin, eu acabei utilizando as minhas memórias com as cenas de estupro da parte de Sirius. Na Inglaterra, uma mulher só conseguiria se divorciar do marido caso provasse ausência de deveres, abuso físico e adultério. Por mais que eu soubesse das escapadas de Black, não seria possível encontrar as sangues puros utilizadas para tais atos... algo que pode ser dito de Sirius é que aprendeu a minha discrição. Ele nunca escapou de seus deveres porque precisava manter a imagem perante seus outros parentes.

Contudo, quanto ao abuso físico eu ainda poderia oferecer um showzinho aos magistrados. As lembranças foram despejadas no centro da sala em uma penseira de pedra, e fez-se silêncio na sala assim que eu gritei antes de Sirius lançar a maldição imperius. Depois da noite de núpcias, aquela havia sido a segunda vez em que me estuprara... e não foi menos traumática do que a primeira. Daquela vez, eu me contrai mais e demorei a deixar com que a maldição surtisse total efeito sobre os meus sentidos.

Quando já estava sendo mostrada a quinta vez, Oliver exigiu que a penseira fosse esvaziada. Eu engoli a sensação de orgulho ferido por ter tido cinquenta homens me analisando em situações tão... íntimas? Segui em frente, sabendo que pelo menos a opinião de um já havia sido formada. O advogado de Sirius contra-argumentou alegando que eu havia adulterado aquelas memórias, acrescentando o momento da Maldição Imperius, pois, na verdade, meu marido nunca me maltratara, pelo contrário, me amava demais ao ponto de aceitar uma maluquice como aquele julgamento apenas para me satisfazer. Donovan apertou minha mão ao sentir que eu estava prestes a erguê-la. Nada que eu dissesse num tribunal cheio de homens adiantaria... um homem não é uma mulher quando o assunto são outras mulheres.

Senhora Black, frente essas alegações de seu marido, tem certeza de que não quer cancelar isso tudo? – perguntou Oliver pacientemente.

Não, excelência. – insisti trincando os dentes. – Ao contrário do que o senhor e todos os outros excelentíssimos bruxos da suprema corte acreditam, Sirius Black não é um marido dedicado, muito menos um homem que seria capaz de me dar prazer a não ser que fosse forçado, como os senhores viram. Eu não precisei manipular nada. Os senhores me conhecem, sabem de onde eu venho... Eu ou qualquer outra pessoa da minha família nunca precisou mentir ou manipular situação alguma para conseguir o que queria. Minha tutora pode não ter sido um exemplo de carinho, estimados senhores, mas ela não criou uma mentirosa. – disse num fôlego só. Bones pareceu relevar o meu comentário, afinal, a neta dele havia sido minha colega em Hogwarts. Todos da escola sabiam que, embora competitiva, eu jamais mentiria sobre algo tão importante.

Então, suponho que tenha outros fatos para apresentar a corte. – comentou um dos bruxos mais velhos ao lado de Oliver. James Carfice

A minha vontade, expressa e consciente, não é o bastante? – perguntei com impaciência.

Senhora Black, isso vai além de nós. Se mudássemos as leis toda vez que um casal apresentasse divergências de opinião...

Divergências?! – exclamei me colocando de pé. – É mais do que uma reles discussão sobre o nome de um filho ou se Poções é melhor do que Transfiguração, excelência. Eu fui abusada fisicamente, estuprada, mais de uma vez! E os senhores viram! Não foi uma alteração desesperada de uma devassa que quer se ver livre do marido, mas, um fato que destruiu um ser humano por dentro, simplesmente porque tudo no mundo mágico parece estar além dos poderes de qualquer pessoa.

Senhora Black...

O senhor, assim como a família do senhor Black, demonstram orgulho ao afirmarem que são melhores do que os trouxas quando, na verdade, são mais atrasados do que eles. Uma pessoa tem o direito de ser infeliz em seu casamento e querer acabar com tudo, ao invés de agir como se "nada tivesse acontecido" o tempo inteiro e seguir com uma mentira, até que se esgotem todas as suas forças físicas e mentais. Eu insisto, estimados bruxos da suprema corte, não vou sair desta sala até que eu não tenha mais nenhuma relação de dever para com a família Black e volte a ser apenas Amélia Delacour Preminger! – exclamei, sentando-me abruptamente no final.

Silêncio e sussurros por parte dos bruxos sentados ao fundo. Donovan mirava cada um com calma, provavelmente esperando pelo pior. Não era comum um bruxo enfrentar a suprema corte daquela maneira, muito menos uma bruxa.

Senhores, se precisam de mais alguma prova, - começou meu advogado brandamente. – Acredito que eu e a minha cliente possamos dá-la aos senhores. – disse acenando para mim com a cabeça.

E então mostramos o meu delírio enquanto recebia a maldição cruciatus de Sirius. Ninguém acreditaria que eu pudesse ter manipulado tão bem as minhas memórias para apresentar uma expressão como aquela em meu rosto, mesmo que fosse uma grande bruxa. Oliver, então, mirou Black com desdém. Estava acabado.

Quem é a favor dessa separação? – inquiriu ele, mirando os outros juízes. Metade da sala ergueu a mão. – Pois muito bem, que assim seja. Levantem-se. – nós obedecemos de pronto, Sirius com o lábio torcido. – A Suprema Corte dos Bruxos aqui declara que Amélia Delacour Preminger não mais possuirá relações com a família de Sirius Ignatus Flint Black.

Eu agradeço, excelências. – disse com um sorriso travesso brincando no canto dos lábios. Meus pés estavam tão leves que eu poderia voar, e ao sair daquela sala escura, não olhei para trás. Agradeci imensamente à Donovan e pedi que ele me contatasse depois, pois, naquele momento, eu só queria ir até um lugar. Corri para o elevador mais próximo e ao passar pela fonte central, joguei várias moedas que seriam doadas para o .

Aparatei para Hogsmeade e, sem ligar para a noção de decoro, corri até os portões de Hogwarts. Apressei-me até o escritório de Alvo e abri a porta sem bater. Ele não estava, para meu desapontamento. Contudo, logo me ocorreu que numa tarde de Terça-feira, o senhor gênio ainda deveria estar em aulas ou em reunião. Desci até a sala dos professores, tentei entrar, mas fui barrada pelas gárgulas.

Os professores estão em reunião. – disse uma delas.

Numa Terça-feira à tarde? – perguntei descrente. – Preciso falar com o professor Dumbledore.

Vai ter que esperar, senhora. – disse a segunda gárgula.

Bufei e me atrevi a bater na porta, por sorte, foi Alvo quem abriu.

Mélia?! – exclamou ele surpreso.

Preciso falar com você. Tem um minuto? – estava praticamente implorando.

Sim... ah, só um instante. – ele respondeu abrindo mais as portas. – Podemos terminar isso mais tarde, senhorita Smith? – disse virando-se para dentro da sala.

Uma garota ruiva e baixinha saiu de dentro da sala carregando dois livros enormes. E quando me viu... bem, digamos que ela pareceu me reconhecer.

É claro, professor. A senhora é... Amélia Preminger? – indagou ela de pronto, com os olhos brilhando.

Sou. – respondi sorrindo timidamente. – E a senhorita é...?

Stella Smith... admiro muito o seu trabalho...

Como descobriu o meu trabalho?

A senhora é fantástica! Foi por isso que escolhi a carreira de inominável. – continuou ela sem dar atenção a minha surpresa por ela conhecer o trabalho de um inominável... se bem que eu também conhecia um pouco na minha época.

A senhorita Smith é uma das minhas alunas mais aplicadas em Transfiguração, e aproveita o tempo livre de Terça à tarde para... adiantar matérias mais complexas do N.I.E.M's. – explicou Alvo.

Ah... Bem, fico feliz em dizer então, senhorita Smith, que será um prazer tê-la conosco um dia. – disse gentilmente.

Obrigada, senhora. – ela agradeceu, animada. – Continuamos na semana que vem, professor Dumbledore. – e se foi... parando para olhar uma última vez para mim antes de virar o corredor.

Eu não sabia que tinha uma fã... – comentei.

A melhor amiga dela é a aluna que mencionei uma vez. A que me chama de velho. – revelou Alvo me fazendo rir. – Então, o que é tão importante?

Acabei me esquecendo. Eu consegui, Alvo! Não estou mais casada com Sirius! Estou livre para fazer o que quiser! – gritei me jogando nos braços dele para um abraço.

Mélia... isso é incrível! Como conseguiu fazê-los ouvir? – perguntou Alvo feliz e chocado ao mesmo tempo.

Com o velho charme da família Preminger. Palavras duras e verdades jogadas na cara sem receios. – respondi piscando marotamente.

Ah, a velha combinação perigosa. – brincou ele. – Temos que comemorar!

Vou falar com Linda e Elifas e os Flamel, depois volto para o Ministério. – disse. – Ah, e amanhã é o casamento de Cora... ela convidou vocês!

Estaremos lá. – prometeu ele.

Naquela noite, sentamos na primeira fila para um concerto de Debussy. Seria a última vez que se apresentaria ao vivo em Londres, para desespero de Linda. Entretanto, estavam todos tão felizes por mim que não houve tempo para lágrimas. Perenelle comentou como nunca vira meus olhos tão faiscantes como naquela noite. De verdade, eu me sentia bem como não me sentira em anos. Foi na festa de casamento da minha irmã que, contudo, eu quase cheguei a explodir de felicidade.

O assunto do meu divórcio repercutira em toda a sociedade bruxa, e na minha família, quase foi capaz de abafar a alegria pelo casamento de Cornélia. Mesmo ela estava mais interessada em saber os detalhes da audiência do que brindar com Potter. Tia Sarah se manteve distante durante grande parte da noite, até que pude vê-la fazer um profundo aceno de cabeça – como se estivesse me reverenciando – e voltar a conversar com alguns Preminger.

Fico feliz que tenha conseguido, querida. – cumprimentou a cunhada de minha irmã. Emily. – Por Merlin, eu jamais sobreviveria à solidão...

Solidão? – interrompi sem entender, com uma risada nervosa.

Oh sim... ou você espera se casar novamente?

Eu engoli em seco.

Eu não espero nada, Emily. Agora, se me der licença... preciso de ar.

Começava a nevar em Londres, e eu assistia aos primeiros flocos de neve caindo sobre um chão que já estava branco. Gostaria, depois de tantos anos, poder admitir a mim mesma que as palavras de Emily Potter não me perfuravam o espírito, mas não posso. Eu sabia que depois de desafiar a ordem do mundo, passaria por um período de "desaprovação social".

Entretanto, desde que continuasse a honrar o nome dos bruxos, o meu departamento não se importava. A solidão também não me importava tanto desde que tivesse amigos leais. Alvo apareceu para interromper esses pensamentos, de repente. Sorrimos um para o outro e por instantes permanecemos em silêncio.

Serão muitas cabeças doloridas pela manhã. – ele comentou.

Minha família aprecia festas o bastante para dizer que terá valido a pena. – retruquei rindo.

Estão todos comentando o seu grande feito. – disse ele sorrindo de lado.

Diferente das outras famílias, na minha nós saudamos as ovelhas negras que criamos. – observei, lembrando do gesto de tia Sarah.

E quanto aos outros?

Não terei tempo para eles. – disse dando de ombros. – Pretendo sair em viagem para à Hungria, a trabalho. Encontramos algo bom lá. – o véu negro havia sido tirado de sua terra natal e passado para o departamento do ministério de Sofia. Agora, seria passado para mim.

Por quanto tempo? – quis saber Alvo, triste.

Não sei... Em todo caso, a história continuará viva pela eternidade. – ponderei suspirando. Alguns aplaudiam, outros vaiavam.

Você ficaria se eu pedisse? – ele perguntou com tom de voz macio. Eu gelei. Ele estava querendo dizer que...

Alvo, você não quer dizer isso. E quanto a Nicole? Seu fantasma não ressurgiria sempre que discutíssemos?

Não. – ele respondeu simplesmente.

Então não está mais zangado comigo? Me perdoou? – indaguei me virando para encará-lo de frente.

Não, eu não te perdoei.

Então, o que...?

Eu não te perdoei porque, levando as circunstancias em consideração, você não precisa ser perdoada por nada e nem por ninguém. Você viveu a sua vida e eu vivi a minha, agora é hora de vivê-las juntos. – ele disse sorrindo.

Alvo... você não... Isso é loucura... não pode estar falando sério. – disse reprimindo o choro.

Não é o que você sempre quis?! – exclamou ele perplexo, mas risonho.

Eu acenei positivamente, mas parei para ponderar o que estava prestes a acontecer.

Já estivemos no limite do abismo tantas vezes, Alvo. Por favor, não me leve até lá outra vez a menos que tenha certeza. – disse, nervosa.

Eu tenho certeza.

Perenelle disse uma coisa que é certa. Bruxos como você tendem a ter inimigos... eu não estaria correndo riscos? E não foi você quem disse uma vez que estávamos amaldiçoados? Fadados a caminhos diferentes? – ponderei.

Não me lembre daquele dia... eu já disse que estava errado. – cortou ele agitando as mãos. – E não acho que deveríamos deixar uma hipótese nos atrapalhar.

Eu concordo. – respondi de pronto.

Então você vai? – perguntou ele me tomando pelas mãos. Eu deixei uma lágrima de felicidade escapar.

Você tem que fazer direito. Eu não vou responder a menos que faça direito... ajoelhado e tudo. – disse falseando um tom imperioso.

Amélia Delacour Preminger, me concederia a honra de ser minha esposa? – ele estava rindo agora, um dos seus sorrisos mais bonitos e sinceros.

Sim! – exclamei imediatamente.

Ele se ergueu e nos beijamos por um bom tempo, até pararmos para tomar fôlego... e rimos da cara um do outro, e em seguida Alvo começou a me rodar no ar, enquanto ríamos ainda mais. Se fosse possível morrer de felicidade, eu teria morrido ali, onde nasci para estar. Nos braços dele.


*Autora abre as cortinas vermelhas e entra divamente* Por essa vocês não esperavam certo?
Mas por que Elifas não contou para eles? Calminha, senhoras e senhores, eu explicarei tudo no próximo capítulo! Por enquanto só posso dizer que estou MUITO FELIZ pela Mélia... Finalmente livre daquele boçal do Sirius. Não estamos todos? Enfim, espero que gostem, reviews lindas sempre serão bem vindas. Bjoooos, amo vocês!