Capítulo 43
Eu já havia me casado uma vez, então era de se esperar que não estivesse tão nervosa para uma segunda chance. Contudo, quando acordei naquele 5 de Julho de 1908, estava me sentindo como uma pré-adolescente... o que eu já não era há muito tempo. Linda e Elifas ficaram sabendo da situação logo depois que o pedido foi feito, bem como Nicolau e Perenelle. Minhas amigas insistiram para que o casamento fosse realizado da forma mais memorável possível, e não na surdina, como Alvo e eu estávamos pensando.
Foram horas a fio naquela noite para tentar fazê-los entender que precisávamos do silêncio e do segredo para que pudesse funcionar. Afinal, por mais que a condição de inimigos iminentes não fosse nos impedir, não poderia ser completamente ignorada. Então, o casamento seria sim um segredo. E um muito bem guardado, pois anos de história bruxa e tentativas de escrever uma biografia de Alvo nunca foram capazes de descobri-lo. Nossos quatro amigos seriam os fiéis do segredo e efetuaríamos o feitiço fidelius antes da cerimônia.
Uma pequena capela em Westminster foi tudo o que precisamos e um cerimonialista de confiança. Não usei branco porque não queria nenhuma recordação do meu primeiro casamento ali, embora Linda me apedrejasse mentalmente por isso durante todo o tempo que tivemos que esperar.
Eu não acredito que você não vai sequer colocar um arranjo no cabelo. - lamentava ela, com os braços cruzados em desacordo. - O chapéu é bonito, mas nada supera um bom arranjo de cabelo.
Linda, não me martirize por não conseguir ser uma noiva tão bonita quanto você. - retruquei reprimindo o riso. - Eu já usei um arranjo uma vez, com diamantes não se lembra? Eu já fui uma bela noiva como manda o figurino. Agora, prefiro ter o marido certo do que o casamento certo.
Você foi. - concordou ela sorrindo, sentando-se na poltrona ao meu lado. - Tem certeza de que é isso o que quer? Quero dizer, um casamento secreto...
É a única maneira. - insisti. - Veja se eles já estão vindo, por favor. - pedi olhando em direção à porta. Assim que Linda se ergueu para checar, o advogado de Sirius passou por ela. - Onde ele está?
Talvez a senhora prefira um lugar mais reservado... - ele começou a sugerir.
Eu não prefiro. - interrompi com um suspiro cansado.
Meu ex-marido estava sentado em um dos bancos do lado oposto ao altar da igreja e me fulminou com o olhar assim que me viu.
É bom vê-la mais uma vez, senhora Black. - ele desdenhou se erguendo calmamente, como a cobra que era.
É senhora Dumbledore. - retruquei com orgulho.
Ainda não. - rebateu Sirius, me tomando pelo braço. - Não culpe o Jimmy, só fazia o que lhe pedi. Meu nome não era bom? Black não era adequado? - indagava ele, me impedindo de soltar o braço.
É outro nome para vergonha. - falei conseguindo livrar o meu braço.
Pensei que o que queria era liberdade, mas agora vejo que só pretendia oficializar seu romance com aquele mestiço.
Quem contaria para você? Bem, não importa, enfim, não precisa se preocupar com o seu nome, a cerimônia será muito íntima. Depois do desperdício que foi o nosso casamento, eu não sonharia em usar branco outra vez. - disse me virando para deixá-lo, mas meu ex-marido ainda tinha algo a dizer.
Bem, que maravilha! - desdenhou ele, tornando a me segurar. - Mas e agora estará adequado e bom? Casar com esse... homem? - eu senti o veneno dele ao dizê-lo e parei no mesmo instante.
Por que você está aqui, Sirius? A verdade. - perguntei de pronto, parando para encará-lo de frente.
Bem, fazendo as minhas pesquisas, descobri uma taberna próxima daqui onde o seu amante costuma se encontrar com os amigos dele. Presumi que, simbolicamente, o casamento seria realizado em um local onde ele pudesse se sentir mais à vontade. Tive que presumir, claro, afinal, o meu convite nunca chegou.
O único lugar para o qual eu o convidaria é o inferno. - retruquei sentindo o meu rosto ganhar cor.
Não precisa. Já estou lá. Pena que nunca se importou.
Pena que você nunca me deu motivos para sentir qualquer coisa por você que não nojo. - retruquei com desdém.
Minha culpa, então. Sentia nojo e eu queria paixão. E quanto ao seu futuro marido? O que ele quer? Pode dar a ele? De certo, não tudo. E o que ele pode te dar? - estávamos quase saltando para o lado de fora e eu só conseguia ligar o fato de que Sirius invadira aquela igreja para jogar na minha cara algo que eu já sabia. A homossexualidade de Alvo.
Orgulho. - respondi por fim, tornando a me virar para voltar ao quartinho onde estava antes. Vá embora, Sirius, ninguém o quer aqui.
Não me dê às costas, Amélia! - zangou-se ele, tomando meu braço com força.
Engraçado, pelo que eu me lembre era a sua posição favorita. - desdenhei fitando-o nos olhos. Estava a um passo de azará-lo, quando a mão dele se ergueu com certeza para me estapear; sendo impedida por Alvo se materializando ao meu lado.
Senhor Black, sabe mesmo escolher a hora certa. - seu tom era polido e frio, como um aviso. Se algo fazia com que todos admirassem Alvo, era a maneira como tratava seus amigos e inimigos com a mesma cortesia... quase a mesma.. - Você está bem?
Ótima, timing perfeito, como sempre. - disse sorrindo para ele.
Então, Dumbledore, acha que a fará feliz só porque não vai violar sua delicadeza? Por que não precisa dela como mulher? - nesse momento, senti minha mão comichando. Não muito diferente de Alvo que escondia uma das mãos no bolso do paletó onde provavelmente trazia a varinha.
Nós definimos as mulheres de formas diferentes, senhor Black. Eu não as vejo como um saco de pancadas...
Alvo não é como você. Ele cria, você destrói e como pode ver é um fracasso ainda nisso. - completei com nojo. - Vamos nos casar. - disse, orgulhosa, olhando para Alvo.
E o senhor, me acompanhe. - disse Elifas fingindo um tom sério e profissional. Na verdade, realizou o meu desejo de azará-lo e o expulsou dali só com um empurrão nas costas. - Adoro ser o padrinho.
Abeforth não quis vir? - perguntei a Alvo.
Eu escrevi, mas, não tive resposta... - respondeu ele visivelmente decepcionado.
Sinto muito.
Alvo apenas me olhou com carinho e segurou a minha mão.
Vamos nos casar.
Nossos padrinhos e nossas madrinhas foram chamados ao centro do altar quando o cerimonialista chegou, para que pudessem fazer seus votos perpétuos. Cada casal jurou em conjunto e as fitas vermelhas que saltavam da varinha de Alvo eram grossas e chegavam a cegar. Linda foi a última e as marcas em suas mãos eram profundas... ela me olhou com consentimento quando acabou, como se finalmente estivesse começando a concordar com aquilo tudo.
As palavras foram basicamente as mesmas, mas daquela vez tiveram significado. Ao dizer "sim", ouvi Elifas murmurando "aleluia" ao fundo para Linda. Nicolau e Perenelle mantinham as mãos entrelaçadas como se estivessem se lembrando do próprio casamento. Após darmos um jeito de pegarmos as certidões escondidos,- nenhum documento sobre aquele casamento deveria existir - fomos até o pub mencionado por Sirius...
Amélia, Alvo, isso é para vocês. - disse Perenelle, assim que nos sentamos numa das mesas. Ela nos passou uma pequena caixinha azul. Nela, a chave que eu deduzi pertencer ao chalé onde os dois haviam passado os melhores anos de sua vida e onde Alvo e eu voltamos a nos considerar mais do que amigos.
Espero que lhes proporcionem tantas boas lembranças quanto proporcionou a nós dois. - disse Nicolau piscando para a esposa.
Perenelle, Nicolau, é... um gesto muito bonito, mas...
O chalé é de vocês, nós não poderíamos... - completou Alvo.
Bobagem! Quando precisarmos, pegamos emprestado como vocês fizeram. O importante é que...
Vocês precisam de um lugar para que possam ser livremente o senhor e a senhora Alvo Dumbledore. Não consigo pensar em melhor alternativa. - concluiu Perenelle piscando para mim.
Muito bem, agora é o presente do melhor amigo! - exclamou Elifas, interrompendo o meu abraço na senhora Flamel. - Mélia e Alvo, ou como muitas vezes ouvi em todos aqueles anos no dormitório, Mélia e senhor Gênio, Linda e eu pensamos muito no possível presente que daríamos a vocês! Poderíamos ter dado a chave da nossa casa? Poderíamos! Mas, nós não somos tão desapegados assim...
Elifas para de fazer gracinhas, se não você vai sentar no cantinho e sou eu quem vai fazer o discurso!
Nós combinamos que eu faria o discurso, nós tiramos no palitinho, senhora Doge! Aceite que perdeu! - exclama nosso amigo, muito satisfeito com sua pequena vitória. - Enfim, depois de muito considerar e discutir, chegamos à conclusão de que isso seria mais interessante. - disse enquanto retirava um álbum de fotos envelhecido de dentro da bolsa de Linda. Um feitiço extensivo não detectável... minha amiga era cheia de surpresas.
Alvo e eu nos entreolhamos por minutos antes de abri-lo com uma risada conjunta, já imaginando o que nos aguardava. Várias fotografias dos anos de Hogwarts, cópias até das que eu havia guardado em casa, todas organizadas numa linha cronológica... "Uma vez, não mais do que por intermédio do fato de que duas pessoas podem ser destinadas uma a outra, dois leões se apresentaram no vagão do expresso de Hogwarts..." E lá estava uma fotografia retirada do nosso sexto ano, no feriado de natal, quando voltamos para casa, Alvo e eu sentados no vagão do expresso jogando Snap Explosivo.
Eu nem me lembro de como todas aquelas fotos foram tiradas. Parece que nem houve tempo para posar para elas, quando paro para analisar o que já está escrito aqui. Muitas envolviam uma câmera fotográfica que o tio de Linda havia dado a ela de aniversário e vários figurantes sendo assediados pela mesma pergunta... "tira pra gente?"... Os melhores anos de nossas vidas. "Eles brigaram e fizeram as pazes, porque sempre foram dois cabeças duras que só precisavam do incentivo certo para admitirem a verdade. Qual verdade? A que iniciou essa aventura, claro! O senhor Gênio precisa da sua Mélia e a Mélia precisa do seu senhor Gênio. Que a partir de agora, eles encontrem - ao modo mais improvável possível - o seu final feliz. Dos seus melhores amigos, que são o incentivo mencionado acima, Elifas e Linda Doge."
Eu posso imaginar quem escreveu a legenda dessas fotografias. - Alvo comentou, lançando um olhar significativo para Elifas. - Você não, Mélia?
Ah... se eu me esforçar um pouquinho... - concordei no mesmo tom de brincadeira. - Obrigada. - agradeci a Linda e a Elifas.
Bem, nós conseguimos arrumar um embuste para fazer uma festa de casamento decente. - falou Nicolau. - Sua tia Sarah sugeriu que comemorássemos a sua mais nova pesquisa com o véu negro...
Tia Sarah concordou com isso?! - exclamei surpresa.
Esse é um motivo para comemorarmos. - assentiu Alvo. - Por favor, Mélia... faz anos que sonho com este momento.
Não consigo acreditar nisso... Cora deve ter contado para ela. Enfim, se tia Sarah sugeriu... não é como se eu já tivesse conseguido fugir de um convite feito por ela. - ponderei bebendo outro gole de hidromel envelhecido em carvalho.
"Tem certeza de que quer fazer isso?" o olhar de Linda me indagava. Eu apenas dei de ombros e avisei que estávamos de saída. De fato, quando aparatamos na mansão Preminger, metade da minha família estava lá... pensando que meu sorriso era culpa do véu negro. Foi engraçado tentar manter distância de Alvo, porque ele parecia estar disposto a me seguir pelo resto da noite. No fim conseguimos manter as aparências, e ao final da festa partimos para o chalé dos Flamel.
─ Acho que devia ter carregado você para dentro. – observou Alvo, enquanto subíamos as escadas para o quarto.
─ Acredita nas superstições? – provoquei abrindo a porta.
─ Não o suficiente para exigir que você se casasse de branco. – comentou ele me puxando pela mão para mais perto. – Contudo, você está maravilhosa esta noite, senhora Dumbledore. – acrescentou, se abaixando para me beijar.
─ Ainda tenho chances de usar branco esta noite. – murmurei entre um beijo e outro, afastando-o depois. – Um momento, senhor Gênio.
Entrei rapidamente no banheiro da suíte principal e me despi do meu casaco. No lugar dele, coloquei uma das camisolas do meu enxoval original... tão bem guardada, que nem me fazia lembrar daquela fatídica noite de núpcias... E soltei os cabelos. Por Merlin, lembro-me do quanto havia deixado com que crescessem, até a altura da minha cintura. Alvo me esperava com o quarto à meia luz, velas conjuradas com certeza, e duas taças de vinho dos elfos.
─ Comprou esta em Paris? – foi a primeira reação dele.
─ Não... encomendei no Talhejusto e Janota. Por que pergunta? – indaguei curiosa.
─ Lembra-se de quando invadi seu quarto naquela noite antes da sua viagem a Paris? Quando comentei que sua camisola se parecia com um saco de batatas, você respondeu que os ingleses não tinham criatividade com roupas de dormir e que arrumaria coisas melhores na França. – ele explicou prontamente, me fazendo rir.
─ Bem, parece que de uns tempos para cá eles aprenderam como se faz. – retruquei com um sorriso malicioso, erguendo a minha taça para um brinde.
─ De fato, aprenderam. – concordou Alvo no seu tom mais absurdamente polido e sedutor, batendo sua taça contra a minha. Não desgrudamos nossos olhares enquanto terminávamos com o conteúdo delas. – E então, senhora Dumbledore? Como faremos isso? Comédia? Musical? Farsa? Tragédia? – indagou ele se referindo a maneira como faríamos amor naquela noite.
─ Por que... simplesmente não... fazemos? – rebati depositando gentilmente a taça sobre a mesinha de canto, me aproximando lentamente de meu marido... passando os braços pelo pescoço dele.
Foi a vez dele sorrir maliciosamente, juntando sua taça a minha – sobre a mesa – e tornar a se abaixar para me beijar. Eu sentia pequenas ondas de calor enquanto ele corria as mãos pela seda fina, provavelmente tentando encontrar o fecho da camisola, e minhas mãos se ocupavam em livrá-lo do terno. Primeiro o paletó, depois o colete e em seguida a camisa, de forma que quando nos deitamos, restava-lhe apenas as calças.
Por um momento, paramos para nos olhar. Eu corei num misto de vergonha e orgulho ao ver como os olhos dele ainda escureciam pela luxúria, mesmo depois de tantas vezes me tendo naquela situação. Em seguida a atenção dele se voltou para os pequenos vãos de carne exposta... meu pescoço... erguendo a saia para deslizar a mão pelas minhas pernas enquanto mordiscava a minha orelha... E eu me curvei de encontro a ele, dando oportunidade para que puxasse a camisola por cima da minha cabeça.
Nos abraçamos e o beijo se aprofundou... minha pele queimava sobre as mãos dele. E tudo isso me deixava com uma imensa vontade de rir, afinal, não era a primeira vez, e ainda assim ardia, e não passava. Num impulso, eu o parei o olhei para baixo, em direção as calças, praticamente implorando. Alvo sorriu e me beijou demoradamente no pescoço, antes de me forçar em direção aos travesseiros para ter espaço para se livrar delas.
E então ele entrou em mim, como sempre admirando as minhas reações. Era instantâneo... Eu fechava os olhos, afundava as mãos nos lençóis e no mesmo segundo, como se estivesse indecisa, as voltava para as costas dele, com um gemido baixo. Tornava a encará-lo ao mesmo tempo em que procurava por sua boca, sentindo-o se mexendo dentro de mim com estocadas fortes. Ele chamava pelo meu nome em sussurro, bem próximo do meu ouvido e eu gemia... abraçava-o com tanta força, querendo que se afundasse completamente dentro de mim, enquanto arfava e gritava...
Continuamos assim até que se esgotaram as nossas forças. O que demorava a acontecer... até lá, rolávamos sob e sobre os lençóis... esperando darmo-nos por satisfeitos. E mesmo sem forças, ainda ousávamos trocar beijos... Como seria bom se os dias e as noites pudessem ser resumidos em horas passadas daquela maneira.
─ Não se cansa de mim? – indaguei instantes depois da minha respiração ter voltado ao normal. Alvo riu.
─ Esperava que eu me cansasse com o tempo? – retrucou arqueando as sobrancelhas.
─ Eu não sei. Não é o que acontece com a maioria dos casais? Aprendem tudo o que precisam sobre como dar prazer ao outro e... se cansam. – ponderei confusa.
─ E, de fato, eu aprendi o que acontece quando eu te beijo aqui... – disse beijando o lóbulo da minha orelha, e eu fechei os olhos. – Aqui, - a curva do meu pescoço, e eu me contive, sem abrir os olhos, mas sentindo que ele afastava os lençóis. – Aqui... – a curva interna da minha perna, e eu mordi meu lábio reprimindo um gritinho. – E a...
─ Alvo! – ralhei, quase sem voz. Mais uma vez ele riu. – Já esclareceu o seu ponto... Agradeça por eu não estar em condições de me vingar.
─ Eu lamento por isso, senhora Dumbledore. Aguentaria a sua ira com prazer. – ponderou ele beijando a minha testa. – Quem em sã consciência se cansaria de um rosto tão bonito?
─ Eu o amo, Alvo Dumbledore. – disse me aninhando ao ombro dele.
─ E eu a amo, Amélia Dumbledore. – respondeu ele, também se aninhando a mim.
Como estão, meus queridos leitores? Era para ter sido presente do dia dos namorados, mas minha beta estava indisposta... O importante é que finalmente chegou! Espero que gosteeem! Bjooos e até o próximo!
