Capítulo 44
Passaram-se seis anos... E estivemos bem desde então, ainda tentando manter as aparências para os estranhos de que não éramos nada mais do que um par de velhos amigos de escola, mas bem. O chalé de Nicolau e Perenelle era a nossa casa, por assim dizer, e aparatávamos para lá sempre que possível. Eu ainda mantinha meu apartamento em Londres, como fora combinado. Posso dizer, sem dúvidas, que aqueles seis anos foram tão felizes para mim quanto o tempo em Paris. O mesmo não pode ser dito sobre os pobres trouxas.
Ouviam-se murmúrios sobre uma guerra, rumores que pareciam ser muito mais... E por mais que o mundo bruxo tentasse não se envolver nos assuntos do "outro mundo", era quase impossível prever o envolvimento que teríamos naquilo tudo, se fosse realmente haver uma guerra entre as principais potências... Por fim, no dia 28 de Julho daquele 1914, com o assassinato do arquiduque austríaco, foi declarada guerra e o mundo pareceu entrar em colapso.
Estávamos almoçando na casa de Linda e Elifas quando a coruja com o pedido do ministro da magia para que Elifas partisse para a Alemanha – até então a maior ameaça para a Inglaterra – a fim de indagar ao ministro da magia Alemão qual seria a interferência dos bruxos no conflito. Eli havia conquistado seu posto como principal diplomata no gabinete ministerial, mas ainda assim sempre se mostrava um pouco hesitante ao receber uma missão. Daquela vez não foi diferente. Seu olhar imediatamente recaiu sobre Alvo... ele precisava de seu melhor para lhe dar apoio moral.
─ Acha que vamos entrar na linha de frente? – lembro - me de ter perguntado a Elifas quando nos despedimos na estação.
─ Não sei, Mélia... mas, por Merlin, espero sinceramente que não. – foi a resposta dele e no fundo eu sabia que estava morrendo de medo.
─ Vamos ficar só por três dias, você vai ficar bem com Linda. – disse Alvo quando o abracei em meio às lágrimas.
─ Bem, boa viagem então... e muita boa sorte! – disse dando um beijo de estalo na bochecha dele.
Linda voltou para o Ministério assim que retornamos à Londres. Já eu, no entanto, fiquei mais um tempo na estação para esperar Cornélia. Era minha tarde de folga e minha irmã estava vindo de visita da França para passar os seus meses finais de gravidez com a família. Quando a vi descendo do trem, enorme e com as bochechas coradas, fiquei realmente feliz; e quando lhe disse isso, a abracei e desejei que fosse um menino para aprontar com ela o mesmo que Edmundo havia aprontado quando criança, estava realmente sendo sincera. Mesmo assim, sentia uma pontada de inveja por ela poder ficar com seu filho e eu não.
Paramos no beco diagonal antes de irmos para a mansão, e por mais que eu insistisse em ir direto para lá visto o estado físico dela, não consegui impedi-la de entrar em todas as lojas. Minha irmã como mãe de primeira viagem era a coisa mais engraçada e doce do mundo, eu conseguia ver claramente Charlie Potter incapaz de lhe negar uma agulha que fosse... quem dirá aquele tanto de roupinhas que estava comprando. Por último, iríamos até a Madame Malkim encomendar algumas vestes novas para ela usar depois do parto, mas eu já estava tão cansada que precisava passar na sorveteria.
─ Não, não, não, eu vou sim, Cora Potter! – exclamei quando ela tentou me impedir.
Andei com passos bem largos em direção à sorveteria e estava tão distraída com meus pensamentos que não vi a garotinha que caminhava na mesma direção que eu... Resultado, trombamos e derramamos todo o sorvete dela na minha saia. Começamos a nos pedir desculpas e eu rapidamente puxei a varinha de dentro do casaco para me limpar. Ao olhar na direção dela para dizer que estava tudo bem, no entanto, meu coração gelou... Era Nicole.
A minha garotinha me mirava admirada, possivelmente por ver uma bruxa de verdade de perto, com os olhos que eram iguais aos meus. Ela era mesmo muito parecida com Alvo. O rosto era magro e os cabelos acaju... Usava um laço azul neles e um vestido na mesma cor. Eu estava sem fala, mas graças a Merlin ela fez questão de iniciar a conversa.
─ Eu sinto muito mesmo. – disse com o tom de voz totalmente ressentido, visivelmente assustada.
─ Não se preocupe, querida, eu é que deveria estar pedindo desculpas... acabei com o seu sorvete. – me obriguei a dizer ou aquele silêncio poderia começar a ficar suspeito. – Por favor, deixe-me pagar outro para você! Onde estão seus pais?
─ Ah, de jeito nenhum, não precisa. Eles estão comprando meus livros na Floreios e Borrões, eu disse que não iria demorar... e eles nunca me perdoariam por...
─ Confiar em uma estranha? – completei astutamente, sem conter uma risada. – Pois bem, como se chama senhorita?
─ Nicole, Nicole Hughes. – ela respondeu com uma reverência polida.
─ Um nome muito bonito, senhorita Hughes. – comentei sorrindo.
─ A minha mãe escolheu. – ela explicou e eu reprimi uma lágrima. – E a senhora é...?
─ Amélia, Amélia Preminger. – me apresentei imitando o gesto dela e fazendo uma reverência.
─ Bonito nome também, senhora Preminger. – retrucou um pouco sem graça.
─ Obrigada, e agora que deixamos de ser estranhas uma a outra, o que me diz daquele sorvete? – indaguei oferecendo minha mão a ela. Ela mirou a rua, aflita com a possibilidade de um de seus pais aparecer e pegá-la desobedecendo, mas acabou aceitando o convite com um sorriso meigo digno de seu pai.
Nos sentamos ao balcão e eu disse a ela que poderia pedir o que quisesse, era por minha conta.
─ Três bolas de limão, então, por favor. – pediu ela a Wallie.
─ Pistacho para mim, Wallie, três bolas também. – disse sorrindo abertamente. – Então, o que a traz ao beco diagonal? – indaguei já sabendo a resposta.
─ Estou comprando meus materiais para Hogwarts. – Nicole respondeu toda empolgada. – As aulas começam no dia 1º de Setembro... eu disse que deveríamos ter vindo antes, mas papai insistiu que tínhamos tempo de sobra.
─ E seus pais? Ficaram tão felizes quanto você quando recebeu a carta? – perguntei encantada pela semelhança do rosto dela com o de Alvo quando se animava.
─ Mamãe já estava acostumada com a ideia de eu ser uma bruxa desde que saltei flutuando do balanço no quintal de casa. – ela disse dando de ombros. – Ninguém da minha família é, entende? Somos trouxas... ela tem medo de que eu me machuque, mas papai consegue mantê-la calma quanto a isso. O mais legal de receber minha carta, foi a visita do professor Dumbledore! Já ouviu falar nele?
─ Ah, claro, estudamos juntos em Hogwarts. Ele é vice diretor da escola agora... Então ele foi entregar a sua carta pessoalmente? Que gentil! E o que você achou dele? – perguntei sem conter uma risada.
─ Ele é muito engraçado, na verdade, para um professor. E muito gentil... eu gostei muito dele. – ela respondeu risonha também.
─ Ele vai ficar contente em saber. – observei assim que nossos sorvetes chegaram. – Bem, bon appétit! – disse fazendo sinal para que batêssemos nossas colheres no ar... como eu e minha irmã fazíamos quando crianças.
─ Ele dá aula de transfiguração, não é? – inquiriu ela depois da primeira colherada. Eu acenei que sim, ainda com muito sorvete na boca. – Ele disse que é uma das matérias mais legais! E também me explicou sobre as casas da escola... pareceu bastante inclinado a me ver na Grifinória... tem algum problema com as outras casas?
─ Não se preocupe com isso, querida. – eu a acalmei depois de uma gargalhada alta. – Alvo está apenas puxando sardinha para a casa dele. Entenda, ele é diretor da Grifinória e a considera a melhor casa. Mas não há nada de errado com as outras casas. Ora, a minha melhor amiga é da Corvinal! E eu conheço uma dúzia de Lufanos que são bruxos fabulosos... os sonserinos não têm a melhor das reputações, mas, o professor de poções em Hogwarts, Horácio Slughorn, é um amor de pessoa e foi da Sonserina. Não, independente da sua casa, só você pode determinar que tipo de bruxa que vai ser. – conclui confiante.
─ Mamãe disse isso também. – observou Nicole feliz. – A senhora pertenceu a qual casa? – ela perguntou tomando outra colherada de sorvete de limão.
─ Pode me chamar de Amélia, querida. E eu... bem, eu fui da Grifinória. Mas, ainda defendo o que eu disse. – disse dando de ombros e ela riu.
Continuamos a conversar sobre Hogwarts até o sorvete terminar e ela dizer que tinha mesmo que encontrar seus pais. E como num passe de mágica eles surgiram na porta da sorveteria... pelo menos eu ainda reconhecia Charles Hughes e ele pareceu se lembrar de mim. Quem eu julguei ser sua esposa, era uma bela mulher e Nicole parecia gostar dela, porque saiu correndo em sua direção assim que a chamou.
─ Desculpe a demora, foi um acidente de percurso. – Nicole começou a explicar. – Eu acabei derramando todo o sorvete na Amélia e ela se ofereceu para me pagar outro... ficamos conversando...
─ Sinto muito por privá-los da companhia dela, senhor e senhora Hughes, mas os senhores têm uma filha muito encantadora. – comentei me levantando para cumprimenta-los. – Muito prazer.
─ Ella Hughes. – apresentou-se a mulher. – Desculpe se ela derramou... – os olhos recaíram sobre as minhas roupas, estava limpa, e ela se surpreendeu. – Sorvete na senhora... Puxa, eu acho que uma coisa assim viria a calhar nas roupas do meu marido. – brincou Ella sorridente e eu ri.
─ Bem, foi um prazer conhece-la, senhorita Hughes. – disse com outra reverência.
─ Também foi um prazer, Amélia. – respondeu ela me imitando. – E eu realmente espero ir para a Grifinória, já que os dois melhores bruxos que conheci até agora foram de lá. – acrescentou ia embora.
Eu me limitei a sorrir e acenei enquanto ela se afastava, entrando na Madame Malkim. Então eu deixei as lágrimas que estava reprimindo desde que a vi correrem. ─ Era ela, não era? – ouvi Cora indagar atrás de mim, sorrindo solidária.
─ A gravidez te deixou muito perspicaz, maninha. – comentei rindo, secando os olhos com um lenço. – Sim, era. Ela está indo para Hogwarts, adora sorvete de limão, faz a mesma cara que eu quando ri e está ansiosa para entrar para a Grifinória... e essa é toda a informação que eu vou conseguir reunir sobre a minha filha.
─ Alvo é vice-diretor agora. Ele vai saber a nota dos N.O.M.s e dos N.I.E.M.s dela, quais as matérias são as suas favoritas, qual carreira vai querer seguir e o mais importante, se a ficha na detenção dela vai ser tão grande quanto a sua. – brincou minha irmã me dando tapinhas nas costas.
─ Oh, Cora... você sabe mesmo como fazer com que eu me sinta melhor. – desdenhei sem conter um sorriso. – Bem, vamos te colocar na cama, senhora Potter!
Quando Alvo voltou e nós ficamos sozinhos no chalé, a primeira coisa que eu perguntei foi sobre Nicole. Não estava zangada por ele não ter me contado que havia lhe entregado a carta, afinal, era essa a sua função e tínhamos coisas mais importantes com o que nos preocuparmos. Contudo, fiquei surpresa com a resposta dele...
─ Ela é igualzinha a você. – foi a resposta dele.
─ Ficou maluco? O rosto dela é igual ao seu, à exceção dos meus olhos e do nariz dos Delacour, talvez... mas o tom de voz dela é igual ao seu! – retruquei incapaz de aceitar o contrário.
─ Você está tão determinada a me ver nela, que ignora o quanto dos seus trejeitos ela tem. O modo como se senta, o riso dela... mas, acho que seria necessário uma partida de Quadribol para deixa-la no ponto de ser chamada de Amelinha. – comentou ele, me provocando.
─ E acho que teremos de esperar até o primeiro contato dela com Transfiguração para chama-la de senhorita Gênio! – rebati sorrindo marotamente.
Olá, vocês que não desistem de mim! Não irei me demorar muito aqui... pretendo postar outro capítulo logo em seguida, então deixarei meus comentários para o final dele... Só direi uma coisa: ousem me contradizer e não concordar que a Nicole não é uma fofa! Ela é linda!
