Capítulo 45

Foram quatro anos de guerra... e eu me lembro como comemoramos quando chegou ao fim... e o quanto havíamos perdido. A Europa, uma vez um país vivo e convidativo, tornara-se um cemitério. Apesar de não termos participado dessa vez no fronte, não significava que as vidas perdidas não contavam para os bruxos. Muitos parentes de trouxas que pertenciam ao nosso mundo caíram e mesmo aqueles puro sangue conservadores foram obrigados a guardar luto... visto o cenário em Londres. A cada esquina parecia que alguém morrera nas trincheiras...

O meu luto, no entanto, chegou com uma carta vinda da França. A letra de Cecile continuava a mesma e ela me escrevia para contar sobre a morte de Marius. Ao que parecia, George e Rudy não haviam sido sequer recrutado para o exército francês devido ao problema de visão... ambos usavam óculos, como eu bem me lembro... mas Marius... pobre Marius... ele não teve tanta sorte. Fora morto nas trincheiras, assim como a maioria dos que eu conhecia... Entretanto, nenhuma ideia de morte me afetou tanto quanto a de Marius.

─ Mélia? – Alvo chamou assim que percebeu como a carta me alterara. Segundos depois de ler e eu já estava em prantos sobre a mesa do café da manhã. Sentindo como se o peso do mundo caísse sobre meus ombros. Por que não me despedi com decência? Por que não tornei a França para vê-los? Tantas perguntas parecidas se formaram na minha mente e meu marido me abraçava, sem saber o que fazer... porque eu ainda não encontrara coragem para dizer em alto e bom som que...

─ Marius está morto. – eu murmurei ao mesmo tempo em que escrevia aquelas linhas na carta para Cora. Minha irmã ficaria igualmente arrasada, mas não tanto quanto eu como era entendível.

─ Você vai para Paris? – ouvi a voz de Alvo indagar atrás de mim, brandamente, repousando uma mão gentil em meu ombro.

─ Vou... mas não quero passar pela casa de tia Olímpia, então irei de trem. Evitar dar explicações desnecessárias... – tentava explicar reprimindo as lágrimas que não paravam de vir. – Oh, Alvo...

─ Tudo bem, eu estou aqui. – ele disse me abraçando pelos ombros. – Prefere ir sozinha?

─ Prefiro. – respondi num sopro.

Minutos depois eu estava vestida e a caminho da estação de trem. Não levou mais do que algumas horas e estava descendo Paris. O cenário que encontrei não lembrava em nada o de 1898. Não havia gente sorrindo nas ruas, nada além de reformas nas calçadas e pessoas amarguradas olhando para o chão. Cecile e eu não havíamos combinado local de encontro, mas eu também não queria me encontrar com nenhum conhecido enquanto não visse o túmulo...

Andei até uma floricultura com a cabeça cheia de lembranças dos dias e das noites que passara com aquele grupo tão feliz de amigos... uma em particular me fazendo chorar mais... "Promete visitar meu túmulo se eu morrer antes de você?... Então? Irá? Com rosas brancas?"... Parecia que era o único tipo de rosas que estavam vendendo àquela altura. Comprei um buquê inteiro e tomei um táxi para o cemitério do Père-Lachaise... Era enorme... andei um bom bocado até encontrar a lápide dele... E em francês estava escrito... "Aqui jaz, Marius Depardieu, um homem vil, mas excelente poeta e amigo." Não consegui evitar um riso triste, aquilo com certeza fora obra de Rudy... Marius seria a alma da festa até na morte...

─ Eu prometi que viria, não é? – disse para o nada, me agachando para deixar as rosas sobre o túmulo dele. – Você tinha medo de que ninguém fosse se lembrar de chorar a sua morte... mas tenha certeza, Marius Depardieu... a sua Mel derramará lágrimas suficientes por todos os figurões de Paris... Eu não me despedi, eu sei, sinto muito... Queria ter estado lá para ouvir suas últimas palavras, tenho certeza de que foram as mais criativas já ditas por alguém... Se eu não fosse tão teimosa você poderia ter consertado meu coração... Eu podia ter amado você... Eu amo... talvez não como você queria naquela noite... mas amo e sempre vou amar...

Eu caí e apertei a terra úmida, deixando as lágrimas caírem sobre ela...

─ Adeus, Marius Depardieu... o melhor francês e poeta com quem eu tive o grande prazer de dividir incontáveis garrafas de Abysinto. Obrigada mais uma vez... por me lembrar o quanto a vida pode ser boa...

Não me lembro de quanto tempo fiquei sentada lá olhando para a inscrição na lápide, mas o sol já estava se pondo quando a brisa gelada me obrigou a levantar e sair dali. Agora sim queria ver Rudy, Cecile e George... mas não teria forças para encarar o Moulin Rouge naquela noite. Restringi-me então a um dos cafés de calçada, onde boa música estava sendo tocada. Como podiam as noites de Paris ainda serem belas se a alma de toda e qualquer festa estava morta?

─ Oh, perdão, madame... eu sou tão desastrada! – exclamou uma mulher alta de cabelos castanhos, tinha acabado de tropeçar uma cadeira atrás da minha e quase caíra em cima de mim.

─ Não tem problema. – respondi seca.

─ Está gostando da música? – indagou ela, minutos depois, sentada na mesa ao lado da minha.

─ É muito bonita. – tornei a responder sem muita expressão, finalmente encarando o rosto da mulher. Era familiar. – Desculpe... a senhora é...?

─ Linda Porter. – respondeu estendendo a mão para me cumprimentar.

─ Amélia Preminger. – retruquei com um firme aperto de mão. – A esposa de Cole Porter... impressionante... É ele quem está cantando lá dentro?

─ Cole cantando? – ela pareceu achar muita graça daquilo. – Só quando obrigado ou quando está compondo. Mas a canção é dele.

─ É mesmo muito bonita. – disse ainda sem demonstrar muita animação.

─ Está tudo bem, querida? – perguntou ela. – Já vi pessoas reagindo assim à música de meu marido, mas...

─ Oh, não, não... É só que... acabei de saber que perdi um grande amigo e...

─ Oh, sim... desculpe, meu Deus... como sou boba... eu sinto muito mesmo... não queria...

─ Eu sei que não quis. – interrompi secando os olhos. – O está lá dentro? – perguntei mudando de assunto.

─ Não... ele está com uns amigos. – a resposta pareceu mudar o humor dela um pouco... E por que não? Era sabido do interesse dele por... rapazes... – Mas, você já deve saber disso. As fofocas correm como água em Paris.

─ Não conseguimos ter segredos aqui...

─ Sempre que tentamos parece que o vento trata de trazê-los à tona. – concluiu a senhora Porter sorrindo de lado. – Só que o meu segredo é um pouco demais para as donas de casa francesas.

─ Vamos contar a elas sobre a minha vida amorosa então. – brinquei.

─ Também preencheria uma balada inteira?

─ Ou uma ópera... Você não é a única que se apaixonou por alguém que busca o amor em lugares diferentes. – expliquei solidária.

─ Seu marido também...

─ Sim... mas não tenho notícias de seus relacionamentos desde que nos casamos.

─ Entendo. – suspirou ela. – Cole se esforça para ser discreto, pelo menos o seu parece ser mais domável. Tem filhos?

─ Não... – respondi tomando um gole de café.

Esse era um assunto realmente delicado. Em seis anos de casamento, eu havia tentado engravidar outra vez, depois de muita conversa com Alvo. Cheguei a conseguir, mas, acabei abortando naturalmente. Lembro-me até hoje daquela noite em que contei a Alvo... tinha ido ao médico, ele pediu para que eu repousasse, mas tínhamos a reunião na casa de Nicolau e eu já estava atrasada. Seríamos apenas o grupinho usual de amigos. Quando cheguei, Alvo me chamou para uma sala, preocupado e ao mesmo tempo zangado pelo atraso... eu nunca me atrasava para o que fosse... Começamos a discutir e meu vestido se manchou com sangue...

"O que é isso? – ele perguntara."

"Nada... não é como se atrasar para um jantar é só uma coisinha pequena... Uma coisinha pequena que parou de crescer..."

Alvo percebeu de pronto do que se tratava e me abraçou de uma vez, visivelmente zangado consigo mesmo por ter sido tão impaciente. Eu não conseguia entender porque desde Nicole não conseguia mais engravidar... E queria tanto um bebê... porque no final das contas, ela não era mais nossa... Alvo se conformou mais rápido...

"Amélia... Mélia... não era pra ser..."

"Mas eu o queria tanto, Alvo... eu o queria por nós dois..."

"Eu sei... mas, não era pra ser... então vamos nos concentrar no que era para ser e isso somos eu e você... Eu a amo tanto, Amélia Dumbledore."

E desde então não falamos mais nisso. Simplesmente... passou...

Você? – perguntei referente aos filhos.

Eu também não... só abortos... – eu a mirei estupefata... o quanto éramos parecidas. – No final, quando você pára para analisar Cole e eu... somos apenas duas pessoas que exigiam demais uma da outra. – ela concluiu me olhando gentilmente.

Nunca parei para pensar mas... é... acho que é isso mesmo. – concordei sorrindo para o nada.

Mais tarde, depois de voltar para Londres, fui com Alvo para o chalé passar a noite.

Está melhor? – indagou ele sentando-se na cama.

Se quer saber se já consegui me acostumar à ideia da morte de Marius... não. – respondi séria. – Mas, já consigo dizer isso sem pensar em chorar até cair no sono. Ele não iria gostar que isso acontecesse.

Pelo pouco que sei sobre ele, sim, também acho que não. – concordou Alvo.

Conheci uma senhora enquanto estava lá. – comentei quando nos deitamos. – Linda Porter.

Mais uma Linda para a sua lista, é? – ele riu. – E ela era parecida com a nossa Linda? – indagou ele se virando para dormir.

Não, na verdade, era incrivelmente parecida comigo. – respondi me virando para o lado dele, apoiando uma mão na cabeça.

De que forma? – indagou Alvo sem se virar.

Alguns sentimentos e o casamento fora do padrão. – expliquei sem me aprofundar muito no assunto, parando em seguida para pensar no que ela dissera. – Alvo, você acha que nós somos duas pessoas que exigiram demais uma da outra...?

O que quer dizer? – perguntou ele com a voz abafada pelo travesseiro.

Não sei... nós dois... todo esse segredo com relação ao nosso casamento, tudo o que passamos. Será que não exigimos demais um do outro para sermos felizes...?

Não. – ele respondeu de pronto, abandonando a ideia de dormir para se virar e me olhar nos olhos. – Nós somos duas pessoas que se amam muito, mas tiveram a infelicidade de nascerem em um mundo em que as pessoas têm a mania de dificultar tudo, mesmo os sentimentos mais puros. Entendeu?

Entendi, senhor gênio. – concordei sorrindo de lado. Beijei-o. – Boa noite.

Ah, não mesmo... você me acordou e agora também não vou deixa-la dormir tão facilmente. Volte aqui e termine o que começou. – ordenou ele me puxando para mais perto.

Muito provavelmente a senhora Porter estava certa... ambas tivemos histórias de amor muito difíceis, eu só dei sorte de me apaixonar por alguém que realmente me amava acima de qualquer coisa... O mundo lá fora chorava por seus mortos de guerra, enquanto nós dormíamos tranquilamente nos braços um do outro, sem saber que logo enfrentaríamos a nossa própria.


Eu disse que seriam dois e aqui estão! Bem, senhoras e senhores leitores... devo dizer que esses foram capítulos muito penosos. Se houve um personagem que até hoje me doeu matar, esse personagem foi Marius Depardieu... Ele reunia todas as qualidades que eu mais admiro num amigo... e para escrever a dor de Amélia, eu me imaginei perdendo meus melhores amigos nas mesmas circunstâncias. Sem despedida... apenas com lembranças e uma notícia trazida pela boca de outro. Alguns podem questionar porque não coloquei Cecile ou Rudy ou mesmo George encontrando-a no café. Perdoem uma escritora fraca que já chorava demais e não aguentaria mais lágrimas de um reencontro pelo luto... sinto muito, mesmo!

Também espero que tenham gostado do vislumbre da senhorita Nicole Hughes (Dumbledore)... Eu consigo imaginar Amélia encontrando vários pretextos para tocá-la enquanto conversavam, mesmo não tendo descrito... mas ainda terei a oportunidade de fazê-lo. Enfim, espero que gostem... espero as reviews de vocês e perdão pelas lágrimas! Bjooos e até o próximo!