Capítulo 46

A partir da década de setenta, Voldemort começou a fazer com que os bruxos temessem o início de uma guerra. Houve medo e medidas de segurança... famílias procurando por um lugar seguro para se esconderem. Ninguém parecia disposto a confiar em ninguém e hoje é esse período que todos dizem tentar esquecer. Eles se esquecem, contudo, creio eu, da primeira vez em que uma guerra ameaçou a todos, bruxos e trouxas. Não houve qualquer aviso daquela vez do que estava por vir para nós e tivemos que sentir na pele o medo dos trouxas para que começássemos uma mobilização.

A segunda guerra mundial, como os trouxas a denominam, foi o maior massacre humano da história. Tantas vidas já perdidas sem motivo da primeira vez, pensávamos que nada assim fosse se repetir. Contudo, o que veio depois foi pior... muito pior. Eu me lembro como se tivesse sido ontem... murmúrios, era tudo o que conseguíamos do ministério alemão. Pareciam estar apáticos do que acontecia na política trouxa. O país havia perdido muito na primeira guerra e estava disposto a mostrar aos seus subjugadores que não era fraco.

Estávamos todos reunidos na casa de Nicolau e Perenelle. Linda, Elifas, Alvo, eu e mais alguns bruxos que havíamos conhecido naquele tempo. Arabella Stuart, uma amante dos trouxas que pretendia ensinar a raça bruxa de que eles não deveriam ser temidos... tivera vários problemas ao longo da vida com relação ao decreto de sigilo. Septimus Weasley, um ruivo muito alegre, amigo de minha família, outro que sempre ganhava de mim no xadrez, e que eu apresentara a Nicolau, pois dividiam o gosto pela alquimia. Helmut Jakob, o diplomata alemão que Elifas e Alvo conheceram quando foram conversar com o ministro... um tipo de aparência bruta, bem me lembro, mas tinha um senso de humor impagável.

Naquela noite, mesmo nós ainda estávamos apáticos com a guerra. Enquanto esperávamos por Alvo, convencemos Arabella a nos entreter com uma música ao piano. A técnica dela lembrava muito a de Cora e era sempre um prazer ouvi-la tocar. Linda, no entanto, a interrompeu quando ia para a segunda música, pedindo para que eu tocasse.

─ Está querendo torturar nossos amigos, Linda?! – exclamei me escondendo atrás da taça de vinho. – Sabe muito bem que eu não toco...

─ Bobagem! Toca muito bem! – interveio minha amiga, insistindo. – Passou todo aquele tempo em Paris, Mélia. Vamos, toque algo para nós!

─ Eu vou te azarar no final da festa, Linda Doge! – ralhei enquanto era arrastada para o piano por Arabella. – Pois bem... uma fácil, porque vocês já estão conseguindo demais por eu estar sentada aqui.

─ Cante, Mélia! – acrescentou Elifas.

─ Pelas barbas de Merlin, Amélia é cheia de talentos! – trovejou a voz de Helmut, num inglês muito carregado pelo sotaque alemão.

─ E sou cheia de amigos palpiteiros também. – acrescentei assassinando os Doge com os olhos. – In the still of the night... as I gaze out of my window, at the moon in it's flight, my thoughts all stray to you. In the still of the night, while the world is in slumber... Oh, the times without number, Darling, when I say to you...

─ Do you love me as I love you? Are you my life to be? My dream come true... or will this dream of mine, fade out of sight... Like the moon growing dim, on the rim of the hill, in the chill... still... of the night. – completou Alvo vindo se sentar ao meu lado no piano. A música era de Cole Porter e ele a conhecia porque eu vivia cantarolando pelos cantos.

Todos irromperam em palmas, eu me levantei para agradecer como uma boa musicista e acabei vislumbrando Arabella sussurrando algo para Linda que concordou animadamente enquanto ainda batia palmas. Perenelle então se levantou e convidou a todos para se retirarem para a sala de jantar. Alvo, no entanto, me deteve, segurando discretamente a minha mão.

─ Preciso falar com você. – disse consternado.

─ Agora? – perguntei olhando para ver se alguém nos ouvia.

─ Agora. – insistiu ele, sério. – Grindewald está na Alemanha. Ouvi um bruxo comentando no três vassouras da última vez em que estive por lá com Horace. Perguntei a ele como poderia ter certeza e ele me assegurou de alguém o avistara na rua. E agora estamos ouvindo falar em murmúrios de vingança por toda a Alemanha, provocados por aquele trouxa... eu acho que as duas coisas podem estar ligadas, Mélia. – explicou ele sem rodeios assim que ficamos sozinhos.

─ Acha que ele pode estar incitando uma guerra para conseguir...? – disse sem conseguir concluir a frase. Seria ruim demais pensar no que poderia acontecer.

─ Esse tal Hitler está jogando todos os alemães contra os judeus. Seria a mesma coisa se Gerardo jogasse todos os puro sangue contra os trouxas... mas a nossa rivalidade tem séculos. Então, quem teria os melhores argumentos para passar a esse trouxa? É óbvio! E com os trouxas em guerra, seria mais fácil para ele marchar com um exército e dominar a população bruxa também. Afinal, não é como se vivêssemos afastados dos trouxas. – ponderou Alvo me convencendo.

─ Contamos a eles? – perguntei antes de entrarmos na sala de jantar.

─ Não acho que o ministro da magia queira uma polvorosa sobre o assunto, então, sim... alguém precisa fazer isso. Vão haver mortes, Mélia. Piores do que da primeira vez... dessa vez temos um dos nossos no meio e...

─ Grindewald é apenas um homem, Alvo. Independente do poder que tenha. – cortei-o. – Pois bem, vamos sentar e dar a notícia calmamente. – falei abrindo a porta.

─ Começamos sem vocês. – disse Helmut.

─ Alguma coisa errada? – indagou Eli já conhecendo nossas expressões de preocupação.

Nos entreolhamos e Alvo começou a explicar a situação. Nicolau ouviu tudo em silêncio e Perenelle o fitava ansiosa. Arabella e Linda se entreolharam e abaixaram a cabeça. Septimus e Hulmet pararam de comer imediatamente, mirando Alvo atentamente. Em seguida, minha amiga olhou para mim, como se esperasse que eu dissesse que era tudo uma grande brincadeira ou que tivesse a solução... me limitei a abaixar a cabeça também e tomar meu lugar ao lado de Hulmet. Linda então segurou a mão de Elifas e soltou um longo suspiro.

─ O que vamos fazer? – inquiriu por fim Perenelle ainda olhando para Nicolau. – Não podemos ficar sentados enquanto esse monstro toma à frente.

─ O ministro da Alemanha não vai intervir... vai ser como da outra vez. – comentou Hulmet, nervoso.

─ Não podem! Nenhum dos líderes bruxos pode ficar parado com uma ameaça dessa grandeza! Pro inferno com o decreto de sigilo! Precisamos ajudar a nossa gente e aos trouxas que pudermos... Grindewald não verá diferença entre quem é puro sangue ou não quando estiver matando. Se o que dizem sobre ele na Bulgária é verdade... – interveio Arabella, tremendo com seu pensamento final.

─ Nós não precisamos acatar com as ordens ministeriais se eles não souberem o que estamos fazendo. – comentou Septimus. – Não seria a primeira vez que agimos por conta própria. – disse buscando ajuda em mim, me fitando significativamente.

─ Somos só nove pessoas. – lembrou Linda. – O que são nove pessoas contra dois exércitos. Mágico e não mágico... Nós não temos força o suficiente...

─ Chamaremos mais. Pessoas em quem confiamos. – disse Arabella. – Bruxos e bruxas de coragem! Onde estão os grifinórios do nosso mundo, afinal? Ou abandonamos a nossa casa ao deixarmos Hogwarts?! – concluiu ela, cheia de força. – Não somos só nove pessoas. Somos nove bruxos! Do que adianta isso se não podemos fazer o que é certo?

─ Arabella está certa. – interveio Nicolau. – Não podemos ficar sentados enquanto o ministério não faz nada... efetivo para ajudar. Seria contra a nossa producente. Podemos arrumar mais alguns pares de bruxos...

─ Loucos o bastante para entrar nessa? – brinquei com um sorriso entre o maroto e o desacreditado. Olhei Alvo. – Somos loucos. – ele assentiu.

─ Bem, acho que é de loucos que o mundo precisa agora. – observou Elifas. – Os loucos certos, claro. Não quero dizer que Grindewald ou aquele trouxa, Hitler, sejam normais...

─ Entendemos Eli. – disse sem conter uma risada. Me virei para Linda, ela ainda não parecia ter certeza... mas então, ela se ergueu de sua cadeira com a taça de vinho em mãos.

─ À brigada de Loucos, então! – disse fazendo um brinde e todos a seguiram. Ela era tão generosa... estava visível em seus olhos que fazia aquilo por nós e que se pudesse escolher estaria bem longe da Inglaterra quando a guerra começasse. Mas, acho que é assim que diferenciamos os corajosos dos covardes no final das contas.

Mais tarde, Alvo e eu estávamos no chalé discutindo sobre os preparativos para o recrutamento de novos membros à brigada de loucos, quando o relógio bateu meia noite. Era 20 de Agosto... aniversário de Nicole. Meu marido me olhou e eu apenas fiz um aceno displicente com a mão.

─ Vinte e cinco anos, certo? – indagou ele sentando-se ao meu lado. Eu concordei com um meneio de cabeça. – Ela ficou muito feliz em vê-la daquela vez.

Ele se referia ao ano de 1920, quando estive em Hogwarts para o chá da tarde, havia acabado de sair do Ministério, e então Nicole passou pela sala dele para entregar o trabalho de um aluno do primeiro ano que perdera o prazo. Era seu último ano na escola. E ela estava prestando seus N.I.E.M.s para ser auror... muito boa em Transfiguração, para grande orgulho de seu professor – que deconhecia, na verdade, ser orgulho de pai – uma boa preparadora de poções e capaz de grandes feitos com feitiços avançados. Tornara-se monitora chefe, mas nunca chegara perto do campo de Quadribol. E ainda assim, me enchia de orgulho... estava tão bonita naquele dia.

─ Ah, perdão, professor, não sabia que estaria... Ei, eu me lembro da senhora! Amélia, certo? A moça bonita da sorveteria! – disse ela entrando sem convite na sala... bem ao modo Delacour.

─ Eu ganhei um apelido? Quem diria... e você deve ser a mocinha que queria ser selecionada para a Grifinória. – disse piscando para ela. – É bom vê-la, senhorita Hughes.

─ É bom vê-la também, senhora... Amélia. – disse se corrigindo ao ver minhas sobrancelhas arqueadas. – Aqui está a lição do Davis, professor Dumbledore.

─ Obrigado, senhorita Hughes. – disse sorrindo para ela. – Aceita uma xícara de chá? – ofereceu ele já servindo-a.

─ Bem, já que eu não terei chances de fazê-lo mais e visto a boa companhia, vou aceitar. – disse se sentando.

Passamos o resto da tarde rindo e conversando, como uma família normal faria. Então, ela disse que precisava voltar para o dormitório e terminar a lição de Herbologia. Nos despedimos com um abraço apertado... ela não parecia querer me soltar e eu não entendi porque, apenas a apertei ainda mais... Quando finalmente nos soltamos, ela sorriu abertamente... o sorriso de Alvo... e então saiu da sala acenando.

─ Feliz aniversário, querida. – murmurei antes de pegar no sono naquela noite. O dia não estaria tão bonito quando acordasse...