Capítulo 47

Primeiro de Setembro por muito tempo foi uma data associada somente a acontecimentos felizes e uma época de expectativas, a época em que tomávamos o trem na plataforma nove três quartos para Hogwarts. Contudo, a partir do ano de 1939, muitos pensariam nela como a data em que a maior catástrofe mundial começou. A invasão da Polônia mobilizou quase metade do leste europeu. Inglaterra, no entanto, permanecia intacta. À exceção de um grupo de vinte bruxos que se encontravam às escondidas na mansão Flamel.

Por mais surpreende que tenha parecido conseguir tantos recrutas, o fato foi que conseguimos. O mais memorável deles talvez tenha sido Alastor Moody, pois foi ao nosso auxílio mais de uma vez. Estava com apenas trinta e seis anos na época e sem o seu famoso olho que conseguia ver através de tudo e de todos, confesso que quando tornei a vê-lo anos depois, quase não o reconheci com aquela alteração puramente estética, como ele mesmo se referiu a ela ao me contar os detalhes da captura de Rosier. Uma excelente pessoa, Alastor.

Junto a Alastor vieram mais dezenove pessoas. Barney, Sawyer do meu departamento, desde a morte de Painswick eu havia sido eleita a chefe por votação unânime e meus melhores colegas de trabalho me seguiriam até o inferno se fosse preciso. Nicolau conseguiu trazer sua própria leva de bruxos de outros departamentos... nomes demais para que eu me lembre com certeza agora... nos reunimos logo em seguida ao primeiro ataque da Polônia e oficializamos a brigada dos loucos. O crédito pelo nome ficou todo para Linda, que o aceitou de bom grado.

As missões à Alemanha eram organizadas para que conseguíssemos reconhecer as crianças bruxas e encontrarmos um esconderijo seguro para elas e também ajudarmos os trouxas caçados a se esconderem. Mandamos muitos para a América, onde a ameaça de Grindewald ainda não alcançava. Sempre em duplas. Linda e eu éramos a dupla dinâmica. Assim como Elifas era a de Alvo. Por mais que Nicolau tivesse o direito de alterá-las, ele nunca o fazia com o nosso quarteto. Linda e eu ficávamos, na maioria das vezes, responsáveis pelo resgate de crianças... devido ao incidente...

Após a mudança dos judeus para o gueto, os soldados alemães começaram com uma prática que eu nunca entendi. Eles os retiravam de suas casas e os organizavam em filas... fuzilamentos em massa. Outros eram mandados para campos de trabalho forçados... levados para a morte. Nunca entendi qual o critério adotado para tal separação... qual o sentido do holocausto, digo... Seria apenas o capricho de um ditador frustrado pela derrota de seu país? Linda e eu aparatávamos dentro do gueto, enquanto as filas eram formadas e adentrávamos as casas antes que os soldados voltassem para encontrar quem estivesse escondido.

Numa das minhas buscas, eu encontrei uma senhora escondida num buraco embaixo de um tapete e estava com várias crianças. Todos tremeram ao me verem, mesmo que eu não estivesse uniformizada com o símbolo do partido nazista, apenas uma capa de viagem preta.

─ Está tudo bem, - disse sorrindo gentilmente. – Vamos, nós vamos tirá-los daqui. – avisei ao ver que Linda estava atrás de mim. – Rápido.

A velha senhora fez sinal para que as crianças fossem e Linda as abraçou, pedindo para se segurassem nela e não soltassem. Aparatariam para o meu chalé, onde Hulmet decidiria os destinos delas. Só esperava, pensei naquele momento, que os pais ainda estivessem vivos. Assim que elas aparataram, fiz sinal para a senhora vir também, mas ela apenas fez um sinal negativo e tentou fechar a tampa do buraco outra vez.

─ Não! – disse impedindo-a. – A senhora também... vamos! Não precisa ficar aqui se escondendo...

Ainda assim ela não queria ir comigo, acenava que não energicamente com a cabeça. Por fim, mostrou-me uma foto que carregava no bolso de um velho senhor...

─ Vamos conseguir pegar seu marido também... – eu parei quando ela sorriu tristemente e uma lágrima escorreu de seu rosto. O marido falecera pelas mãos de um dos fuzileiros, fiquei sabendo dias depois, e a esposa recusava-se a salvar-se... queria morrer também... – Por favor...

─ Amélia, eles estão vindo. – advertiu Linda, aparecendo atrás de mim mais uma vez.

─ Só um segundo... por favor... por favor... não precisa ser assim.

─ Não temos um segundo, Mélia! Vamos! – insistiu Linda, ansiosa.

Fiquei encarando a senhora por mais trinta segundos, o que pareceram horas. Ela fez um gesto com a cabeça, me indicando para que fosse embora e puxou a porta do buraco ainda sorrindo tristemente para mim... dessa vez eu não a impedi. Apenas me levantei e aparatei com Linda, ouvindo os passos dos soldados se aproximando. Fiquei mal por uma semana por não ter conseguido retirar aquela senhora de lá, Nicolau, então, decidiu por mim que não mais deveria ser deixada para cuidar de qualquer um que não fosse uma criança. Elas eram mais facilmente convencidas de que a vida era boa demais para morrer daquele jeito.

Não foi muito melhor. Os anos passaram e foram incontáveis as vezes em que tive que barganhar com mães para confiarem em mim. Eu sentia a dor delas ao ver como choravam por terem de entregar crianças ainda de colo, pois não poderíamos aparatar em grande número. Retiramos famílias de dentro de prédios em chamas e alguns se recusavam a vir quando viam que éramos de fato bruxas. Quer dizer, muitos sentiam medo, mas sentiam ainda mais medo dos soldados nazistas do que de um casal de bruxas de cinquenta anos que falavam sempre doce.

E o nosso problema não se resumia somente a soldados alemães... Grindewald conseguira infiltrar bruxos de sua corja dentro do exército e muitos salvamentos acabaram sendo feitos sob duelos cansativos sob o sol quente. Os dias bonitos de verão em sintonia com toda aquela carnificina não parecia justo. E as noites de sono eram perdidas com ataques furtivos do exército de inferi que Grindewald lançava contra os guetos. Eu já estava cansada quando em 1944, um ano antes do término da guerra e do grande embate entre Alvo e Gerardo, o acidente aconteceu...

Depois da morte de Marius, eu passei por um período em minha vida que batizei de "hiatos". Não houve nenhuma morte nele, apenas nascimentos. Meus amados sobrinhos, Edmundo e Cora compensaram a minha falta de filhos me enchendo deles. Então, quando Linda veio a falecer naquela tarde de Fevereiro em Varsóvia... era compreensível que eu ficasse em choque e negação. Estava desacostumada com o conceito de morte e seus efeitos nos vivos. Em todo caso... vamos logo reviver aquele dia em que o mundo pareceu parar.

Estávamos em uma missão em Varsóvia, lugar em que havia a maior concentração dos homens de Grindewald. Havíamos acabado de recolher uma mulher com uma criança de dentro de um prédio, Linda ainda estava com elas quando ouvi o choro de um garotinho vindo de uma das salas do andar de baixo. A porta que dava para lá estava emperrada e eu tive que usar a Bombarda para conseguir abri-la. Contudo, quando entrei, a sala estava vazia... a exceção de um único bruxo. Nicholas Malfoy estava parado de frente para a lareira.

─ Ah, boa tarde. – disse ele se virando para mim, nenhum sinal de sua varinha em mãos.

─ Onde está a criança? Ouvi um choro! – disse com a varinha em mãos.

─ Fala deste choro? – indagou ele abrindo um pequeno frasco. Um choro de criança começou a sair lá de dentro e eu já procurava por uma maneira de sair dali, quando senti uma mão gelada me segurando. – É apenas meu filho quando caiu de sua primeira vassoura. Ah e diga olá para os meus amigos. – disse Malfoy.

Inferi... pelo menos uns trinta... pela primeira vez em anos, eu sentira medo de verdade.

─ Imponente não é? Vamos manda-los contra alguns bairros trouxas esta noite. – explicou ele com um sorriso sinistro. – O senhor Grindewald quer vê-la. E eu detesto deixa-lo esperando...

─ Estupefaça! – Linda estava ao pé da escada e acertou Malfoy em cheio na cabeça. – Amélia, saia daí! – exclamou ela ao mesmo tempo em que conjurou uma tempestade de fogo forte o bastante para acabar com todos os inferi dali. Usei apenas o incendio para me soltar de meu captor e me afastei para a porta, também conjurando uma tempestade de fogo para ajuda-la. Já estava na porta quando Linda se juntou a mim, sorrindo. Um segundo depois do fogo cessar, uma luz verde irrompeu às costas dela e a acertou com violência, fazendo com que ela caísse em meus braços.

Fiquei sem voz... sem ação... não, não podia estar acontecendo, pensei enquanto a deitava no chão...

─ Argh... errei! – ouvi Malfoy resmungar, saindo de trás de uma pilastra. Soltei Linda por completo e me levantei com violência, esquecendo-me dos meus sessenta e três anos e o encarei, meus olhos provavelmente em chamas pelo ódio.

─ Expelliarmus! – disse livrando-o da varinha. – Incendio! – logo em seguida. Assisti-o queimar e se contorcer de dor antes de lançar o avada kedavra, com meu coração pesando pelo que enfrentaria a seguir.

Ao me virar para encarar o corpo inerte de Linda no chão, soltei um gritinho e senti minhas pernas bambearem... caí ao seu lado e a abracei sentindo as lágrimas vindo.

─ Não... não... – murmurava, pensando que não passava de um pesadelo... logo acordaria... logo Alvo iria me chamar para tomar café e tudo aquilo não teria passado de um terrível pesadelo... – Linda, por favor... por favor, acorde...

Eu mirei o rosto dela, ainda sorria... tão bonita... só podia ser um sonho... minha melhor amiga não podia morrer daquele jeito. Usei minha varinha para conjurar meu patrono e mandar uma mensagem para Alvo e Elifas. Deveria ter esperado... quando Elifas a viu em meus braços, caída... Correu para onde estávamos e me empurrou um pouco para o lado, tomando-a para si. Eu me levantei e abracei Alvo.

─ Oh, não... NÃO! – Elifas urrou apertando o corpo inerte de Linda contra seu peito, num abraço desesperado. – Minha Linda... não... não... minha Linda não... tão bonita... tão boa... Merlin, não...

─ Grindewald mandou Malfoy me pegar, ele descobriu para onde estávamos vindo... Inferi... Linda me salvou! Se eu tivesse aparatado com ela... é culpa minha... desculpe, Elifas... é tudo minha culpa... – disse chorando compulsivamente nos braços de Alvo.

─ Não, Amélia. – cortou Alvo, chorando também. – A culpa não é sua... a culpa... – ele não concluíra, impedido pelo choro. Então, ouvimos passos. – Elifas, temos que ir.

Mas ele não queria sair dali e não parecia que iria soltá-la tão cedo, como se segurando-a ainda teria chance de acordá-la. Por fim, eu me agachei e repousei uma mão caridosa no ombro dele, fazendo com que me fitasse com os olhos vermelhos. Segurou-a no colo e se levantou, aparatando conosco dali. Perenelle nos recebeu quando chegamos... também soltando um gritinho ao ver o corpo de Linda.

─ Coloquem-na aqui. – disse nos guiando para um quarto. Ouvimos Nicolau aparatando lá embaixo e em seguida vários sons de aparatação. – Vou mantê-los lá embaixo por uns momentos... fiquem à vontade.

Elifas parecia estar além desse mundo, olhando para Linda, segurando a mão dela contra seu rosto. Alvo ainda me abraçava pelos ombros e eu não conseguia parar de chorar. Era impossível acreditar que acabara de perder a minha melhor amiga... nunca mais daríamos boas risadas juntas ou provocaríamos nossos maridos com piadas internas que somente nós entendíamos... A pessoa que ficara comigo em realmente todos os momentos de dúvida e provação... morta... e eu não conseguira salvá-la.

O medalhão que eu dera a ela em seu aniversário ainda estava em seu pescoço, observei quando me aproximei para fechar seus olhos. Retirei-o e o abri... lá estávamos nós... sentadas na torre de astronomia, sorrindo para o céu... Solucei alto, chamando a atenção de Eli.

─ Fique com ele. – disse meu amigo com a voz embargada.

─ Não posso... eu o dei a ela. – recusei estendendo o medalhão a ele. Elifas apenas o pegou para recoloca-lo na minha mão, fechando-a entre as suas.

─ Eu me lembro e sei também que nenhuma joia era tão valiosa para a senhora Doge quanto este relicário, Amélia. – insistiu ele reprimindo um soluço. – Acho justo que a joia mais valiosa dela, seja dada de herança para quem ela tinha como a amiga mais valiosa. Fique com ele...

Eu o aceitei entre lágrimas, abrindo-o mais uma vez para admirar aquela lembrança. Alvo se aproximou para coloca-lo no meu pescoço, beijando minha testa depois e beijando a de Linda em seguida.

─ Adeus, Linda Doge... obrigado por ser tudo o que foi. – disse saindo do quarto, provavelmente para falar com Nicolau sobre Grindewald.

Como alguém ainda conseguia pensar na guerra? O mundo acabara... não havia esperança, agora que o melhor ser humano que já vivera estava morto. Nunca haveria ninguém para ocupar o seu lugar... em beleza e grandeza de espírito.

─ Eu sempre achei que ela fosse viver mais, entende? – confessou Elifas cortando o silêncio. – Sempre que conversávamos sobre o que faríamos caso um ou outro morresse primeiro... eu dizia: não precisa se preocupar, senhora Doge, todos sabem que eu já estarei bem longe quando você for. Então, eu nunca fiz planos... nunca pensei no assunto. E agora... eu me sinto realmente perdido, Mélia. O que eu vou fazer sem ela? Linda era... ela era a minha luz.

─ O que todos nós vamos fazer sem ela? – concordei me sentando do outro lado da cama. Elifas chorava como eu nunca o vira fazendo antes. – Nós vamos estar aqui sempre... por você, como estaríamos por ela. Eu prometo que nunca vai estar sozinho, Eli. Somos o trio fantástico agora...

Ele me olhou e assentiu, tornando a fita-la um segundo depois. E assim foi a noite inteira... nenhum de nós jantou ou dormiu. Enquanto isso, a batalha continuava lá fora, mas parecíamos indiferentes a ela pela primeira vez em anos. Na manhã seguinte, Perenelle entrou no quarto para avisar que estava na hora de leva-la... Elifas ainda assim não soltou sua mão.

─ Precisa deixa-la ir, Elifas. – disse Alvo, com a mão no ombro dele.

─ Não consigo. – ele respondeu com um sopro de voz. – Não quero viver sem ela, Alvo...

─ Ela sempre vai estar com você... aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade e sempre podemos encontra-los... aqui. – falou Alvo apontando para o próprio coração. Mais tarde, eu repetiria aquelas palavras para alguém naquele mesmo estado...

Os pais de Linda nos abraçaram no mesmo estado em que Elifas estava no dia anterior. Arthur chegou logo em seguida com a esposa... tão vermelho de chorar quanto o cunhado. A cerimonia levou horas, parece que era costume na família Doyle, dizer algumas palavras antes que encerrassem o caixão. Elifas foi o primeiro e teve grande dificuldade para formar uma frase inteira sem cair no choro, todos o compreendiam. Por fim, ele apenas disse...

─ Acho que todos aqui sabem quem minha Linda foi... e se eu pudesse ter dito alguma coisa a ela antes de... seria obrigado. Obrigado por aceitar fazer daquele desengonçado jovem, com marcas de varíola de dragão, o homem mais feliz do mundo. – concluiu voltando ao seu lugar. Seu olhar repousou em mim, assim como o de Arthur.

─ Eu... eu realmente não sei o que dizer... Acho que Elifas roubou as minhas palavras. Se teve algo que eu aprendi com Linda Doge foi que nunca se deve desistir de uma causa, mesmo que ela seja completamente maluca. Ela nunca deixou de lutar... fosse por seus amigos ou pela sua família... Então, sim, obrigada, Linda Doge... por ser o melhor exemplo e a melhor amiga que eu jamais poderia esperar merecer. – disse caindo no choro, sendo socorrida por Alvo. Arthur foi o último a falar e eu não pude deixar de sorrir quando ele a chamou de irmãzinha...

O caixão foi encerrado com uma chuva de faíscas em prata, uma das cores da corvinal... como ela gostaria que fosse, segundo seu pai. Uma corvina linda e corajosa até o fim...

─ Escolha as palavras, Mélia. – pediu Elifas me entregando sua varinha. – Dora disse que eu deveria escrevê-las, mas... você tem mais talento para isso do que eu.

Aceitei a varinha meio indecisa, olhando de Alvo para a família de Linda. Nenhum deles pareceu se interpor e então eu fiz a gravação.

Linda Doyle Doge

1881 – 1944

A morte que sugou todo o mel do teu doce hálito, não teve efeito nenhum sobre tua beleza.