Capítulo 48

A vida seguiu em frente, mas não da maneira como esperávamos, é claro. Depois da morte de Linda, era raro encontrarmos Elifas nas reuniões na casa dos Flamel... se quiséssemos vê-lo, teríamos que aparecer em seu chalé em Somerset. E mesmo lá, o clima era estranho. Os retratos de Linda foram retirados e nosso amigo abdicara de sua aliança, segundo ele, para evitar ter que responder perguntas de estranhos. Preferiria acessar suas lembranças sobre Linda por conta própria e não sempre que alguém lhe interrogasse sobre seu passado. Para concluir sua reclusão, ele adiantou seu pedido de aposentadoria, coisa que não pretendia fazer até não ter mais mente para o trabalho.

Sendo assim, Alvo e eu passamos a compor uma dupla para a Brigada de Loucos. A guerra seguia, já deixando uma grande quantidade de mortos para a prosperidade. Além de Linda, também perdemos Arabella dos nossos... na noite de seu memorial, puxei Alvo para um canto e disse que aquilo precisava acabar. Eu sabia que se pegássemos Grindewald, as forças de Hitler se enfraqueceriam... não consigo explicar como, mas sabia. Estava esperando que ele tomasse a frente naquela decisão e fosse atrás de Gerardo sozinho, mas, a ideia parecia assustá-lo. Tudo o que o remetia ao seu passado, à morte de seus pais e Ariana, a briga com Abeforth, o assustava.

Ao ser questionado por mim sobre a razão daquele medo, Alvo respondeu que não tinha certeza se seria ou não capaz de mata-lo. Eu não retruquei sua resposta, apenas abaixei a cabeça e engoli o orgulho. Depois de todo aquele tempo, de tudo o que passamos por causa de Grindewald, Alvo ainda sentia alguma coisa por ele... não sei o que... talvez se lembrasse do adolescente brilhante que conhecera e o fizera se esquecer de como estava sozinho em Godric's Hollow, incapaz de utilizar sua mente brilhante... O caso era que ele era a única pessoa que poderia pará-lo. Era um duelista brilhante e um grande mago. O fim da guerra dependia dele...

─ Eu entendo. – disse à contragosto, me sentando no parapeito da janela da sala onde estávamos. – Mas você também precisa entender que o rapaz que você conheceu naquele ano não existe mais. O gênio que você amou se transformou num monstro, Alvo... e vai destruir todos nós, se você não fizer alguma coisa. – ponderei sendo um pouco mais dura do que pretendia ser.

O deixei sozinho para pensar no assunto e fui falar com Nicolau. Conseguimos salvar muitas famílias, mas ainda assim não foi suficiente... quantos? Setenta milhões de mortos... e entre eles vários pais que nunca mais veriam suas esposas e seus filhos, idosos que não mereciam mortes tão brutais, judeus e ciganos que não fizeram absolutamente nada para merecer o ódio dos alemães. E quando tudo acabasse, aqueles que sobreviveram seguiriam em frente como tia Sarah me ensinara, como se nada tivesse acontecido... se tem algo que me impressiona nos seres humanos, é a facilidade com que se esquecem do passado.

─ Você vem comigo? – indagou Alvo, horas mais tarde. Eu apenas arqueei as sobrancelhas, confusa. – Ora, se vou enfrentar Grindewald, vou precisar da presidente do meu fã clube ao meu lado. – explicou ele tentando soar divertido. Eu sorri.

─ Como se eu fosse deixar você ir sozinho de qualquer jeito. – respondi dando um soquinho no ombro dele.

Então um encontro foi marcado. Alvo mandou uma coruja para encontrar Grindewald, já que não estava disposto a arriscar Fawkes, e a resposta voltou no mesmo dia. Os dois se encontrariam no castelo de Wartburg, em Eisenach, uma cidade Alemã à beira mar onde se localizava a prisão de Nurmengard, que deveria ser utilizada para prender os inimigos dele. Nicolau deixaria os aurores avisados para permanecerem nas proximidades da cidade, para quando tudo acabasse e fossem pegar Gerardo, coloca-lo em Azkaban... o que acabou não acontecendo. Helmut os acompanharia.

Aparatamos no portão de Wartburg com o sol de pondo, o vento estava frio para Primavera. Respiramos fundo antes de abrirmos o portão, tudo muito quieto. Atravessamos o jardim... parecia uma grande selva e o fato do castelo se localizar quase no meio de uma floresta não ajudava muito para que exalássemos confiança. Apenas a luz tenra das velas iluminava o hall quando entramos. Alvo me acenava para que fizesse silêncio, como se eu tivesse vários comentários inteligentes a fazer sobre a decoração horrível.

─ Grindewald! – chamou Alvo ao pé da escada.

De repente, eu comecei a sentir muito frio e minhas pernas a tremer. Assustada, puxei minha varinha instintivamente. Olhava para os lados, buscando encontrar a fonte para tanto frio... foi então que uma ideia me ocorreu, mas antes que eu pudesse olhar para cima, uma voz soou nas sombras.

─ Boa noite, Alvo. – cumprimentou a voz macia de Gerardo Grindewald. Era da mesma altura de Alvo, mas suas feições eram menos bondosas e mais sinistras. Descia as escadas vagarosamente, como um anfitrião recebendo seus convidados mais ilustres. – É bom vê-lo.

─ Eu gostaria que fosse em circunstâncias mais felizes, Gerardo. – retrucou Alvo polidamente, com a varinha em mãos. Grindewald ainda sorria, mostrando os dentes amarelados.

─ Que circunstância seria mais feliz do que a iminência da minha revolução? É claro que você deve ter vindo para me parabenizar, velho amigo. – disse ele descendo mais um vão de escadas.

─ É verdade, então? Você tem a varinha das varinhas? – indagou Alvo, nervoso. Eram somente boatos, mas ele nunca me falara de suas suspeitas. O frio que eu sentia estava começando a aumentar e eu torcia para que a minha suposição não fosse verdadeira e para que aquilo acabasse de uma vez.

─ Sim, já faz um tempo... Tudo com o que sempre sonhamos... – respondeu ele revelando a varinha de dentro de suas vestes. – Alvo, não era para ela ter...

─ Não se trata mais somente de Ariana, Gerardo! – exclamou Alvo, friamente. Sua aura de poder começava a envolvê-lo.

─ Sim, se trata de algo muito maior! – concordou Grindewald, agitado. – Pense nisso, meu amigo, o bem maior!

─ Alvo! – exclamei sem querer, mas uma mecha do meu cabelo acabara de congelar. Pela primeira vez, nosso anfitrião pareceu notar minha presença ali.

─ Ah, sim... ele trouxe a famosa senhora Amélia Preminger, mas que honra! – disse ele fazendo uma profunda reverência. – Faz um tempinho que queria conhece-la, mas depois do fracasso que foi a tentativa de trazê-la... resolvi esperar por uma visita; a senhora demorou. É claro, deve ter ficado com medo depois do que aconteceu com a sua amiga...

─ Não ouse... – adverti apontando a varinha para ele.

─ Deixe-a em paz, Gerardo! – interpôs Alvo. – Isso é entre nós dois!

─ É mesmo? Então por que ela está aqui? – perguntou Grindewald com sua voz macia, agora soando ameaçadora. Alvo não respondeu, mas eu vi que suas mãos tremeram. – Ah, entendo. – assentiu Gerardo terminando de descer as escadas. – Bem, não precisa ser assim, meu amigo. Nós dois ainda podemos ser os senhores do mundo. Pense, Alvo, eu estou com a varinha das varinhas, não há como você ou qualquer outro bruxo me derrotar. Mas podemos achar as outras relíquias, Dumbledore e Grindewald, senhores da morte! Ninguém precisa sair machucado... – dizia ele bem próximo do meu amigo.

─ E quanto aos trouxas e aos bruxos que morreram? E os que você ainda pretende subjugar ao seu poder? Eles não serão machucados? – desdenhou Alvo, sem olhá-lo.

─ Não me diga que se afeiçoou a eles! – riu Gerardo, dando as costas para Dumbledore, se aproximando de mim. – Aqueles que o reduziram a nada... Ora, você é brilhante, Alvo! Merece algo melhor do que ser o diretor de uma escolinha de magia. Não pode ter mudado tanto assim... Você sempre quis o poder!

Houve um momento de silêncio, o frio já estava se tornando insuportável pela sala inteira e a luz das velas começava a diminuir mais ainda. Minha varinha ainda estava em mãos e eu a apontei para Grindewald quando ele se aproximou de mim, tomando meu rosto entre os dedos, me fazendo encará-lo. Seus olhos eram azuis, mas muito frios, não eram como os de Alvo. Ele sorria para mim como se eu fosse sua presa... só queria sair correndo dali.

─ Tem razão, meu amigo. Eu não mudei tanto assim. – Alvo finalmente disse. – Mas, por mais que uma parcela de mim ainda queira o poder, jamais correria o risco de perder mais pessoas que amo por ele. Eu aprendi a minha lição, Gerardo. Agora, por favor, se afaste dela. – disse apontando a varinha para ele.

Grindewald sorriu ao soltar meu rosto.

─ Resposta errada. – falou, fazendo com que as velas se reacendessem e uma enorme orla de dementadores surgisse do teto. Eu estava certa... e antes que pudesse conjurar o patrono, um deles me tomou pelo pescoço... fazendo com que eu deixasse minha varinha cair... e começou a sugar as minhas lembranças felizes.

Eu fiz força para tentar me soltar, mas então a visão da morte de Linda passando pela minha cabeça me congelou. A notícia da morte de Marius, a vez em que Alvo me expulsou do funeral de Ariana, a primeira vez em que Sirius me estuprou, o rosto da velhinha que não consegui salvar... cada parte da minha vida, em cada idade... tentei pensar em coisas felizes, mas por um momento foi como se elas nunca tivessem existido. Só havia infelicidade na minha vida... nenhuma alegria... Então eu caí no chão, tremendo de frio. Uma enorme fênix afastando os dementadores. Alvo me salvara e Grindewald logo atrás se preparava para acertá-lo em cheio.

Sentindo um peso incrível sobre meu corpo, estiquei meu braço para alcançar minha varinha e me ajoelhei, mirando nas costas de Gerardo, acertando-o em cheio... mas não com força o suficiente para desacordá-lo. Estava me sentindo muito fraca e minha magia refletia isso...

─ Como se sente por ser apenas o prêmio de consolação, querida? – indagou ele de onde estava, conjurando uma tempestade de fogo para me acertar... E então um jato vermelho muito forte o acertou.

Alvo espantara os dementadores e agora estava pronto para acabar com aquilo de vez. Grindewald sorriu de lado, fez uma reverência e conjurou um jato vermelho contra Alvo, que defendeu com apenas um aceno de varinha. Eu busquei me levantar, mas não conseguia... tinha ficado tempo demais sob efeito dos dementadores. Ambos se defendiam com maestria dos feitiços, e eu não lembro de ter visto Alvo fazer tantas maravilhas com sua varinha... Cada feitiço era uma obra de arte... e cacos do castelo caíam pelos jatos perdidos.

De repente, ouvi um canto harmonioso do lado de fora... era Fawkes. Alvo também ouviu e continuou a atacar com energia, enquanto eu mesma sentia minhas forças voltando... ela estava usando o canto de cura. Sorri para a janela quando consegui me levantar para vê-la do lado de fora. Então, um grito de Alvo irrompeu de dentro da casa... Grindewald o acertara com uma cruciatus. Sem pensar, tornei a apontar a varinha para ele e o afastei com uma rajada de vento, correndo para Alvo em seguida.

─ Você está bem. – disse ele sorrindo ao me ver inteira. – Preciso de uma distração. – acrescentou rapidamente, em seguida.

─ Deixa comigo. – falei correndo para o outro canto da sala.

Quando Gerardo voltou, estava com a varinha apontada para Alvo... Com um movimento brusco dos braços, quebrei os vidros das janelas e lancei os cacos contra ele...

─ Voldemort usou isso contra nós uma vez. – comentou Harry, pensativo e ao mesmo tempo impressionado.

─ Não interrompe, cara! Continua, Gina! – pediu Rony, empolgado.

Vários cortes foram feitos antes que ele pudesse transformar o resto em neve... Então, ouvi um som... água... Havia fontes de água do lado de fora no jardim. Antes que eu tivesse uma ideia brilhante, Alvo se adiantou e envolveu Grindewald em uma bola de água gigante...

E Dumbledore usou isso contra Voldemort! – exclamou Harry.

─ Harry Potter, eu vou tapar sua boca! – urrou Rony, batendo nele com uma almofada do sofá.

─ Amélia! – chamou Alvo, olhando de Grindewald para a minha varinha. Eu acenei positivamente e com um aceno, tomei o controle da bola de água para mim, diminuindo o espaço dentro dela, só para ver o rosto de Gerardo se contorcer mais. Alvo, então, o jogou contra a parede e o desarmou.

─ Petrificus totalus! – urrei antes que ele pudesse ir atrás da varinha.

Grindewald caiu em meio a um grito de frustração. Mantive minha varinha apontada para ele enquanto Alvo mandava uma mensagem com o patrono para Helmut. Segundos depois, ele aparatou com o grupo de aurores. Todos parabenizando Alvo, que agradecia com pouco caso... antes que ele pudesse falar alguma coisa a meu respeito, acenei lentamente que não com a cabeça e ele sorriu. O crédito deveria ser todo dele... salvara minha vida e a de milhares de bruxos.

Bem, vamos levá-lo para Azkaban. – disse Alastor.

Não... ele precisa ficar longe de outros bruxos das trevas. – interveio Alvo.

Nurmengard? – sugeri acariciando as penas de Fawkes que entrara na casa e repousara no chão. Alastor concordou e o levou com o resto dos aurores.

─ Nos vemos na casa de Flamel, estou louco para ver a cara deles! – disse Helmut, se despedindo antes de aparatar. Ficamos sozinhos.

─ O que vai fazer com ela? – disse entregando a varinha das varinhas a ele.

─ Bem, como derrotei seu dono anterior, a lealdade dela se volta para mim...

─ Vai ficar com ela então? – perguntei mirando a varinha das varinhas.

─ Acho que ela estará segura comigo... afinal, não vou sair comprando briga por aí ou tentar matar milhões de trouxas com ela... – ele respondeu simplesmente. Eu sorri e o abracei com força.

─ Obrigada por me salvar... quando... – ele me interrompeu com um beijo.

─ Eu não suportaria perder você. O senhor Gênio precisa da sua Mélia, esqueceu? – indagou Alvo, sorrindo abertamente. Eu deixei uma lágrima escapar pelo olho direito, acariciando o rosto dele antes de tornar a beijá-lo.

Mais tarde, na casa de Nicolau, comemoramos em grande estilo... ainda precisávamos esperar o fim da guerra trouxa, mas saber que Grindewald não estava mais na ativa já era um grande conforto para todo o mundo mágico. Mesmo Elifas compareceu e sorria com empolgação. Ao final da festa, encontrei Alvo parado na sala de estar, algumas lágrimas escorrendo por seu rosto. Deixei minha taça de vinho de lado e me aproximei silenciosamente.

─ Eu sei que é difícil para você... afinal, você o amou um dia. Mas, quero que saiba... como sua melhor amiga e diretora do seu fã clube... estou orgulhosa. – disse fazendo-o rir.

─ Eu jamais teria conseguido sem você. – admitiu ele. – Queria que me deixasse te dar um pouco do crédito.

─ Ah, eu já tenho um retrato na parede da fama do Ministério, estou quase me aposentando e deixando muitos rostinhos tristes para trás... não preciso de mais crédito do que isso. – falei dando de ombros.

─ Obrigado, Amélia. – disse ele brandamente.

─ Acha que vai entrar para a história? Quer dizer, os grandes sempre acabam nos livros. Imagino um capítulo inteiro sobre como Dumbledore derrotou o terrível Grindewald e devolveu a paz aos bruxos. – comentei depois de um curto silêncio.

─ Eu prefiro os sapos de chocolate. – retrucou ele sorrindo para mim, e não pude deixar de rir. É claro, existem páginas em livros dedicadas ao seu feito até hoje... mas para o meu Alvo, seu maior feito sempre foi terminar nas figurinhas dos sapos de chocolate.