Capítulo 49
Existem certas lembranças que não dizem respeito a Alvo, mas que mesmo assim acho que têm total relevância em serem registradas aqui. A aproximação da velhice extrema faz com que reflitamos sobre momentos que gostaríamos terem sido diferentes. Se a vida fosse mais fácil se, por um momento, tivéssemos deixado o orgulho de lado e apenas olhado para o momento... afinal, as pessoas podem ser mais do que aquilo que demonstram diariamente. Foi o que gostaria de ter pensado no dia do funeral de tia Sarah.
Diferente de todas as outras notícias de morte que recebi, essa não me fez cair aos prantos ou sentir como se o chão sob mim desaparecesse de repente. Eu apenas olhei para Cora e sorri tristemente de lado, pensando em como Colin deveria estar arrasado. Ele amava a mãe e a tivera ao seu lado por quase toda a sua vida. Tia Sarah viveu até os cento e vinte e dois anos, uma boa média para os Preminger. Falecera durante o sono, em 17 de Abril de 1975. Só registrei isso naquele momento... enquanto Cornélia derramava algumas lágrimas em meus braços.
Por mais que tivesse nos criado desde a morte de papai e mamãe, Sarah Preminger estava longe de ser a mãe ideal. Ela jamais nos dava beijos quando caíamos e nos machucávamos, apenas cuidava do machucado, ralhando a respeito de nossa inconsequência e nos deixava para que repousássemos. Objetiva... era uma boa palavra para descrevê-la enquanto mãe. Colin, no entanto, não parecera ter sofrido muito com isso... sempre foi um rapaz maravilhoso. Quanto ao relacionamento dela com os outros parentes, nunca dei tanta atenção depois de crescida, mas, quando ainda estava em meus nove anos, observava que ela não era odiada... mas não era a favorita tão pouco.
O que sempre me divertiu foi o medo respeitoso que sentia por vovô Archie, seu pai. Esse sim chorou a morte de sua única filha. Sentamos, Cora, Edmundo, Colin e eu ao seu lado na fila da frente. Eu me senti incomodada ali... todos choraram durante a cerimônia, menos eu. Eu não estava tão triste quanto poderia estar e isso era o que me deixava triste. Afinal, o que aquela altura eu sentia por tia Sarah? Sua teimosia em querer respeitar as tradições bruxas fora o maior motivo para as minhas lembranças infelizes. Eu poderia lamentar... como todos lamentamos a morte, mas não poderia dizer que sentiria sua falta.
Embora houvéssemos tido nossos momentos, como no dia em que descobri sobre a morte de papai e mamãe e ela me consolara na sala de música, eles soavam muito pequenos... muito distantes para me fazer esquecer tantas discussões. Ao final da cerimônia, apenas vovô Archie e eu ficamos para trás, ainda encarando o caixão. Eu ainda buscava uma forma de conseguir chorar a morte dela, mas em vão. Então, senti a mão de Edmundo em meu ombro... ele e Cora também permaneceram ali. Engraçado como falo mais de Cora do que de Edmundo. Eu o amava e era recíproco, mas ele sempre pareceu viver a sua própria aventura enquanto membro da nossa família. Seus olhos estavam vermelhos, como os de minha irmã...
─ Vou falar com vovô Archie que tia Olímpia foi embora. – disse Cora, me deixando a sós com meu irmãozinho. Ele mirava o túmulo ternamente.
─ Sabe, Amélia... eu não me lembro de como era a mamãe... sempre que tento pensar nela, agora, o rosto da tia Sarah é o único que eu consigo ver. – confessou secando uma lágrima. Não pude deixar de sorrir carinhosamente a isso. Era verdade. Nenhum dos meus irmãos possuiriam tantas memórias vivas sobre nossos pais quanto eu. Para eles, mamãe e papai sempre se resumiram a uma pessoa... tia Sarah.
─ Tenho certeza de que ela o amava muito. – disse dando um beijo na bochecha do meu irmãozinho.
─ Ela amou aos três. – vovô Archie corrigiu, apoiando-se em mim.
─ Não tenho tanta certeza. – murmurei enquanto meus irmãos se afastavam para ficar com Colin e o resto da família. vovô Archie riu.
─ Não a julgue tão severamente, Amélia. – falou ainda risonho. – Sempre as achei muito parecidas. – comentou.
─ Parecidas?! – exclamei furiosa. – Ela parecia ser feita de pedra! Nada a abalava, por mais que eu gritasse e dissesse o que pensava a seu respeito, ela nunca fez uma única demonstração de que estava disposta a mudar! Contudo, dispunha-se a me lembrar do quanto eu não era apropriada... do quanto não era parecida com Cora!
─ Já se olhou no espelho, Amélia? – indagou vovô Archie brandamente. Eu pisquei várias vezes antes de acenar que sim, hesitante. – E com quem, entre seus pais, é mais parecida?
─ Como ela sempre gostava de me lembrar, com meu pai... de Colette só puxara a teimosia. – respondi remedando a voz dela ao final.
─ Só gostaria de lembra-la que não foi somente um pai que se perdeu naquela noite. Ela perdeu o irmão mais velho... e o melhor amigo. – continuou vovô Archie, me fazendo encará-lo com as sobrancelhas arqueadas. – Sua tia nunca diria a você, mas ela chorou muito comigo quando lhe contei que seu pai havia morrido. Eles eram muito próximos... eu lamento muito tudo pelo que a fiz passar em prol da nossa família. O casamento arranjado e tudo o mais. Seu pai era o único conforto que ela possuía antes de Colin nascer... perde-lo foi a gota d'água. Minha garotinha nunca mais foi a mesma... a voz que antes soltava as melhores piadas e gargalhadas, endureceu. E ter que olhar para você, tão parecida com seu pai...
─ Isso não justifica nada! – exclamei, chorando. – Ela podia olhar para mim e ver o papai, mas não era ele quem ela via sempre que eu abria a boca... Ela odiava a minha mãe porque achava que ela foi a razão da morte dele! E me odiava porque eu era tão parecida com ela!
─ Está certa disso, criança? – indagou vovô Archie, ainda calmo. – Ela se ofereceu para cuidar de você, sem esperar nada em troca. Pagou ao amigo de Colin para cuidar do seu caso uma quantia exorbitante, para que você só tivesse que pagar o que considerava justo. Achou uma boa família para a sua filha e cuidou para que ela tivesse o melhor contato possível com o mundo da magia, mesmo sabendo de todo o desdém que você sentia por ela. Isso são atitudes de alguém que odeia um membro da família? – inquiriu ele, em tom reflexivo.
─ Ela nunca disse... ela nunca disse que me amava... – murmurei reprimindo as lágrimas.
─ Sarah era uma mulher machucada, querida. Ela desaprendeu a amar depois de todos os maus tratos que sofreu nas mãos de Selwyn. E perdeu o único que ainda poderia salvá-la...
─ O senhor...
─ Eu nunca fui tão caloroso com meus filhos como sou com meus netos... coisas de avós, acho. Sua avó, sim, era amorosa, mas tinha uma condição de saúde tão delicada... Não foi a figura mais presente. – as lágrimas voltavam a cair dos olhos de vovô Archie. – Ela era forte, assim como você, querida. Eu acredito muito no quanto vocês são parecidas... e em como você também seria uma mulher machucada se não fossem os seus amigos.
─ Tia Sarah não tinha amigos? – perguntei sem nenhum desdém.
─ Ela não viveu a sua época. Trouxas, mestiços e sangues puros não se relacionavam com tanta abertura como hoje. E sangues puros nunca são amigos somente pelo valor da amizade... a possibilidade de troca de favores na época era muito grande... digamos que sua tia odiava a todos eles. Mas se teve algo que ela amou foi a sua família, e ela era capaz de tudo... até sacrificar a própria felicidade por ela.
Eu sorri, bastante consciente disso. Então as lágrimas finalmente vieram e eu percebi que sentiria falta de Tia Sarah. Compreendia um pouco melhor o que vovô Archie queria dizer ao afirmar o quanto éramos parecidas. Duas pessoas machucadas que poderiam ter se consertado juntas... se ambas não fossem tão orgulhosas. Eu poderia me lembrar muito bem da minha mãe... mas ao longo da vida, eu chamei o nome de Tia Sarah mais vezes do que chamei o de Colette Preminger... e mesmo que à contragosto ou com o rosto inexpressivo, ela nunca deixava de responder. Edmundo tinha razão, afinal de contas.
─ Já podemos colocar as palavras? – indagou o coveiro.
─ Ah sim. – concordou meu avô, ditando as palavras para o homem gravar no mármore. – Bem, vamos Amélia?
─ Em um minuto. – respondi sem olhar para ele. Esperei até ficar sozinha para retirar a varinha de dentro da capa e sem que ninguém visse, adicionei as minhas próprias palavras. "Eu aprendi... que debaixo da "casca grossa" existe uma pessoa que deseja ser apreciada, compreendida e amada." – Fique em paz... adeus, tia Sarah. – e sai dali.
─ Meninos, venham comer alguma coisa! – chamou a senhora Weasley, da cozinha.
─ Vamos... – chamou Hermione, tirando o diário das mãos de Rony. – Ronald, você está chorando?! – exclamou a morena.
─ O que? Claro que não! – negou o ruivo levantando-se num salto, saindo em disparada para a cozinha, escondendo os olhos lacrimosos. Hermione riu com Gina, enquanto Harry ficava para trás pensando no retrato arrependido de Sarah Preminger na mansão Preminger.
Era uma bela tarde de Sábado e as aulas haviam apenas terminado. Hermione estava mais tristonha do que tudo por ter deixado a escola. Contava como se despedira da professora McGonagall e de que como ela afirmara jamais ter tido uma aluna que a deixara tão orgulhosa da profissão que escolhera. Rony, ainda assim, conseguia pensar num insulto ou dois para a velha professora de Transfiguração, o que gerou uma discussão na mesa. Depois do lanche rápido, voltaram para a sala.
─ Minha vez! – exclamou Gina, tomando o diário das mãos do irmão. – Ela começa a comentar a primeira guerra bruxa... a primeira vez que você sabe quem apareceu. – observou a ruiva, animada. – Talvez ela tenha conhecido seus pais, Harry!
─ Nesse caso, vai lá! – incentivou Harry, sorrindo.
Bem, depois da ameaça de Grindewald, todos acreditavam que nada mais surgiria para interromper a paz pela qual passávamos. Todos, exceto Alvo... ele vinha comentando sobre os avanços de um dos seus antigos alunos. Tom Riddle. O mundo nunca mais o conheceria por esse nome, é claro. Eu achara que havíamos passado por um período de trevas... mas nada me prepara para aquilo. Lord Voldemort, como assim se denominara o pequeno psicopata, era pior do que qualquer outro. Contudo, é claro que ninguém se preocupava... pois o nobre Alvo Dumbledore salvaria o dia novamente...
─ Eles não podem esperar que a cada vez que um lunático surgir das trevas, você deverá abandonar tudo para encontrar uma maneira de derrota-lo! – exclamei quando ele apareceu em meu apartamento em Londres para me contar que mais uma vez, precisávamos permanecer afastados.
─ Mas esperam... e eu também não posso ficar sentado esperando que o Ministério tome providências. Afinal, funcionou tão bem daquela vez... Ouça, Mélia, eu não quero discutir. – disse Alvo.
– Eu não quero discutir, mas se as coisas vão ser diferentes, eu preciso saber. – respondi, cansada. Ele fitou significativamente. Nada mudaria, dizia aquele olhar, só não seríamos mais um casal pelos bastidores. – Nós não fizemos isso daquela vez! Por que agora?! – perguntei revoltada.
─ Grindewald não é Voldemort, Amélia! – insistiu ele, cansado. – Eu não teria nenhuma serventia para ele vivo e quanto mais oportunidades ele tiver para chegar a mim...
─ Eu sei me cuidar muito bem, obrigada! Não serão noventa e nove anos nas costas que me farão cair nas mãos de um psicopata! – bati o pé, cruzando os braços.
─ Acha que é fácil para mim ter que pedir isso a você?! – exclamou ele já perdendo a paciência.
─ Talvez, porque não estou vendo qualquer sinal de hesitação em você! – retruquei desdenhosa, fazendo Alvo bufar de raiva. – Eles precisam aprender a resolver seus problemas sozinhos...
─ Não são os problemas deles, são os nossos problemas, Amélia! A ameaça de Voldemort não é melhor do que a de Grindewald! Deus, como pode ser tão possessiva?! Tão egoísta?! Essa não é você...
─ Possessiva?! – repeti com a voz trêmula, sentindo a pressão subir. – Eu suportei todas as condições que você impôs ao nosso casamento! Eu vivi metade da minha vida sem você por perto o tempo todo para que ouse me chamar de possessiva! – disse na defensiva. – Somos dois dos maiores duelistas que Hogwarts produziu! Por que deveríamos temer um bruxo metido a lord de alguma coisa?!
─ Eu poderia ter perdido você naquela noite... os dementadores poderiam ter matado você. – lembrou Alvo, cansado.
─ Mas não perdeu. – rebati, lembrando-o também.
─ Não perdi. Mas, não posso correr esse risco novamente... eu não tenho o mesmo coração de vinte anos atrás, Mélia. Não, minha decisão é final! – concluiu ele, decidido.
─ Muito bem! Então, vá! Salve o mundo! – disse entre dentes, empurrando-o para fora.
─ Posso contar com você? – indagou ele atrás da porta.
─ Apenas saia daqui, Alvo Dumbledore! – gritei batendo a mão na porta, bufando.
─ Sempre será a minha senhora Dumbledore, Amélia. Desculpe... – e se foi.
Quando o momento chegou, eu me juntei a Ordem da Fênix com Alastor e Elifas. Era sempre bom ver o velho Eli... não mais tão espirituoso desde a morte de sua amada esposa, mas ainda assim o meu Eli. Fiquei impressionada com a quantidade de ex-alunos que haviam entre eles... e dentre esses ex-alunos, um dos descendentes de meu primeiro marido. Sirius Black... foi uma grande alegria para mim poder constatar que o tetraneto não era nada parecido com o avô. Muito pelo contrário, Sirius era o único Black que eu teria em alta conta por toda a minha história com a família. Vivíamos fazendo piadas com Tiago Potter pelos cantos... Ah, os Potter... Foi um choque saber da morte deles, ainda maior quando soube que o pequeno sobrevivera.
Lembro-me de como conheci Lilian Potter. Meu primeiro dia como membro da Ordem da fênix, estava quieta na reunião já que meus dois conhecidos sentaram-se do outro lado da mesa para comentar avanços com Alvo. Ela conversava animadamente com Alice Longbotton, outra bruxa maravilhosa com um destino terrível, sobre os preparativos para seu casamento com Tiago. E eu não contive uma risada quando Alice sugeriu que prendessem Potter para que ele não sumisse com Sirius uma noite antes do grande dia.
─ Pelo que sei ele teve tanto trabalho para conquista-la, se Sirius sumir com ele, Tiago sumirá com Sirius por ter destruído suas chances de ficar com o... como ele disse... lírio dele. – comentei risonha. Lilian retribuiu o sorriso.
─ Sim, consigo imaginar isso. – concordou ela. – Não fomos apresentadas...
─ Amélia Preminger. – respondi com um leve aceno de cabeça.
─ Como conheceu meu marido, senhora Preminger? – perguntou ela curiosa.
─ Os Potter possuem uma longa relação com a minha família... pode-se dizer que sou tia-avó de Tiago devido ao casamento de minha irmã. – expliquei simplesmente.
─ Oh, então deixei-me anotar isso para não esquecer de convidá-la para a festa. – apressou-se Lilian... era impressionante como suas maneiras me lembravam as de Linda. Acho que foi isso o que me fez gostar tanto dela... e lamentar tanto a sua morte. Aquela altura, já estava acostumada com a grande verdade da vida... os bons sempre partem mais cedo... e muitas vezes, o bem que fizeram não é suficiente para mudar o mundo. No caso de Lilian Potter, espero que esteja errada.
─ Com certeza ela está se referindo a você, Harry. – comentou Hermione, quando Gina terminou de ler.
O garoto assentiu. O carinho que estava desenvolvendo por Amélia Preminger ao longo da leitura aumentou quando ele viu que ela também gostava de Sirius tanto quanto ele... De repente, imaginou-a junto aos marotos, contando as mais variadas histórias sobre a Hogwarts de seus tempos. E poder ver alguns dos momentos de sua mãe em vida alegrou seu coração. Foi então que reparou que o diário estava chegando ao fim...
─ Posso continuar daqui, Gina? – pediu ele esticando as mãos para a namorada.
Ela assentiu.
