Capítulo 50

Depois de todo aquele período em que guerras eclodiam constantemente, parecia que não faltava mais nada em minha vida a não ser esperar. Esperar pela notícia da morte de todos os meus conhecidos, pela minha própria... foi a minha maldição, sobreviver. Com o tempo acabei me acostumando a ela, como me acostumei a receber cartas fúnebres. Marius, Linda, tia Sarah, Cora, Edmundo... tantos nomes a serem listados no meu caderninho de "mortes as quais vivi para ver". Uma delas, no entanto, não me causou tanto pesar quanto gostaria, a de Nicolau e Perenelle.

Grandes amigos, grandes pessoas e é claro que devia grande parte da minha felicidade a eles, mas, ainda assim. Uma lágrima caiu ao ler a carta e ao mesmo tempo um sorriso se formou em meus lábios. Talvez em 110 anos finalmente tenha aprendido que as pessoas precisam morrer num determinado momento e que nenhuma mágica pode trazê-los de volta. Nicolau e Perenelle teriam o elixir da vida sempre que quisessem, poderiam ser imortais, mas preferiram a morte. Essa escolha, talvez, tenha feito tudo mais aceitável, pois nenhum dos outros tivera tal chance.

Muitas pessoas compareceram ao enterro. Entre elas, Alvo, Elifas e eu. Sentei-me ao lado do senhor Gênio, como era de praxe e permaneci em silêncio ouvindo as palavras do cerimonialista. O costume fez com que enquanto as palavras eram ditas, várias flashs de lembranças percorressem minha mente. Lá estavam Nicolau e Perenelle quando os conheci, quando me casei com Alvo, nas reuniões da Brigada, nos jantares, nas festas... Pareceu-me estranho, lembro-me de ter pensado, que nunca os tenha visto chorando por pura tristeza. Vira-os preocupados e abatidos, mas nunca aos prantos. Provavelmente sentiam, devido a tanto tempo nesta terra, o mesmo que eu senti naquele dia.

Aceitação.

Eu não chorei ao jogar as flores sobre os caixões, como fizera das outras vezes. Não, daquela vez eu apenas beijei os dois botões de rosa que levara de meu jardim e murmurei um saudoso adeus, sorrindo para as lápides à minha frente. Eles ficariam bem... estariam bem com aquilo tudo e sendo as duas pessoas mais propensas a uma festa que já conhecera desde meus amados groupies franceses, não esperariam por muitas lágrimas. Prefeririam os risos pelas memórias felizes que deixaram para trás.

Alvo ainda estava sentado com Elifas, conversavam. Me aproximei calmamente e parei apenas alguns metros de distância, o que Eli entendeu como uma deixa.

─ Bem, acho que já vou voltar para o chalé. – disse levantando-se da cadeira em que estivera sentado desde o início da cerimônia. – Se cuidem, vocês dois. – despediu-se, aparatando em seguida.

─ É... – suspirei minutos depois, me sentando ao lado de Alvo, quebrando o silêncio. – Você falou com Nicolau antes de...? – perguntei.

─ Oh sim... – assentiu Alvo, um pouco desconfortável. – Concordamos que seria melhor destruir a pedra caso... houvessem novas tentativas por parte de Lord Voldemort de obtê-la. – explicou.

─ Não consigo acreditar que ele realmente esteja vivo. – falei cansada. – Quer dizer, nunca acreditei que tivéssemos realmente nos livrado dele, mas... eu me conformei em agarrar a esperança. Por todo lado todos diziam que sim, que ele estava morto... E então isso. Vai dizer a alguém? – indaguei preocupada. Alvo riu.

─ Já dizem que estou começando a caducar, o que mais diriam se eu saísse por aí espalhando que Voldemort se uniu ao corpo de Quirrell para tentar conseguir a pedra filosofal? – ponderou ele vivamente.

─ Seria muita hipocrisia deles... depois de tudo o que você fez! Caduco... a última pessoa nesta terra que irá caducar pela velhice é você! – retruquei em sua defesa. Ele apertou minha mão carinhosamente.

─ Não acho que seja imune aos efeitos da idade como afirma, Mélia, mas... obrigado. É sempre bom saber que ainda tenho boas pessoas do meu lado. – ponderou ele agradecido.

─ Já se esqueceu? Eu fundei o seu fã-clube. – brinquei, fazendo-o rir outra vez. – Quanto tempo faz? – inquiri.

─ Onze anos. – ele respondeu simplesmente.

─ Nossa. – comentei sem conter uma risada. – Acho que nunca ficamos tanto tempo sem nos falar...

─ E está sendo tão natural quanto daquela vez em que você foi me visitar em Hogwarts. – observou Alvo, me fazendo sorrir.

─ Verdade seja dita, somos muito amigos. – ponderei.

─ Ou não temos pulso o suficiente para fazer uma rixa durar. – retrucou ele, rindo.

─ Eu prefiro a primeira teoria se não se importa, senhor desmancha prazeres. – rebati fingindo estar zangada.

─ Eu ganhei um novo apelido?! – exclamou ele e nós dois rimos. – Tivemos uma grande história não é?

─ Tivemos... mas só você foi parar nos sapos de chocolate. – comentei dando de ombros. – E o que isso quer dizer? – perguntei apontando para nós dois.

─ Eu não posso voltar, Mélia...

─ Nem eu... já me acostumei. – concordei de pronto. – Mas, e quanto à Amélia e o senhor Gênio? Estamos velhos demais para isso também? – indaguei erguendo a cabeça para olhá-lo.

─ Acho que nunca vou ficar velho demais para ganhar de você no xadrez. – ele brincou sorrindo de lado. – Mas, se for verdade e Voldemort esteja mesmo buscando formas de voltar... eu prefiro que todos pensem que permanecemos afastados. Odiaria coloca-la na linha de frente... uma vez já foi demais. – ponderou ele sério.

Uma coisa não mudou em cento e dez anos... eu ainda não me cansara de discutir com as pessoas. Contudo, naquele dia, mesmo não concordando com aqueles motivos nobres que certa vez poderiam ter impedido nosso casamento, apenas acenei polidamente com a cabeça e me despedi. Quando voltei para casa, não conseguia parar de pensar no assunto... foi tanto ao ponto de escrever-lhe, dias depois, uma carta desabafando tudo o que sentira no dia daquela última discussão...

─ A carta que você encontrou no escritório dele Harry! – exclamou Hermione, interrompendo-o. – Desculpe, continue...

Esperei por uma resposta. Foram necessários dez dias, mas finalmente a coruja retornara com um envelope com a tão estimada caligrafia fina e inclinada. Apenas uma linha, "Posso me convidar para o chá, na Sexta-feira?". E então, não mais o senhor e a senhora Dumbledore... por mais que esses dias nunca tenham sido esquecidos ou deixaram de ser comentados quando um queria provocar o outro... voltamos a ser apenas aqueles dois bons amigos que jogavam xadrez e conversavam animadamente ao pé do fogo.

A cada ano, uma notícia nova da situação em Hogwarts me alarmava mais e mais sobre o possível retorno de Tom Riddle. Contudo, foi uma simples conversa durante a reabertura da Câmara Secreta que me fez abrir os olhos quando ele finalmente ressurgiu. Estava cuidando do jardim quando Alvo apareceu em casa dizendo que Lúcio Malfoy havia intimidado o conselho diretor para afastá-lo...

─ Muito inteligente da parte dele! Por mais que a família dele seja puro sangue, oh, como eu queria que algo acontecesse com o filhinho dele! Narcisa jamais o perdoaria e a vida seria um inferno para o Malfoy. – disse trincando os dentes.

─ Relaxe, tenho certeza de que voltarei logo mais. – assegurou Alvo calmamente.

─ Claro! Assim que eles perceberem como o lugar vai ruir sem você para controlar a situação. – retruquei furiosa. – Enfim, aceita alguma coisa?

─ Um copo de conhaque está bom. – respondeu ele automaticamente... sua mente, no entanto, viajava. – Mélia!

─ Sim? – respondi de dentro da sala. – O que foi?

─ Eu sei que você não gosta de falar muito no assunto, mas, pode me explicar novamente as circunstâncias da morte de seu avô? – perguntou ele educadamente.

─ Vovô Archie? – repeti sem entender. – Bem, ele foi encontrado no quarto dele, na mansão... morreu dormindo...

─ Sim, mas lembra-se do que você me contou? Do retrato da sua avó que ele sempre carregava no bolso? Você disse que ninguém o achou entre os pertences dele. – lembrou-me Alvo, parecendo me instigar a uma conclusão.

─ Exatamente, mas... não entendo o que você quer dizer. – disse ainda completamente confusa.

─ Nada. – falou ele por fim. – E você? Como está?

─ Não posso reclamar, mas sinto falta de um pouco da ação do trabalho. A aposentadoria não se encaixa comigo, contudo, também não quero dar ao Ministério o prazer de comprovar que sinto falta deles. – respondi dando de ombros. Fitei Alvo por um momento. – E... Voldemort? Acha que ele vai conseguir mesmo voltar, Alvo?

─ Talvez... mas sinceramente, eu não vejo como...

E foi a primeira mentira que ele me contara... para me aliviar, suponho. Contudo, bastou ler sobre a marca negra no ano da copa mundial de Quadribol para saber que iria recomeçar de novo. E dessa vez... eu sabia, pelo pouco que conhecera da mente de Tom Riddle, que ele se livraria do bruxo que sempre temera. Alvo percebeu minha preocupação quando fui visita-lo na noite do baile de inverno, e como uma maneira de me poupar, não me convidou para reintegrar a Ordem da Fênix.

Foi apenas algum tempo depois que me dei conta do que aquela conversa sobre a morte de meu avô significara... Horcruxes. Eu sabia pouca coisa, apenas o que havia ouvido falar dentro do departamento de mistérios. Um objeto que carrega parte da alma da pessoa e que somente quando for destruído, acarretará na morte dessa pessoa. Imortalidade dependente. Vovô Archie matara um dos homens responsáveis pela morte de meu pai e minha mãe... e ele já carregava a foto de vovó Moira, o objeto de mais valor que tinha por perto naquele momento. Quando tia Sarah morreu... ele ficou tão deprimido por perder a filha também que desistiu de sua imortalidade e queimou a foto e deixou que a natureza fizesse o resto.

Alvo buscava entender como Voldemort sobrevivera ao feitiço de Lilian naquela noite, já que fora tão poderoso a ponto de salvar seu filho. E a resposta estava na história da minha família... Toda a conversa fez sentido depois que me toquei disso... uma pena que... já era tarde demais para dividir minhas ideias com ele...

─ É o último. – alertou Harry, parando para olhar para Gina, Hermione e Rony.

Hermione suspeitou o conteúdo das próximas páginas e começou a chorar com a lembrança daquela noite em que uma marca negra surgiu no topo da torre de astronomia. Rony imediatamente abraçou-a, enquanto observava que nos olhos de seu melhor amigo também começavam a surgir algumas lágrimas. Ele estivera lá com Dumbledore e assistira a cena toda sem poder fazer nada... ouvira as últimas palavras do diretor e agora teria que reassistir aquela cena novamente pelo ponto de vista de Amélia, o que não tornava nada mais fácil.

─ Eu leio se você preferir, Harry. – ofereceu-se Gina, preparando-se para pegar o diário das mãos dele.

─ Não. – disse ele firmemente. – Eu consigo ler... – assegurou parando para olhar Hermione. Quando ela estivesse pronta... finalmente, a amiga acenou positivamente com a cabeça, ainda apoiada nos braços do namorado. – Vamos lá, então.