Capítulo 51

E finalmente chegamos ao ponto que deu início a essas memórias. Aconteceu há poucos dias... não me lembro qual foi a última vez em que dormi desde que comecei a escrever aqui... a insônia frente à tantas lembranças trazidas pelos sonhos foi o que me deu forças para começar, em todo caso. Enfim, 30 de Junho de 1997... a morte de Alvo Dumbledore. Pelo que soube, obra de Severo Snape... eu me lembro do homem que vagava pela escola como um grande morcego... Alvo confiava nele... Não me lembro de meu amigo ter se enganado pelo caráter de alguém nenhuma vez, mas, quem pode culpa-lo por não reconhecer seu assassino...

Eu estava em casa... cuidando das minhas madressilvas, quando Maggie me avisou que havia um senhor na sala me esperando. Suspeitei que fosse Alvo, mas sorri igualmente quando vi que era Elifas. Seus olhos estavam vermelhos e eu me lembro de ter pensado qual seria a razão. Antes que eu pudesse me adiantar e pedir a ele que se sentasse, ele pediu a mim. Arqueei as sobrancelhas e o obedeci. Finalmente, meu amigo se aproximou de mim, se colocando aos meus pés e eu meu coração acelerou...

Amélia... esta noite... alguns comensais da morte invadiram Hogwarts e... – ele não precisou concluir para que eu começasse a chorar. – Alvo está morto.

Assim como na morte de Marius, as lágrimas não pareciam que parariam de vir em algum momento... eu gemia de dor, sentindo meu coração se partir em mil pedaços enquanto Elifas me tomava em seus braços para me abraçar. Minha respiração estava falha e comecei a sufocar, me soltando de Elifas para conseguir puxar o ar. O chão faltou e eu caí, sendo segurada por meu amigo para evitar uma pancada muito forte no assoalho de madeira. Não conseguia me controlar...

Traga um copo de whisky para ela. – Elifas pediu a Maggie e ela rapidamente saiu para pegá-lo.

O enterro... onde...? – perguntei encarando-o em tom de súplica.

Hogwarts, em dois dias. Estão dando tempo para os pais decidirem o que farão com os alunos mais novos... foi o que Minerva disse na carta. – explicou ele e eu assenti, me acalmando um pouco.

Obrigada, Maggie. – agradeci pegando o copo de whisky. – Como aconteceu?

Snape... se lembra dele? Lançou o avada kedavra do alto da torre de astronomia, Alvo caiu... encontraram-no caído...

Basta! – censurei-o tornando a deixar algumas lágrimas caírem. – Acharam Snape?

Não, mas estão procurando...

Não vão achar. – interrompi. – Ele voltou para perto de Voldemort, nunca irão acha-lo... Bem, acho que só resta me despedir... Ah, Elifas... eu queria... quem dera pudesse ter sido eu... – e voltei a chorar.

Demorei a me decidir se iria ou não ao enterro quando o dia chegou. Elifas se oferecera para me acompanhar, o que eu recusara... Anos construindo uma imagem para o público... os bons amigos Alvo e Amélia... eu não conseguiria me segurar ao ver seu corpo e provavelmente colocaria tudo a perder. Quando finalmente cheguei à Hogwarts e os encontrei às margens do Lago Negro, o cerimonialista estava dizendo suas últimas palavras e então chamas irromperam ao redor do lugar em que o corpo de Alvo deveria estar... convertendo-os em um caixão de mármore branco. Gritos seguidos da homenagem do grupo de centauros que fora prestar suas homenagens. Esperei até grande parte da multidão se dispersar ao lado de Hagrid... estava coberta em negro, dificilmente ele saberia quem era.

Mélia! – chamou Elifas, ao lado de Moody, Tonk's, Lupin e dos Weasley. – Você...

Eu seria uma grande fingida se perdesse, não seria? – brinquei dando de ombros. – Alastor, senhorita Tonks, senhor Lupin, Molly, Arthur. – disse cumprimentando todos. – O túmulo será levado...

Para aquele recanto isolado no centro do Lago Negro. – respondeu Moody. Lembro-me de quando ele descobrira sobre Alvo e eu... aquele olho maravilhoso que conseguia enxergar através de qualquer pessoa.

Será que eu não poderia... ter alguns minutos a sós? – perguntei a ele quando consegui que só ele me ouvisse. – Por favor, Alastor... entre todos aqui você consegue entender melhor... – disse tentando, em vão, reprimir as lágrimas.

Dez minutos, Amélia. Apenas. – disse acenando para que eu o seguisse. Com um gesto forte da varinha, conseguiu que o caixão se abrisse, revelando o rosto de Alvo.

Ele sorria de lado, parecia estar dormindo com seus óculos meia lua. Olhei para os lados, não havia ninguém... e então eu me abaixei para dar-lhe um último beijo nos lábios... Repousando a mão em seu coração em seguida.

Eu não pude estar aqui para te salvar... – falei depois de observá-lo por um tempo. – mas provavelmente se estivesse, você é quem teria me salvado... como sempre, certo? Por mais que eu tentasse, você sempre fazia de mim a donzela em perigo... e eu gostava. Podia parecer que não, mas é verdade. Obrigada, Alvo... senhor Gênio... obrigada por sempre ter estado lá quando eu precisei ser salva. Fosse com uma piada fora de hora, um sorriso, um abraço, sussurrando que ia ficar tudo bem quando é claro que nada ficaria bem... Uma vez, não mais do que por intermédio do fato de que duas pessoas podem ser destinadas uma a outra, dois leões se apresentaram no vagão do expresso de Hogwarts... O senhor Gênio precisa da sua Mélia e a Mélia precisa do seu senhor Gênio. Infelizmente, parece que a Mélia vai ter que aprender a viver sem o senhor Gênio até que a hora dela chegue...

Fechei os olhos e deixei que algumas lágrimas caíssem sobre o pano que cobria o resto de seu corpo, me abaixando novamente para beijar-lhe a testa. Eu não queria deixa-lo... incapaz de pensar na ideia de tê-lo longe... de não ouvir sua voz nunca mais... de não rir de suas piadas... e de não sentir o calor de sua bondade ou do seu abraço... Eu sempre precisaria de Alvo Dumbledore. De repente, aquele sentimento de frustração, de incapacidade de ser uma bruxa melhor, capaz de superar a morte, me invadiu como fez na morte de Linda. E eu me abracei ao túmulo de mármore com todas as minhas forças ao ouvir os passos de Alastor.

─ Está na hora, Amélia. – disse ele com a mão no meu ombro.

─ Não... não... ele não pode estar morto, Alastor, não pode! É só um sonho... só um sonho... Alvo, acorde! Acorde, por favor! Não morra, fique comigo...

─ Mélia. – a voz de Elifas me chamou à realidade e eu me virei para olhá-lo. Os diretores das casas de Hogwarts estavam ali também, junto com Kingsley. – Tem que deixa-lo ir... em paz, lembra-se? Como eu deixei Linda ir... – disse meu amigo, choroso.

Eu encarei todos ali e tornei a olhar para Alvo.

─ Eu faço isso. – disse me interpondo entre Alastor e o caixão. Acenei com a varinha e as chamas mais uma vez envolveram-no, encerrando o túmulo mais uma vez. E então apontei a varinha para o mármore e gravei as únicas palavras em que consegui pensar: "Porque onde estiver o vosso tesouro, estará também o vosso coração."

Permanecei às margens do lago com Elifas durante todo o tempo gasto para levar o túmulo até a ilhota e mais até...

─ Até logo, Alvo... espere por mim. – murmurei ao sentir a brisa morna do verão contra meu rosto.

Voltei para casa naquela noite para encontrar Fawkes me esperando na mesinha do jardim, como um bom agouro de que Alvo estaria sempre comigo, enquanto vivesse. Aquilo encheu-me de convicção... tinha, de fato, vivido uma boa vida. Cheia de lembranças boas e com a sua parcela de lembranças ruins, como toda vida bem equilibrada deve ser. Termino então essas humildes memórias sobre a fênix com a certeza de que o importante não é se vivemos ou não felizes para sempre... mas sim, de que nós vivemos.

Harry virou a última página do diário e fechou-o olhando para seus amigos. Gina sorria com tristeza, enquanto Hermione e Rony miravam o moreno em forma de indagação. "O que faremos agora?" Pareciam dizer... Harry apenas deu de ombros... "Seguimos em frente", queria dizer. Rony assentiu, entendo a ideia do amigo. Hermione secou os olhos com a manga da blusa e mirou Gina.

─ Seguimos em frente como Amélia. – disse limpando uma lágrima que escorria de seus olhos.