7VERSE : SETE VIDAS
SETE VIDAS VIDA 3: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR
vida 3 CAPÍTULO 3
CAPITÃO MEU CAPITÃO
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RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA HAYDEN
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Kyle Hayden saíra do banho e estava se vestindo. Tinha combinado encontrar-se com Owen Foley e Mark Levine no Hot Machine Bar para baterem papo e tomarem umas cervejas. O programa de sempre dos dias de treino. Mas, antes tinha que passar para pegar Ashley Madison, que insistira em ir junto. Como sempre.
Suspirou, desanimado. Porque tinha que ter uma namorada tão GRUDENTA? Ou, segundo palavras dela, tão APAIXONADA.
Já não aguentava mais manter a farsa que era esse namoro com a Ashley. Até o som da voz dela o deixava irritado. E tudo isso pra quê?
oK. Kyle sabia muito bem o motivo. Ele era o primeiro capitão do time principal de football da Eastern Oregon University. Fora considerado a grande revelação estadual da última temporada e todos achavam que ele tinha chances reais de profissionalização como jogador em times de primeira linha. Mas, Kyle também se destacava na vida acadêmica. Não era um brucutu como Dean depreciativamente se referira a ele ao vê-lo pela primeira vez em sua realidade de origem. Em ambas as realidades, era um estudante aplicado de Arquitetura e demonstrava ter talento e criatividade para tornar-se um profissional de destaque. Quem o conhecia, dizia que ele tinha um futuro brilhante pela frente qualquer que fosse a carreira a que se dedicasse. Bonito, fama de bom moço e considerado um bom partido, era assediado por TODAS as garotas do campus. E não só pelas do campus. TINHA que ter uma namorada. Nada justificava que não tivesse. Além disso, era mais fácil driblar uma do que fugir de centenas. CENTENAS talvez fosse exagero. Mas, não seriam poucas. E algumas não seriam tão burras quanto a Ashley.
Por outro lado, também não dava para continuar como estava. Não podia ficar inventando uma desculpa esfarrapada atrás da outra, desmarcando encontros em cima da hora ou enchendo a cara para poder encarar uma noite de sexo com própria namorada. Tinha que encontrar uma saída.
Para piorar a situação, era um local. Nascera em La Grande. Seu pai era o delegado de polícia da cidade. Conhecido e respeitado por todos. Um homem apontado na comunidade como um exemplo tanto na vida pessoal quanto na profissional. Como também fora seu avô. Não podia envergonhar os dois. Desonrar o nome da família. Não podia confessar que era GAY.
Vinha tentando ganhar tempo. Acreditava que as coisas se resolveriam naturalmente depois que estivesse formado. Depois de formado, podia deixar a cidade. Era até esperado que assim o fizesse. Queria ir para BEM LONGE de La Grande e da mentalidade provinciana que ali imperava. São Francisco, Los Angeles, ou, até mesmo, Nova York. O importante é que fosse BEM LONGE. Só então poderia deixar de fingir ser o que não era. Sentia-se sufocado. Precisava dar vazão a seus desejos. Mas, só podia ser ele mesmo longe dali.
Mas, havia um PORÉM nesta história de sumir no mundo. Era apaixonado por Owen. PATETICAMENTE APAIXONADO. Fazia de tudo para não dar bandeira, mas até mesmo a Ashley, tapada como era, já percebera que havia da parte dele algo mais do que uma simples amizade. Sufocar aquela paixão estava ficando cada vez mais difícil. Tinha que ficar se controlando o tempo todo, já que estavam quase sempre juntos e tinham o mesmo círculo de amizades.
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Foi amor à primeira vista.
Owen Foley foi o primeiro homem por quem Kyle Hayden se sentiu realmente atraído. Atraído a ponto de se ver obrigado a encarar a verdade sobre a própria condição sexual. Owen era de uma cidade pequena do Kansas. Menor e ainda mais pacata que La Grande. Quando chegou a La Grande para cursar a faculdade de Engenharia Civil, era um caipirão boa gente cujo sotaque carregado era motivo de gozação entre os colegas. Um menino grande perdido e intimidado em meio ao burburinho da faculdade e a efervescência das festas das fraternidades. Fora os colegas, não conhecia ninguém na cidade e estava pela primeira vez longe de suas referências familiares.
Foi Kyle quem introduziu Owen em seu círculo de amizades e o colocou no grupo dos populares. Owen era bonito, grande, forte e INGÊNUO. Foi essa ingenuidade quase infantil, que ele nunca perderia, que encantou Kyle. Owen tinha fortes valores familiares e uma bondade intrínseca que logo conquistariam também os pais do amigo. Em pouco tempo, Owen já era considerado de casa. O tipo de amigo que almoça com a família nos fins de semana e entra e sai a qualquer horário.
Embora não fizessem o mesmo curso, tinham muitas matérias em comum e estudavam juntos para as provas. Owen se mostrara um bom jogador e, com uma forcinha de Kyle, logo estava na equipe principal. O problema é que o aumento da convivência fazia aquele sentimento cada dia mais forte e a proximidade física alimentava o desejo de Kyle. Estar sempre tão próximo a Owen e não poder tocá-lo estava se tornando um tormento para Kyle. Trocavam de roupa no mesmo vestiário e dormiam no mesmo quarto quando o jogo era em outra cidade. Só não tomavam banho juntos porque Kyle fazia todo tipo de malabarismo para que isso não acontecesse. Sabia que seu corpo o denunciaria e o que sentia por Owen ficaria visível para todos.
Transar com a Ashley não estava ajudando. Ao invés de relaxá-lo, deixava-o estressado. A excitação só vinha quando fechava os olhos e imaginava-se tocando e sendo tocado por Owen. Era frustrante. Buscava músculos e também algo que não estava lá. Sem falar que se sentia mal por estar iludindo a Ashley. No fundo, gostava nela. Era uma boa garota. Merecia um homem de verdade. Era até surpreendente que ela insistisse em manterem o namoro. Era impossível que considerasse o sexo que faziam satisfatório. Da parte dele, não era. Extravasava a agressividade no jogo. Vai ver que era por isso que era o melhor jogador do time. Tensão sexual reprimida.
Em seu quarto, à noite, fechava os olhos e fantasiava estar com Owen. Mas, também aqui a ilusão se quebrava. Não conseguia imaginar Owen, másculo como era, se entregando para ele. Parecia algo impossível de acontecer. Então, vinha a parte que mais o assustava. A outra alternativa. A de entregar-se para Owen. Temia que esse fosse o preço que teria que pagar para viver aquele amor. Tentava acostumar-se com a ideia. Mas, era uma situação para a qual ainda não estava preparado. Fazer sexo com um homem era algo que ansiava e temia. Era tudo uma grande confusão na sua cabeça.
Não tinha coragem de declarar-se para Owen. Ele deixara uma namoradinha de infância em sua cidade e vivia falando dela. Como sabia que Owen tinha valores tradicionais, nunca nem mesmo tentara saber o que ele pensava a respeito de dois homens juntos. Tinha medo de levantar suspeitas. Tinha medo de afastá-lo. Não ia aguentar ser rejeitado por Owen. Tê-lo por perto, mesmo que só como amigo, era o que era possível. Teria que bastar.
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Quem mais, então?
Não podia ser alguém da cidade. A cidade era pequena e todos se conheciam. Todos conheciam a sua família. E logo todos ficariam sabendo e comentando.
Não podia ser alguém do campus. Era um ícone. Seria exibido como um troféu por qualquer dos estudantes assumidamente gays. A primeira indiscrição e aquilo se alastraria como fogo em pólvora pelas redes sociais. Todos ficariam sabendo e não apenas na cidade. Sua carreira no football ficaria para sempre marcada por especulações sobre sua vida sexual.
Não podia se insinuar para alguém de seu círculo que não fosse ou não se assumisse como gay. Um erro de avaliação e podia virar um escândalo. Não suportaria ser alvo de comentários maldosos. Sabia a forma com que muitos de seus colegas de time se referiam aos gays. Seria execrado por muitos dos que agora se diziam seus amigos.
Não era o ideal, mas para acontecer teria que ser com um estranho. Alguém que estivesse apenas de passagem pela cidade.
Sabia que seria pedir demais, mas gostaria que esse alguém tivesse olhos verdes .. como Owen.
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ESCLARECIMENTO:
Os perfis psicológicos do Kyle Hayden e do Owen Foley de VIDA 3 são válidos também para suas versões de VIDA ZERO e VIDA 1 e explicam o comportamento das Ashley destas duas realidades de se proporem a ir para a cama com Dean. Não são válidos para VIDA 2 nem para as VIDAS ainda não mostradas, onde veremos triângulos diferentes sendo formados.
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ATENÇÃO: SPOILER PARA QUEM NÃO LEU AS FICS ANTERIORES
Uma diferença grande em relação a VIDA 3 é que em VIDA 1 Kyle resiste à ideia de ser gay e reage de forma agressiva a qualquer ameaça de ser confrontado com essa verdade. O Owen de VIDA 1 foi pouco a pouco se moldando ao comportamento cada vez mais agressivo do amigo, mas age para frear seus excessos. Ele fez um teatrinho, mas nunca ia permitir que Kyle agredisse covardemente Dean.
20.10.2013
