7VERSE : SETE VIDAS

SETE VIDAS VIDA 3: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR

vida 3 CAPÍTULO 4

AS COISAS MUDAM

.


HOT MACHINE BAR

.

Dean sentiu todos os olhares sobre si quando entrou no Hot Machine Bar. Claro, era sempre assim em cidades pequenas. Era rapidamente identificado como um forasteiro. Mas, percebia que tinha chamado atenção também pela forma como estava vestido. Estava destoando com suas habituais roupas rústicas e surradas.

Reconhecia o lugar das realidades anteriores. Era a quarta vez que aquela situação se repetia. A quarta vez que adentrava naquele bar como se fosse a primeira vez. Mas, nesta, as diferenças eram muito mais evidentes que as semelhanças.

O espaço físico era basicamente o mesmo. Os elementos principais estavam todos lá. O longo balcão de bar, as mesas espalhadas pelo amplo salão, os alvos para jogo de dardos, as mesas de sinuca, a jukebox próxima à entrada, o pequeno palco para shows no fundo e a escada que levava a um mezzanino. O mezzanino era a primeira grande diferença no aproveitamento do espaço. Não havia nada de suspeito ou escondido naquele segundo piso. Era aberto e viam-se mesas. Uma extensão do salão do primeiro piso.

Agora o bar não podia mais ser descrito como um lugar de homens rústicos e de bebidas e mulheres baratas. Um barman tatuado malabarista. Drinks coloridos. Garçonetes que pareciam universitárias. TV's exibindo videoclipes e programas de esportes radicais. Roupas de grife e penteados estilosos. Nada ali parecia ser barato, muito menos as bebidas. Os adjetivos escuro e enfumaçado tampouco se aplicavam ao lugar. O lugar era iluminado até demais e havia diversos avisos de proibido fumar no recinto.

Em consequência, a frequência do bar era completamente diferente, com presença maciça de universitários. Pelo menos, a parcela mais endinheirada e menos nerd. Viam-se por toda a parte jaquetas com o EOU, da Eastern Oregon University. Aparentemente, a jaqueta era um símbolo de status para a tribo esportista. A proporção dos sexos estava mais bem equilibrada, com presença feminina em diversos grupinhos e alguns grupinhos só de garotas.

Buscou com os olhos a profissional. Se havia uma figura que combinava menos que ele próprio com essa versão remodelada do bar era a prostituta barata de bar de estrada. Na verdade, não esperava encontrá-la ali. Devia estar fazendo ponto em alguma espelunca em outro ponto da estrada. Imaginou que, como ele próprio, ela se sentiria ali completamente fora de seu ambiente natural. No entanto, .. Sim, a mesma mulher num uniforme discreto atrás do balcão. Se não fosse um bom fisionomista, não a reconheceria. Maquiagem discreta, cabelo bem penteado, atitude de matrona e ALIANÇA NO DEDO. Pelo jeito, a vida dela seguira um curso muito diferente nesta realidade.

A que antes classificara como depressiva também estava ali, mas não estava sozinha nem parecia carente. Ela parecia divertir-se com o jogo de sedução de seu jovem e belo acompanhante. Dean ficou um tempo observando o casal. Não se deu conta que o que estava prendendo sua atenção era a inegável beleza do rapaz. Enquanto observava, tecia considerações sobre o que estava acontecendo ali. O candidato a gigolô era jovem e inexperiente demais para perceber que quem estava se iludindo ali era ele. A mulher tinha um sorriso predador. Ela o usaria e o descartaria como lixo. Em tese, a análise de Dean estava correta. Mas, o destino do rapaz seria bem mais sombrio.

Parou alguns segundos para olhar a parede com os alvos de jogo de dardos. Veio à sua mente a imagem de um homem moreno alto. Sua barba por fazer. Seus olhos negros, o encarando. Olhos apaixonados. NÃO. AQUILO NÃO PODIA ESTAR ACONTECENDO. Ficara excitado só de pensar no homem. Maldito Trickster. O que Sam dissera, de, nesta realidade, ele ser gay e esconder de todos, começava a se tornar a sua nova realidade.

Calma, Dean. Não viera ao bar para buscar companhia para a noite. Menos ainda, companhia masculina. Viera para pensar nos próximos passos que daria. Ia enlouquecer se ficasse mais um minuto que fosse naquele quarto de motel. Queria manter distância daquele Sam. Daqueles olhos totalmente negros. Queria ver o pai.

A única notícia boa em meio a toda aquela loucura era saber que, nesta realidade, John estava vivo. Poderia mais uma vez abraçá-lo e dizer o quanto o amava. Sorriu ao imaginar a cena. Era bem capaz de o pai considerar essa demonstração de afeto uma prova de boiolice. Não importa. Não fora nisto mesmo que o Trickster o transformara? Abraçaria o pai e exporia seus sentimentos sem pudores ridículos. Podia nunca mais ter outra chance como esta.

Quanto à sua mãe, tinha medo de alimentar esperanças e amargar uma grande decepção.

Imersos nestes pensamentos, sentou-se em uma mesa próxima a de um dos muitos grupinhos de universitários. O grupo lhe pareceu familiar, como se já os conhecesse de antes. Forçou a memória. Não, devia ser impressão. Com certeza, se lembraria daqueles rostos se já os tivesse visto antes. Eram três rapazes e uma garota. Os rapazes eram muito .. interessantes. Todos os três. A garota era linda, mas parecia completamente deslocada no grupo. Posta de lado. Ainda era o velho Dean o suficiente para reconhecer os sinais. Estava insatisfeita com o namorado, que, por acaso, era o mais interessante do grupo. Também, o papo não podia ser mais masculino. Estavam falando de suas jogadas no treino de football.

Era sempre muito fácil com mulheres negligenciadas. A ideia de dar o troco sempre estava presente na cabeça delas. O namorado não devia estar fazendo direito o dever de casa. Porque seria? Uma garota tão bonita? Olhou atentamente para o rapaz e sentiu um fiapo de esperança.

Sabia que podia, no momento que quisesse, levar aquela garota para a cama. Se forçou a pensar na garota nua. Olhou demoradamente para cada detalhe daquele corpo. Um corpo escultural. Um sorriso lindo. Difícil acreditar que existisse outra mais gostosa na cidade. Imaginou-se tocando na garota. Imaginou-se despindo-a e tendo à sua frente, completamente entregue, aquele corpo nu. NADA. Não se sentia nem um pouco excitado.

O pior é que passou a mensagem errada para a garota. Viu que ela passou a dar sinais de encorajamento. DROGA. Tudo o que não queria era se meter numa briga de bar com o namorado e os amigos da garota. Não era assim que gostaria de se embolar com eles.

Sabia que podia dar conta fácil dos três. Mas, e depois? Reclamava o prêmio e levava a garota para a cama? Decididamente não era isso o que queria. Já os rapazes .. Uau! Não riscaria nenhum deles de sua lista, embora sua primeira opção fosse justamente o namorado da garota.

Calma, Dean. A coisa funciona diferente entre homens. Ficar olhando para um homem só porque o achou interessante é algo que 99% das vezes acaba mal. Jogar charme, só depois de sentir o terreno em que está pisando.

Resolveu tentar arranjar alguma grana na mesa de sinuca. Pressentia que a cerveja que pedira custaria o dobro do que estava acostumado a pagar e que, se quisesse pedir mais uma, teria que descolar o dinheiro. Estava a quase nenhum. E, jogando, se manteria longe de encrencas. Longe da cadeia. Estremeceu só de se imaginar preso naquela cidade. Mas, já não sabia o porquê daquele medo.

As lembranças que trouxera da realidade 1 e da realidade 2 já tinham se apagado completamente da sua memória. A visão dos alvos do jogo de dardos não mais lhe traria a imagem de Luke Braeden e a lembrança desta lembrança também já se perdera.

Mas, ao contrário das vezes anteriores, mantinha praticamente intactas as memórias de sua realidade de origem. Lembrava-se claramente do desafio que fizera ao Trickster e da ameaça que este lhe fizera em resposta. O ponto de corte destas lembranças era a chegada ao Hot Machine Bar. Por isso, não se lembrava de Ashley e de já ter transado com ela. Como o velho Dean não era de prestar atenção em homens, a lembrança que poderia ter de Kyle Hayden era bastante superficial. Uma interação maior com Kyle, que o levara para a cadeia, acontecera somente na realidade 1, agora completamente esquecida.

.

Dean passou um tempo analisando o jogo dos possíveis concorrentes enquanto aguardava liberarem uma mesa para jogar, o que, finalmente, acontecera.

– Quero jogar. Alguém aqui se candidata? Dean pergunta, olhando em volta e exibindo um belo sorriso.

– Eu, aqui. Prazer. Meu nome é Kyle.

Kyle estende a mão para Dean e, olhos nos olhos, os dois homens estendem o cumprimento alguns segundos a mais do que o necessário. Ao perceberem, recolhem as mãos, constrangidos, mas novamente se olham nos olhos e sorriem.

Owen e Ashley observam a cena com surpresa, olhando com atenção as expressões ora de um, ora do outro.

Mark observa, preocupado, as reações não apenas de Kyle e Dean, mas também as de Owen e Ashley.

.

Nem Dean nem Kyle perceberam que TODOS notaram que pintara um clima entre eles.


21.10.2013


AVISO (23.10.2013): Lendo o capítulo depois de postado notei que os trechos onde haviam números saíram truncados e não adiantava corrigir e salvar novamente, que o problema persistia. A frase original era "As lembranças que trouxera das realidades #1 e #2 já tinham se apagado completamente da sua memória." Retirando o símbolo #, sai truncado. Os leitores que são autores devem prestar atenção quando fizerem postagens.