7VERSE : SETE VIDAS
SETE VIDAS VIDA 3: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR
vida 3 CAPÍTULO 5
SOU OU NÃO SOU?
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BLUE MOUNTAINS MOTEL, QUARTO 212
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Já fazia mais de doze horas que fora jogado naquela realidade enlouquecida e ainda se lembrava de como as coisas deveriam ser. Isso era inédito e era bom que fosse assim. Mas, sabia que não era exatamente o mesmo. Pensava igual. Ou quase. Mas, sentia as coisas de forma diferente. De forma assustadoramente diferente.
Seria mentira dizer que passara a noite inteira pensando em como agiria em relação a Sam JO HARVELLE. Ou em todas as coisas que diria quando reencontrasse o pai. Kyle Hayden teimava em ocupar espaço em seus pensamentos. Não lembrava de já ter sentido tanta ansiedade assim em relação a uma garota. Então porque agora não conseguia tirar esse cara da cabeça? O que estava acontecendo afinal? Isso não podia ser natural. Tinha que ter o dedo do Trickster por trás disso tudo. Um segundo dedo. A mão toda.
Achava inacreditável que o Trickster pudesse mudar tão profundamente a sua forma de ser. Sempre fora macho. E então, do nada, descobria que passara a GOSTAR DE HOMENS. Isso não era uma mudança. Era uma revolução. O Apocalipse. Entendia menos ainda como podia estar encarando uma mudança dessa magnitude de forma tão tranquila. Devia estar desesperado, inconformado, jurando a cada minuto trucidar o maldito Trickster. Mas, não. Estava preocupado em descobrir uma forma de voltar a encontrar um DESCONHECIDO com quem jogara sinuca num bar de estrada por umas poucas horas.
O que mais o Trickster fizera? O que ainda faltava descobrir? Que agora tinha nojo de bacon cheeseburgers e passara a adorar salada de alface? Que agora só escutava country music? Ou pior: Beyoncé, para combinar com sua nova condição?
Era estranho SABER que sempre sentira atração por mulheres, LEMBRAR o quanto o sexo com mulheres costumava ser satisfatório; TER CONSCIÊNCIA que isso sempre bastara para que se sentisse realizado; E NÃO CONSEGUIR retomar o interesse que sentia antes nem transformar as antigas lembranças novamente em fonte de prazer.
Mais estranho ainda era descobrir que agora eram HOMENS que lhe despertavam aquelas sensações e anseios que antes somente mulheres lhe proporcionavam. Estranho, não. ASSUSTADOR.
Esperava ao menos conseguir ser mais seletivo com homens do que fora com mulheres. Ou estaria perdido. No bar, muitos homens atraíram sua atenção. Em geral, homens que apresentavam variações de um mesmo perfil: um pouco mais jovens que ele próprio, bonitos e de aparência máscula. Bonitos? Agora classificava como bonitos tipos meio mauricinhos? Eram ESSES os que faziam o seu tipo? Bem, era assim que descreveria Kyle e tinha que admitir que Kyle mexia com ele. Isso significava que Kyle fazia o seu tipo? Se fosse, não saberia dizer se isso era bom ou mau.
Seria melhor ou pior se gostasse de carecas peludos com a barriguinha proeminente? Ou de rapazes delicados com modelitos extravagantes? O que cada uma destas escolhas significava em termos de cama? Talvez a alternativa dos rapazes delicados fosse mais segura. Será? Esse era um mundo novo e completamente desconhecido para ele.
Com mulheres, não havia dúvidas quanto ao papel que devia desempenhar. Com homens, havia no mínimo duas alternativas. Bem, duas para os outros, NÃO PARA ELE. Para Dean Winchester, gay ou não, existia uma única opção. Não era possível que o Trickster tivesse resolvido sacaneá-lo também nisso. Não! De forma alguma, aceitaria ficar de quatro para outro homem. Fora de questão. Preferia virar celibatário. Monge. Apelar para o suicídio.
Não sabia se o corpo que estava ocupando já tivera ESSE tipo de experiência antes. Talvez fosse algo rotineiro para ELE. Não, o outro Dean não podia ser tão VIADO a esse ponto. Quem sabe fosse justamente o contrário. Talvez, mesmo sentindo atração por homens, ele nunca tivesse dado o primeiro passo neste caminho sem volta. 'Deus queira que tenha sido assim'. Sam fizera insinuações em contrário, mas o que ele disse podia não ser verdade. Afinal, Sam era um demônio e demônios mentem.
É, mas .. acreditar que o outro Dean tenha resistido a todas as tentações e se mantido VIRGEM era querer tampar o sol com uma peneira. Não acreditava que algum Dean conseguisse se controlar quando o assunto era sexo. Quanto mais conjecturas fizesse, pior se sentiria. O melhor era não ficar pensando nisto.
'Não importa que ELE já tenha feito ou não. O importante é que agora EU estou no comando e EU não tenho a menor intenção de ir para a cama com um homem algum. Nem mesmo com Kyle. Mesmo ele sendo tão gostoso. Mesmo ele tendo aquela bundinha provocante.'
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Kyle.
Um esboço de sorriso começou a se formar em seu rosto só de lembrar do rapaz.
Tinham jogado 5 partidas. Trocaram poucas palavras, quase todas relacionadas ao jogo. Sob o olhar atento e contrariado do amigo de Kyle, o tal de Owen. Ashley, a namorada, ficou na mesa com o outro amigo, um tal de Mark. Mas, a cada 10 minutos, ela vinha manifestar sua contrariedade e pedir para que fossem embora. Era acalmada com um selinho e a promessa de que aquela seria a última partida.
O alarme vermelho já tinha soado, mas Dean fingia que não estava escutando. Continuava tentando enganar a si mesmo fazendo de conta que nada estava acontecendo. Que o velho Dean ainda estava no comando. Que chegara no bar precisando esfriar a cabeça, fora jogar sinuca, conhecera um sujeito legal que tinha uma namorada linda e estava se divertindo. Somente isso. Simples assim.
Dean parecia ter esquecido que o motivo pelo qual jogava sinuca era ganhar dinheiro. Era assim que conseguia manter-se e financiar os gastos com as caçadas. Os ternos de bom caimento e as camisas impecavelmente passadas que usava quando se disfarçava de agente federal custavam caro. Cheeseburgers e fatias de torta de maçã não eram distribuídos de graça. As cervejas que bebera precisavam ser pagas. Mas, até o momento, o que estava fazendo era nivelar seu jogo de profissional ao jogo medíocre do belo capitão de time de football. Estava alongando desnecessariamente o jogo para mantê-lo perto de si. Em mais de uma ocasião, deixara a bola da vez em uma posição fácil, só para vê-lo sorrir quando acertava uma caçapa.
Achava as seguidas intervenções de Ashley, a irritante namorada, IRRITANTES, e já antipatizava profundamente com ela. Mas, ficava agradecido por ela lhe dar a oportunidade de poder olhar de perto e com calma para cada detalhe do rosto de Kyle sem atrair suspeitas. Kyle era extremamente bonito. Uma beleza completamente diferente da de Sam. Kyle era louro de olhos azuis e tinha praticamente a sua altura. Era mais novo. Parecia ter a idade de Sam. Era um esportista e dava para imaginar que existia um corpo fantástico embaixo de toda aquela roupa.
Quando percebeu que começara a fazer conjecturas sobre o quão bem dotado seria o capitão, constatou que não restara nada do velho Dean. Mas, não amaldiçoou o Trickster por isso. Naquele momento, só conseguia pensar em encontrar uma maneira de ficar a sós com o rapaz e conferir pessoalmente as medidas dele.
Quando já era quase meia-noite, não era mais só a namorada. Também os amigos começaram a fazer pressão para que acabassem logo com o jogo. Kyle se despediu com um simples VALEU, CARA, e saiu, com Ashley dependurada nele.
Dean acompanhou com os olhos o grupo se afastando, sem perder de vista um segundo sequer o belo traseiro do capitão. O beijo rápido que Kyle deu na namorada pouco antes dos dois cruzarem a porta deixou um gostinho amargo na boca de Dean.
'Garota de sorte', pensou.
Respirou fundo, frustrado, mas disposto a aumentar a aposta. Não era do tipo que desistia fácil. Muito menos, quando o prêmio valia a pena.
Afinal, ele era ou não um caçador?
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Quando Dean finalmente adormeceu era quase de manhã. Acordou perto do meio-dia. Sam não estava no quarto. Melhor assim. Apesar de toda a sua ansiedade, vinha adiando o momento de ligar para o pai. Tinha medo de não segurar a emoção. Mas, principalmente, tinha medo de ouvir o que ele tinha a dizer sobre Sam.
Sabia, no entanto, que mais cedo ou mais tarde teria que encarar aquela situação de frente. Sendo assim, quanto antes melhor.
– Filho?!
– Sou eu mesmo, pai. Como é BOM voltar a ouvir a sua voz. Não imagina como sinto a sua falta, pai.
– Você está bem, Dean? Aquele desgraçado te fez alguma coisa?
– Não, pai. Não aconteceu nada de mal comigo. Eu estou bem. Eu só queria escutar mais uma vez a sua voz.
– E aquele demônio? Está aí com você?
– Não neste minuto, mas SIM, SAM está comigo.
– Afaste-se dele para o seu próprio bem. Vou fazer o que for necessário para acabar com a ABERRAÇÃO QUE MATOU SUA MÃE.
– ?!
– Mesmo que seja necessário FERIR você, filho.
– Só queria que soubesse que sinto muitas saudades suas, pai. E que eu te amo muito.
– Eu também amo você, filho. Não vou me conformar nunca por você tenha ficado CONTRA seu pai e DO LADO do demônio que MATOU sua mãe e DESTRUIU nossa família. Não consigo compreender PORQUE você insiste em protegê-lo. Que poder é esse que ele exerce sobre você, filho? Ele é MALIGNO. O sangue de demônio o corrompeu. Não existe salvação possível para ele. Não é possível que você não veja isso. A cada dia ele fica mais poderoso. É preciso detê-lo antes que ele reúna poder suficiente para abrir o portal do Inferno. Escute o seu pai, Dean. O pai que te ama. O pai que você diz amar. Ele está BRINCANDO com você. Está JOGANDO com seus sentimentos. ELE NÃO É SEU IRMÃO. Ele nunca vai perdoá-lo pela morte da Jessica. Ele só está esperando o momento certo para SE VINGAR. MATE-O ENQUANTO É TEMPO. MATE-O, antes que ele MATE VOCÊ.
– Tchau, pai. Se cuida. Te amo.
– Faça o que estou lhe dizendo, filho. MATE-O, ANTES QUE ELE MATE VOCÊ. MATE-O.
Dean desliga com o peso do mundo sobre os ombros. A conversa tinha sido ainda mais difícil que imaginou que seria. Imaginou que a felicidade de escutar a voz do pai contrabalançaria as coisas ruins que certamente escutaria. Mas, não. Até mesmo porque a voz do pai deixava transparecer todo o ódio, o inconformismo e a dor que ele sentia. A dor de seu pai também o machucava. Sentia-se arrasado, confuso, perdido.
Então, era essa a verdade. Sam MATARA sua mãe. Suas piores suspeitas acabavam de ser confirmadas. Ficara chocado ao ouvir as palavras saindo da boca de seu pai. Mas, não propriamente surpreso. Considerara essa possibilidade. Entre mil outras. Passara a noite fazendo conjecturas, enquanto observava Sam dormindo na cama ao lado. Dormindo, ele parecia o mesmo Sam de sempre. O seu irmão. O irmão que amava. Não esse demoníaco Jonathan Harvelle que matara sua mãe e que seu pai queria ver morto.
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Dean, ainda estava com o celular na mão, pensando na conversa que acabara de ter com o pai, quando nota uma presença atrás de si.
– Como foi falar mais uma vez com o papi? Está me devendo esta, Dean.
– Trickster.
– Calminha. Sem violência. Vim aqui só para conversar. Como amigo.
– Você nunca foi amigo de ninguém.
– Está enganado, Dean. Tanto eu sou seu amigo que vim lhe avisar. Antes da meia noite de amanhã, seu pai, John Winchester, VAI MORRER.
– Seu FDP. O que está tramando contra o John?
– Eu, NADA. John Winchester vai ser morto por um demônio poderoso e cruel. Vim avisá-lo para que tenha a chance de salvá-lo. Você pode salvá-lo MATANDO o demônio antes que ele mate seu pai.
– Se quer mesmo ajudar, me diga como eu faço para encontrar esse demônio.
– Vai ser muito fácil encontrá-lo. O demônio atende pelo nome de SAMUEL WINCHESTER.
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24.10.2013
