7VERSE : SETE VIDAS
SETE VIDAS VIDA 3: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR
vida 3 CAPÍTULO 6
O DEMÔNIO NÃO É TÃO FEIO QUANTO SE PINTA
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NA VÉSPERA
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Quando deixou o Blue Mountains Motel na noite anterior, Sam seguiu na direção de La Grande, caminhando pela margem da rodovia. Caminhar sozinho à noite o acalmava e lhe dava a chance de ordenar seus pensamentos, ainda confusos por conta da estranha amnésia de Dean.
– Droga. Estraguei tudo de novo.
Sentia um estranho prazer em atormentar Dean. Em tirá-lo de sua zona de conforto. Em descontar nele tudo o que sofrera. Sabia, no entanto, do risco que isso envolvia. Vivia testando seus limites e, um dia, podia empurrá-lo para uma situação que rompesse de vez o fino fio que ainda os unia. Talvez, inconscientemente, fosse essa mesmo a sua intenção. Tirar definitivamente Dean de sua vida. Para o bem dele próprio.
A forma mais fácil de tirá-lo do sério era fazendo insinuações sobre a sua sexualidade. Sabia desde sempre que Dean era gay. Antes mesmo de Dean ter se dado conta disso. Eram ainda pré-adolescentes e percebia que os olhos de Dean se fixavam em rapazes por mais tempo que o esperado. Fossem de carne e osso ou apenas fotos em cartazes e revistas. Não que fosse algo evidente. Dean era discreto. É mais fácil quando já se sabe o que procurar.
Reparava também que, de tempos em tempos, os olhos de Dean brilhavam mais intensos e seus sorrisos eram mais abertos. Coincidia com ele falando animado de algum amigo novo. Havia temporadas em que ele não perdia um treino de baseball e outras em que acompanhava todas as competições de natação. Uma vez, terminou com ele ganhando um olho roxo e um lábio rachado. Mas, geralmente terminava com uma noite de choro silencioso, com o rosto enfiado no travesseiro, e dois ou três dias em que ele vagava pela casa triste e sem apetite.
Sabia bem o quanto aquilo era uma questão delicada para Dean. Lembrava-se do John de sua infância como um pai presente, preocupado em transmitir bons exemplos e elevados valores morais aos filhos. FILHOS. Na época, ainda era chamado de FILHO por John. Gostava de John. Amava-o. Ele era um bom pai. Era normal que Dean o idolatrasse e fizesse de tudo para não desapontá-lo. Não era diferente com ele próprio. Também se esforçava para que o pai adotivo se orgulhasse dele e para que nunca tivesse motivos de se arrepender de tê-lo adotado.
Ao mesmo tempo em que desejava que o irmão encontrasse a felicidade, se entristecia por saber que John ficaria extremamente decepcionado quando descobrisse que o filho era gay. Afinal, para John, não existia felicidade possível para um homem fora da família tradicional. Marido, esposa, filhos.
Acabara descobrindo da pior maneira possível que, para John, muito pior que ter um filho GAY, era ter um filho DEMÔNIO.
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Viu quando o Impala passou, levando Dean para o Hot Machine Bar. Deu meia volta, em direção ao Blue Mountains Motel. Quando Dean voltou, horas depois, já o encontrou dormindo.
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BEM ANTES
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Ser gay nunca é fácil, mas pode ser ainda mais difícil quando se é gay e se escolhe um trabalho ou uma carreira onde essa opção não é bem vista.
A vida fizera de Dean um caçador e a pequena comunidade de caçadores era formada por homens e mulheres endurecidos por tragédias pessoais. Tragédias que fortaleceram neles valores tradicionais de família. Ganhava respeito quem se mostrasse mais duro. Sobrevivia quem não hesitava em atirar primeiro. Viviam num mundo onde não havia lugar para ambiguidades nem para frescuras. Para muitos, era um mundo onde não havia espaço para o amor em nenhuma de suas formas. E uma certeza partilhada por todos era que naquela fraternidade não havia lugar para afeminados. Um gay, por mais masculino que se mostrasse, nunca seria levado a sério. Nunca seria respeitado.
Dean podia perfeitamente sobreviver a xingamentos e a piadinhas preconceituosas. Mas, não sobreviveria por muito tempo sem uma rede de apoio e de informação. Sem alguém para lhe dar cobertura. Se sua opção sexual se tornasse de conhecimento geral, Dean teria muita dificuldade em fazer parcerias, mesmo que eventuais. Seria, na melhor das hipóteses, marginalizado. No geral, hostilizado. E haveria quem achasse mais seguro matá-lo por acreditar que ele acabaria comprometendo a segurança de todos. O elo fraco que destrói a corrente.
Viver no armário era, portanto, uma questão de sobrevivência.
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Dean foi, por quase um ano, parceiro de Caleb. A parceria se estendeu à cama, mas o sexo acontecia no escuro, sem que palavras fossem trocadas nem no durante o ato nem no dia seguinte. Acordavam em camas separadas e fingiam que nada tinha acontecido.
Quando Caleb foi morto por Meg Masters, Dean se deu conta que não sabia absolutamente nada a respeito do parceiro, nem mesmo seu nome completo. Não sabia se havia alguém no mundo para quem ele fosse importante o bastante para chorar a sua morte. Se havia, não fazia ideia de como informar essa pessoa. Não sabia nem mesmo como definir o que existira entre eles dois. Se podia ser chamado de amor. Mas, sempre lembraria com carinho dos momentos que viveram juntos.
Da comunidade de caçadores, Dean só confiara seus segredos, medos e dúvidas ao pastor Jim Murphy. Outro que logo se tornaria vítima de Meg Masters. Foi no enterro do pastor que Dean conheceu Rufus Turner, o veterano que o ajudaria a capturar Meg Masters e a realizar o exorcismo que enviou o demônio Meg de volta para o Inferno.
Confiava em Rufus, mas não tinham intimidade suficiente que lhe desse margem para abordar um assunto tão delicado quanto sua opção sexual. Em compensação, podia ser franco com Rufus a respeito de seus problemas com o pai e expor seus motivos para acreditar na inocência de seu meio-irmão. Foi Rufus quem abriu seus olhos sobre Robert Singer. Seria para sempre agradecido a Rufus por isso.
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O relacionamento com Caleb é um segredo que Dean sempre guardou a sete chaves. Por não ser um segredo apenas seu, não contou nem mesmo ao pastor Murphy. Mas, o que Dean não sabia, e até hoje não sabe, é que entre as muitas habilidades que o sangue de demônio dá a Sam está a de captar flashes de memórias associadas a estados emocionais muito intensos. Basta que a pessoa relembre a cena ele estando próximo. E, embora Dean tenha usado um ar de neutralidade ao falar do seu período de parceria com Caleb, Sam pode vislumbrar momentos como a mão hesitante de Dean tocando a perna de Caleb no escuro, o primeiro beijo que trocaram e a forma intensa como Dean chegava ao orgasmo.
Foi essa habilidade que deu a Sam a confirmação definitiva de que o amor que Dean tem por ele nunca teve natureza sexual. Que Dean realmente sempre o enxergou como um irmão ou mesmo como um filho. Suas lembranças da época da criança lhe davam essa certeza. Mas, à medida que perdia a inocência, aquela certeza ia sendo erodida e as atitudes e motivações do meio irmão gay iam sendo postas sob suspeita. No entanto, tudo o que captou diretamente das memórias de Dean, nas vezes que relembraram juntos os velhos tempos, só revelaram um sentimento puro, uma atitude protetora, uma preocupação genuína e uma torcida muito grande pela felicidade do irmão.
Foi muito importante para Sam ver pelos olhos de Dean o quanto a ligação que tiveram no passado foi especial. Ser lembrado de que foram irmãos no sentido mais verdadeiro da palavra. Lembrado que um dia pertencera a uma família unida e feliz. Uma família de propaganda de margarina. Fora assim até o dia fatídico em que Mary morreu.
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Aconteceu no dia de seu aniversário de 14 anos. Acordara indisposto e febril. Mary ficara preocupada já que ele nunca adoecera antes e decidiu não ir trabalhar aquele dia para cuidar dele. John seguiu para a oficina e Dean foi para a escola. Ainda parecia um dia como qualquer outro.
À medida que as horas passavam, a sensação de mal estar só aumentava. A febre também aumentava e logo ele já estava com mais de 40 graus. Mary, preocupada, ligou para John pedindo que trouxesse o carro para que juntos o levassem a um hospital. Foi quando começou a dor. Sentiu uma dor muito forte no peito, como se estivesse sendo rasgado por dentro. Gritou de dor. O grito pavoroso atraiu Mary, que estava na cozinha preparando um chá, e também John, que acabara de estacionar na frente da casa.
Foi quando aconteceu pela primeira vez a transformação. Seus olhos ficaram completamente negros. Ao se ver no espelho do quarto com os olhos escurecidos, se apavorou e correu ao encontro de Mary. Mary, que estava quase no topo da escada, se assustou com sua aparência e deu um passo para trás. Ao fazer isso, Mary se desequilibrou. Ao ver que a mãe ia cair escada abaixo, Sam estendeu os braços para tentar segurá-la. John, vendo a cena da porta de entrada, pensou tê-lo visto empurrando Mary do alto da escada. Ela caiu e quebrou o pescoço. Uma nova pontada fez com que desse um segundo grito de dor. John o chamou de aberração e não deixou que se explicasse. Avançou como um louco contra ele. Se tivesse conseguido agarrá-lo, o teria matado.
Confuso e assustado, Sam fugiu. Queria se afastar o mais rápido possível e para o mais longe que pudesse daquela casa, mas a dor o obrigava a parar a cada instante. Algumas pessoas se aproximavam para socorrer o garoto que se contorcia de dor, mas, ao verem seus olhos escuros, fugiam gritando e atraindo a atenção de cada vez mais gente para ele.
Começaram a persegui-lo. Teve muita sorte de encontrar um velho galpão abandonado para se esconder. Viu como o medo das pessoas podia rapidamente se transformar em violência.
Dean o encontraria no final do dia seguinte. Mary já tinha sido enterrada. Nunca vira Dean tão triste e abatido. Dean olhou sem medo para seus olhos completamente negros. Não perguntou nada. Deixou um saco com mantimentos e algum dinheiro e foi embora. Sem dizer uma palavra.
A reação de Dean fez Sam perder a esperança de poder explicar o que realmente aconteceu e de ser novamente acolhido pela sua família adotiva.
E essa possibilidade morreria de vez no dia seguinte com a visita de Robert Singer a John Winchester.
Rob Singer era um caçador veterano que acompanhara desde o início a história de Will Harvelle. Convenceu John que o garoto introvertido que criara era um demônio perigoso, que precisava ser exterminado. Rob Singer alimentou o ódio de John Winchester e o treinou exaustivamente para ser o implacável caçador de uma única presa: o garoto-demônio Jonathan Harvelle.
Tempos depois, Rob recrutou Gordon Walker, manipulou sua obsessão apocalíptica e também o atiçou contra Sam. Os três transformaram a vida do garoto num inferno por anos seguidos.
Ninguém podia culpar Sam por odiar tanto aquele homem.
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Sam e Dean só voltariam a se ver anos depois. Quando Dean, que também se tornara caçador, foi a Stanford atrás de Jessica Moore.
Dean não sabia da ligação de Jessica com Sam. Não antes de matá-la na frente do irmão.
De certa forma, agora estavam quites. Sam causara a morte de Mary e Dean lhe tirara Jessica. Se o laço entre eles não fosse tão forte, um deles não teria saído vivo do quarto onde Jessica jazia com uma faca enterrada no coração.
Não eram irmãos. Não estavam ligados pelo sangue. Mas, estavam ligados por algo ainda mais forte. Um vínculo que eles não sabiam do que era feito, mas que era mais forte do que eles.
Dean largou a segunda faca, abriu os braços e caminhou de coração aberto ao encontro do irmão. Não importava que seus olhos estivessem negros e seus punhos fechados. Tudo o que via era que Sam estava sofrendo e que precisava dele. Precisava do seu amor.
Sam estava prestes a usar seus poderes para matar Dean. Pretendia projetá-lo através da janela sobre a cerca pontiaguda de metal que cercava o prédio. A forma como o irmão o olhava enfraqueceu sua decisão. O olhar lhe remeteu aos seus tempos de criança. O ódio deu lugar ao vazio em seu coração e ele se sentiu novamente só e desamparado. Frente a frente com o irmão, se deixou abraçar. O calor do corpo do irmão aqueceu sua alma e ele apoiou o queixo no ombro do Dean, aceitando ser consolado pelo assassino de seu grande amor.
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MAIS CEDO
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Acordou cedo. Sempre acordava cedo. Dean estava profundamente adormecido. A sua mão fechada envolvia o amuleto de prata e o mantinha próximo ao coração, como se confiasse que ele lhe garantiria proteção. Sam sorriu. Como Dean era ingênuo. Como se aquele ou qualquer outro amuleto pudesse protegê-lo se realmente desejasse matá-lo durante o sono.
Dean chorou a morte da mãe, mas sempre se recusou a acreditar que Sam a tenha matado intencionalmente. Ficaram anos afastados e Dean não teve medo de dormir na cama ao lado da sua na noite em que Jessica morreu. Dean era a única pessoa com quem sempre pode contar. O único que sempre ficou do seu lado, contra todas as evidências.
Olhou com carinho para o irmão adormecido. Dean era a pessoa que mais amava no mundo. Nunca teria coragem de feri-lo.
Vivia repetindo que um dia MATARIA DEAN, mas a verdade é que, se fosse necessário, MORRERIA POR ELE.
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AGORA
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– Era inevitável que acontecesse.
– QUEM ESTÁ AÍ?
– Calma, Sam. Não precisa se alarmar. Sou apenas eu, seu velho e querido amigo.
– Trickster. Então o que o Dean estava dizendo sobre você estar novamente brincando com nossas vidas era verdade.
– Sim. O que ele disse é a mais pura verdade. Para ele, é como se VOCÊ estivesse aqui desde sempre e ELE acabasse de chegar de uma realidade distante. Ele não pensa neste lugar aqui como sendo o mundo real. Acha que é uma criação minha. Que eu tirei um mundo inteiro da cartola. Não que ele ache que isso é um sonho ou uma alucinação. Acho que ele pensa que tudo e todos aqui não passam de construtos. Como as cópias que me viu fazer de mim mesmo. Ele nega, mas no fundo ele realmente acredita que eu sou um deus.
– Como da vez que fez o Dean me ver morrer centenas de vezes?
– Algo parecido, mas não exatamente igual. Vou contar um segredo. Não funciona como vocês imaginam. Nós estamos no mundo real. Eu não mudei absolutamente nada. Já era assim. Essa é única realidade que existe para vocês dois agora. É a única que você conhece e a única que conhecerá. Dean conheceu outra bem diferente e ele tem a ilusão de que pode moldar essa realidade à imagem da que conheceu. Ou me obrigar a devolvê-lo para a realidade que conheceu. Ele vai descobrir que não pode.
– O que você quer?
– Eu vim avisá-lo, Sam. Dean ligou para o pai. Ele acabou de descobrir que você matou a mãe dele. John já está a caminho. Está vindo matar você.
– Dean não contaria para John onde estamos.
– Não se engane, Sam. O sangue fala mais alto. O Dean de ontem não é o mesmo Dean da sua infância e nem mesmo o Dean de uma semana atrás. Para ele, você é um estranho com as feições do verdadeiro irmão que está a salvo em algum outro lugar. Você é apenas o demônio que matou a mãe dele. E, depois de ver como você agiu ontem, não foi difícil para John convencer Dean que você é a ameaça que ele sempre disse que você era. Está sozinho, Sam. Está perdido. Não pode contar com Dean para nada. Principalmente agora, que Dean está apaixonado por outro.
– Apaixonado?
– Sim, apaixonado. Pelo belo capitão do time principal de football da Eastern Oregon University. Era inevitável que mais dia, menos dia, ele se CANSASSE de você. Hoje, você é apenas um ESTORVO para ele. Logo, ele vai vê-lo somente como CAÇA.
O Trickster desaparece, deixando Sam mergulhado em pensamentos sombrios.
Então Dean estava apaixonado. A hora de acertarem as contas finalmente chegara. Dean ia descobrir o que ele sentiu quando viu Jessica ser morta na sua frente. Era até bom que John estivesse a caminho. Resolveria de vez todas as suas questões pendentes com os Winchester. Mataria John. Mataria esse namoradinho. Mataria quem mais se colocasse no seu caminho.
Depois, iria ao encontro de Dean E SE DEIXARIA MATAR.
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Era sua vez de ensinar a Dean TUDO SOBRE AMOR E PERDA.
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ESCLARECIMENTOS:
1) Mantida a diferença de quatro anos entre os irmãos, Dean conviveu com os pais e o meio-irmão até os 18 anos. Ele iniciou a vida de caçador já com 20 anos. Antes disso, levou uma vida normal em Lawrence. Tem, portanto, muito menos experiência com o sobrenatural e conhece menos técnicas de luta e de sobrevivência que o Dean da realidade zero. Grande parte do que sabe, aprendeu com Caleb e com Rufus. A convivência de Dean com John como caçador foi pequena. Dean tornou-se caçador para chegar a Sam antes de John.
2) O Trickster contou uma mentira falando somente a verdade. Todas as frases sobre o que é ou não real e sobre esta e outras realidades quanto pensadas isoladamente são verdadeiras, mas reunidas numa mesma frase passam uma ideia falsa. A verdade sobre as realidades e como se passa de uma para outra será contada ao final de VIDA 7, mas as primeiras pistas e revelações aparecerão no final de VIDA 3 e na passagem para VIDA 4.
UM ROSTO PARA CALEB:
Caleb é um personagem da primeira temporada de Supernatural, episódio 1 x 21. Foi interpretado pelo ator Josh Blacker. A aparência do personagem na realidade 3 é diferente. Escalei para o para o papel o ator britânico Wentworth Miller, o Michael Scofield de Prison Break.
27.10.2013
