7VERSE : SETE VIDAS

SETE VIDAS VIDA 3: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR

vida 3 CAPÍTULO 8

APRENDENDO A JOGAR

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EASTERN OREGON UNIVERSITY

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O treino de football começava às 16:30 h, ao final das aulas do dia. Kyle ansiava pelo doce cansaço do final do jogo. E, pela ducha revigorante, em seguida. Normalmente, saia do vestiário completamente relaxado, não importava o quão estressante tivesse sido o dia. E Kyle dormira muito pouco na noite anterior.

Chegara em casa quase 1:00 e, quinze minutos depois, já estava deitado. Mas, o sono não vinha. Estava tenso. Passara a noite excitado pela proximidade do estranho. Não chegaram a conversar, mal trocaram meia dúzia de palavras, mas adorara sua voz rouca. Seu jeito rude e másculo. Seus olhos verdes. Não estava fantasiando. Poderia ter acontecido. Sentira o interesse do outro.

E, justamente naquela noite, Owen cismara de ficar grudado. Não tivera a chance de descobrir nada do carinha. Só sabia que se chamava Dean. Provavelmente nunca mais se veriam.

Mas, talvez tenha sido melhor assim. Se estivesse sozinho e o estranho tivesse estalado os dedos, o teria acompanhado. Um forasteiro. Um sujeito do qual não sabia nada. De quem não sabia o que esperar. Teria entrado sem preparação num jogo do qual não conhecia as regras.

Era inexperiente neste campo. Virgem. Mas, não queria o papel de donzela. Precisava fazer algo para mudar essa condição. Tomar algum tipo de atitude. Queria muito ficar com um homem. Era o que seu corpo pedia, mandando todo tipo de sinal. SIM, admitia que tinha MEDO do que podia rolar. Mas, sabia também que só se aprende a jogar, jogando.

Pela primeira vez em muito tempo, Kyle chega ao orgasmo se imaginando com alguém diferente de Owen.

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O clima no vestiário era de descontração e camaradagem. Os dois times dividiam o mesmo espaço e as provocações de parte a parte não passavam de zoação. Afinal, podiam ser adversários em campo, mas eram todos colegas de turma.

A euforia com a proximidade do início do torneio universitário contaminara todo o campus. Isso animou muita gente a ver o treino. As arquibancadas já estavam lotadas. Aquele seria um treino-jogo com a duração de um jogo normal, sem interrupções pelos técnicos. Os jogadores botariam em práticas as jogadas ensaiadas.

Também era dia de treino para as animadoras de torcida. Ashley era uma das cheerleaders. A melhor. A mais disputada. Aliás, fora isso que garantira seu lugar junto ao primeiro capitão do time principal. Kyle se sentia um pouco canalha cada vez que lembrava disso.

Ao entrar em campo, Kyle não teve dificuldade de localizar Ashley e mandar-lhe um beijo protocolar. Foi então que viu Dean na terceira fila da arquibancada. Do ponto que estava, via Dean quase que alinhado com Ashley, apenas um pouco acima dela. Sentiu-se seguro para mandar um segundo beijo. Este, cheio de expectativas.

Ashley, naturalmente, pensou que o segundo beijo também era destinado a ela. E adorou. Era a primeira vez que ele fazia algo tão romântico. Achou que finalmente estavam se acertando.

Como Ashley, Dean também assumiu a interpretação que lhe era mais conveniente para o segundo beijo enviado pelo quaterback. E, como sua resposta não podia ser devolver o beijo nem agitar animado os pompons de líder de torcida como a Ashley fez, Dean se põe de pé e, com um sorriso sacana no rosto, olha ostensivamente para o capitão, que fica imediatamente corado.

Owen viu quando Kyle enviou o primeiro beijo e sorriu. Seu sorriso morreu no instante que viu o sujeitinho do bar da noite anterior se levantar acintosamente logo após o segundo beijo SORRINDO. Olhou imediatamente para Kyle e, mesmo não podendo ver seu rosto, percebeu uma mudança em sua linguagem corporal. Fechou imediatamente a cara e também os punhos.

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Fora ridiculamente fácil para Dean seguir a pista de Kyle Hayden. Sua vida toda parecia estar disponibilizada na internet. Ele tinha dúzias de fã clubes. Se quisesse descobriria até seu número do celular. Mas, preferia que o próprio Kyle o desse espontaneamente.

Quando Kyle entrou em campo paramentado para o jogo, Dean observou com prazer as formas da metade inferior do seu corpo mostradas em detalhe pela malha apertada e potencializada pelo protetor genital. Exibia seu característico sorrisinho sacana no rosto. Por sua mente, imagens imaginadas e reais de detalhes da anatomia do capitão.

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A presença de Dean na arquibancada deixou Kyle nervoso e inseguro. Ele errou passes bobos e trombou feio com um adversário ao prestar mais atenção na arquibancada do que na jogada em curso. Owen explodiu em berros e cobrou seriedade do capitão, que baixou a cabeça, envergonhado.

Quando Kyle buscou com os olhos novamente Dean na arquibancada não o localizou. Isso o frustrou no início, mas também o ajudou a se concentrar e terminar o treino aplaudido.

Ao final do jogo, o técnico reuniu o time para discutir quais as jogadas que funcionaram e quais precisavam ser melhoradas e o rendimento de cada um no treino. Ia também discutir a agenda de treinamentos da semana seguinte.

Kyle estava ansioso com a expectativa de encontrar Dean mais uma vez e pediu para ser dispensado da preleção, mas o técnico insistiu que ele ficasse e escutasse junto do restante do time, lembrando Kyle de suas seguidas falhas do início do jogo.

Logo depois, Ashley chamou sua atenção fazendo sinal de que estava indo para casa e que ligaria mais tarde para combinarem algo para a noite.

A preleção se estendeu por quase uma hora. A ansiedade crescente de Kyle lhe valeu nova advertência do técnico e um pedido furioso de explicações de Owen na frente de todos.

Ao serem liberados pelo técnico, o estádio estava praticamente vazio. Apenas algumas namoradas de jogadores, que os aguardavam para voltarem juntos. Nenhum sinal de Dean.

O técnico do time adversário também analisara o treino com seus jogadores, mas fora bem mais sucinto. Os retardatários do time adversário já estavam deixando o vestiário de banho tomado, quando os mais apressados do time principal entravam para o banho.

Owen, irritado, mas disposto a esfriar a cabeça antes de voltar a falar com Kyle, foi um os primeiros a entrar e o primeiro a sair do vestiário.

Kyle não seguiu direto para o vestiário. Até aí, nada de estranho. Era o que ele sempre fazia. Normalmente, estendia o papo com algum ou alguma fã, dando tempo para os companheiros de time acabarem o banho e, assim, encontrar o vestiário vazio. A visão dos colegas circulando nus o perturbava e ele sabia que perdia completamente a espontaneidade. Já tinha escutado mais de uma vez O-que-é?-Parece-que-nunca-viu. Não podia deixar que nascessem boatos.

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Caminhou por todo o estádio escurecido na esperança de encontrar Dean. Nenhum sinal dele em lugar nenhum. Olhava para todos os lados, ansioso e preocupado que alguém o visse e questionasse sua presença. Nada. Quando perdeu as esperanças, seguiu para o vestiário.

Encontrou-o vazio e silencioso.

Tirou lentamente o uniforme suado e caminhava nu na direção dos chuveiros quando viu-se frente a frente com um sorridente Dean, que parecia ter surgido do nada, interceptando seu caminho. O homem que procurara por todo o estádio estava bem ali, a sua frente.

A surpresa paralisa Kyle, que abre a boca e deixa cair no chão a toalha que levava na mão. Kyle ficou ali, parado, sem ação, na expectativa de algo que tinha medo de transformar em pensamentos. Sentiu o coração disparar e a boca seca.

Dean não tinha pressa. Estava exatamente onde queria estar. Estava exatamente com quem queria estar. Com o homem que despertara seu desejo de forma tão intensa. Simplesmente deixaria acontecer. Era diferente e ao mesmo tempo não era. Sua mente ainda tentava fazê-lo desistir. Mas, seu coração lhe dizia para ir em frente. Seus olhos esquadrinham o corpo de Kyle e tudo que via o agradava. Como aquilo podia ser errado?

Dean dá um passo a frente, resoluto. Kyle tem a cintura envolvida pelo braço firme de Dean, que o puxa com força contra seu corpo e o beija na boca. A surpresa é absoluta, mas Kyle não podia imaginar um começo mais perfeito.

Quando tem sua boca invadida pela língua de Dean, Kyle sente todo o seu corpo ser percorrido por uma onda de calor. Seu corpo responde imediatamente ao contato crescente com o corpo de Dean e também ele prende firmemente Dean em seus braços. Aquela barba por fazer arranhando seu pescoço, aqueles dedos fazendo trilhas nas suas costas, as mordidas em seu ombro. Era como se uma corrente elétrica percorresse seu corpo e amplificasse a intensidade de cada toque. Soltou um gemido alto.

Naquele momento, Kyle encontrava-se incapaz de pensar no que quer que fosse. Estava totalmente entregue às próprias sensações. As mais intensas que já sentira na vida.

Estranho seria se Dean tivesse conseguido domar seus desejos. Seria algo inédito. Ele tinha plena consciência que devia resistir aos desejos tão diferentes despertados nesta realidade ou ia acabar se arrependendo amargamente. Mas, deixou esse momento futuro no futuro e se concentrou no presente. E o presente era Kyle em seus braços correspondendo a seu beijo. Aceitando seus avanços. Dean, que, como sempre, se submetera ao comando de sua cabeça de baixo, sentia-se, naquele momento, extremamente recompensado. Deixaria para racionalizar depois.

Entretidos, não perceberam que um rapaz vestindo um uniforme suado acabara de entrar no vestiário.

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– KYLE?

– Não é o que você está pensando, Mark.

– NÃO? O que significa então encontrar você nu no vestiário da universidade agarrado ao homem que conheceu ONTEM num bar? Me diga.

– Calma aí, garoto. Em primeiro lugar, o Kyle não teve culpa de nada. Ele não sabia que eu estaria aqui. Fui eu quem o procurou. Fui eu que o agarrei.

– Não me pareceu que estivessem BRIGANDO. Pareceu consensual. Mas, se esse homem o estava FORÇANDO a fazer algo que NÃO QUERIA FAZER, Kyle, nós dois podemos ir juntos à delegacia onde SEU PAI é DELEGADO e meu IRMÃO é POLICIAL e REGISTRAR QUEIXA.

– Mark, por tudo que é mais sagrado. Meu pai não pode ficar sabendo disso nunca.

Mark pega a tolha no chão e a joga com força nas mãos de Kyle.

– Kyle, já imaginou se fosse OUTRA PESSOA que tivesse entrado neste minuto no vestiário. O que acha que essa pessoa veria? Sim, porque não parecia que vocês iam parar no primeiro beijo.

Kyle escuta em silêncio, de cabeça baixa, o rosto em fogo, aquela verdade ser dita. Nunca passara por nada nem remotamente parecido. Aquele era o momento mais constrangedor de toda a sua vida. Flagrado por Mark em um momento tão íntimo, quando estava tão vulnerável, fazendo algo condenável aos olhos da maioria. Sentia seu mundo desabar. Tudo que queria era que o chão se abrisse e o tragasse. Uma lágrima escorre pela sua face.

– Pisei feio na bola, Mark.

A voz de Kyle saiu quase inaudível. Dean sentiu vontade que abraçá-lo e dizer que não se preocupasse. Que estava ali e o protegeria de tudo e de todos. Que tudo ia acabar bem.

– Ei, você não tem do que se envergonhar. Não estávamos cometendo nenhum crime. O que fizemos não é da conta de mais ninguém.

– Não, Dean. O Mark está certo. Não era a hora nem o lugar. Fui fraco. Eu não devia ter permitido. Eu tinha que saber me controlar.

– Você não pode pensar desta maneira. O que estávamos fazendo não é da conta de mais ninguém.

– Está errado, Sr. Winchester. É DA MINHA CONTA, SIM. Eu sou AMIGO do Kyle. Conheço toda a família dele. Estou apenas ZELANDO POR TODOS.

– Ei, como sabe meu VERDADEIRO nome? VOCÊ É O TRICKSTER!

Dean avança contra Mark, o agarra pela gola e o prensa contra a parede mais próxima.

– O que pretende? É VOCÊ, NÃO É?

– Não. .. NÃO SOU.

– Escuta aqui ..

Mark segura os punhos de Dean, dá um sorriso enigmático e, mostrando uma força inesperada, força-o a soltá-lo e o lança contra a fileira de armários do outro lado do vestiário num voo inesperado.

Por um breve instante, Dean vislumbra em Mark Levine algo muito mais grandioso que o jovem universitário que seus sentidos mostram.

– ESCUTE VOCÊ. O que estou fazendo agora é TAMBÉM POR VOCÊ, Dean Winchester. Quando você VOLTAR A SER o homem que sempre foi e a pensar COMO SEMPRE PENSOU, NÃO VAI GOSTAR de se LEMBRAR do que QUASE aconteceu aqui. Agora, por favor, SAIA.

– Kyle, desculpe. Juro que não queria criar esse constrangimento para você. Expor você desta forma para seu amigo. Pensei que seria .. bom .. para nós dois. Droga, eu simplesmente não pensei em nada.

Kyle em nenhum momento ergue os olhos para encarar Mark ou Dean. Não saberia o que dizer. Queria morrer.

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Quando Dean sai, desapontado, Mark se volta para Kyle e pousa a mão em seu ombro.

– Não fica assim.

– Fiz uma grande besteira, não foi? Vou entender se você não me quiser mais como amigo.

– Que bobagem é essa? É claro que vamos continuar amigos. Mais ainda. Você SEMPRE vai poder contar comigo. E, quer mesmo saber? Não foi nenhuma surpresa para mim.

– NÃO?

– Se esse Dean fosse o cara certo para você, eu não me meteria. Mais, daria todo o meu apoio. Mas ele NÃO É. Ele pode até ser um bom sujeito, mas é encrenca da grossa. Você não está preparado para entrar no mundo dele. Escuta, Kyle. Não acha que já passou da hora de você e Owen terem uma conversa franca?

– O que você quer dizer com eu e Owen? Não existe NADA entre eu e o Owen.

– Eu sei que não. Mas, pode existir. Se você quiser. Se você lutar pelo que quer.

– O Owen nunca ..

– Se abra com ele. Quem sabe?

– Vou pensar, mas acho algo tão impossível .. eu e o Owen. O Owen nunca .. Você acha mesmo ..? De qualquer forma, obrigado pela força, Mark. Você é mesmo um grande amigo. Tem certeza que você não é meu ANJO DA GUARDA disfarçado?

– Pode ter certeza que não. DE ANJOS, TUDO QUE EU QUERO É DISTÂNCIA. Agora, chega desta conversa. Vamos logo para a ducha. Eu ainda quero estudar hoje.

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Dean ainda não tinha dado vinte passos após deixar o vestiário quando dá de cara com Owen.

– Você? O sujeitinho do bar? O que está fazendo aqui? Onde está o Kyle? O que você estava fazendo com ele no vestiário?

– Não sei do que você está falando.

– Cara, você não me engana. EU SEI. EU VI. No início do jogo. Você de pé na arquibancada. E ontem? Aqueles sorrisinhos todos. O que foi aquilo?

– Então é isso? Está com CIÚMES?

– SEU MISERÁVEL. Quem é você para vir com essas insinuações?

Owen avança cego de raiva contra Dean. Só força bruta, nenhuma técnica. A briga nem chega a começar. Um único golpe e Owen cai desacordado no chão.

O barulho atrai Kyle e Mark, saídos do banho, ainda de toalha, os cabelos pingando.

– Seu amigo aqui resolveu engrossar. Mas, não se preocupem. Ele vai ficar bem. E, querem saber o que eu acho? Ele GOSTA de você, Kyle. Mas, acho também que vai ser bem difícil você forçá-lo a confessar.

– Dean! Quero que saiba que não culpo você por nada do que aconteceu. Só aconteceu porque eu também queria que acontecesse. Saiba que gostei muito de conhecer você. É pena que tenha acabado antes mesmo de começar. Eu estou bem agora. E está tudo bem entre eu e o Mark. O Mark é o melhor amigo que alguém pode ter.

– Kyle, você não imagina o quanto eu queria ter tido a chance de CONHECER VOCÊ .. A FUNDO.

O evidente duplo sentido quebra a formalidade da conversa e os três riem, já num clima de descontração.

Dean se despede, deseja sorte a Kyle junto a Owen, e segue seu caminho.

Kyle se agacha junto ao ainda desacordado Owen e fica ali parado, olhando para ele com um olhar apaixonado. Mark pousa a mão sobre o ombro do amigo, dando apoio. Kyle pousa a sua sobre a do amigo, agradecido.

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Uma hora depois, quando Mark Levine chega em casa, encontra o irmão policial esperando.

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– Mano? Chegou mais cedo. Não tinha plantão hoje na delegacia?

– Vim só para falar com você. Já vou voltar. Mark, você está se arriscando demais. Vai acabar pondo tudo a perder.

– Do que está falando?

– Do que aconteceu no vestiário da universidade uma hora atrás.

– Como ficou sabendo?

– Como ACHA que fiquei sabendo? Mesmo uma pequena manifestação reverbera. Quer que ELE descubra nossa presença nesta cidade? Que traga os OUTROS. Sabe que isso seria o NOSSO FIM.

– Já descobriu o que está acontecendo?

– Você estava certo. Estamos PRESOS aqui.

– Mas, como é possível que não tenhamos percebido antes?

– Ficamos descuidados depois de tantos anos.

– O que fazemos agora?

– NADA. Nada que chame ainda mais a atenção. Não foi assim nos últimos milênios? Tentaremos mais uma vez passar despercebidos.

– É. Podemos tentar.

– Vai sair novamente essa noite?

– Não. Amanhã tenho prova. Vou pro meu quarto estudar.

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01.11.2013