7VERSE : SETE VIDAS

SETE VIDAS VIDA 3: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR

vida 3 CAPÍTULO 9

NÃO SE PODE VENCER TODAS

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- É, Dean. Melhor sorte na próxima.

Dean atravessa o campus da universidade mergulhado em autopiedade.

Apostara em Kyle. Não pelo corpo perfeito que ele confirmara ter ou pela expectativa da transa quente que quase se concretizou. Ou melhor, não só por isso. Por ele mesmo. Pelo que ele tinha a oferecer como pessoa. O cara legal que ele parecia ser. Pelo sentimento forte que ele lhe despertou.

Alimentara esperanças que, desta vez, poderia ser mais do que simplesmente sexo. Estava cansado de encontros furtivos. Sexo feito às pressas com desconhecidos. Tinha fantasiado que aquele encontro poderia ser o começo de algo maior. Tinha decidido se esforçar para isso acontecer.

E acabara em frustração. Maior ainda que das outras vezes. Sexo mesmo nem chegara a acontecer. E as preliminares só serviram para deixar um gostinho de quero mais. Um gosto amargo quando se sabe que não haverá uma segunda vez.

O pior de tudo era aquela sensação de que estivera muito perto de conquistar algo valioso e que teria que se conformar em recomeçar do zero e torcer para a vida lhe dar uma outra chance. A sensação que tivera um tesouro nas mãos e este lhe fora tomado.

A verdade é que chegara tarde. Kyle era alguém especial, mas já encontrara o seu par. Podia demorar, mas aqueles dois acabariam se acertando. Enquanto que ele, Dean, ainda estava à procura do seu.

Estava de volta ao ponto de partida.

Mas, como podia construir laços não tendo um lugar no mundo que chamasse de seu? Sequer tinha um endereço. Um lugar para onde voltar. Tudo que tinha era o Chevy Impala 67 e o que podia transportar no porta-malas. Uma vida errante e incerta. Pesadelos, mortes e assombrações. Era isso o que tinha a oferecer. Quem aceitaria?

Parou para refletir sobre aquela linha de pensamentos. Aqueles pensamentos não eram seus. Aquela não era a sua forma de pensar. Aceitara há muito tempo que tinha uma missão e não desistira dela. Não havia lugar na sua vida para um relacionamento estável. Aqueles pensamentos provavelmente refletiam o desejo de uma relação estável que existia no outro Dean. O outro Dean não fora criado para ser um caçador. A tragédia o atingira quando já tinha 18 anos. Tivera tempo para fazer planos e vê-los naufragar. Devia ser mais difícil para ele abrir mão deste sonho de felicidade.

Já aceitara que aquela realidade maluca bagunçara seus sentimentos e mudara o objeto do seu desejo. Mas, parecia que outras mudanças estavam em curso. Percebia agora que começava a incorporar a forma de pensar do outro. Quanto tempo até que não houvesse mais diferenças entre eles?

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Era em momentos como esse que mais precisava do irmão. Quando se sentia perdido e desamparado. Seu irmão sempre fora seu porto seguro. Era Sam quem lhe dava forças para continuar lutando, mesmo quando tudo parecia perdido. Sam era sua razão para levantar da cama e seguir em frente, mesmo quando se sentia destroçado por dentro. Bastava a presença dele. Bastava saber que ele existia. Não precisava desabafar com ele suas dúvidas. Jamais o faria. Não aprendera a demonstrar fraqueza. Tinha certeza que Sam sabia disso. Ninguém o conhecia melhor que Sam. Talvez o irmão o conhecesse melhor que ele próprio.

E agora estava preso num lugar onde Sam não existia.

No lugar dele, um demônio assassino que se divertia fazendo-o sentir-se péssimo.

Um demônio assassino que rondava sua família prometendo morte.

As palavras do Trickster voltaram a ecoar em sua mente. O tempo estava correndo. O demônio ia matar seu pai. O que ainda estava esperando? O próprio Jonathan Harvelle dissera com todas as letras que mataria John. Vira seu ódio. Porque ainda hesitava? Aquele não era o verdadeiro Sam. Não era o seu irmão. Um demônio é sempre um demônio, não importa com que rosto se apresente. O rosto é apenas uma máscara. Tinha o DEVER de salvar o pai.

Quando soube que, nesta realidade, seu pai estava vivo, acreditara que, pelo menos nisto, saíra ganhando. Não sabia que significava uma troca. Que para ter o pai de volta, teria que abrir mão do irmão.

O irmão que não era seu irmão. Que nunca fora. Tinha que parar de pensar em Jonathan Harvelle como se ele fosse Sam. ELE NÃO ERA. Era apenas o demônio que matara sua mãe e agora ameaçava a vida de seu pai.

Era, na verdade, muito simples. MATARIA o demônio e teria seu pai de volta.

Mas, muitas coisas ainda o intrigavam.

Existia um Dean antes dele chegar. Opção sexual à parte, quem era realmente esse Dean? Porque agia daquela maneira? Sam falara alguma coisa da vida deste Dean. Mas, não o suficiente para que ele montasse o quebra-cabeça.

Esse Dean SABIA que Sam era um demônio e SABIA que ele MATARA sua mãe. Por que não fizera nada? Como era possível que esse Dean dormisse ao lado de um demônio noite após noite sabendo das coisas que aquele demônio era capaz.

Se bem que .. FIZERA EXATAMENTE O MESMO.

SABIA que Jonathan Harvelle era um demônio e, mesmo sabendo, simplesmente deitara e dormira na cama ao lado da dele. Seu instinto, no qual confiava tanto, não apontara qualquer perigo nessa proximidade. Como era possível?

E parando para pensar, o mesmo se dava com Jonathan. O demônio o provocara, o ameaçara, ameaçara John, mas também se pusera à sua mercê. Ao voltar, encontrara-o dormindo tranquilamente. Jonathan também confiara que o filho da mulher que matou não o mataria durante o sono. Isso tinha que significar alguma coisa.

E, entre eles, não havia apenas Mary. Sam .. Jonathan .. dissera que o outro Dean matara Jessica, seu grande amor, na sua frente. O que acontecera em seguida? Ele ACEITARA isso numa boa? PERDOARA o irmão adotivo? Era mantido à distância pelo amuleto? Planejava VINGANÇA?

Faltavam peças neste quebra-cabeças.

Droga, precisava saber mais. O Trickster não era de confiança. Não podia acreditar cegamente no que ele dissera. Jogá-lo contra Sam não seria apenas mais um de seus joguinhos diabólicos para torturá-lo? Isso era bem a cara do Trickster. Mesmo assim, não tinha o direito de arriscar a vida do pai. Mas, quem realmente era esse pai? Seu verdadeiro pai estava morto. Não chegara a conhecer esse outro. Ele não era necessariamente o mesmo homem. Por esse outro pai, que na verdade não conhecia, seria realmente capaz de matar Sam, demônio ou não?

Talvez não precisasse matar Sam. Ou Jonathan. Apenas neutralizá-lo de alguma maneira.

Mas, tinha que agir rápido.

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Dean parou o Impala fora do estacionamento do Blue Mountains Motel. Não queria que Sam fosse alertado de sua chegara pelo barulho inconfundível do motor.

Depois de confirmar que não estava sendo observado, retirou as armas que poderia precisar do porta-malas. Uma pistola automática, que escondeu nas costas, presa à cintura; uma faca de caça, que prendeu na presilha da bota de cano alto; e, na mão, visível, o rifle winchester 1892.

No seu coração, o desejo de não precisar usá-las.

Cruzou o estacionamento em direção à escada para o segundo piso o mais discretamente possível. O rifle encostado ao corpo, parcialmente coberto pela jaqueta.

Havia poucos hóspedes. As janelas de quase todos os quartos estavam fechadas e com as luzes apagadas. A do quarto 212 era uma das poucas exceções. A janela estava aberta, apesar do frio daquele início de noite. A luz estava acesa. Ele estava lá. Parou num ponto onde não podia ser visto e ficou observando por vários minutos. Até ali, tudo certo. O demônio não se aproximou momento algum da janela. Não deve tê-lo visto chegar.

Contava com o elemento surpresa. Para ter sucesso, precisava pegá-lo desprevenido.

Dean sobe as escadas silenciosamente e testa a maçaneta. A porta não estava trancada. Dean empurra a porta de forma brusca com o pé e entra no quarto com o rifle empunhado.

No centro do quarto, Sam o encara com o rosto sério, sobrancelha levantada, os braços cruzados e os olhos escurecidos.

- Veio me matar, Dean? Vá em frente. ATIRE.

- !

- Está esperando o quê? Que eu IMPLORE pela minha vida? Está perdendo seu tempo. Não me faça perder o meu. Vamos, Dean, ATIRE DE UMA VEZ. Depois, você comemora tomando uma cerveja. Aproveite, peça duas e tome a segunda por mim.

- Sam, sério. Pode não parecer, mas eu NÃO QUERO matá-lo.

- NÃO? Então, VOCÊ QUER O QUÊ? Quer a mim? Quer tocar o meu corpo? Quer FAZER AMOR comigo? Para isso, não precisa da arma. É só dizer. É só pedir com jeitinho. Porque você não tenta?

- Não me provoque, Sam. Ou ..

- Ou? Ou você faz O QUÊ? ME MATA? Está esperando o quê? ATIRA, Dean!

O rosto de Dean mostra toda a confusão de sentimentos por que está passando.

- Vou ajudar você a tomar uma decisão.

Sam descruza os braços e dá um passo em direção a Dean. Seu rosto esboça um sorriso maldoso. Dean engatilha o rifle e firma o corpo.

- Nem mais um passo, Sam.

Sam aumenta o sorriso e dá o segundo passo. Um terceiro passo. Está praticamente à queima-roupa. O sorriso agora é de deboche.

- Não vai atirar? Então é a MINHA vez.

O rifle recua sozinho contra o rosto de Dean e depois voa para longe. Ainda tonto e com o nariz sangrando pelo golpe, Dean vê Sam estender ambos os braços em sua direção, se concentrar e, depois, lentamente, aproximar as mãos uma da outra, como se quisesse espremer o ar.

Os olhos de Dean mostram toda a sua surpresa, quando ele começa a sufocar.

Dean sente como se estivesse sendo erguido pela garganta por uma mão invisível. A pressão em torno de seu pescoço é como a de uma grande mão se fechando. Estrangulando-o. Ele não consegue respirar.

Dean saca a pistola, mas, antes que consiga apontá-la na direção de Sam, ela é arrancada de suas mãos. A faca também é arrancada da bainha e cravada na porta.

Dean se apavora, ao ver-se indefeso e sem chance de ajuda. Sua visão perde o foco. Ele já está sem ar nos pulmões. Vê tudo escurecer e sente que está perdendo a consciência. VAI MORRER. O demônio vai matá-lo.

Seu último pensamento antes de ser tragado pela escuridão foi: NÃO FAÇA ISSO, SAM.

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Minutos depois, com o pescoço ainda terrivelmente dolorido, Dean recobra a consciência. Descobre-se deitado na sua cama. O rifle estava encostado na parede. A pistola e a faca na mesa de cabeceira. A porta está aberta. Ao se levantar, ainda tonto, percebe que tem alguém do lado de fora do quarto.

- Sam?

A figura silenciosa olha distraída para o movimento da estrada, de costas para a porta do quarto, com braços cruzados apoiados no parapeito que dá para o pátio do motel. Dean se aproxima, mas Sam não dá nenhum sinal de que pretenda sair daquela posição. Seus olhos escurecidos permanecem fixos num ponto além do estacionamento do motel.

A voz sai baixa, num tom envergonhado.

- Achei que fosse me matar.

- Foi você quem veio armado. Suas armas estão aí. Pode pegá-las. Pode completar o que veio fazer. Desta vez, eu juro que não vou impedi-lo. Só peço que seja rápido.

- Me desculpe, Sam. Eu não queria ter feito aquilo. Eu nunca quis matá-lo. O Trickster veio e disse coisas. Mesmo assim, acho que eu não conseguiria ir até o fim. Não conseguiria matá-lo. Nem mesmo por John. Apesar de tudo, apesar de SABER que você é Jonathan Harvelle e que não temos o meu sangue, eu continuo vendo meu irmão Sam em você. Eu sinto que em essência vocês dois são a mesma pessoa. Eu tentei, mas não consigo deixar de me sentir seu irmão.

- Eu NÃO SOU esse irmão que você ama. Mate-me - ou então não me mate - por eu ser eu mesmo, não um outro que só existe nas suas lembranças.

- Certo. Eu não sei quanto tempo isso vai durar, quanto tempo o Trickster vai me prender aqui, mas eu QUERO ter você como meu irmão, com os olhos escurecidos ou não.

Sam se volta para Dean e seus olhos mudam para o costumeiro tom verde acastanhado. Num gesto inesperado, abraça Dean apertado e se aconchega junto a ele, como que buscando proteção. Dean, passada a surpresa, corresponde ao abraço e também se aconchega ao corpo do irmão.

Naquele abraço, aceitou Jonathan Harvelle em seu coração, no espaço que Sam costumava ocupar. Estavam novamente juntos. Irmãos. Do jeito que sempre deveria ter sido. Era como se o mundo fosse novamente do jeito que deveria ser.

Naquele momento, Dean voltou a se sentir completo.

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Na mesa de cabeceira do quarto, o relógio digital marca 21:03.

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Mas, desta vez, o cenário NÃO MUDA

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ESCLARECIMENTOS:

1) Descobrimos aqui que o Dean de VIDA 3 tem uma vida sexual bem ativa, que ele tenta manter em segredo. O sexo tem tanta importância na vida dele quanto nas de suas contrapartes de outras realidades. São os segredinhos sujos a que o Sam se referiu no capítulo 2. Naturalmente, envolve muito mais risco. É natural que isso gere o desejo de encontrar um parceiro fixo.

2) Os leitores de VIDA 1 e VIDA 2 podem ter imaginado que a experiência em outras realidades se limitava a 24 horas. Passado o prazo, Dean seria automaticamente transportado para a realidade seguinte. Essa regra simplesmente não existe. Não é assim que funciona.


06.11.2013