7VERSE : SETE VIDAS
SETE VIDAS VIDA 3: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR
vida 3 CAPÍTULO 11
FIM DE JOGO
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Dean chegara cedo ao Hot Machine Bar e já tinha bebido muitas. Mas, ainda estava no controle de seus atos. Era resistente à bebida. A angústia e o vazio que sentia no peito também eram.
Em outra realidade, teria aceitado o oferecimento da garçonete peituda que estuda psicologia e que adoraria-ver-como-você-fica-sorrindo. Mas nessa, ela não tinha os atributos que poderiam interessá-lo.
Tinham se passado 72 horas desde que Sam saíra, deixando-o preso à parede, e ele não fazia idéia do que tinha acontecido com o pai e com o irm .. com Sam .. com Jonathan Harvelle. Preocupava-se igualmente com o destino dos dois. Não importava qual dos dois tivesse vencido. Ele, Dean, certamente teria perdido.
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A última coisa que lembrava era de ter sido encontrado pelo policial Levine ainda imobilizado. Depois disso, só lembrava que acordara, já na manhã seguinte, em sua própria cama, no motel, com dores horríveis no corpo todo.
Mas, quando fora à delegacia questionar o policial, ele dissera que o encontrara desacordado no chão. Que recebera a denúncia de uma movimentação suspeita no quarto 212 e que fora investigar. O encontrara desacordado, sem sinais de uso de álcool ou de drogas, e o deitara na cama. Depois de confirmar que estava com a respiração e a pulsação normais, dera o caso por encerrado. Não tinha notícias do irmão Jared, nem de nenhum incidente de qualquer natureza nas redondezas envolvendo alguém com as características do irmão.
Dois dias inteiros rodando pela cidade e pelas estradas da região procurando pelo pai e pelo irmão e nada. Nenhuma pista. Ninguém que tenha visto algo. Nenhum sinal de que algo tenha acontecido. Nenhum dos dois atendia aos seus insistentes chamados no celular. E ali estava ele, enchendo a cara para não cair no choro.
Para não se entregar ao desespero.
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Dia de treino. Kyle, Owen e Mark entram no bar.
Ashley não estava com eles. Kyle tinha pedido um tempo no namoro. Ao ver Dean, numa mesa lateral, Owen disfarçou e sugeriu que fizessem algo diferente naquela noite. Afinal, há quanto tempo não pegavam um cinema só os três? Kyle e Mark se entreolharam, olharam para Dean, olharam para Owen e disfarçaram que tivessem feito a mesma associação de idéias.
Owen repetiu a sugestão e, desta vez, Kyle aceitou entusiasmado.
Mark deu a desculpa que ainda tinha que estudar para uma prova e que não queria dormir muito tarde, para deixar que os dois fossem sozinhos.
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Kyle e Owen saem e Mark aproxima-se de Dean.
- Ainda na cidade?
- Aguardando notícias do meu pai .. e do meu irmão.
- Eles não vão voltar. Nenhum dos dois. Sabe disso, não sabe?
- Como pode s.. ?
Dean interrompe a pergunta, ao olhar nos olhos de Mark.
PARECIA EXISTIR TODO UM UNIVERSO NOS OLHOS DE MARK.
Neles, Dean encontra as respostas que buscava sobre o desfecho da batalha decisiva e sobre o destino final de John e de Jonathan. São respostas direcionadas diretamente para sua alma, não para sua mente racional. Quando o contato visual é quebrado, a lembrança da revelação e o conhecimento objetivo do que de fato aconteceu se perdem, mas o coração de Dean foi acalmado.
O vazio foi preenchido por uma emoção quente e reconfortante, de aceitação e de transcendência.
- Sinto muito por você, Dean. Mas, essa é a sua chance de começar uma vida nova. Uma vida normal.
- Sozinho?
- Vai aparecer alguém especial. Antes até do que você imagina. Você ainda vai ser muito feliz.
Dean abaixa a cabeça até encostar a testa na mesa. Fica assim por longos segundos. Então levanta a cabeça e ergue o copo num brinde.
- A você, pai. A você, mano. Onde quer que vocês estejam.
Dean bebe de um só gole e faz uma prece silenciosa, de olhos fechados.
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EM ALGUM LUGAR
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O gigantesco castelo dominava a paisagem gelada e se sobressaia contra as nuvens carregadas. O sol não podia ser visto, encoberto pela grossa camada de nuvens, mas a luminosidade difusa indicava que era dia. Raios espetaculares cruzavam a todo o momento os céus e trovões ecoavam tão distantes que mal se ouvia o estrondo. O branco da neve dominava o cenário de árvores sem folhas. A paisagem era inóspita e selvagem, mas de inegável beleza.
A trilha estreita, que maculava o vasto tapete branco, era cruzada, de muito em muito, por pequenos riachos de águas cristalinas. O ruído da água corrente, do vento no topo das árvores e os trovões distantes eram os únicos sons que quebravam aquele silêncio gelado. A vida parecia ter se recolhido, e não se viam nem pássaros nem insetos.
Os dois homens seguiram caminhando lado a lado por muitas horas, tendo como única referência o Castelo distante. Tantas que a impressão que tinham é que caminhavam há vários dias. Como o sol ainda não tinha se posto desde que iniciaram aquela jornada, não podia ser há tanto tempo assim. Mesmo assim, eles deveriam estar exaustos, famintos, com muita sede e frio. Mas, não. Não sentiam desconforto de qualquer espécie.
Ainda não tinham trocado nenhuma palavra. Mas, aquela longa caminhada estava dando a eles o tempo necessário para refletirem sobre tudo o que fizeram e sobre o que não tiveram tempo de fazer. O adjetivo que melhor descrevia o que sentiam é pesaroso. Eles estavam assimilando suas próprias perdas, o primeiro passo para superá-las.
O mais novo vira o rosto apenas o suficiente para ver o rosto do mais velho. Ao fazer isso, os olhos dos dois se encontram e ambos descobrem que tudo aquilo o que um dia os afastou parecia já ter perdido qualquer sentido. Seus corações tinham sido acalmados e neles não havia mais lugar para antigas mágoas. Eles voltam a olhar para frente e seguem andando silenciosos. Tudo que precisava ser dito, fora dito naquele olhar.
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Só agora que estão bem perto é que se dão conta do quanto o Castelo é grande. Grande como uma cidade. Os sons que ouvem os faz supor que está havendo uma grande festa lá dentro. Em seus corações, a expectativa de serem acolhidos ali.
Ao se deterem em frente à entrada do castelo, o grande portão fortificado se abre. É algo que há muito tempo não ocorria. E que dificilmente voltará a acontecer.
Os dois homens entram, estimulados pelas saudações entusiasmadas dos guerreiros. A maioria deles brandia grandes e pesadas espadas. Brados de boas vindas de homens rústicos de indiscutível coragem ecoavam por todo o castelo.
Logo os forasteiros são rodeados por homens que estranham sua aparência e suas roupas. Os homens demonstram curiosidade e estranheza, mas não hostilidade. Homens de cabelos escuros são raros ali. E, com toda certeza, eles eram os únicos homens feitos que não cultivavam grandes barbas e fartos bigodes.
Mas, o simples fato de estarem ali era prova mais do que suficiente de que eram bravos e honrados.
Que o lugar deles era ali.
Belas mulheres os puxam pelas mãos até o grande salão onde havia música e um grande banquete. Logo grandes taças de vinho são postas em suas mãos e, por toda a parte, taças se erguem numa ruidosa saudação aos novos habitantes do Castelo.
Contaminados pelo clima de camaradagem, eles tocam as suas taças num brinde constrangido. À volta deles, aplausos e gritos de encorajamento. Muitos dos que estavam naquele salão também um dia se enfrentaram como inimigos. Mas, ao serem aceitos no Castelo, os motivos que os levaram ao campo de batalha ficaram para trás. Os dias de batalha de todos eles tinham terminado. A guerra existia apenas fora daqueles muros.
O Castelo era um lugar de celebração.
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FIM PARA JOHN WINCHESTER E JONATHAN HARVELLE
AQUI E AGORA
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- Eu ia perguntar se posso pagar uma bebida, mas acho que você já bebeu toda a sua cota diária. Ainda assim: posso me sentar ao seu lado?
- Quer mesmo sentar-se ao lado de um bêbado chato? Aviso logo que não estou nos meus melhores dias.
A voz saiu meio enrolada, mas Dean se esforçou para passar uma boa impressão. Seu interlocutor era um homem bonito e isso fazia diferença.
- Vou arriscar. Não acredito que você seja um chato, mesmo concordando que está ligeiramente bêbado.
- Ligeiramente? Você é daqui mesmo?
- Não. Estou de passagem. Viagem de negócios. Moro em Los Angeles. Conhece?
- Pouco. Muito grande. Muito iluminada.
- Muito iluminada? Não entendi.
- Fui por muito tempo um caçador. De coisas que não caminham na luz.
- Foi? Não é mais?
- Ainda não sei. Por um tempo acompanhei meu pai. Depois, um .. amigo. Depois, um irmão. Agora, simplesmente não sei. Acho que vou seguir novos rumos.
- Porque não vai para a Califórnia. Los Angeles é uma cidade cheia de oportunidades.
- Não conheço ninguém lá.
- Agora conhece. Conhece a mim.
O homem o olhava diretamente nos olhos e o tom com que ele pronunciou a frase não deixava dúvidas. O sujeito estava lhe passando uma cantada. Olhou para o homem com mais atenção. Era um moreno de olhos escuros. Rosto forte, másculo. Bastante interessante, por sinal. Não conseguiu evitar um sorriso.
- Não posso dizer que nos conhecemos. Pelo menos, não ainda.
O homem pousa suavemente sua mão sobre a de Dean e um sorriso não formado brinca nos seus lábios.
- Depende só de você.
Dean fica vários segundos olhando para a mão pousada sobre a sua, pensando sobre o que aquilo significava e aonde podia levá-lo. Sentiu seu coração bater acelerado. Lembrou-se das palavras de Mark Levine, mas teve medo de acreditar nelas.
- Você é sempre tão direto?
- Senti algo diferente quando entrei aqui e vi você bebendo sozinho. Posso estar enganado e sendo inconveniente, mas me pareceu que você está vivendo um momento muito difícil. Mesmo sem conhecer você, isso me pareceu extremamente INJUSTO. Eu gostaria muito poder ajudá-lo a mudar isso. Mesmo que só por alguns momentos. Sei que o que eu digo pode parecer estranho, mas é exatamente assim que me sinto. Só não me pergunte porque, pois eu não saberia responder. Amanhã estou voltando para Los Angeles. Portanto, era agora ou nunca. Queria me dar essa chance. Dar essa chance A NÓS DOIS.
- Talvez, eu esteja mais bêbado que imaginei ou apenas querendo muito acreditar. Não importa. Mesmo que seja só por essa noite .. já terá valido a pena. Meu nome é Dean Winchester.
- Prazer, Dean. Eu sou o Luke. Luke Braeden.
Os dois homens apertam as mãos demoradamente, ambos atentos à emoção daquele primeiro contato físico entre eles.
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Ainda estavam com as mãos unidas quando o relógio da mesa de cabeceira do quarto 212 do Blue Mountains Motel marcou 21:03.
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PARA DEAN & LUKE, CONTINUA NO CAPÍTULO 12
AQUI E AGORA
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Hal Levine, com seus inseparáveis óculos escuros, espera o irmão na porta do Hot Machine Bar.
– E o que tínhamos combinado de não chamarmos a atenção? Desta vez, só faltou você soltar FOGOS DE ARTIFÍCIO. Aliás, teria sido muito mais discreto se tivesse soltado os fogos.
– Sei disso. Mas, eles eram guerreiros valorosos. Morreram lutando pelo que acreditavam ser o certo. Mereciam o Julgamento do Guerreiro. Não seria justo que fossem condenados ao Inferno por toda a eternidade.
– Injusto ou não, teria sido conforme suas crenças. Falando como tira, eles estavam fora da nossa jurisdição.
– Creio ter conseguido esconder bem a trilha. O Paraíso e o Inferno não sabem onde eles estão. E nunca vão descobrir. Eu aprendi alguns truques desde que chegamos a esta terra.
– Isso tudo porque você se identificou com o tal de Dean, não foi?
– O arcanjo estava jogando um irmão contra o outro. Queria que os dois se matassem. Exatamente como o OUTRO fez conosco.
– Eu entendo como você se sente. Nunca vou me perdoar por ter MATADO você, meu irmão. Por todo o tempo que você ficou preso no submundo. Toda uma eternidade.
– Não foi sua culpa. Você foi ludibriado. E você fez tudo que pode para me resgatar. Era para ser assim. Foi como havia sido profetizado.
– E, exatamente como profetizado, sua morte desencadeou o FIM DE TUDO. Destruição global. O fim do nosso mundo. E aqui estamos nós, RENASCIDOS após o apocalipse, neste novo e HORRÍVEL mundo. Que não guarda a lembrança de sua antiga grandeza.
– Eu gosto daqui.
– Você não muda. Está sempre vendo o lado bom das coisas. É por isso que todos amam você.
– Espera. Está sentindo? Esse mundo está entrando em sintonia com outro. Outra realidade está prestes a tangenciar esta.
– Estamos há tanto tempo aqui. Milênios. E nunca observamos nada parecido antes. Acha que tem a ver com Dean Winchester?
– Tenho certeza.
– Consegue sentir? É uma realidade com leis físicas diferentes. Uma realidade onde não podemos nos manifestar em uma forma física. Uma realidade na qual nós dois nunca existimos. Mas, não entendo. É uma realidade na qual o próprio arcanjo não poderá manifestar sua plenitude. Ele ficará preso na carne. Será, para todos os efeitos, um homem.
– Acha que ele escolheu esta realidade somente para nos neutralizar?
– Seria mais fácil para ele nos confrontar diretamente.
– Ou talvez ele não esteja realmente no controle.
– Isso explicaria o porquê de um gatilho. É uma garantia de que haverá uma porta de saída em realidades como essa.
– São DOIS gatilhos, Hal. Um é o homem. Dean Winchester. O outro é o tal objeto que não conseguimos identificar. O objeto que desencadeia a passagem de uma realidade para outra.
– Enquanto esse objeto não for destruído, Dean Winchester será lançado de realidade em realidade.
– E vai voltar a nos encontrar. Ou, pelo menos, alguma outra versão de nós dois. Como já aconteceu antes.
– Se prepare. As realidades vão colidir. Vai ocorrer o salto.
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21:03
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PARA O NOSSO BOM E VELHO DEAN, CONTINUA EM SETE VIDAS: VIDA 4
ESCLARECIMENTOS:
1) Conhecemos uma versão heterossexual de Luke Braeden em VIDA 2, como o ex-marido de Diana Winchester. Aquele e este são versões alternativas da Lisa Braeden do seriado. Nestas duas realidades, ela existe numa versão masculina. Os fortes laços entre Dean e Lisa fazem prever que a relação do Dean gay com Luke seguirá bem além desta primeira noite.
2) A resposta quanto a John Winchester e Jonathan Harvelle estarem mortos é SIM. Estão mortos, mas escaparam do Inferno. E isso é o melhor que podia acontecer para eles. Portanto, esse foi um final feliz para os dois.
3) Em VIDA 4, a resposta para o mistério da identidade dos irmãos Levine. Mas, há neste capítulo há pistas suficientes que permitem quem é ligado em mitologia saber de quem se trata. E também onde fica o Castelo.
A SEGUIR EM VIDA 4:
Numa realidade onde deuses, anjos e demônios não existem, Dean é um corretor de seguros de meia idade, amargurado e sem perspectivas. Separado da esposa, desprezado pelo filho e tendo um pai alcoólatra para sustentar, Dean deixou de ligar para a própria aparência e sua saúde está comprometida. Isso já seria suficientemente ruim, se a intervenção do Trickster não tivesse decretado O FIM DO MUNDO. Agora, esse homem fracassado é a única esperança de salvação do planeta.
13.11.2013
