Postagem 2. A Hora do Pesadelo

(Nightmare on Elm Street, 1984, EUA)

Alta madrugada.

Eu não via nada "em preto & branco". Era tudo bem colorido! Com riqueza de detalhes naquela escuridão toda!

Desenhavam-se imensas florestas de pinheiros, cercadas de neve: eu seria até capaz de sentir o enregelar de meus ossos, naquele frio com toda a cara de nórdico! Sentir o meu nariz congelar!

Ouço o som forte de uma respiração agressiva, selvagem, como que enfurecida, dançando ao redor de passos violentos em disparada: algo enorme tava vindo da floresta, furando a negritude da noite e lançando pinheiros abaixo como se fossem... palitos!

Tomei um enorme susto quando aquela coisa passou perto de mim, felizmente sem me ver! Era enorme, maior que uma pick-up! Completamente peluda! De olhos vermelhos cor de sangue! Seu pelo era dourado! Na cabeça: focinho alongado, longas orelhas empinadas o vestiam! Dentes canídeos enormes e fartos, brilhantes como aço!

Aquela coisa parecia ora se locomover em quatro patas, ora em duas patas! E as da frente pareciam lembrar... mãos!

Quando a cabeça daquele monstro passou perto de mim, parecia a de um imenso lobo selvagem, talvez pré-histórico! E numa fração de segundos, não sei como, vi algo saltar das profundezas de seus olhos: não foi um olhar de lobo, mas um olhar de uma criança, uma menina loirinha, aterrorizada, desesperada por manter-se viva! Parecia que uma menininha vivia "dentro" dos olhos daquele lobo do tempo da megafauna! Assustador!

O monstro dourado corria numa velocidade maior do que a de um carro! E eu senti porque ele corria tão rápido: pra salvar-se! Algo que ele temia muito tava em seu encalço!

O monstro saiu da floresta e foi em direção a uma linha de trem, que cruzava enormes campos de neve... justamente quando um enorme trem de carga tava passando!

Surgiu o som pesado de toneladas de metal pressionando os trilhos: o trem vinha rápido, possante!

A criatura dourada tava muito apavorada com o que a perseguia: um vulto negro, esbelto, incrivelmente ágil... Era um... um homem! Um cara! Ele passou por mim e, pra minha sorte, também não me viu! Quando ele passou por mim, pude ver um carinha misterioso, alto, vestindo um enorme sobretudo negro, revoltos cabelos negros... e suas mãos, tão brancas quanto a neve, empunhavam duas espadas, sendo que uma delas tava quebrada. Não consegui ver nada de seu rosto, mas senti sua respiração: em fúria e êxtase simultâneos, como um leão que está quase capturando a jugular de sua presa! Arrepiante!

A criatura não teve dúvida: entre o carinha misterioso que se aproximava dela, estraçalhando a distância, correndo tão leve e ágil como um sussurro de vento, e o gigantesco trem de carga que rasgava os campos invernais, escolheu o trem!

A colisão da criatura foi monumental e inesperada: a força do monstro era a de um furacão! Eu nunca ia imaginar aquilo! Ao invés do monstro ser atropelado, ele que atropelou o trem! O choque começou a descarrilar os vagões! Que loucura, foi uma força de impacto de... toneladas e toneladas!

Quando a criatura bateu no trem, perfurando a sua lataria como papel, atravessando-o e o descarrilando, ela prosseguiu em direção a um desfiladeiro! Como se nem tivesse passado por dentro do trem, despedaçando o vagão!

Foi então que o carinha misterioso berrou, furioso, mega alto:

- Merde, merde, merde!

Ele falava francês! Ao menos essa palavra francesa eu reconhecia... Bem, deixa de ser modesta, Selene: você sabia bem mais que isso de francês!

Xingando, furioso, ele coloca as espadas nas bainhas em suas costas, salta veloz sobre o trem, bem em cima do vagão perfurado que começava a descarrilar! E fiquei embasbacada com o que ele fez: começou a correr por sobre os vagões, mais rápido do que o próprio descarrilamento!

Incrível! O carinha era um bólido negro correndo sobre o trem, até chegar no primeiro vagão: a máquina!

Ali em cima, ele rasga o metal do teto com... as mãos! Com as mãos nuas, como se o metal fosse uma cartolina ordinária! Rasga o teto, puxa o maquinista pelas roupas, e salta com o homem sobre o campo nevado!

Ele cai como um gato sobre o campo nevado, com o maquinista nas suas costas! E o trem descarrila completamente a poucos metros dos dois, num barulho metálico ensurdecedor!

Crashhhhhhhhhhhhhh!

O maquinista tinha um crachá: "Steg Svendessen". Que coisa mais idiota pra mim ver justo numa hora dessas, mas eu vi! E o pobre homem exclamou, desesperado, algo. Pra mim, com esse nome no crachá, e ainda mais falando aquilo tudo "enrolado", pior que grego, esse cara era sueco!

O carinha de sobretudo negro – cujo rosto eu nunca conseguia ver com nitidez! – olhou por um milésimo de segundo pro maquinista apavorado. Será que tava vendo se o homem tava bem? Então deu pra ele uma piscadinha matreira e, silenciosamente, saltou por cima do trem descarrilado, sacando novamente suas espadas, e sumiu em direção ao penhasco!

O monstro corria pela borda do desfiladeiro! De repente, de um fechado maciço de pinheiros próximos, o carinha de sobretudo negro saltou sobre a criatura, agarrando-se ao pescoço colossal do monstro e, com um sorriso assustadoramente sádico, enfeitado por ferozes e enormes dentes caninos, gritou:

- Surprise!

E os dois despencaram do desfiladeiro, enquanto a criatura urrava! Um urro misturado com um uivo, um som horrível!

Imediatamente ouvi um poderoso som, como se fosse um trovão vestido por imponentes palavras:

Kaô Kabelecile!

O grito ecoou, potente, por todo o desfiladeiro!

Eu não vi mais nada! De onde eu tava, só se podia ver o desfiladeiro e o vazio da escuridão! Percebi que o Sol tava pra nascer em alguns minutos. O silêncio no precipício era sepulcral!

Até que de repente eu vi algo incrível!

Das profundezas do desfiladeiro, ao longe, algo com asas enormes, profundamente negras e indomáveis, como de uma gigantesca ave de rapina, lança-se aos céus da moribunda madrugada – carregando algo em seus braços, que não pude ver! – alando-se em direção oposta ao nascer do Sol, como se dele fugisse!

E o Sol nasce...

Acordei.

E suando frio! Muito!

Que droga, outra vez aquele pesadelo!

Que porcaria! Isso já tava é me dando nos nervos...

Aquelas asas enormes, negras e selvagens... o sorriso sádico, com caninos enormes, do carinha misterioso... o imenso monstro dourado, babando e rosnando furioso enquanto corria, derrubando pinheiros como palitos... aqueles seus uivos penetrantes... Malditas imagens e sons! Ficavam impressas nos meus olhos e ecoando nos meus ouvidos um bom tempo depois que eu despertava.

Aqueles sons me davam arrepios, ecoavam lá fundo na minha cabeça!

Isso já tava ficando desesperador, pois tava ficando mega frequente... A primeira vez que tive esse pesadelo foi alguns dias após o sepultamento de Rachel...

Meses já se passaram, e agora esses sonhos perturbadores tavam ficando insuportavelmente frequentes...

Sonhos repetidos... pesadelos sistemáticos... Porcaria!

Eu achava que isso só existia em roteiro de livro e filme de terror... Só me faltava essa agora... Além de tudo que eu tinha que aguentar, mais uma coisinha insignificante extra pra completar a minha boa sorte: ter que lidar com um Freddy Krueger na minha vida onírica!

Porcaria, eu não tinha mais paz nem quando eu dormia?!

Eu já tava perdendo o apetite... definhando... noites mal dormidas se acumulando... tava ficando uma pilha de nervos!

Não tinha mais alternativa... teria que finalmente dar mais uma vez o meu braço a torcer pra imundície da medicina convencional de Happy Harbor... teria que ir num maldito psiquiatra! Os evitei todos esses anos, desde que... Deixa pra lá!

Eu já sabia a verdade mesmo: que eles não passavam de uns mercenários, atrasados e preconceituosos!

Nem sei mais quem era pior, quem era o grande vencedor do troféu Framboesa de Ouro para Atraso e Pequenez no Pensamento: os psiquiatras de Happy Harbor... ou o Padre Kededo, com seu dedo enorme em riste, berrando: "Isso não existe!"...

Sentei na minha cama.

Parecia uma velha mastigando a chapa, tentando me reencaixar, acordar... Minha cara devia tá horrível, monstruosa, como meu humor...

Sorte que eu não era casada, senão era divórcio na certa. Argumento litigioso: por susto facial ao cônjuge no alvorecer...

Arrumei minha cruz Ankh e meu Pentagrama de prata no pescoço... me sacudi tanto no pesadelo que elas pararam quase nas minhas costas...

Brinquei um pouquinho com elas, entre meus dedos... talvez a pureza da prata me fizesse algum bem... não custava tentar...

Ao lado da minha cama, uma cadeira protegia fielmente meu sobretudo. Vesti devagar minha armadura negra. Minha blindagem.

Comecei a me sentir melhor!

Ainda toda descabelada, senti algo no bolso interno... o cartão do psiquiatra que Ayaan me indicou.

"Todo mundo toma essas boleta em fases ruins da vida! O que não dá mais é ver você definhando desse jeito, desde que Rachel partiu."

A frase de Ayaan ressoava na minha cabeça.

"Tomar umas boleta"... Umas boleta ou umas boletas? Como se falava aquilo, heim?

Boleta... Isso lá era solução? Me entregar pros traficantes de drogas autorizados pelo governo? Mas o que era pior? Tráfico de drogas, indústria farmacêutica, indústria de armas ou... banqueiros?

Meu humor tava péssimo... Sobrou até pros banqueiros hoje de manhã... Tudo me irritava!

Pardal cantando na janela... vontade de jogar água quente nele e assar. Cozinha italiana!

Sol brilhando lá fora... Por que não chove, heim?! Um temporal, tornando o dia em noite, mega trevoso...

Pessoas falando alto lá ao longe, na rua, fazendo barulho... Por que um vulcão não entra em erupção e as mata com gás venenoso? O silêncio posterior ia ser delicioso!

Humor péssimo? Só péssimo? Você tá brincando, né?

Eu já tava era surtando, tendo fantasias duma psicopata, eita!

E olha que eu nem tava na TPM... arfff...Até eu me assustei!

Ayaan... O alto-astral dela me salvou tantas vezes...

Iria ver ela hoje à tardinha. Encontro no cemitério de New Bethlehen. Minha nova Santiago da Compostela, onde eu fazia peregrinação...