Postagem 3. Crepúsculo?
(Twilight, 2008, EUA)
Passei mal o dia todo com aquele pesadelo...
Acabei marcando um encontro com Ayaan, mas no final teve um rabo atrás dela: Richard, o namorado chiclete dela.
Chiclete: cola e não desgruda mais do pé! Porcaria!
Richard: que raio de nome esse dele, heim?! Nunca conheci um Richard que fosse legal, eram todos uns chatos...
Sim! Já era tardinha e... ainda quase tudo me irritava!
Droga, eu odiava ficar assim! Eu ficava uma péssima companhia... Muito chata, mega chata mesmo...
No cair da noite, já conversávamos animados no Cemitério de New Bethlehen. Assim como eu, Ayaan e Richard gostavam também de frequentar cemitérios.
Eu? Já tava até sorrindo um pouco...
Não disse? Não avisei que o alto-astral de Ayaan ia me tirar da fossa daquele dia?
Tirou...
O papo já rolava mega gostoso!
Enquanto isso, o Sol desaparecia. Crepúsculo.
Crepúsculo... Pra alguns críticos de cinema era de tudo, menos um gostoso Sol Poente... Bom, meu humor ainda não tava lá essas coisas... Um pouco de acidez venenosa residual... portanto, se hoje cruzasse com meu caminho, sobrava até pro vampiro Edward, mesmo eu adorando aquele personagem...
Crepúsculo! Finalmente, a parte do dia que eu mais gostava!
Eu e o Sol realmente não éramos bons amigos, mesmo!
Eu odiava a claridade do Sol, pois machucava meus olhos sensíveis.
Solução? Andar de óculos escuros durante os dias ensolarados...
Mas até que os meus óculos escuros sentavam bem em mim... Ficava elegante!
Um pouco de vaidade, pra acariciar o ego, sempre ajuda a melhorar o humor, né?
Ayaan, Richard e eu távamos sentados num grande túmulo antigo, ricamente ornado em mármore e bronze, quando o último raio de sol havia morrido.
Mr. George já havia fechado o Cemitério há tempo.
Mas como ele sabia que nós não fazíamos nenhuma bagunça lá dentro, ele nos deixava ficar até mais tarde.
Mr. George tava só um pouco irritado era com uma Oferenda que haviam feito dentro do Cemitério, pouco antes dele fechar o portões... Perto de uns túmulos, próximos ao portão principal do Cemitério, tava uma Oferenda que eu, graças a sabedoria de Rachel, conhecia bem: era dedicada a Xangô Aganju.
Afinal, qual o único Xangô que aceitaria um amalá completo – dentro de uma gamela de madeira, onde repousavam um pirão, molho de carne de peito com ervas e decorado com 12 bananas pequenas e uma laranja cortada em quatro – e sobre ele uma lindo colar, uma guia, composta sucessivamente de três contas brancas e três contas vermelhas, em pleno Cemitério? Aganju, lógico!
Fora de Happy Harbor, os devotos do culto aos Orixás e Guias acreditavam que nenhum Xangô poderia ser oferendado num Cemitério: todo Xangô teria horror dos Eguns, os mortos! Seria, pra estes devotos, a maior falta de fundamento cultuá-lo lá!
Mas era da tradição secular dos remanescentes dos escravos africanos em Happy Harbor – que sobreviveram à sanha dos devotos do Deus Único – que especificamente um dos Xangôs não tinha quizila com os mortos e respondia na Calunga Pequena, na Lomba, no Cemitério: Aganju! Até mesmo afirmava-se, nos Patakis, nos Mitos da Tradição dos remanescentes Lucumi em Happy Harbor, que Xangô Aganju tinha até uma ligação com Xapanã...
Mr. George? Tinha um medo danado de Oferendas: levava dias pra ele recolher e colocá-las no lixo, como zelador da limpeza do Cemitério. Pra ele, devoto do Deus Único, era tudo obra do diabo: assim, ele esperava por dias até que "o Sol e a Chuva de Deus limpassem tudo o que o diabo tocou pra só depois eu colocar as mãos naquilo e por num saco de lixo".
Já o neto dele, Karl, o coveiro dali, era bem cuca fresca quanto a isso. Quando seu avô resmungava demais, Karl só dizia assim:
"Olha, vô... fé é que nem bunda: cada um tem a sua... eu sempre respeito a dos outros, mas ai de quem desrespeitar e passar a mão na minha!"
Que figurinha era o Karl! Ele devia ter a minha idade, acho... vai ver que foram aqueles papos e o jeitão mega irreverente de Karl que deixaram Mr. George mais tolerante...
Pois Mr. George gostava muito de Rachel, mesmo sabendo que ela era devota de Xapanã! Certa vez Mr. George tava com uma doença tão grave na perna que teria que amputá-la! Karl, que levava tudo que é fé na boa, o convenceu a falar com Rachel... Ela, numa única benzedura nele, passando-lhe um bife com óleo de dendê dedicados a Seu Pai Xapanã, curou a perna de Mr. George! Desde então, mesmo ainda desconfiado nas coisas da Religião, ele sempre teve carinho por Rachel!
E távamos nós lá, dê-lhe a bater papo:
Ayaan, eu e o chiclete que nunca largava do pé dela...
Confesso: agora sim eu tava realmente me divertindo!
Meu humor havia melhorado muitíssimo na escuridão da noite!
Foi quando aconteceu!
Finalmente: era o que eu tava louca pra contar pra você aqui!
Oba, oba, oba!
Eu vi, caminhando num outro corredor, um carinha, todo de preto! Pensei que nós fossemos os únicos que Mr. George deixava ficar após o Cemitério fechar!
Eu comecei a cuidar o carinha...
Ele era mega alto... Tinha o quê, mais ou menos, uns 1,90 m? E acho que devia ter a mesma idade que eu.
Não consegui ver direito o rosto dele, mas parecia bonitinho...
Ele caminhava com a cabeça baixa, como se tivesse rastreando alguma coisa, pois ele virava levemente o rosto, como... alguém que tivesse tentando ouvir algo?
De repente, eu notei que ele parou... como se tivesse encontrado o que procurava?!
Ele caminhou rápido pra um túmulo e subiu bem em cima dele!
E se sentou ali em cima, sobre os próprios calcanhares, como se fosse uma ave de rapina rastreando a trilha de sua caça!
O carinha pegou uma das mãos e espalmou sobre o túmulo.
De longe, parecia ser um túmulo novo, de alguém que havia morrido há poucos dias...
Sim, eu reconheci aquele túmulo!
Era de uma guria que havia morrido dum jeito horrível, saiu por toda a mídia... Acho que o nome dela era Laura Vilker ou qualquer coisa parecida...
Ela tinha saído pra acampar com o namorado dela... eles invadiram a zona de preservação ambiental, nos limites de Happy Harbor, e foram acampar bem no meio do matagal...
Sabe aquelas coisas exóticas que ambientalistas de fim de semana gostam de fazer?
Pois é... Mas as coisas acabaram mal...
Um bicho os atacou, dizem que foi um puma da área de preservação... na manhã seguinte encontraram o casal dum jeito tal que... olha, eu nem vou falar, porque senão vai embrulhar o meu estômago!
O carinha permanecia sobre o túmulo da guria e, apesar de já tá escuro, as luzes fracas de iluminação do Cemitério me deixaram ver que ele balbuciava alguma coisa, olhando fixo pra lápide dela.
A mão dele permanecia espalmada.
Será que ele tava rezando? Literalmente, em cima do túmulo?!
Cada tipo que aparece por aí...
Foi Ayaan quem me chamou de volta à conversa. Ver o carinha tava sendo realmente muito interessante:
- Hei, Sê, está viajando é? O que você acha mesmo disso que Richard falou de mim? Não é uma baita mentira deslavada? Até parece que eu faço isso com as minhas meias!
- Hã... sorry... eu não prestei atenção... – respondi, mega sem jeito.
Mas devia ser mesmo muito interessante ouvir Ayaan falar sobre as meias dela... Será?
Não! Cuidar o carinha era bem mais legal! Mesmo!
- Mas você, heim, estava viajando mesmo! E porque você estava olhando tanto pro outro corredor?
Eu apontei, falando baixinho:
- Aquele carinha, em cima do túmulo... eu tava olhando pra ele!
- Que carinha?
- Aquele ali que... – e eu emudeci. Ele havia sumido!
Teria sido a minha imaginação?
Teria sido uma alucinação?
Será que "aquelas coisas" lá da minha infância tavam voltando?
Espero sinceramente que não! Não mesmo!
Tentei me defender:
- Esquece Ayaan, foi brincadeira minha... piadinha...
E voltamos a conversar. Távamos falando umas bobagens. Só besteira mesmo, pra passar o tempo.
Passamos a gozar das meias sujas da Ayaan!
De repente o carinha aparece no nosso corredor e fica parado a uns 3 metros de nós! Nesse momento eu cutuquei Ayaan, e ela realmente havia o visto, assim como eu!
Ufa! Não era uma alucinação! Que alívio!
Realmente um alívio, pois pra quem já tava quase entrando no caminho sem volta das "boleta"...
O carinha parou e ficou nos olhando!
Nós paramos imediatamente de conversar.
Foi então que eu pude reparar como ele era, pois ele tava bem próximo, sendo iluminado pelos postes de luz do Cemitério.
Ele tinha um rosto de uma beleza exótica, mega diferente!
Era tão branco como o mármore de Carrara, utilizado pelo artista italiano Michelangelo!
Ele tinha cabelos muito negros e brilhantes, rebeldes, que contrastavam com o tom de sua pele. Contraste, um lindo contraste!
Seus cabelos eram curtos, revoltos e rebeldes: pareciam a juba indomável de um leão africano perante o vento da savana!
Lábios... atraentes...
E o mais incrível eram os seus olhos: verdes, de uma profundidade quase... hipnótica!
Eu nunca havia visto um rosto tão... diferente... em toda a minha vida! Tão exoticamente... diferente!
(Abre parênteses: digo "diferente" porque não quero dar assim, tão fácil, o meu braço a torcer, não... Capaz! Recuso-me a admitir que achei ele bonito, assim de supetão, não mesmo! Eu? Não me vendo pra um rostinho bonito... ou muito bonito... ou muito, mas muito bonito... ou será que me vendo? Chega! Chega! Fecha o parênteses!)
Ele? Era enorme!
Devia ter mesmo mais de 1,90 m, quase dois metros! Tinha os ombros mega largos e se escondia debaixo de um longo sobretudo negro de couro, de um modelo que eu nunca havia visto pessoalmente.
Parecia até ser um antigo sobretudo militar britânico...
Usava calças jeans pretas, que terminavam cobrindo em parte os seus coturnos militares. Tamanho? 44, no mínimo: que pés enormes!
E tava usando um colar... mas eu nem reparei naquilo direito... pois o rosto dele havia prendido tanto a minha atenção que... sei lá...
"Mármore de Carrara, utilizado por Michelangelo"... "Juba indomável de um leão africano perante o vento da savana"... Tá bom, tá bom, me puxei no lirismo... Confesso: sou culpada mesmo! Ele me impressionou: encheu meus olhos mesmo, droga!
E o carinha ficou parado ali, como uma imagem de um Templo da Antiguidade!
Só seus olhos se moviam.
Eu percebi que ele fitou um por um de nós. Fitou por alguns milésimos de segundo Richard. Depois olhou por igual tempo Ayaan.
Porém, quando ele me fitou... eu comecei a sentir vergonha!
Fiquei sem saber onde me enfiar!
Eu baixei a cabeça, na esperança de ele parar de olhar pra mim. Fiquei assim alguns segundos, mas quando levantei a cabeça e olhei pra ele, o carinha ainda me fitava! Que constrangedor!
Mas o que mais me chamou a atenção foi a expressão no rosto dele: uma expressão de profunda intriga, de profunda dúvida...
Ele chegou a inclinar discretamente a cabeça, como que tentando solucionar uma dúvida... e continuava a me encarar! Sabe aquela cara que a gente faz quando vemos um rosto familiar que achamos conhecer mas não lembramos de quem é? Pois é, acho que a cara que ele fez era meio tipo essa...
Que droga! Ele encarou Richard e Ayaan por frações mínimas de segundo, porque então ele havia se encanado em mim?
Tá... por um lado até era gostoso ser encarada assim por um carinha tão... atraente? Tá bom, confesso, ele era atraente sim, e eu tava gostando daquilo! Envergonhada, mas gostando!
Os segundos pareciam não ter mais fim...
E eu senti um calorão no meu rosto... Putz!
Finalmente ele deu um sorriso pra si mesmo e falou mega baixinho, algo que acho que só eu pude ouvir...
Pareceu pensar em voz alta, mais ou menos isso:
- Pensei que a conhecia... só impressão... uma pena...
E começou a se afastar.
O que significava aquilo? Como assim "uma pena"?
Cismei comigo mesma, pensando:
"Hei, vem cá puxar papo comigo! Se não me conhece, então aproveita pra conhecer agora, oras!"
Mas meu pedido interior, secreto, não foi atendido...
O carinha caminhou até o fim do corredor. Era impressionante o jeito como ele caminhava: sem fazer nenhum barulho, como se ele fosse feito de... ar... como se pesasse como uma pluma! Nem um modelo mega profissional de passarela conseguiria desfilar assim, com tamanha leveza! Então ele se aproximou do muro e o saltou sem fazer o menor esforço! O que o carinha era?
Imaginei ele dizendo isso:
"Não sou nada de mais... Apenas, nas horas vagas, sou modelo de passarela e ginasta olímpico..."
Putz, que droga: minha imaginação fantasiando... já tava era me fazendo procurar encrenca...
- Que cara esquisito... – resmungou Richard.
- E lindo! – exclamou Ayaan, sem pensar!
Que droga, ela teve coragem de dizer em apenas dois segundos o que eu não ia falar nunquinha... Como é que pode, heim?!
Típico da Ayaan: falou sem pensar mesmo...
Prato cheio: Richard e Ayaan agora tavam tendo uma discussão... Ciúmes é foda!
E eu? Não pude deixar de responder à desfeita dele pra mim!
Comentei pra Ayaan:
- Que lindo o quê, acorda menina! Você viu o nariz dele?
- O que tem o nariz dele? – Ayaan arregalou os olhos.
- É horroroso, mega mau feito!
Richard não aguentou e deu uma gargalhada!
O clima havia ficado ameno de novo...
Diplomacia, ué! Funciona!
Só diplomacia? Sei...
Tá bom, não nego: um pouquinho do saboroso licor da vingança pela desfeita do carinha pra mim!
Mas antes que houvesse nova discussão daqueles dois, achei melhor ir chamar Mr. George pra irmos embora...
Namorado chiclete... que saco!
Adorava quando Ayaan vinha sem aquele rabo!
Enquanto Mr. George abria os cadeados dos portões pra nós, percebi algo muito, mas muito estranho:
Sabe aquela Oferenda a Xangô Aganju, que tava meio perto dos portões do Cemitério?
A gamela de madeira tava vazia!
Não havia nada nela, exceto... cinzas!
Nada das bananas, nada do pirão, do molho de carne... Nada!
Apenas cinzas, perfeitamente depositadas no centro da gamela!
E a guia? Havia desaparecido!
Putz, ninguém tinha tocado fogo naquilo, pois se incendiassem, nós teríamos visto o clarão das chamas e chamado Mr. George! E as chamas teriam consumido a gamela de madeira... mas ela tava ali, intacta!
Fiquei meio estática... teria sido Karl que mexeu na Oferenda? Ajudando o avô a remover o que ele temia, na zeladoria do Cemitério?
Se Mr. George não me chamasse a atenção pra cruzar o portão, eu ficaria ali, paradona, cismando com aquilo que eu havia visto...
Fitei Mr. George e lhe perguntei sobre aquele carinha... Se ele o conhecia e tal... qual o nome dele...
O velhinho? Era mega malandro: sentiu que o carinha chamou mesmo a minha atenção! Por isso ele me respondeu bem assim:
- Sê, o nome dele é bem fácil de memorizar: chama-se "encrenca"... E o sobrenome dele? Mais fácil ainda de gravar: "sarna pra se coçar". Pegou a idéia?
Fiquei vermelha, na hora!
Na calçada, enquanto Mr. George trancafiava novamente os cadeados, Ayaan e Richard se despediram de mim.
Foram pra suas casas, ali mesmo em New Bethlehen.
Que sorte a deles...
Eu? Ainda tinha uma longa viagem pra voltar pra casa...
Coloquei minha mochila negra nas costas, montei minha Luna e rumei ao Norte.
Lógico que esqueci imediatamente o conselho de Mr. George: o carinha todo vestido como a noite, branco como o mármore de Carrara, com o rosto mais... poético? Sim, poético, o rosto mais poético que eu já havia visto... não me saía da cabeça...
PS: Ah, uma curiosidade, que lembrei de postar aqui pra você:
A partir daquela noite, nunca mais tive aqueles pesadelos!
O lixeiro teve então um trabalho extra... levou embora o cartão que Ayaan me deu:
"Dr. Hannibal Lecter - Psiquiatra. Endereço: O Silêncio dos Inocentes Street, 666."
Um pouco de sarcasmo pra comemorar, né?
Afinal, eu venci: não dei meu braço a torcer pro Padre Kededo ou seus Kededetes Dançantes, vestidos de jalecos brancos, armados de ansiolíticos!
Não mesmo!
