Postagem 5. Vestígios do Dia
(The Remains of the Day, 1993, EUA/ING)
Na noite seguinte, cheguei ao Becker mais cedo.
Devia ser uma 18h20min.
Estacionei a Luna e fiquei ao lado dela. Fiquei "de tocaia" no estacionamento, esperando Álex e sua Harley chegarem.
Enquanto esperava, aproveitei pra conhecer o pátio do colégio. Haviam muitas árvores na parte superior do pátio e um declive acentuado. No final daquele declive haviam duas quadras de esportes. Bem, elas eram inúteis pra mim, porque eu odiava esportes! Ao menos os esportes com bola... Cross, Natação e Esgrima são esportes, ok?!
Eu e uma bola: peça trágica de Shakespeare...
Fosse de basquete, vôlei, futebol, o que quer que fosse: realmente não éramos nada amigáveis uma com a outra.
Nas séries iniciais, nas aulas obrigatórias de Educação Física, meus colegas de time haviam aprendido o segredo pra perder um jogo: bastava passarem a bola pra mim.
E o pessoal dos times rivais? Sabiam disso... Quando por azar, a bola caía pra mim, como eu apanhava: empurrões, cotoveladas, chutes...
Ossos do ofício normais pra quem tem porte físico. Mas um drama pra quem era tão magrinha que um vento forte ameaçava ser o seu perigoso veículo de transporte compulsório...
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Última a ser escolhida pra um time...
Ameaças antes duma partida...
Xingões e humilhações verbais ao final...
Horas após o final: filmagens em celular pela "torcida" com postagem bombando na internet dos "melhores momentos", com os comentários enobrecedores dos grandes críticos esportivos da escola...
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Argh! Passei a odiar as aulas de "Educação" Física!
Quase sempre, no dia em que havia aquela maldita aula de Humilhação Física, me davam horríveis cólicas... parecia que meu estômago tava cheio de pedras... me dava febre... o coração batia mais rápido... minhas mãos suavam... que sofrimento era aquilo!
E quando não me dava?
Eu fingia, ué! Até tala falsa pra "torção no braço" que "aconteceu lá em casa" – enquanto eu virava a página de um livro? – colocava escondida em mim mesma no antebraço, hahaha!
Vale tudo pra se manter viva na Selva de Pedra, oras!
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Graças a Deus, à Deusa, quando eu comecei a estudar à noite – turno onde a Humilhação Física não é mais obrigatória por lei, yes! – eu consegui me livrar desse tormento pra sempre!
Olhei as duas quadras de esportes: um arrepio enjoativo percorreu a minha espinha... brrr...
Graças a Deus, à Deusa, agora eu tava livre daquilo!
Fui até a Luna e fiquei recostada nela, embaixo das árvores.
De tocaia, enquanto esperava Álex chegar.
Eu sempre fui uma medrosa covarde... mas não sei de onde eu tava retirando coragem pra esperar por ele e... puxar conversa!
Acho que desta vez a minha curiosidade era muito maior que meu medo, maior que minha imensa timidez... eu precisava saber o que havia acontecido com ele na noite anterior...
Porque ele havia passado tão mal, a ponto de ter ido embora muito antes da aula terminar?
Já eram sete da noite e nem sinal de Álex e sua Harley.
Eu não podia ficar mais tempo ali embaixo, no pátio, esperando por ele. Precisava subir.
Não que eu quisesse. Se eu pudesse nunca mais entrar dentro daquela sala de aula...
Mas eu tinha que entrar, e não podia me atrasar...
Senão, quando eu entrasse, todos olhariam pra mim e eu faria o que mais detestava: chamar a atenção...
Não, isso não... quanto mais despercebida eu passasse por todos, melhor!
Subi e fui pra aula.
Fiquei esperando Álex chegar. Mas ele não apareceu.
As aulas tavam um tédio...
No intervalo, desci pro estacionamento.
Talvez Álex chegasse atrasado, pros períodos finais.
Fiquei no pátio, com minha Luna. Quietinha, sentada no cordão do estacionamento. Admirando as árvores e o céu da noite. Mas, na real, queria era admirar... ele!
O intervalo terminou. Subi novamente pros períodos finais.
Eu continuei o esperando, mas nada dele aparecer...
A aula terminou.
Desci até minha moto, montei nela e fui pra casa.
Muito, muito, mas muito frustrada!
Enquanto dirigia, cismava comigo mesma:
"Ele deve ter ficado muito doente, piorado muito da conjuntivite, por isso não veio... Imagina, até hipotermia ele tava fazendo, de tão mal que tava ontem: que mão gelada! Acho que ele vem amanhã..."
Na noite seguinte?
Fiz a mesma coisa: cheguei no Becker mais cedo e fiquei de sentinela no estacionamento, até a hora de começar a aula.
A noite passou, a aula terminou, e nada de Álex aparecer...
Na terceira noite de aula, eu fiz a mesma coisa...
E novamente: nada!
Ele havia evaporado!?
Será que ele havia desistido dos estudos?
Será que ele havia ficado mega mal de saúde?
Será que tinha trocado de colégio, pra um mais perto de Lamy Village?
Até que sexta-feira chegou... e nada dele aparecer!
Eu já não sabia mais se eu tava era frustrada, se eu tava era irritada, se eu tava era preocupada com aquilo tudo... ou se eram as três coisas ao mesmo tempo!
Quando a aula de sexta terminou... quando eu tava voltando pra casa na Luna, em plena Assys Brazil Avenue, no meio dum turbilhão de pensamentos desconexos, me deu um impulso:
Ir em Lamy Village, naquele antigo Casarão.
Visitar meu novo amigo...
Amigo?
Sei...
Tá bom, tá bom! Eu tinha que mentir bastante pra mim mesma, senão eu perdia minha sanidade!
Quem não mentiria numa situação dessas?!
E eu tinha que ser convincente: enganar a si mesma nem sempre é tarefa fácil!
Nada de "solução trivial" de equações de aulas de Matemática!
O sábado foi um dia muito, muito longo...
Relógio chato... vadio: não andava! Parecia mula empacada...
Eu tinha coisas pra fazer, mas não tava com cabeça pra isso.
Por quê?
Resposta: tava sendo consumida por uma indecisão, por um conflito dentro da minha cabeça:
"Vou a Lamy Village, ver o que aconteceu com Álex, ou não vou?"
Parte de mim – e com ardor! – dizia:
"Vai lá, descobre como ele tá! O que aconteceu com ele: razões daquele chá de sumiço. Mas, principalmente, sonda o tal "choque elétrico" – iguaria que eu nunca tinha provado, assim, daquela forma! – que aconteceu naquela primeira noite de aula!"
Curiosidade: o Ministério da Saúde adverte: isso pode lhe fazer mal à saúde afetiva...
Porém... outra parte de mim dizia, num tom mega agressivo, opressivo – a ponto de me dar mal estar no peito:
"Fica na tua, guria, sossega! Quem tu pensa que é pra ir na casa dos outros, incomodar? Já se esqueceu que tu é uma má companhia, uma guria feia, desengonçada, chata, desinteressante? Uma nerd? Sua freak! Vai lá pra quê? Pra incomodar aquele guri tão bonito, que certamente já deve ter uma namorada? Aliás, ela deve ser "a" namorada, pra tá com ele! Quem tu pensa que é, ficando assim, tão 'saliente'?"
Hardware e software: conflito!
Será que meu tablet ia trancar e dar pau?
Realmente, com essa tortura mental, sábado foi um dia muito, muito longo mesmo...
Naquela noite consegui dormir pouco... muito bem mal, na real!
Dormia algumas horas e acordava... depois cochilava de novo mais uns minutos...
Finalmente, por volta das seis horas da manhã de domingo, acordei. Me deu um impulso danado de forte de pegar minha Luna e ir até Lamy Village.
Vou? Não vou?
Finalmente, falei comigo mesma:
"Ah, foda-se! Eu vou lá!... Se sentir que tô incomodando, arrumo uma desculpa e vou-me embora imediatamente, nem que seja pra Pasárgada! Nem lá o Rei é meu amigo mesmo, então foda-se!"
Velho sarcasmo, no jovem domingo: meu café da manhã com estilo...
Decisão tomada!
Até que enfim: nunca tive vocação pra roteirista de novela!
Coloquei um sanduíche e minha garrafinha d'água na mochila.
Mochila completa?
Sim.
Peguei meus documentos e os da Luna.
Coloquei-os no bolso do meu sobretudo. Peguei meu capacete.
Mochila. Capacete. Armadura. Cavalo. Pronta pra guerra!
Arrastei silenciosamente a Luna do meu quartinho, no quintal, até a frente da casa de Pink Pig.
Abri o portão. Tomei a rua.
Coloquei a mochila nas costas.
Pus o capacete, montei na Luna, dei a partida e rumei pra Lamy Village, extremo Sul de Happy Harbor...
A curiosidade havia vencido, pelo menos por hora, parcialmente, a minha clássica timidez e minha habitual covardia...
Só curiosidade?
Sei... era bem mais do que isso!
Mas admitir tal coisa pra mim mesma? Aí já era outra história...
Mega complicado!
