Postagem 6. Deixa ela entrar

(Lat Den Rätte Komma In, 2008, SUE)

O Sul de Happy Harbor era completamente diferente do ar sufocante, fétido e claustrofóbico do Norte!

Contraste absoluto.

Eu havia crescido no meio do verde abundante e das árvores, verdadeiras raridades no Norte da cidade.

Como eu sentia falta daqueles ares: do cheiro gostoso da grama molhada ao amanhecer; daquele verde multicolorido – sim, muitos tons de verde! – que haviam à beira da John Baptiste Road.

John Baptiste: tal como um antigo profeta: a via que ligava New Bethlehen e Lamy Village, o extremo Sul de Happy Harbor, ao "mundo exterior"...

Cheguei em New Bethlehen.

Até Lamy Village? Apenas alguns minutinhos.

Estranhamente, minutinhos tão longos...

Ansiedade?

Imagina...

Todavia, realmente eu estendi aqueles minutinhos.

Peguei uma estrada vicinal do bairro, em péssimo estado de conservação. Pra quê?

A John Baptiste, que era tão longa que também unia New Bethlehen e Lamy Village... bem... perto do final dela, havia o Hospital Psiquiátrico Saint Peter... eu trafegava por toda a John Baptiste, exceto naquele trecho, porque lá havia aquilo.

Havia. Não há mais.

Foi fechado na recente Reforma do Sistema de Saúde de Happy Harbor.

Chaves especiais o fecharam.

Um molho de chaves. Seus nomes?

Escândalos.

Corrupção financeira.

Tratamento médico obsoleto aos pacientes: fármacos, técnicas e tecnologias proibidas pela legislação internacional. Mas tão sedutores aos administradores por um motivo: economia de custos...

Barateamento. Pessoas? Nada mais são do que gastos – desperdício de recursos – pra gerentes e burocratas, estejam eles trajando jaleco branco ou terno italiano...

Tratamento desumano aos internos.

Abuso sexual...

Belo molho de chaves!

Não posso sequer passar pela frente daquele...

Sem palavras! É muito cedo da manhã pra mim já desfilar meu "Dicionário Dercy Gonçalves: criativos vocábulos de baixo calão"!

Jurei que nunca mais iria ver aquele lugar, nem falar sobre ele...

E manterei meu juramento!

Mas sobre aquele lugar, tive uma alegria bem recente: pela mídia...

O ex-diretor daquela... coisa... Dr. John C. Watson... uma coisa, que dirigia aquela coisa, tinha sofrido um acidente de carro: hoje ele tava preso, numa cadeira de rodas... tinha ficado tetraplégico... agora só movia apenas aquela sua cabeça doentia, repleta de degenerações!

Justiça poética: ele, que nunca se importou em manter pessoas presas na sua cadeira de rodas dos seus preconceitos, dos seus diagnósticos fajutos; ele, que tão bem deixava as pessoas cada mais aleijadas com as suas drogas "curativas" – os presentes que a sua prostituta de luxo, a indústria farmacêutica, lhe oferecia! – agora vivia literalmente preso numa cadeira de rodas!

Abençoada imprensa... se por vezes a mídia, o Quarto Poder, é o monstro – que molda o comportamento das pessoas como um gado, levando-as aonde ela quer ao bel prazer de quem lhe der mais dinheiro – por outro, a mídia é o desinfetante: a denúncia, a exposição do que é escondido... o desvelar dos véus que ocultam as mais fétidas podridões que a máscara social sempre encobre...

Não fosse aquela reportagem investigativa do The Happy Harbor Daily, até hoje o Dr. Watson e Saint Peter viveriam como os deuses que acreditavam ser, protegidos pela máscara social que sempre abafa e esconde toda a putrefação!

O Quarto Poder e suas três faces: uma pra manipular, outra pra informar, e outra pra desinfetar... você escolhe a face que quer comprar, qual das três embalagens que você acha mais bonitinha na prateleira do supermercado...

Minha cabeça começou a dar voltas... tava mega difícil controlar meus pensamentos... divagando...

A recente idéia de Ayaan – de tomar "boletas" contra aqueles pesadelos – havia me tornado mais sensível do que eu imaginava ao passar perto de Saint Peter...

Tinha mexido com antigos esqueletos escondidos no fundo do meu armário...

Divagando... viajando por velhas paisagens pintadas em pensamentos sombrios... esqueletos muito vivos: só se fingiram de mortos todo esse tempo...

E lá também tava ele de novo, tão arrogante...

De todo lugar ele se mostra... até mesmo do pátio de um hospital vagabundo, hoje fechado, lá tava ele:

O Sol!

Queimando o rosto de quem ousa encará-lo de frente.

Peitá-lo. Dizer:

Qual é a tua? Por que não faz nada?!

É incrível como ele brilha lá fora, indiferente a essa porcaria toda em que parecemos nos deliciar em comer...

Como se caçoasse de nós enquanto saboreamos nosso sanduíche de merda "de cada dia, nos dai hoje"...

Astecas. Egípcios. Porque adoravam o Sol, heim?

O que aqueles carinhas viam nele?!

Sol.

Ele já tava se firmando alto quando cheguei em Lamy Village.

Conclusão lógica: já havia me armado com meus óculos escuros.

Como o Sol machucava meus olhos!

Porcaria... A sua claridade era mega irritante pra mim.

Explicações da genética?

Evidente que sim: eu devia ter cruzamento com sangue de coruja ou de morcego – jamais de águia ou galinha – porque realmente eu me sentia feita pra noite, não pro dia, hahaha!

Apesar de que Pink Pig era uma galinha...

Uma galinha pode gestar uma coruja ou um morcego?

Em tempos de soja transgênica y otras cositas mas: não duvide de mais nada...

Humor negro ao forno, com molho, acompanhado de uma taça rubra de sarcasmo: ótima iguaria pra se relaxar!

Todavia, apesar do Sol e sua claridade, o dia tava mega bonito!

Especial!

Mas tava cedo demais pra bater na casa de alguém, justo num domingo.

Não queria mesmo incomodar a vó de Álex... e nem ele – principalmente ele, lógico!

Tudo o que eu não precisaria era deixá-lo aborrecido comigo!

Solução? Vejamos...

Vegetar? Adolescer?

Não: matar tempo mesmo...

Passeei de moto pelo bairro, enrolando todos os minutos que podia. Revi alguns lugares da minha infância...

Mas a bandida da coceira da curiosidade...

Cada vez mais se avolumava em mim!

Até que me cansei de ficar zanzando pelo bairro.

Fui direto pra Reserva Ecológica Mountbones: ao lado encontraria o antigo Casarão que Álex me disse morar.

Passei de moto bem devagarinho na frente do enorme terreno em que o Casarão foi construído.

Bem devagarinho... como uma predadora na savana...

Foi então que percebi que as janelas já tavam abertas!

Opa! Então era sinal de que talvez a vó de Álex já tivesse de pé!

Ahá! Ela devia ser daquelas velhinhas que tinham por hábito madrugar: levantar cedo, com as galinhas, até no domingo!

Isso me animou!

Parei a moto no meio-fio, defronte ao imenso portão de grossas e antigas grades – muito artísticas por sinal, repletas de detalhes neoclássicos. Parecia bronze!

Eu tava em cima da Luna, bem em frente ao portão. E ali, a poucos centímetros dos meus dedinhos: tava a campainha.

Fiquei na dúvida: toco? Não toco?

Não seria melhor voltar pra casa? Esquecer tudo aquilo?

Putz, volto ou não volto?

Aperto a campainha ou não? O que é que eu faço, droga!?

Foi então que começou a me dar uma vergonha enorme do que eu tava fazendo... que loucura!

Me bati lá do extremo Norte da cidade pra cá, na outra ponta da cidade, só pra incomodar um guri que eu mal conheço!

Que vergonha começou a me dar!

Onde eu tava com a cabeça pra fazer uma besteira dessas?

"Sua bestona! Volta pra casa! Tu nunca devia ter vindo aqui! Para de fazer tanta merda!"

Minha cabeça tava sendo cruel comigo...

Quanta culpa, quanta vergonha!

Que doideira eu fiz!

Eu tava com o capacete no braço, pendurado... eu já ia colocá-lo pra ir embora...

Mas foi aí que aconteceu!

Uma velhinha, bem magrinha, de cabelos completamente brancos – mas com a coluna bem retinha: sabe, aquela postura de uma dama, de uma rainha?! – usando um clássico vestido azul celeste e um simpático sweater creme por cima, abre a porta do Casarão.

Ela olha pra mim e... sorri!

E imediatamente sai pela porta, caminhando calmamente, mas firme, por um trilho de basaltos que enfeitava o imenso jardim.

Ela vem em direção a mim, junto ao portão.

Tarde demais! Eu não poderia mais ir embora sem ser grossa e sem educação! Que droga, eu não podia mais fugir...

Parte de mim reclamou pelo cancelamento do plano de fuga...

A outra parte de mim? Adorou não ter fugido e ter ficado lá!

A velhinha chegou até aquele portão, enorme, artístico. E através daquela arte em metal foi que vi seu rosto pela primeira vez.

Que olhos ela tinha!

Incrivelmente vivos, tão... lúcidos! Brilhantes! Espertos!

Comecei a viajar nos meus pensamentos...

Parecia até que uma alegria de viver havia naqueles olhos!

Aquela velhinha parecia ter tudo o que eu, no auge dos meus dezenove anos não tinha: Amor pela Vida...

E que sorriso repleto de carisma ela tinha! Lindo!

Foi com esse sorriso que ela me dirigiu as suas primeiras palavras – e começou a me desarmar:

- Bom dia! Que lindo dia temos hoje, não é?

Eu tava tão sem jeito que apenas balancei a cabeça!

No susto, dei um sorriso, porém mega desajeitado...

Sim: a tecnologia de sorrir já tava mega obsoleta pra mim.

Precisava me reciclar – urgente! – pois meu sorriso deve ter parecido mais com uma careta do que qualquer outra coisa...

Foi então que a velhinha – com uma voz doce mas mega firme, uma voz super segura e tranquila! – me desarmou por completo com uma invencível arma: sinceridade!

- Acho que você quer alguma coisa mas está com muita vergonha de falar! Não precisa ter vergonha, eu não mordo!

Dito isso, começou a rir. Que risada gostosa a daquela velhinha!

Eu acabei sorrindo, sustentada pela risada dela, e desta vez meu sorriso foi verdadeiro!

- Oh, veja só que sorriso lindo você tem! Viu? Não é tão difícil assim falar comigo! Eu posso lhe ajudar em alguma coisa, menina?

Ela continuou sorrindo pra mim, e me olhando com seus olhos tão... lúcidos, amáveis, convidativos!

Resolvi então abrir minha boca. Difícil resistir àqueles olhos e sorriso tão hospitaleiros:

- Desculpa incomodar, senhora... sorry por aparecer tão cedo num domingo... por acaso Aleximander Berr mora aqui?

A velhinha balançou a cabeça, afirmativamente:

- Sim, ele mora aqui. Você o conhece?

Eu respondi, instintivamente:

- Eu sou colega de aula dele, no John Becker... ele passou mal há vários dias e depois sumiu... como ele tá?

A velhinha fez uma cara de surpresa:

- Senhor Deus, o Múltiplo! Você é a menina da escola que Álex me contou!

Fiquei muda.

Espantada!

Ele havia falado de mim?

Ele tinha falado de mim pra vó dele? De mim?!

Como isso podia ser possível?

Será que eu chamei a atenção dele?!

Eu, logo eu, chamei atenção daquele carinha tão... lindo?

Não, não podia ser... certamente ele deve ter falado de mim, sim, mas deve ter é falado mal!

Deve ter comentado o quanto eu era desastrada e esquisita... Sim, só podia ser: a minha fama de desastre ambulante já havia me precedido e me anunciado antes mesmo daquela velhinha me conhecer!

Fama: arauto que nos anuncia. Embalagem que as pessoas compram da gente... Nossa assessora de imprensa.

E a minha? Era uma assessora... traidora! Devia demiti-la!

Tava cismando de novo, e sei lá quanto tempo ia ficar nessa canoa furada se a velhinha não me tirasse dos meus pensamentos:

- Não se preocupe, Álex está bem! Ele andou muito ocupado nos últimos dias, por isso necessitou faltar algumas aulas.

Eu balancei a cabeça, mostrando que tava entendendo.

Mas, num raio, a velhinha emendou algo que me desconcertou:

- Álex falou bem de você!

Fiquei sem reação!

Devo ter feito uma cara de completa idiota!

Não sabia se agradecia... se ia embora... ou se descia da minha moto só pra me esconder debaixo dela, de vergonha!

Comecei a sentir um calorão no meu rosto!

Esbocei um movimento, como se eu fosse ir embora.

Tava completamente sem saber o que fazer!

Nisso, a velhinha me falou:

- Espere! Você tem algum compromisso agora?

Que droga, eu não consegui mentir!

Minha mente disse pra mentir que tinha compromissos, mas meu pescoço me traiu fazendo minha cabeça balançar negativamente...

Que porcaria, porque meu corpo não me obedecia, heim?!

Foi então que a velhinha me respondeu:

- Oh, que feliz coincidência! Eu também estou livre, afinal hoje é domingo. Eu acabei de fazer um chá bem gostoso, e um pão integral bem quentinho! Não quer me acompanhar no café da manhã?

Eu fiquei sem saber o que falar.

Entrar? Na casa dele? Acompanhar a vó dele num lanchinho?

Então, meio que gaguejei isso:

- Desculpa... mas acho que vou incomodar, sabe?

A velhinha riu gostosamente:

- Que nada! Que bobagem! Álex falou MUITO bem de você! Você é Selene, não?

Eu balancei a cabeça afirmativamente, assustada!

Ele falou muito bem... de mim? A velhinha salientou o "muito"!

Muito bem, logo de mim? Puxa, e era mesmo de mim, não era engano, porque aquela velhinha sabia o meu nome!

Como ela poderia saber o meu nome, se o próprio Álex não tivesse contado?

Ele falou MUITO bem de mim... que coisa...

Só de saber isso, eu já tinha ganhado o meu dia!

Meu dia? Minha semana inteira!

Eu sorri, toda sem jeito enquanto pensava isso!

E enquanto eu sorria, a velhinha, numa agilidade incomum pra sua idade, já tinha aberto o portão e me convidado pra entrar com um delicado reclinar do seu corpo.

Me impressionei com a saúde que aquela velhinha parecia ter!

Enquanto eu empurrava minha Luna pra dentro do imenso jardim daquele Casarão, ela se apresentou:

- Meu nome é Hélène, Hélène Marie Berr!

Eu era horrível em lidar com as pessoas!

Eu dei a minha mão pra apertá-la, como se fosse um guri, pra aquela velhinha...

Fiasco...

Onde já se viu cumprimentar alguém com aperto de mão?

Eu tava completamente descoordenada...

A mão dela era mega quentinha!

E ao tocá-la, aconteceu algo estranho...

Parecia que emanava de sua mão uma energia... algo quentinho, e mega gostoso... como se fosse uma energia... energia de Paz!

E eu lhe disse, enquanto a "cumprimentava" daquele jeito ridículo:

- Muito prazer, Ms. Hélène. A senhora é a vó de Álex?

Ela riu gostosamente. Não sei se riu do meu jeito todo tosco de me apresentar, ou da minha pergunta, tão óbvia:

- Sim, pode se dizer que sou a vó de Álex!

Que pergunta idiota mesmo a minha!

Por isso ela disse, bem humorada, que "pode se dizer que sou a vó de Álex"... Se ela era a única pessoa idosa que morava ali, com Álex, era óbvio que ela era a vó dele! Que pergunta cretina a minha!

Deixei a Luna próxima ao enorme portão e acompanhei Hélène pelo caminho de basaltos.

Enquanto ela me falava algumas amenidades, notei que havia um suave sotaque na sua voz. Como eu era mega boa em Línguas, logo identifiquei: era um suave sotaque do sul francês.

Mas eu e minha boca grande – que não sei porque, já não conseguia mais controlar nos últimos dias, sempre que Álex entrava na pauta dos meus pensamentos – falei mega indiscreta:

- A senhora tem um sotaque do Sul da França!

- Que menina perspicaz! Sim, eu nasci na França, e exatamente no Sul! Vivi lá até os meus 12 anos... O bisavô de Álex, Alexsander, me adotou quando eu tinha 10 anos... Ele vivia em Vichy, mas logo emigramos da França pra cá... viemos morar em Happy Harbor. Cresci e fui educada aqui, neste Casarão, que Alexsander construiu!

- O bisavô de Álex adotou você? – eu perguntei sem conseguir controlar a minha curiosidade.

Que linguaruda eu tava ficando!

Mas Hélène sorriu, respondendo amável:

- Sim, e é uma história bem longa... eu lhe conto enquanto fazemos nosso desjejum na sala, está bem?

Eu confirmei com a cabeça, já envergonhada por tá falando tanto...

Cruzamos o gramado. Foi então que pude perceber algo lindo!

Havia um enorme jardim de rosas perto do Casarão. Mas não eram rosas comuns! Não!

Era uma variedade mega rara, e justo a que eu mais amava: eram rosas negras! Rosas completamente negras! Dark roses!

Mas algumas, plantadas em maciços, eram especialmente divinas, de uma variedade de dark rose que eu nunca havia visto: possuíam delicados raios vermelhos e brancos nas pétalas, como se fossem gotículas dançando, descendo pelas pétalas numa verdadeira arte!

Eu soltei uma exclamação;

- Que... perfeitas... divinas!

Hélène apontou pra elas e me disse:

- Álex as plantou. Ele adora dark roses, são as suas prediletas!

Puxa, Álex gostava de dark roses? Justamente a variedade que eu mais adorava!

Quem diria que um guri tão alto, tão radical – imagina ele montado naquela gigantesca Harley: um cavaleiro negro! – e tão bonito (confesso!), tivesse essa sensibilidade...

Hélène emendou, me retirando de meus pensamentos:

- Mas esta variedade tigrada, em vermelho e branco, ela não existe em lugar algum do mundo. Sabe porquê?

Fiz uma careta de dúvida.

Hélène riu da minha expressão:

- Porque foi Álex que, fazendo delicados cruzamentos entre muitas variedades de dark roses, red roses e white roses, as criou. Ele as batizou de shadows and justice roses!

Sem palavras!

Aquele carinha era... genial!

Sem palavras mesmo: fiquei mudinha, e com cara de boboca!

Babando em cima daquelas rosas...

Foi Hélène quem me tirou de lá...

Quando entrei no Casarão... não esperava!

Uma antigo Solar, o que você imagina haver nele?

Apenas mobílias antigas, clássicas, né?

Nada disso: por dentro, a arquitetura era extremamente moderna! Linhas arrojadas! Ambientes amplos, mega leves.

E a mobília? Parecia que havia vindo daquela famosa feira internacional anual de novidades – mega caras! – de Tóquio!

Naquele ambiente arrojado, era basicamente próximo à enorme escadaria que haviam algumas mobílias mega antigas, mas num estado de conservação tão perfeito que eu diria que foram produzidas dias atrás!

Não me segurei e exclamei de novo:

- Que casa linda!

A velhinha sorriu pra mim, explicando:

- Alexsander construiu esse Casarão no inverno de 1942, ano em que viemos de Vichy para cá. Ele o construiu especialmente para me criar, já que ele vivia sempre viajando pelo mundo, sem local fixo até então. Alexsander sempre gostou do que era belo e criativo. Porém, desde que ele partiu, mantive a sua tradição: inovar sempre! Sempre fico atenta às novas belezas que a criatividade dos designers produzem a cada temporada!

1942? Eu olhei pra aquela velhinha, mega espantada!

1942?!

Eu não era boa em Matemática, mas era ótima em curiosidade, uma disciplina escolar também mega importante:

- A senhora disse 1942? Sou ruim em Matemática... mas a senhora teria quantos anos, pelas minhas contas?!

Ela sorriu pra mim e disse, amável:

- Para quem não é boa em Matemática, você é mesmo rápida no gatilho, heim? Mas não me pergunte a minha idade: é indelicado!

E ela riu, gostosamente!

Eu?

Sorri mega sem jeito, pois eu fui muito indiscreta!

Meus Deus, minha Deusa! Aquela velhinha tinha uma boa forma que muita gente com sessenta anos sequer sonha em ter! Ela dava de dez a zero na minha vó que, com sessenta e quatro anos, já tava um caquinho!

Qual era o segredo dela? Como ela pode viver tanto e tá com tanta vitalidade, visível até na forma de caminhar e nos seus movimentos?

Sim, eu devia tá com uma cara de espanto! Pois ela me disse:

- Selene, eu entendo o seu espanto! Ninguém acredita quando eu digo a minha idade. Por isso nem digo mais! E não há segredo nenhum! A fórmula? É muito simples: alimentação saudável para o corpo e Paz para o Espírito! Nutrir-se corretamente, tanto física como espiritualmente!

Eu só podia tá diante duma mestra iogue, duma guru espiritual ou coisa parecida!

E sentia que as palavras dela eram verdadeiras, pois ela exalava uma imensa Paz e vitalidade por todos os poros!

Até mesmo num simples aperto de mão!

Ela era incrível! Eu exclamei, de novo, sem pensar:

- A senhora deve ser uma Mestra!

Hélène riu gostosamente, enquanto me levava pra cozinha, pra pegarmos as fatias de pão e o chá. Foi então que ela disse:

- Não, eu apenas fui uma boa aprendiz de Alexsander, bisavô de Álex. Ele sim era um Mestre! Meio irritadiço... mas um Mestre!

Fiquei imaginando, estupefata, como devia ser aquele homem que criou e educou aquela velhinha!

Ele devia ser um tipo de pessoa muito, mas muito rara. Destas que a gente pode passar uma vida inteira e nunca encontrar!

Hélène realmente me pareceu ser uma pessoa de muita sorte por ter encontrado um pai tão incrível!

Entrei na cozinha, e Hélène já pegava fatias do seu pão, que ainda fumegava. Colocava as fatias numa linda bandeja toda trabalhada – brilhava como prata! Foi ao fogão. Pegou o chá e colocou num outro bule, de cerâmica muito delicada: mega quente!

Xícaras refinadas: bandeja completa.

Eu nem me atrevi a oferecer ajuda: estabanada, desastrada como eu era, certamente iria quebrar alguma coisa...

Eu me arriscaria no máximo em tocar em porcelana oriental made in China comunista de mercado! Jamais em algo que lembrava a dinastia Ming!

Repleta de graça e refinamento, ela pegou a bandeja nas mãos:

- Venha, Selene! Vamos para a sala!

Obedeci.

Enquanto caminhávamos pelo corredor, percebi que a casa inteira – ao menos onde meus olhos pousavam – de arquitetura mega arrojada, com mobília hipermoderna, tava repleta de objetos de arte ou artefatos mega antigos!

Eram pinturas, armas, armaduras, espadas, capacetes, roupas antigas, esculturas, tudo que se possa imaginar! Meu Deus, aquele Casarão daria inveja a qualquer amante de Arte e de Historia!

Hiper-modernidade e Antiguidade: um casal apaixonado em Lua de Mel, fazendo amor em perfeita harmonia naquela casa!

Não aguentei! Exclamei, mais uma vez – que linguaruda:

- Nossa, quantas relíquias históricas, quanta Arte!

Hélène sorriu:

- Alexsander era um colecionador inveterado de Arte, de todos os tempos, e objetos históricos. E Álex parece que herdou esse dom dele, pois prossegue ampliando a coleção!

Sentamos na sala. Fiquei até com medo de sentar na poltrona, de estragá-la. Ela parecia custar milhares de dólares!

Era de um conforto que... sei lá... parecia aqueles sonhos de crianças, de morar em casa de mobília tão fofa quanto algodão doce!

Sentei nela, mas felizmente nada aconteceu.

Não estraguei nada... ufa!

Hélène sentou na minha frente, em outra poltrona, e deixou a bandeja em cima de uma mesinha ricamente trabalhada em metal e cristal, que tava entre nós.

Ela pegou sua xícara de chá e uma fatia de pão e me convidou a fazer o mesmo. Eu peguei.

O chá tava sem açúcar: fiz uma cara meio estranha.

Hélène deve ter percebido:

- Oh, me desculpe, eu não consumo açúcar branco! Aliás, eu não consumo nada refinado, nada branco. Isso faz muito mal para a saúde do corpo, sabia? É uma pena que nossa sociedade está tão viciada em alimentos assim... isso rouba a vitalidade e faz envelhecer muito cedo... Por isso me desculpe por eu não ter açúcar para lhe oferecer...

Eu corei! Que fiasco! Eu fui mega grosseira com a minha anfitriã tão amável!

Mas o fato é que eu era mesmo mega viciada em açúcar, principalmente Coca-cola© com bolachas recheadas de chocolate! Sem falar em fast foods y otras cositas mas...

Que droga, meu "vício" havia me feito ser grossa com aquela velhinha tão legal...

Nesse momento, enquanto Hélène e eu comíamos uma fatia de pão integral, percebi que nas paredes da sala haviam muitos retratos, pinturas e fotos antigas!

Eu adorava fotos antigas, pinturas antigas!

Engoli mega depressa o pão, só pra poder perguntar:

- Puxa, eu adoro fotos antigas, como essas em preto e branco, e pinturas! Posso olhar?

A velhinha terminou de mastigar sua fatia de pão, bem devagar, no tempo dela.

Eu fiquei sem jeito. Houve um silêncio constrangedor...

Então ela sorriu pra mim, se levantou e me disse:

- Claro! Eu adoro mostrar retratos, fotos e pinturas! Cada uma tem a sua história, sabia?

Eu sorri mega contente! Me levantei apressada, quase derrubando a minha xícara no chão!

Putz, foi por pouco! Uma peça daquela cerâmica devia custar a minha Luna...

Me levantei e fui correndo pras paredes onde descansavam as fotos e pinturas. Todas ricamente emolduradas.

Hélène se aproximou de uma foto em preto e branco.

Nela haviam um carinha mega jovem com uma menina de vestido todo enfeitado no seu colo.

O carinha tava com um rosto sério, pensativo.

Seu rosto vestia um olhar... um olhar que eu sabia já ter visto antes... aquele olhar de menino abandonado, sabe?

Putz, eu já havia visto aquele olhar em alguém recentemente, mas em quem?

Hélène então me contou:

- Este é o bisavó de Álex, Alexsander. E esta menina no colo dele, sou eu! Esta foto foi tirada em 1940, ainda em Vichy, quando eu tinha 10 anos...

Eu não acreditei!

Olhei bem pro carinha na foto: tirando o elegante chapéu de abas – típico dos anos 1940 – o rosto daquele homem era idêntico ao de Álex! Parecia o próprio Álex, só que usando um chapéu e um longo sobretudo branco...

Putz! Descobri!

Aquele olhar de menino abandonado! Naquela noite, no Becker, eu vi Álex ter exatamente esse mesmo olhar por alguns instantes!

Exclamei:

- Nossa, é igual ao Álex, só que vestido de branco!

Hélène riu:

- Pois é! Até o nome é parecido: Aleximander, Alexsander... Alexsander sempre se vestia de branco. Ele amava aquele sobretudo! Ele me dizia que aquele sobretudo era uma cópia fiel de um modelo londrino de 1803. Ele nunca o tirava!

Eu olhei pro sobretudo. Seus detalhes, seu design...

Putz grila, era idêntico ao sobretudo negro de Álex, só que branco!

- Alexsander, nas historinhas que me contava para me alegrar, naquelas noites frias ao redor da lareira, dizia que um sobretudo como aquele pertenceu a um herói de guerra... Dizia que um rapaz magro e alto – auxiliando o exército russo, em escaramuças durante as madrugadas – lutou muito debaixo dum sobretudo branco como aquele, contra os soldados franceses de Bonaparte, quando estes invadiram a Rússia em 1812... E por ser um sobretudo branco na madrugada negra, e pelo rapaz ser muito corajoso e ágil nos campos nevados, era confundido com um fantasma invencível! Isso apavorava tanto os invasores franceses, os fazia tremerem tanto, que erravam todos os tiros que lançavam contra ele de seus longos e desajeitados rifles!

A velhinha deu um sorriso de orgulho, lembrando das histórias contadas por seu pai adotivo. Seus olhos brilhavam, com aquele brilho infantil tão vivo! Ela devia amar muito o pai dela...

Nossa! Alexsander deve ter sido um contador de histórias e tanto! Queria ter tido um pai assim pra mim... que me desse essa atenção, esse carinho...

Hélène me mostrou outras fotos, todas em preto e branco, com ela e Alexsander.

A última foto que ela me mostrou era da década de 1960. Esta era uma foto bem colorida! Nela tavam uma mulher mega bonita, cercada de dois carinhas.

Hélène saltou à frente da minha curiosidade, começando a explicar aquela foto, antes de eu crivá-la de perguntas:

- À minha direita está meu marido! Vivemos juntos por 43 felizes anos.. até que ele partiu pro Plano Astral...

Hélène emudeceu. Havia certa melancolia na sua voz...

O carinha ao lado direito, marido dela, tava vestindo um paletó escuro, aparentando ter uns 40 anos. Tava mega sorridente, de mãos dadas com Hélène.

Mas do outro lado dela tava um rapaz, com um rosto sério, pensativo. Era um adolescente. O carinha?

Sem chapéu naquela foto... olhei bem... era a cara de Álex! E seu olhar... putz... era aquele olhar de menino órfão que eu já havia visto...

O carinha da foto vestia aquele longo sobretudo branco.

Seria Alexsander?

Claro que não!

Seria um outro filho, que herdou o sobretudo de Alexsander e o mesmo olhar?

A velhinha me tirou, rápida e ligeira, das minhas cismas:

- Esta foi a última foto que tirei junto de Alexsander, em 1967. Foi o ano em que ele partiu... Desde então, vivi apenas com meu esposo nesta casa... Só no início do século XXI, já viúva há algum tempo, é que adotei Leilene...

A velhinha suspirou longamente... e emendou:

- Você não imagina a falta, a saudade que senti de Alexsander... por isso eu cuidei tão bem da casa que ele construiu para nós e vivi nela com tanto carinho, mesmo sozinha por tantos anos... até que adotei Leilene... e há pouco tempo, quando Álex veio morar conosco, nossa família se completou!

Eu não acreditei!

Não deu pra acreditar mesmo! Bombardeei a velhinha:

- Este carinha ao seu lado na foto? É o bisavô de Álex?!

- Sim...

- Não pode ser, Hélène! Você tá de brincadeira, né?

Ela me olhou, com cara de "não tô te entendendo".

Eu?

Fui cada vez mais indiscreta sem perceber, tamanho o meu espanto:

- Hélène, isso é incrível! Ele parece não ter envelhecido nada de 1940 até 1967! Eu até diria que, nessa foto, ele podia é ser teu namorado!

Quando ouviu isso... como a velhinha riu!

A resposta dela? Não podia ser melhor:

- Acho que Alexsander tinha bons genes... ou um excelente cirurgião plástico!

E Hélène riu gostosamente, como uma menina arteira e sapeca!