Postagem 7. Os Lobos Nunca Choram

(Never Cry Wolf, 1983, EUA)

Foi então que ouvi um ruidoso barulho de chaves.

Agitado, feroz tilintar de metal!

Som da porta da frente abrindo, rápida. Barulhenta.

A porta bateu, com uma certa dose de impaciência, beirando uma audácia guerreira!

Subitamente, tava entrando na sala... uma garota!

Ela devia ter uns vinte e poucos anos.

E odeio admitir isso: ela era uma legítima concorrência desleal!

O governo devia proteger gurias como eu, com leis severas e fortes incentivos fiscais, contra esse tipo de gente:

Cabelos loiros, perfeitamente lisos, muito longos, viçosos e brilhantes, chegando quase às nádegas.

Tinha quase 1,80 m.

Olhos azuis, grandes, incrivelmente profundos!

Olhar extremamente expressivo!

E sabia se vestir de um modo que valorizava, e muito, o patrimônio que as Divindades lhe deram ao nascer...

Rosto e corpo de garota duma propaganda de cerveja, sabe?

Precisa dizer mais?

Chega, né? Não vou ficar aqui fazendo marketing da concorrência, mas não mesmo!

Foi então que aconteceu!

Ela olhou pra mim, com uma cara... por alguns momentos, até me pareceu que ela fez aquela expressão que a gente faz quando fala pra si mesma: "Hei, eu já vi esse rosto antes, mas de onde?"

O que era aquela expressão indecifrável no rosto dela?

Surpresa? Ou indignação? Ou as duas coisas ao mesmo tempo?

Imediatamente ela me olhou de cima a baixo, como se tivesse me scaneando! Pior que vigilante de aeroporto rastreando artefato terrorista nas bagagens!

Gelei!

Minhas pernas tremeram:

"Ai, minha Deusa! A namorada do Álex! Tô fudida!"

Pensamento cruel: me fez ficar ainda com mais medo daquele olhar azul gélido, que parecia querer devorar meu fígado!

Hélène – uma verdadeira diplomata! – saltou à frente, muito doce:

- Leilene, minha flor! Venha conhecer minha nova amiga, Selene!

Leilene? Essa aí era Leilene!?

Ufa! Não era a namorada dele! Era parente dele!

Senti um alívio...

Que não durou muito tempo:

Os olhos de Leilene agora pareciam queriam me morder!

Ela não se moveu. Ficou parada, me encarando!

Se eu não parecesse exagerada ou mentirosa, até diria que ela tava... me farejando... e rosnando baixinho pra mim!

Até que a toda metida a gostosona resmungou estas palavras, imersas num sotaque estrangeiro que eu não consegui identificar – seria norueguês? Sueco? – muito, mas muito irritada:

- Sua amiga, vó Hélène? Ou "amiga" do tio Álex?

Fiquei sem saber como reagir! A palavra "amiga", dita assim pela boca dela, fez com que o clima ficasse mega pesado!

Notei que ela ficou rastreando uma reação minha.

Me estudando! Imóvel: só seus enormes olhos selvagens se moviam! Parecia uma loba observando sua caça: eu!

Eu não soube o que fazer, senão sorrir completamente desconcertada, gaguejando:

- Oi, eu sou Selene...

Ela? Nem olhou pra mim enquanto eu falava!

Virou as costas e saiu caminhando, feroz, subindo a imensa escadaria, batendo os pés: o som de uma Tempestade Tropical esmagando a madeira com seu Vento, lançando Raios!

Sumiu nos corredores lá em cima.

Só ouvi um estrondo duma porta sendo batida, com muita raiva:

Perecia o estrondo de um Relâmpago destroçando uma árvore, enquanto ainda era arrancada pelas raízes por um Tornado!

Hélène sorriu, meio embaraçada:

- Desculpe os modos dessa menina... ela anda tendo dias difíceis com os namorados dela e outras preocupações...

Namorados?

Nossa... acho que Ayaan finalmente havia encontrado uma rival à altura!

Novos tempos... relacionamentos fluidos...

Hiper-modernidade... a sociedade líquida de Zygmunt Baumann... Pós-modernidade...apóstolos do Amor Livre... ou eu é que devia ser uma antiquada conservadora, uma última romântica, arcaica mesmo?!

Monogamia: is out...

Comecei a me sentir uma autêntica peça de museu... quase tão fóssil como os valores duma freira velha, carcomida e pelancuda!

Argh! Arrepiante!

Cismas pra lá, tava era mesmo com uma vontade danada de esganar aquela loira: que grosseria a dela!

Nem me conhecia e me destratou daquele jeito!

Tentei ser simpática, mas não consegui, de jeito nenhum!

Não deu, juro que tentei!

Resmunguei:

- Mega calminha e gentil essa guria, heim?!

Falei com as pernas ainda tremendo um pouco... e com aquele calor, subindo pro meu rosto: que raiva reprimida!

Tentei ser a mais polida que pude, mas não deu...

Ai, que vontade de dar umas bofetadas na cara dela: lhe ensinar um mínimo de boa educação!

Ai, que ódio!

Hélène deu um sorriso triste...

Disse, então, melancólica:

- Leilene teve que aprender a ser assim... firme... mas ela ainda confunde firmeza com agressividade... a Vida não tem sido muito gentil com ela, até que aprenda a distinguir uma coisa da outra... como diz aquele velho ditado: "os lobos nunca choram: apenas uivam"... é assim que eles expressam seu sofrimento...