Postagem 9. Sangue e Chocolate

(Blood and Chocolate, 2007, EUA)

Quando eu acordei tinha perdido totalmente a noção de tempo.

Parecia uma mineira, sem relógio e no escuro, soterrada num acidente de mina...

Mas, na real, eu tinha relógio... e meu quartinho nos fundos da casa de Pink Pig era um pouco menos pior que uma mina desabada...

Mal acordei... mas minha ironia já tava on line!

Olhei pro relógio... tava marcando quatro horas. Mas quatro horas do quê?

Eram quatro da manhã, eram quatro da tarde? Que dia era hoje? Páscoa? Natal? Carnaval? Onde que eu tava?

Só mesmo a minha ironia tava on... todo o resto: ainda off...

Quando vi as horas, vi que tava no meu quarto. Já era um começo: meu grande senso de orientação tava ficando on...

Olhei ao redor do meu quarto... tava tudo mega escuro! Tinha uma luz tênue entrando pela portinhola da porta do meu quarto...

Será que tava chovendo pra tá tão escuro, às 4 horas da tarde daquele domingo que tava tão ensolarado de manhã?

Temporal, assim, no seco, sem preliminares não?

De certo era mais uma daquelas tempestades imprevistas, que surgiam com as mudanças climáticas enlouquecidas dos últimos tempos... Aquelas tempestades que driblam como craques os melhores modelos climáticos computadorizados, que pegam até alguns figurões da NASA com as calças na mão, no Caos Climático atual... Rotina...

Levantei... mas levantei toda dura!

Parecia que tinha dormido numa cama de espinhos dum faquir indiano... nada mais confortável!

Meus pés tavam doendo pra caramba!

Olhei pra eles... Charada respondida: eu tava de botas!

Lógico: que pés iam aguentar dormir de botas...

Que cabeça a minha, onde já se viu?

Nem tirei minhas botas... Eu tinha ido dormir?... Ou simplesmente despenquei sobre a cama, heim?

E será que tava ainda vestindo meu sobretudo de couro?!

Se sim a essa pergunta, eu deveria tá toda dolorida, dos pés ao pescoço... bom, dolorida eu tava mesmo!

Conclusão definitiva, ao ver que tava usando minha armadura de couro: não fui dormir não, despenquei mesmo na minha cama... toda fardada!

Sinistro...

Dei uns passos até a minha porta. Caminhando igual zumbi...

Mal tinha acordado... mas já tava dançando thriller do Michael...

Abri a portinhola. Espiei pra fora.

Tomei um susto: tava tudo mega escuro lá fora, as estrelas brilhavam no céu!

A luz que eu havia enxergado entrar no meu quarto era a iluminação dos postes de iluminação pública!

Minha Deusa! Não eram quatro horas da tarde de domingo: eram quatro horas da manhã! Quatro horas da manhã de segunda-feira!

Putz, eu não dormi não: eu hibernei!

Era só o que me faltava...

Agora eu até já tinha virado uma ursa, hibernando por aí... e certamente já saberia de qual a espécie, quando visse a minha maquiagem gótica toda borrada no espelho do banheiro: ursa panda...

Pouco a pouco, fui me lembrando das coisas que haviam ocorrido.

Ficando on de novo...

Me lembrei de ter ido a Lamy Village.

Recordei da vó de Álex me recebendo mega bem naquele Casarão.

Velhinha mega legal!

Me lembrei da conversa que tive com ela... e das histórias que ela me contou...

Lembrei da fiasqueira que eu fiz, desmaiando lá...

Putz, que vergonha! Que bom que eu tava agora na minha toca: ninguém ia me ver até minha vergonha passar...

Finalmente, recordei que chorei na praia... e muito!

Por que diabos eu chorei daquele jeito, heim?!

E por que a história da pintura de Saraí me fez me sentir tão mal? Aquelas sensações horríveis no meu corpo... e até me fez passar por aquele fiasco de desmaiar?

Minha cabeça, minha mente: completamente on de novo...

Porcaria... antes dela ligar, mesmo com a dor no corpo, eu tava me sentindo ainda com aquela suave sensação de leveza – talvez até mesmo Paz! – que eu senti quando tava dirigindo pra casa...

Cabeça ligada, corolário lógico: comecei a cismar um milhão de coisas!

O pai adotivo de Hélène não envelhecia nas fotos: passaram uns 20 anos ou mais, a menina crescia e mudava nas fotografias, mas e ele?

Nunca mudava... que estranho... Das duas, uma, ou até as duas: ou as fotografias eram muito ruins, de tal forma que não dava pra ver os detalhes do rosto do carinha envelhecendo... ou realmente ele tinha genes bons demais – ou um excelente cirurgião plástico, numa época que isso nem existia ainda! – como a velhinha falou brincando comigo!

Nova cisma:

Por que o bisavô de Álex – e depois o próprio Álex – cuidavam tão bem daquela espécie de "altar" onde tavam aqueles dois retratos, de An-het e Saraí?

Será que ele cuidava daquelas pinturas porque elas eram Bruxas? E Álex curtia o negócio? Será que ele conhecia Magia, Bruxaria?!

Que coisa... o jeitinho como aquele altar era cuidado e organizado por Álex, até com flores... todo arrumadinho... ele parecia que tinha muito carinho por aquelas pinturas...

Mas por que Álex acendia velas naquele altar, todo ano? Exatamente no dia 1° de junho e no dia 21 de dezembro, justo nas datas das mortes das duas Bruxas, segundo as histórias do bisavô dele?

Era um tipo de culto mágico? Será que aquelas Bruxas pertenciam a uma Tradição de Magia e Bruxaria que Álex gostava ou pertencia e, por isso, eram cultuadas?

Tá aí uma coisa que eu adorei cismar: Álex, um Bruxo!

Queria descobrir agora se ele era mesmo fã do nosso estilo de vida pagã! Precisava confirmar isso: além de ser o carinha mais lindo que já vi, era um Bruxo?

Se fosse, nossa, aí ele tinha atingido a perfeição!

Putz... me escapou até um suspiro... ai... ai...

De repente... nova cisma!

E ela me assaltou a cabeça...

Alexsander era mega branco, branco como o mármore! Tão branquinho como Álex...

Tá certo que Álex era branquinho, mas nada patológico, ou do tipo albino, ok?

Albinos não tinham aqueles cabelos negros lindos e aqueles olhos verdes – magnéticos, wow! – que ele tinha!

O bisavô e o bisneto eram iguais no tom de pele... mas tinha mais coisa!

Alexsander... putz, tirando o corte de cabelo antigo, o sujeito era a cara de Álex!

Idênticos: igualmente brancos, igualmente enormes – com quase dois metros os dois... o mesmo rosto, absolutamente tudo igual... mas como, já que Hélène, a vó dele, era adotada? Como os genes do bisavô passariam pro bisneto?

Estranho...

A menos que Hélène não fosse a vó de Álex, fosse tipo uma tia-avó... Sim, era só Alexsander ter tido outros filhos, e Álex descender deles... Muita gente chama tia-avó simplesmente de vó... Normal: até velhinha que a gente nunca viu na vida, quando encontra na rua, alguns chamam de vó...

Ah, devia ser isso sim! Por isso Hélène me disse isso, lá no portão do Casarão:

"Pode-se dizer que sou a vó de Álex"...

Matei essa charada, hahaha!

Beleza!

Mas daí, nova cisma – a lista de downloads de cismas deveria ser imensa, porque não paravam de baixar!

Que coisa! Olha só: Hélène não me disse do que o pai adotivo dela morreu, ela simplesmente disse que ele "partiu" em 1967... Partiu... pra onde?

Ou será que "partiu" era um eufemismo pra "morreu"?

Bom... devia ser... eu falava assim da minha vó Rachel: partiu, fez a Passagem pro Plano Astral...

Acho que essa charada eu também matei! Jóia!

Eita! Nova cisma:

Como aquele carinha, Alexsander, poderia ter encontrado um papiro egípcio de um período anterior à 1° Dinastia do Antigo Império, de um período que nem os arqueólogos conheciam direito?

Já que ele era um colecionador de Arte, de onde ele havia comprado aquilo? E como ele sabia daquelas datas tantos anos antes da National University pesquisar nos laboratórios? Será que quem vendeu pra Alexsander tava tão bem informado disso tudo, lá nos anos 1940, época que ele deve ter comprado aquele papiro? Melhor informado que os pesquisadores da National University, com uma tecnologia superior, mais de cinquenta anos depois?

E como algo tão antigo tava em tão perfeito estado de conservação? Será que o bisavô de Álex era não apenas um colecionador de Arte, mas também um arqueólogo?

Década de 1940... plena Segunda Guerra Mundial: eu já tinha lido que, como o Egito era possessão britânica, naquela confusão com os alemães no Norte da África, houve muita escavação ilegal e até se roubou muita coisa que a Ciência Oficial hoje nem sabe que existiu... era um paraíso pros colecionadores particulares e pros arqueólogos independentes daquela época!

Será que Alexsander era um daqueles caras, daqueles arqueólogos aventureiros?

Tinha que ser!

Afinal, Hélène não me contou qual era a profissão dele! E disse que ele viajava muito pelo mundo antes de adotá-la!

Só assim mesmo pra ele ter tantos objetos antigos, lindíssimos, naquele Casarão!

Aquela coleção de Arte antiga? Se somasse os valores daquelas armas, daquelas armaduras, daquelas pinturas, esculturas, cerâmicas, tabuletas, enfim, de tudo o que parecia haver naquele Casarão, sei lá... talvez valessem milhões e milhões de dólares!

De onde o pai adotivo de Hélène tirava dinheiro pra comprar tudo aquilo?

Nossa... quantas perguntas sem respostas!

Sinistro...

Subitamente, nova cisma – e tava mesmo confirmado: a lista de downloads era realmente imensa!

Sim! Os olhos de Álex!

Os olhos de Álex eram verdes... mas naquela noite, subitamente, eles ficaram mega vermelhos... como chamas faiscando, sabe?

Então ele disse que era conjuntivite... tá bom... mas se fosse conjuntivite, os olhos dele não deveriam tá vermelhos a noite toda? Ou eles ficavam assim, mudando de cor repentinamente?!

Conjuntivite é que não era!

Ai, ai, ai, ai, ai... será que era alguma droga nova que Álex tava usando?

Putz grila!

Ele, aquela perfeição ali... um viciado? Será?

Haviam umas drogas novas rolando por aí que mudavam bem assim a cor dos olhos...

Putz, daí deu outro download, como um raio na minha mente: a temperatura da pele de Álex...

A mão dele, quando eu a toquei acidentalmente naquela aula, tava mega fria, como a dum bloco de gelo!

Lembrei de Mr. George... me dizendo que Álex era "encrenca", "sarna pra se coçar"...

Será que Mr. George sabia de algo? Tipo, uso de novas drogas?

Sim: o mercado tava cheio de novas drogas bombando por aí... e não vinham da farmácia da esquina, não!

Capitalismo proativo: o consumidor, cada vez mais exigente e insaciável, sempre fazia os traficantes tarem mega atentos pra inovações no mercado...

Soube que tinham umas drogas bem na moda que, só pra começo de conversa, já davam um barato sexual e tal: os guris adoravam porque impressionavam muito as gurias na cama... e como "bônus" aquelas boletas até mudavam a cor dos olhos em instantes... mas em alguns guris davam como efeito colateral uma perigosa hipotermia – sim, a temperatura do corpo despencava e a pele ficava gelada quando dava a fissura, quando faltava a dose...

Mas... logo ele? Nessas aí?!

Não... Capaz!

Não, isso não era justo!

Logo ele? Será?!

Porcaria... se ele era mesmo uma sarna pra se coçar... droga, confesso, pô! Eu tava mesmo mega a fim duma coçadinha...

Nossa! Para, para, pô!

Chega!

Minha cabeça tava fervilhando demais!

Chega! Eu quero paz, pô!

Fiquei tonta.

Lógico: pensando, pensando, cismando, era tanto download que a rede tem que cair mesmo, né!

Me sentei na cama. Deitei um pouquinho até a tontura passar...

Quando olhei novamente pro relógio, já eram sete da manhã.

Tava tão imersa em cismas – por cerca de três horas sem parar! – que só então percebi que o Sol já havia nascido...

A minha rede TINHA que cair mesmo, desse jeito: overdose de downloads é foda!

Será que Álex, o carinha mais atraente que eu tinha visto na minha vida, tava metido em encrenca?

Putz, ele era tão... perfeito!

Alto, forte, culto... e certamente devia ser um gênio da mecânica de motos, pois as modificações que tinha no motor da sua Harley eram geniais...

E seu rosto, heim? Era simplesmente... sem comentários... é muito cedo da manhã pra ficar babando assim, tá? Chega, Selene! Chega!

Chega? Sei...

Será que a mão gelada dele não seria pressão baixa? Hipotensão?

Sim, eu já vi pessoas com pressão baixa terem as extremidades do corpo, mãos e pés, mega gelados...

Sim, devia ser isso! Matei essa charada!

Selene Stern caçou e venceu mais uma charada, yes, yes!

Hahaha!

Tá, mas e a mudança de cor dos olhos?

Conjuntivite é que não era...

Drogas novas? Pelos Deuses Antigos, que não fossem também!

Não era justo!

Porcaria! Eu já conseguia matar aquelas charadas... mas eu não conseguia explicar os olhos vermelhos!

Olhei pro meu pequeno altar de bruxaria, ao lado da minha cama... e supliquei:

"Que não fossem drogas, que não fossem drogas, que não fossem drogas, qualquer coisa, menos isso!"

Afinal eu sabia que, na fissura, o carinha troca qualquer guria, por mais que ela ame o cara, por uma dose bem vagaba daquela porcaria da droga...

Essas substâncias aí... humf!

Verdadeiras vagabundas químicas: acabam com qualquer relacionamento! É só elas balançarem o seu rabo de cadela vadia e os guris que embarcam nessa já babam atrás delas, e deixam suas garotas abandonadas no porto, só vendo navios...

Porcaria!

Inferno!

Eu fiquei a segunda-feira inteira cismando com isso!

Inteirinha...

Cismando enquanto eu saía pra comprar minhas coisas, meu estoque de "suprimentos" pro meu quartinho – meu bunker de guerra, que me protegia de ser vista por Pink Pig e seus machos...

Cismando enquanto fazia umas calibragens na Luna... uns ajustes nela, dentro do meu quarto... deixando ela sempre bem cuidada... minha valorosa montaria...

Cismando durante umas tarefas do John Becker pra fazer...

Eu até que tentei fazer os trabalhos que os professores pediram, juro... Mas em dois ou três minutos, minha cabeça já voava longe... direto pro Casarão de Hélène... e pra Álex...

Ai, porcaria! Inferno!

E ainda aquele bendito choque elétrico que eu senti, quando nos tocamos acidentalmente... Que tentação sentir aquilo de novo...

Quanta coisa rodando na minha CPU! O Windows ia trancar, lógico!

Choque elétrico... que não era choque elétrico... que era infinitamente gostoso... prazer em estado puro...

Álex... os dias que ele ficou sumido... tava sentindo falta de ver ele...

Para, chega! Que sentindo falta o quê?!

Dum carinha que eu mal conhecia!?

Não, isso não dá pra aceitar, mesmo!

Ai, ai, ai, ai, ai, que confusão na minha cabeça!

Eu tentei parar aquilo tudo, tentando me autossugestionar:

"Selene, calma! Muita calma nessa hora! Para de pensar tanta besteira! Tu anda muito carente, eu sei. Mas esse guri não passa dum estranho que tu conheceu há poucos dias! Tira ele já da cabeça e vai cuidar da tua vida, guria! Vai estudar, vai arrumar tua Luna pras corridas e pegar a grana que tu precisa. Tudo isso que tu tá pensando é pura perda de tempo!"

E funcionou a minha autossugestão?

Até parece...

Lógico que não deu certo: os pensamentos voltavam, despejados na minha mente!

Que saco! Eu odiava a minha cabeça quando ela cismava com algo: ela não parava!

Que praga! Despejando downloads sem parar! Mente cretina!

Inferno...

Finalmente veio o entardecer, e a noitinha...

Hora de ir pro Becker.

Quem sabe hoje ele tava lá?

Tá bom, confesso! Fiquei toda abobada quando pensei isso... até sorri comigo mesma...

Como sempre, montei na Luna e fui pro colégio pela Assys Brazil Avenue.

Cheguei lá perto das sete da noite e fiquei toda feliz – e eu nem imaginaria o porquê... – quando encontrei a Harley de Álex no estacionamento!

Wow!

Estacionei ligeira a minha moto! Peguei meu capacete, minha mochila, coloquei a corrente na Luna e subi correndo pra sala de aula!

Ansiosa?

Imagina...

"De onde essa pressa toda? Que coisa ridícula... Parece uma adolescente abobada, sem nada na cabeça! Nem parece uma intelectual gótica, uma pensadora! Para já com isso, guria!"

Minha cabeça tava tentando me por de volta nos eixos, acho...

Mas lógico que eu não a ouvi: queria era mesmo ver Álex na sala de aula, bem rapidinha!

Quando eu entrei, finalmente!

Lá tava ele no fundão da sala, no canto da janela!

Oba, oba, oba!

Eu imediatamente sorri pra ele! Olha só, eu, logo eu, sorrindo!

E sorrindo pra um garoto, dá pra acreditar? Pois é, eu não acreditava mais no que eu tava fazendo ultimamente!

Mas pra minha surpresa, Álex não sorriu pra mim...

Surpresa... e imediata decepção!

Mas ele não apenas não sorriu pra mim...

Foi algo bem pior...

Ele me desferiu algo que eu não imaginava que ele fosse capaz de fazer: ele me desferiu um olhar de... raiva?!

Não acreditei... um olhar de... raiva?!

Eu fiquei mega aturdida com aquele olhar!

Ele me fulminou... e eu?

Murchei mais rápida que pneu furado por miguelito...

Caminhei, começando a tontear, pro meu lugar no fundão da sala, bem no outro canto, oposto a onde ele tava.

Eu não entendi mais nada! O que foi que aconteceu?

Por que aquele olhar de raiva?

O que eu fiz de errado?

Nem consegui pensar mais em nada...

A tristeza tomou conta de mim dum jeito tal que... até meus pensamentos secaram...

Nem precisava falar que eu fiquei, sentada no meu lugar, dura como uma estátua.

Nem ousei olhar mais pro canto onde Álex tava...

Até tentei prestar atenção nas aulas...

Biologia, Matemática... que nada, eu não conseguia sequer entender direito o que os professores tavam falando...

Minha cabeça? Tava era virada numa sopa de letrinhas: eu não conseguia sequer ler o que ela tava pensando... letrinhas embaralhadas no meu labirinto de pensamentos... imagina então ler o quadro ou entender um professor?

Até que chegou a hora do intervalo.

Nesse momento todos começaram a se levantar e ir pro corredor.

Eu tava tão confusa e triste que nem me levantei...

Mas, quando percebi, Álex tava de pé, bem na frente da minha classe!

Eu levantei a cabeça pro seu rosto... e ele tava com aquele mesmo olhar... de raiva! Raiva!

Senti um frio horroroso na minha barriga!

Ele ficou ali de pé, bem na minha frente. Tava com os punhos cerrados.

Ele me encarou feio.

Senti minhas pernas tremerem!

Foi então que ele finalmente me disse:

- Você foi na minha casa ontem de manhã! Isso foi uma enorme estupidez, sabia?

Eu?

Eu fiquei sem saber o que dizer!

Meu rosto ficou espantado!

Eu olhei pra ele e consegui falar só isso, e com muita dificuldade, porque a minha garganta travou:

- Estupidez por quê? Você sumiu... pensei que tava doente...

Ele pareceu ignorar tudo o que eu disse!

Acho que nem me ouviu, porque ele prosseguiu com a voz mega seca:

- Escuta aqui, guria! Mas me escuta bem! Eu sou má companhia, ouviu? Eu ando metido com gente barra pesada! Afaste-se de mim se você for inteligente, ouviu bem?

"Gente barra pesada"...

Com quem Álex se meteu?

Traficantes!

Só podia ser! Ele tava mesmo usando drogas! E de certo tava devendo pros caras?!

"Afaste-se de mim"...

Não sei o que me atingiu mais: se foi o "barra pesada", aquele olhar de raiva ou o "afaste-se de mim", dito naquele tom de voz mais seco que o deserto do Atacama...

Voz... a voz dele tava me ferindo mais do que golpes de canivete...

Aquele tom... se eu tivesse tomado um soco na cara, como os machos de Pink Pig davam nela às vezes, tinha me doído menos...

Soco... acho que esse, da voz dele, foi bem mais doído do que todos aqueles que eu tinha recebido ao longo de toda a minha droga de vida escolar, desde a 1° série...

Putz... aquilo tava doendo pra valer...

Quando eu me dei conta os meus olhos se encheram d'água...

Eu simplesmente não consegui controlar... e algumas lágrimas começaram a rolar pesadas pelo meu rosto.

Fiz uma enorme força pra segurá-las!

Mas que porcaria mesmo! Eu ordenei pra elas ficarem presas dentro de mim, mas elas fugiram, descendo quentes pelo meu rosto...

Foi nesse momento que eu percebi que o olhar de raiva de Álex se desfez por completo...

O olhar dele pareceu liberar um lampejo de... carinho, ou seja lá o que for... carinho? Sei lá... eu não entendia mais nada!

Ele então se virou e caminhou em direção à porta da sala de aula. Mas ele parecia relutante... ele caminhou, e enquanto eu guardava ligeira todo o meu material na minha mochila, com as mãos trêmulas, desesperada pra sair dali, ele voltou até mim, ficou novamente à minha frente, e me disse algo que não entendi mesmo...

Não dava pra entender de jeito nenhum, porque ele me disse com a voz suave, quase carinhosa:

- Desculpe-me... eu não quis te machucar... ouça, é pro seu próprio bem, entende?

Qual era a tua, heim, Álex?

O que você era afinal? Um paciente com Transtorno Bipolar?

Ou isso era por causa das drogas que você tava usando e que tava devendo pros seus barra pesada? Em um instante você me xinga com raiva e, em menos de um minuto, você vem e me fala com uma inesperada ternura?

Afinal, o que era aquilo? Um jogo? Uma piada?

Piada... tava vendo um nariz de palhaça na minha cara, é?!

Eu tava completamente aturdida... E as lágrimas?...

Ah, que safadas subversivas que não obedeciam minha oficial ordem de prisão: não paravam de fugir dos meus olhos, descendo pelo meu rosto, como bandidas em fuga duma casa de detenção...

Eu só consegui responder pra ele isso, sem fitar os olhos dele de jeito nenhum, olhando pro chão aos meus pés... como que se pedisse forças pro piso da sala de aula pra me sustentar:

- Eu entendo... não vou te incomodar mais...

Quando eu disse isso, peguei a mochila, me levantei e só não saí voando porque não tinha asas...

Que inveja dos corvos, das corujas e dos morcegos!

Saí a mais rápida que pude daquela sala de aula.

Tomei o corredor, tentando enxugar as lágrimas com as mangas do meu sobretudo de couro negro. Couro: não presta mesmo pra isso...

Desci ligeira as escadas e em instantes tava no estacionamento.

Me sentei, encolhida, ao lado da minha Luna.

Me recostei nela e não consegui mais segurar o choro.

Eu fiquei ali, daquele jeito alguns minutos... até aquela avalanche de sentimentos no meu peito acalmar.

De repente eu vi Álex saindo do saguão... olhando pro estacionamento. Percebi que ele me viu.

Ele ficou ali parado, ao longe... em seguida andou de uma lado pro outro, como se não soubesse o que fazer... Chegava a passar a mão na cabeça, entre os cabelos...

Eu queria sumir dali, da vista dele!

Imediatamente montei na Luna, coloquei meu capacete e dei a partida no motor.

Eu queria desaparecer dali! Me sumir, me apagar dali!

Queria ir pra casa, me enfurnar no meu quartinho, me esconder na minha toca.

Talvez, entocada no meu quarto, até morrer de uma coisa bem idiota...

Algo apropriado pra horas como essa: morrer de overdose... de chocolates.

Chocolate: droga muito consumida por usuárias que sofrem da grave doença da rejeição afetiva... Quando o coração sangra, usuárias recorrem a bandagens e curativos de cacau... um problema de Saúde Pública!

Tinha que sumir dali: acelerei a Luna e parti!

O guardinha do estacionamento abriu o portão pra mim e, quando eu tomei a New Silver Street, acelerei a Luna com tudo!

Toquei o velocímetro até o final! Se desse, eu fazia aquele ponteiro estourar a escala da velocidade!

Eu queria desaparecer, desinfetar dali... Ir pra casa a mais rápida possível...

Quando cheguei em casa... me sepultei na minha cama...

Virei uma autêntica múmia do Antigo Egito...

Minha cama: meu sarcófago... meu quarto: minha cripta...

Eu tava arrasada... mais acabada que Amon-Rá no seu sarcófago, depois de tomar uma surra, uma camaçada de pau dos Thundercats...

Chega! Não quero mais falar sobre isso! Dói muito...