Postagem 11. Batman, o Cavaleiro das Trevas
(Batman The Dark Knight, 2008, EUA)
Os dias seguintes se passaram sem nada digno de nota...
Exceto que eu tava me controlando pra não surtar novamente...
Normal... Afinal, é tão corriqueiro quanto escovar os dentes você querer pegar um galão de gasolina, um isqueiro e uma Harley- Davidson® e misturar estes três elementos, numa reação química de potente oxidação – também conhecida por combustão! – pra analisar qualitativa e cientificamente o que acontece...
Mas na impossibilidade de realizar tal experimento científico acadêmico, refinado e elegante, simplesmente pegar-se um pedaço de pau e se comportar como uma troglodita da Era do Gelo...
Tão corriqueiro e normal!
Arf... Mas acho que eu já tava mesmo era pegando Álex como meu bode expiatório...
Tava tão desesperada por paz porque tudo tava dando absolutamente errado na minha vida... tava tudo de pernas pro ar, tudo!
Tava me sentindo tão desgraçada – literalmente, uma des-graçada: aquela que perdeu a Graça, a Benção dos Deuses – que inconscientemente acabei arranjando um ponto fixo pra despejar a minha desgraça, a minha imundície... como os antigos pagãos faziam com o bode...
Bode Expiatório: animal sagrado, criado especialmente pelos antigos sacerdotes e sacerdotisas pro holocausto sacrificial, com a missão sagrada de receber toda a energia negativa das pessoas, todos os seus pecados, todas as suas expiações, pra que as pessoas tivessem forças de continuar vivendo, um pouco aliviadas de seu tormento...
Holocausto Sacrificial: a purificação de todo o sofrimento, de toda a energia ruim que a carne e o sangue do bode recebiam das pessoas, através do sacrifício do bichinho e posterior incineração de seu corpo...
Eu?
Acabei jogando toda a minha desgraça pra cima de Álex... acabei descontando nele tudo o que sangrava em meu peito há tanto tempo...
Quando uma guria tá na beira do abismo como eu, com a face voltada pro seu horizonte sem fundo de Trevas, é fácil a gente sucumbir à tentação de colocar a culpa em alguém... principalmente em alguém que te chama a atenção, seja por prazer ou dor...
É quando achamos o nosso bode...
Mas eu sabia que eu era a culpada por cada grama do sanduíche de merda que eu tava comendo... eu tava errando, e pagando o preço por meus erros...
Mas onde eu tava errando? Onde a minha culpa? O que eu tava fazendo de errada, desde que nasci?
O que os Antigos Deuses queriam me mostrar com aquilo tudo? O que eu tinha que aprender com todo aquele sofrimento que foi a minha vida, desde que eu nasci?
O que eu tinha que consertar na minha vida, perante as Divindades? Eu, que sempre fui uma intensamente dedicada praticante e devota do culto da Deusa: no que eu tava errando?
Eu nunca, nunquinha consegui responder a essas perguntas que me atormentavam desde meus treze anos...
Mas a rejeição de Álex fez essas perguntas voltarem a martelar a minha mente... e a falta de respostas?
Um tormento!
E no final, o carinha, ou melhor, a moto dele, acabou sendo promovida a animal sagrado pra descontar meus erros...
Que vergonha!
A Harley dele agora só faltava fazer "bé" e pastar capim por aí...
Ao menos, nessa época de Depressão Econômica, com os preços dos combustíveis inflacionando nas nuvens, Álex iria economizar uma boa grana: o capim ainda era de graça... ainda!
Sorri ao pensar isso...
Minha terapêutica dose diária de sarcasmo na veia, pra mim conseguir aguentar firme: mantinha o meu humor ainda respirando!
Arf...
De tudo que era ruim, ao menos as informações que eu peguei na internet e no Becker eram reconfortantes: em dois dias haveria corridas, com apostas mega altas, no extremo Norte de Happy Harbor, na Assys Brazil Avenue, quase na divisa com Little Waterfall.
Como eu sabia que as apostas seriam altas?
Fácil: rastreei na internet páginas pessoais, nas redes sociais, da clientela de sempre, e descobri eles combinando entre si a presença de motoqueiros de outras cidades... gente também vinda de fora: ia ser um grande evento, aproveitando a deflagração de greve da Polícia ocorrida horas atrás, noticiada na mídia...
Sim, a "equipe organizadora" da corrida não perdeu tempo!
Time is money, oh, yes!
Lógico que eu tava arrumando a minha Luna pra isso: eu precisava arrumar grana, urgente, e aquela madrugada em especial prometia bastante! Se minha Luna tivesse perfeita eu poderia ter grana pra sobreviver a meses de desemprego!
Já tava comendo só uma vez por dia... racionando minhas reservas finais de comida... gastei as últimas moedas da latinha de refrigerante no combustível da Luna... ao menos Pink Pig pagava meu consumo de água, eletricidade e eu podia usar a internet 15 G dela...
Ela reclamava, mas pagava... Finalmente: ter nascido de uma mulher – e não de uma proveta de laboratório ou fruto de transgenia – tava me dando algum lucro...
Mas, com a corrida chegando, eu tava finalmente com a chance de sacar o meu seguro desemprego naquele grande banco de Políticas Públicas para a Juventude: o Banco do Asfalto.
Que maravilha... em épocas de Crise Climática e Econômica os políticos sempre se lembram de que nós, os jovens desempregados, precisamos comer, senão passamos desta pra melhor... então eles nos oferecem grandes Políticas Públicas de incentivo pra nos socorrer, como esta: endurecendo o jogo com os policiais, forçando-os a fazer greve... e assim, abrindo crédito no Banco do Asfalto pra nós...
Banco do Asfalto: venha para nós você também, seja nossa correntista! Aqui você, moça jovem desempregada, consegue seu crédito, desde que no final da madrugada você não esteja estirada no asfalto, dando um último beijo apaixonado nele...
Abençoado sarcasmo! Porque se chorar resolvesse...
E lá no Becker?...
Arf, nenhuma novidade...
Lógico que Álex e eu não nos falávamos mais.
O mais engraçado é que, na noite seguinte em que eu fiz informalmente o "ritual do bode expiatório", a Harley tava no estacionamento já com o retrovisor perfeito: idêntico ao que eu havia quebrado...
Nem parecia que havia sido trocado! Não sei como ele arrumou uma peça de reposição tão perfeita em menos de 24 horas...
Parecia até ser a própria peça original que eu quebrei... mas como? Isso era impossível, eu a deixei em pedacinhos!
Mas isso pouco me importava agora. Pois quando eu entrava no colégio, eu não cumprimentava nem olhava pra ninguém...
Sentava no meu cantinho.
Copiava as matérias do quadro. Fazia os exercícios. Sem sequer olhar pros lados – muito menos pro lado de Álex!
Aquele canto, próximo da janela? Zona proibida. Zona desmilitarizada da OTAN. Não se passa nem de avião por perto!
Eu?
Havia caído no meu mutismo, na minha tristeza habitual, com que eu sempre vivi: quieta, calada, sem sorrir nem rir, completamente na minha.
E a coisa ia assim... até que naquela noite, durante o intervalo, algo aconteceu...
Desde que eu tinha chegado no Becker eu tava com uma enorme duma enxaqueca.
Eu mal enxergava o que os professores colocavam no quadro...
E quando a turma falava alto? Pareciam que eles jogavam bombas que explodiam na minha cabeça!
Inferno!
Sabe aquelas enxaquecas que você não consegue nem ficar na luz? Que você vê como se tudo tivesse uma aura ao redor, borrando tudo? Que dói tanto que te cega?
Era dessas...
Por isso, durante o intervalo, eu saí da sala de aula completamente tonta, olhando pra baixo, enxergando tão bem quanto Stevie Wonder...
E descoordenada como sempre – pra isso nem precisava de enxaqueca alguma! – quando tomei o corredor, bem na saída da sala, acabei trombando em quem eu não devia!
Eu esbarrei acidentalmente – e, justamente, pra meu enorme azar! – com o tal do Moses!
Todo mundo no colégio tinha medo dele! Mas muito medo dele!
Ele era um enorme dum carinha, musculoso, saradão, mega mau encarado, e que andava sempre armado com pelo menos um canivete.
Às vezes chegava a trazer uma pistola automática pro colégio, escondida na cintura!
Instrumentos de ofício dele: Moses trabalhava pra um traficante de drogas, cara grande da região do morro ao lado do Becker, e isso fazia com que até os professores e a direção do colégio tivessem medo dele!
Como todo ótimo profissional, que adora o que faz, Moses tinha seus assessores: sempre andava com mais dois capangas dele. Julian e Andrew. Os três juntos eram o terror dos alunos da noite...
Quando eu percebi que havia trombado justamente nele, eu tremi!
Lógico: todos no colégio diziam que Moses já havia matado pelo menos duas pessoas! No "serviço de cobrança" sobre um estudante do Becker, cliente dele que consumiu mais drogas do que podia pagar... E numa crise de ciúmes: uma de suas namoradas, também aluna do Becker... Só que nunca encontraram os corpos... Diziam que Moses resolvia a questão no alto do morro onde "trabalhava", no setor das "queimas de arquivo"...
Fornos... Sem corpos, sem materialidade do crime... aqueles dois jovens constavam apenas como "desaparecidos"... e Moses, menor de idade: absolutamente impune!
E foi justo naquele monstro que eu esbarrei!
Imediatamente tive aquela clássica reação de proteção, mas ela ficou absolutamente presa na garganta, apenas gritando na minha mente:
"Desculpa! Desculpa! Eu tô com enxaqueca, não enxerguei direito! Desculpa!
Minha voz?
Havia sumido! Nem gaguejar eu consegui!
Como falar se eu tava tão assustada que nem conseguia respirar?!
Eu já havia visto Moses nos corredores antes, junto com seus pitbulls de estimação – Julian e Andrew – e sempre o achava assustador, mas naquele momento, em que olhei pro seu rosto por um segundo, foi muito arrepiante!
A expressão da cara dele parecia demoníaca!
Os olhos dele, os músculos do rosto, davam a impressão que um demônio havia incorporado nele!
Eu sabia que Moses não apenas traficava: ele também provava, fazia test drive do que vendia! E, pro meu azar, naquele momento, ele devia tá mega doidão!
E pra piorar, Julian falou exatamente isso pra ele:
- Brother, essa baixinha tá te zoando! Acho que ela tem que aprender a ter respeito!
Pra quê o tal Julian tinha que dizer isso!
Moses, que já tava doidão, ficou furioso repentinamente e me deu um empurrão!
Como eu sou magrinha e baixinha, quase caí pra trás, mas a duras penas consegui manter meu equilíbrio.
Nisso, o bandido me disse:
- Sua gótica de merda, você não sabe com quem se meteu!
Quando me disse isso, Moses enfiou a mão no bolso da jaqueta: retirou o canivete!
Apertou aquele botão e a lâmina mega brilhante – e mega afiada! – da arma branca foi apontada pra mim!
Eu tava tão apavorada que não consegui dizer uma única palavra nem mover um músculo sequer! Completamente paralisada: a ratinha perante a serpente enorme e venenosa que ia estraçalhá-la!
Quando Moses avançou em minha direção eu não consegui fazer nada, senão fechar os meus olhos, de tanto medo!
Ele ia me furar!
Foi então que aconteceu! O inesperado!
Ouvi um barulhão!
O barulho de algo sendo jogado contra uma parede!
Eu abri meus olhos! E vi algo inacreditável!
Lá tava Moses, grudado na parede, sendo erguido do chão pelo pescoço, por apenas um dos braços de Álex!
Me impressionei com o que aconteceu, foi tudo tão rápido!
Álex tava erguendo Moses pelo pescoço, pressionando-o contra a parede, com apenas a mão direita, como se o traficante – um cara grandalhão e musculoso! – fosse um graveto seco!
Nesse momento Andrew vem em direção a Álex, pela sua direita!
Álex, com uma cabeçada certeira na cabeça de Andrew, o derruba no chão e o deixa desmaiado, enquanto ainda segurava Moses pelo pescoço contra a parede!
Nisso, Julian vem pela esquerda!
Mas Álex lhe dá uma cotovelada com o braço esquerdo bem no meio da cara: o sangue do nariz de Julian espirrou longe e ele caiu no chão, meio desacordado!
Moses tava desesperado!
Tava sendo esmagado contra a parede, erguido pelo pescoço e sufocando!
O filho da puta, sem nenhum ângulo de ataque, com as mãos trêmulas pelo desespero, pega seu canivete e com uma força tal o enterra até o cabo no ombro de Álex!
Nesse momento eu gritei desesperada:
- Álex!
Mas Álex pareceu ignorar não apenas o meu grito como também a facada!
Ele parecia tá possuído!
Não deu um único gemido!
O rosto dele era o de um leão furioso em cima de um antílope!
Ele apenas abriu a boca e aproximou seus dentes da garganta de Moses – e eu me assustei ainda mais, porque naquele momento parecia que Álex tinha uns dentes caninos enormes!
Mas logo ele afastou sua boca da garganta do bandido e aproximou seus dentes da orelha dele!
No pé do ouvido do desgraçado, Álex falou rosnando algo, em voz baixa, que eu consegui ouvir, com um ódio duma tal intensidade na sua voz que eu jamais imaginaria que ele fosse capaz de ter:
- Escute aqui, seu traficante e drogado de merda! Eu sou um psicopata furioso em abstinência, tentando largar! Mas se você um dia sequer olhar torto novamente para a minha amiga, eu vou quebrar minha abstinência e zoar com você: eu vou arrancar sua cabeça e tripas à dentadas, ouviu?
Ele bateu Moses contra a parede, com uma força tal que parte do reboco da parede chegou a cair!
E Álex bradou:
- ENTENDEU BEM, VERME IMUNDO? ENTENDEU?
Álex gritou tão alto e furioso pra Moses que acho que até os mortos do Cemitério Saint John, ali perto, ouviram!
O traficante? Se urinou, tamanho seu pavor!
E acenou afirmativamente com a cabeça, confirmando que tinha entendido a ordem de Álex bem direitinho!
Percebi que, em resposta, Álex rosnou algo bem baixinho, mas acho que apenas pra si mesmo... porém eu consegui ouvir, enquanto ele se preparava pra soltar o pescoço daquele desgraçado:
- Sorte sua que teu Karma ainda te protege, senão...
Dito isso, Álex soltou Moses, que caiu no chão como uma folha seca: sem ar, ofegante e tossindo, mega asfixiado!
Começou a se aglomerar um monte de gente ao nosso redor, no corredor!
Álex tava com o canivete enterrado no ombro esquerdo, mas então ele sacudiu seu ombro pra cima e o canivete caiu no chão, repicou no piso e caiu bem aos meus pés!
Instintivamente eu recolhi o canivete e me impressionei: o canivete tava só o cabo!
A sua lâmina tava retorcida de tal forma como, sei lá, como se ela houvesse sido... derretida! E não havia nenhuma mancha de sangue de Álex, nenhuma!
Quando eu levantei os olhos pra olhar Álex e ver como ele tava, eu não o encontrei!
Havia um monte de gente ao nosso redor, um tumulto de gente, um mar de olhos espantados, um enorme burburinho!
Um oceano de estudantes olhando admirados pra Andrew, Julian e Moses – o trio mais temido de todo o colégio – caídos no chão do corredor! Odor de sangue e urina!
Eu procurei Álex com o olhar e o vi descendo as escadas rapidamente.
Eu tava quase sendo sufocada pela multidão de alunos que tavam ao nosso redor e, baixinha e magrinha como sou, tentei abrir passagem por entre aquele povo todo!
Quando consegui atravessar aquela massa de gente cheguei até as escadas e as desci correndo!
Intuí que Álex tinha ido até o estacionamento. Atravessei o saguão do térreo correndo e, quando cruzei a porta que dava pro estacionamento, achei Álex montado na sua Harley, dando a partida!
Corri até ele, berrando:
- Álex, Álex!
Ele olhou pra mim por um instante enquanto eu cheguei até ele, ofegante, e lhe perguntei:
- Você... arf... tá bem? Seu ombro!
Álex tava com uma cara mega mau-humorada! Ele ainda tava muito furioso com Moses! Mas me respondeu com toda a gentileza que era possível naquela hora:
- Não foi nada. O canivete pegou a minha ombreira de metal, por baixo do meu sobretudo.
- Como assim? Aquele bandido enterrou a lâmina inteira no seu ombro! Você tá ferido! Precisa de cuidados!
Álex esboçou um sorriso.
Pegou minha mão com a sua – e sua mão tava incrivelmente gelada! – e colocou minha mão em cima do ombro dele.
Eu apalpei seu ombro e ali havia só o furo da lâmina do canivete no sobretudo de couro dele! Não havia nenhum sinal de sangue!
Ele, com um discreto sorriso, me disse, seco:
- Você estava muito nervosa, e estava num ângulo ruim. Você viu errado. Ele só enfiou um pedacinho da lâmina no meu ombro, pegou na minha ombreira e nem me feriu.
Eu não acreditava no que meus olhos e meus dedos apalpavam! Seu ombro tava perfeito!
Como? Eu vi aquele bandido desgraçado enterrar uma lâmina de aço de uns dez centímetros no ombro de Álex!
Ele acelerou o motor da Harley, posicionou a moto pra sair da vaga do estacionamento, e me disse:
- Eu estou com a cabeça muito quente agora. Preciso tomar um ar, espairecer! E você, Selene, vai para casa agora. Esta direção covarde desta escola agora vai incomodar o resto da noite tentando "apurar os fatos"... Vai para casa que você ganha mais...
Dito isso, Álex acelerou a moto e partiu.
O guardinha abriu o portão pra ele. Ele o cruzou e foi embora, acelerando a Harley numa velocidade assustadora, pelo som incrivelmente potente que ela fazia!
Como eu sempre descia pros intervalos já com minha mochila e todo meu material, instintivamente corri pra minha Luna, peguei as chaves na mochila, coloquei o capacete e dei a partida!
O guardinha nem havia fechado ainda o portão quando eu lhe fiz sinal: ele o manteve aberto e eu o cruzei!
Na New Silver Street, em frente ao Becker, virei pro lado que ouvi o som da Harley de Álex ir. Acelerei e fui atrás dele, até a Assys Brazil Avenue. Quando cheguei lá, parei a Luna, olhei pra todos os lados, e nenhum sinal de Álex.
Eu o perdi de vista!
Tive um impulso de pegar a avenida e tomar o rumo até Lamy Village, até a casa dele. Mas me lembrei que ele disse que iria espairecer a cabeça. Ele poderia ter ido pra qualquer lugar! Seria impossível achá-lo...
Respirei fundo... eu ainda tava mega nervosa com tudo aquilo que aconteceu... minhas pernas ainda tremiam!
Súbito, tive vontade de pegar o canivete de Moses no bolso do meu sobretudo, pra confirmar o que Álex disse.
Eu tava parada bem debaixo duma luminária da via pública.
Tava bem claro.
Levantei a viseira do capacete e olhei a arma branca: era inacreditável!
Havia só o cabo mesmo e um resto de metal, como que derretido, no lugar onde deveria haver a lâmina!
Aquilo fez minha cabeça girar! Será que eu tava pirando?
Resolvi apalpar bem o canivete com os dedos, pra me certificar que ele era real.
Toquei no seu cabo e, principalmente, toquei no aço derretido!
Minha Deusa, o aço ainda tava muito quente! Quente!
Como se ele tivesse sido enfiado em um forno industrial, num forno de uma siderúrgica!
Eu senti o calor queimar levemente a ponta dos meus dedos!
Pelos Deuses e Deusas Antigos, aquilo ali era real, real!
Nesse momento minha cabeça não entendeu mais nada!
Tudo brotou novamente na minha mente: os olhos flamejantes de Álex na nossa primeira noite de aula... a estranha visita que fiz no Casarão de Hélène e as histórias fantásticas que a velhinha me contou... Os dentes caninos enormes que vi em Álex, quase grudando no pescoço de Moses... e agora, aquele canivete derretido nas minhas mãos...
Eu tava mega confusa! Minha cabeça voltou a dar aquelas mil voltas sem fim que ela tinha dado dias atrás!
Nisso, pareceu que a voz de Álex ressoou na minha cabeça: "Vai para casa, guria".
Eu resolvi acatar o conselho de Álex.
Tomei a Assys Brazil Avenue, em direção ao Norte de Happy Harbor, mas com a cabeça muito zonza!
Já nem tinha mais enxaqueca depois de tudo o que aconteceu! Mas um milhão de dúvidas atordoavam meus pensamentos...
Cheguei em casa. Felizmente, como em quase todas as noites, Pink Pig não tava em casa...
Abri o portão e coloquei a Luna pra dentro do pátio. Fechei o portão e empurrei minha moto até dentro do meu quartinho nos fundos.
Tranquei minha porta.
Retirei meu sobretudo e o pendurei na cadeira.
Peguei do seu bolso o canivete de Moses.
Retirei as minhas botas, empurrando-as com meus próprios pés, e fiquei na minha cama sentada em posição de semilótus, encostada na cabeceira.
Fiquei com o canivete nas mãos. O aço derretido já tava frio.
Eu nem sei dizer por quanto tempo fiquei com aquele canivete nas mãos, fitando ele sem parar, tentando entender o que aconteceu!
Todas as cenas da briga surgiam e ressurgiam na minha cabeça, sem parar!
A força com que Álex ergueu aquele bandido, e com que derrubou dois marginais com apenas um golpe em cada um... a facada... aquela voz furiosa, penetrante, de Álex... a visão que eu tive de seus caninos – pareciam enormes! – e a força com que ele bateu Moses na parede, fazendo até um pedaço do reboco cair!
E aquela frase que ele disse pra Moses: "Vou arrancar sua cabeça à dentadas"... me fez lembrar imediatamente a frase que Hélène me contou sobre o cavaleiro que amava a Bruxa cigana, Saraí... o jeito que Sol Negro matou o Príncipe Cristão...
Eu tava sem fome, tava sem sede, e as horas iam passando...
Eu só conseguia ficar com aquele canivete destruído nas mãos...
Minhas pernas adormeceram de tanto tempo que eu fiquei sentada na cama naquela mesma posição... e eu nem me importava...
Minha cabeça dava tantas voltas que eu havia completamente esquecido que eu tinha um corpo...
Tentei descruzar as minhas pernas mas elas tavam formigando demais, dormentes... eu as descruzei com a ajuda das minhas mãos.
Estiquei todo meu corpo na cama.
Ah, aquilo era bom...
Eu nem havia me dado conta de como, desde a hora em que eu esbarrei em Moses, meus músculos todinhos do corpo tavam tão tensionados! Me esticar na cama me fez distensionar um pouco...
Respirei fundo, deitada na cama.
Eu ainda segurava o canivete na mão.
Fiquei ali deitada, olhando pra ele.
Aquela noite e madrugada iam ser muito longas... certamente eu não conseguiria dormir...
E foi isso mesmo o que aconteceu... Só quando o Sol raiou é que eu consegui cochilar... dormi com a mesma roupa que eu tava...
Minha Deusa, o que Álex era?
Um ninja?
Será que ele era um mestre em ninjutsu?
Será que era por isso que Álex sempre andava de forma tão leve, suave e silenciosa, como os ninjas faziam, lembrando um sopro de vento?
Ou ele seria um mestre das artes marciais do Ki?
Eu já tinha visto cada coisa "sobrenatural" que pessoas treinadas em ninjutsu e manipulação do Ki faziam em demonstrações de artes marciais pra reportagens de TV!
Ou será que ele um Jedi, saído direto dum filme de George Lucas, da série Star Wars?
Pelos Deuses Antigos... o que Álex era?
O que o bisavô dele, Alexsander, era?
O que havia na família de Álex que os tornava absolutamente tão... incomuns?
Eu realmente não sabia, ainda, como responder a essas perguntas...
