Postagem 12. Os Intocáveis
(The Untouchables, 1987, EUA)
O dia seguinte?
Mega difícil: minha cabeça tava simplesmente impossível!
Eu não conseguia calar a boca da minha mente... era um download interminável de perguntas sem respostas e aquilo tava me agoniando!
Quis muito saber como Álex tava, se ele tava bem mesmo...
Se eu tivesse grana pra gasolina teria ido até Lamy Village, falar com Hélène: me certificar que ele tava bem...
Mas, na frieza da razão, eu sabia que tinha que escolher: ou cruzar a cidade – gastando combustível – ou investir o pouco de gasolina que eu ainda tinha nas primeiras carreiras da corrida da próxima madrugada...
Pensei em ligar pra Álex, mas eu não tinha o número do celular dele... aliás, eu até já tinha vendido o meu celular pra comprar comida com a grana: ia ligar pra ele era de telefone público mesmo.
Hélène! Eu podia ligar pra Hélène...
Mas que droga! A imbecil aqui sequer tinha pego o número do telefone residencial da velhinha naquele domingo!
Sua burra, sua estúpida! Idiota! I-di-o-ta!
Arfff... então eu cacei na internet, em listas on line, o números de Lamy Village... nada do número do Casarão!
Internet ainda: tentando uma forma de contato, rastreei o nome "Aleximander Berr", "Álex Berr" e todas as variações possíveis – corruptelas, apelidos, enfim! – que me vieram à cabeça... e todos os Berr de Happy Harbor, nas plataformas, nas redes sociais, em tudo que eu me lembrei... nenhum Berr... e nada de Álex! Nada!
Inferno! Porcaria! Eu precisava entrar em contato com ele! Precisava saber como ele tava e não conseguia!
Que cacete dos diabos do inferno! Porcaria!
Tomara que Álex ao menos fosse ao Becker essa noite... Eu nem iria hoje se não tivesse ocorrido aquele incidente com o desgraçado do Moses: ia economizar gasolina pras corridas...
Mas eu precisava muito, muito, mas muito mesmo ver Álex, saber se ele tava bem!
E se ele não fosse no Becker?
Bom, eu ia tentar dar um jeito de arrumar um telefone de contato lá na secretaria do colégio...
Tá bom, eu sei que eles não dão... mas eu ia tentar, nem que precisasse mentir qualquer coisa... ou até mesmo tentar uma atuação dramática... sei lá!
Droga... Eu, mentindo?
Mas... eu precisava saber se ele tava mesmo bem. Ele me salvou de ser furada por aquele... aquele saco de estrume ambulante do Moses!
O carinha salvou a minha pele! E eu nem consegui agradecer ele!
Ninguém, exceto Ayaan, me defendeu na escola em toda a minha vida... mas Ayaan só enfrentava aqueles pirralhinhos bullersde terceira categoria... ela nunca enfrentou um bandido violento de verdade, um cara que ia me matar a facadas, como Álex enfrentou!
Ele se arriscou... por mim! E muito! Até uma facada ele levou!
Por sorte pegou na sua ombreira de metal... embora quando eu pensava no que aconteceu com a lâmina do canivete, minha cabeça começava a dar um nó de novo...
Mas e se Moses enfiasse aquela arma imunda na barriga ou no peito dele?
Aquele desgraçado podia ter matado Álex!
Caramba, ele se arriscou muito... e por mim!
Muito antes do horário da aula eu já tava em cima da Luna, chegando no Becker!
Queria ficar de "tocaia", lá na frente do colégio mesmo, esperando Álex chegar. Rezando pra que ele viesse...
Mas na entrada do estacionamento, o guardinha me avisou que a diretora queria me ver!
Saco! Era o tal de "apurar os fatos", que Álex me avisou ontem à noite...
Larguei a Luna quase que de qualquer jeito no estacionamento, sem sequer olhar pros lados.
Subi a escadaria. O que eu ia dizer pra diretora?
Eu sabia que eles protegiam Moses, por ordens do traficante chefe, e que não iam fazer nada contra ele...
Era lógico que colocariam a culpa em Álex e em mim!
Quando entrei na sala da diretora... que surpresa!
A diretora tava sentada à mesa dela e, na frente dela, duas cadeiras. Numa delas... quem tava sentado?
Álex!
A diretora, uma mulher magra e mega mal vestida – sabe aquelas roupas de velhota divorciada que não sentem o cheiro dum homem há anos? Pois é... – me falou com sua voz seca e forte, como a daqueles sargentos mega rabugentos do exército aos recrutas:
- Sente-se, Selene. Precisamos conversar.
Numa situação normal: eu teria gelado!
E as minhas pernas: tremido!
Mas depois de tudo que eu tava passando nos últimos meses da minha vida... e depois de quase ter sido furada, na noite anterior, por um canalha que não valia a comida que comia – ou sequer valia as fezes que defecava! – sentei ali na maior tranquilidade!
Olhei pra Álex.
Ele tava fitando o chão, com os braços cruzados, e fazendo aquela cara de "Ai, meu saco, que palhaçada isso tudo!"
A diretora então olhou pra mim:
- Selene, quem sabe você pode nos ajudar aqui. Álex está amuado, e não quer falar nada. Como menor de idade, ele sabe que tem esse direito... só me responde com monossílabos ou evasivas. O que você viu ontem à noite, Selene?
Encarei a diretora, bem firme nos olhos dela!
Nem acreditei que eu consegui fazer isso, logo eu!
E disse, bem tranquila e firme:
- Álex e eu saíamos da sala de aula, quando Moses, Julian e Andrew ofereceram drogas pra gente no corredor. A gente recusou, numa boa... Mas acho que eles tavam mega doidões, porque quando a gente recusou, os três vieram com tudo pra cima da gente! Álex só me protegeu e se defendeu como pode naquela situação horrível! Eles iam matar a gente! Tavam com cara de fissura da droga, pareciam uns diabos!
Eu? Me espantei com o que acabava de falar! Tudo dito na maior cara de pau!
Eu sempre fui horrível pra mentir, nunca consegui... exceto pra fugir das aulas de Humilhação Física... mas isso não conta, viu?
De onde eu consegui ficar tão cara de pau assim, mentindo pra diretora com aquela elegância toda – parecendo até Tesoureira de Partido ou Política Profissional da mais alta esfera da República!?
A diretora me olhou firme!
Eu?
Sustentei o olhar dela, absolutamente séria!
Eu nem acreditei! Consegui sustentar o olhar... duma diretora!?
Nunca havia conseguido fazer isso com nenhum superior hierárquico antes, em toda a minha vida! Nunca!
Ela? Suspirou, enquanto pegava em cima de sua mesa uma pasta contendo um bolo de papéis.
Abriu a pasta e nos mostrou aquele calhamaço de folhas:
- Esta aqui é a pasta de Moses... ele tem uma ficha, não só nesta escola como em todas as outras de onde veio, suja ao extremo... eu já imaginava que era algo relacionado à drogas mesmo...
Houveram alguns instantes de silêncio.
Álex mal levantou os olhos pra ver aquela pasta. Continuava imóvel... e com aquela cara...
A diretora, então, olhou pra mim:
- O que você me disse Selene, faz todo o sentido... Moses e os garotos certamente estavam utilizando drogas pesadas e estavam tendo uma crise ontem... Recebi informações, hoje à tarde, de que Moses foi internado nesta madrugada no Hospital Psiquiátrico Philippe Pinel, tendo crises de alucinações...
Eu indaguei:
- Alucinações?
- Sim, Selene... até que sedassem Moses e o internassem, ele estava desesperado, dizendo que o diabo visitou o quarto dele nesta madrugada... com suas asas negras enormes, sua pele branca como a neve, suas mãos geladas como a Morte, com seus olhos tenebrosos em chamas, soltando fogo pela boca e com seus dentes caninos enormes arreganhados contra ele... Moses gritava que o diabo lhe falou que, caso ele pusesse os pés novamente neste colégio, iria comer suas tripas no seu café da manhã à beira do Lago de Enxofre, com leite desnatado e sucrilhos Kellogg's...
Nossa! Que coisa!
Esse foi o delírio por drogas mais pirado que eu já ouvi na minha vida!
Olhei pro lado e, ao fitar o rosto de Álex, percebi que ele tava fazendo um esforço enorme pra não gargalhar!
Realmente, aquilo chegava a ser mega engraçado mesmo! Que diabo exigente Moses inventou: até tinha sua marca predileta de sucrilhos... e o leite? Tinha que ser desnatado: nata, nem pensar!
Que tempos loucos: até o diabo já tinha aderido aos exigentes padrões do consumidor capitalista pós-moderno...
Até a diretora sorriu, politicamente incorreta:
- Bem, cá entre nós, Moses não vai incomodar por um bom tempo...
Dito isso, a diretora olhou pra Álex, e lhe falou:
- Aleximander, você está conosco há pouco tempo... vejo que sua ficha está limpa: nenhuma confusão, nenhum problema... Vamos mantê-la limpa assim, ok? Se houver algum problema como esse de novo, não saia simplesmente na porrada... venha avisar a direção, ok?
Ele? Não disse nada!
Apenas descruzou os braços e tomou uma nova postura em sua cadeira. E lançou pra ela um olhar...
Nossa! Sabe aquele olhar, de menino desamparado?
Aquele que amolece o coração de qualquer mulher? Que dá vontade de pegar um garoto e encher ele de carinhos?
Pois é... era esse o olhar!
Foi então que eu notei que o tom de voz e a postura do corpo daquela rabugenta sargento de recrutas mudou num piscar de olhos!
Ela chegou a ficar... sei lá... meio "faceirinha" pra Álex?
Ela poderia ter terminado logo, nos liberando, mas acabamos ficando um bom tempo ainda lá, ouvindo a sargentona contar várias coisas... até mesmo a história da vida dela... seus gostos pessoais...
Lógico: tudo isso sem que ela tirasse, por um momento sequer, os olhos de Álex... e como sorria pra ele... e sorria...
Eu? Tinha desaparecido do campo de visão dela!
Quando chegou a hora da aula, fomos dispensados da sala da direção, cobertos de gentilezas, por uma velhota toda sorridente...
O que um charminho nas mãos – ou no olhar! – dum carinha, que sabe realmente usá-lo com maestria, não é capaz, heim?
Putz grila...
Subimos, finalmente, pra ir até a sala de aula.
Na escadaria, Álex sorriu pra mim – um sorriso mega lindo!
Mas se ele tava tentando jogar agora algum charminho justo pra cima de mim, pode crer: eu não oferecerei resistência!
E, naquela escadaria, me disse com sua voz incrivelmente doce:
- Valeu por me livrar dessa, Selene...
Eu respondi, de imediato:
- Bah, eu é que agradeço! Você salvou minha vida dum monstro!
Álex sorriu novamente e disse, mega modesto:
- Não esquenta com isso... nem precisa agradecer...
- Que nada! Aquele desgraçado ia me furar! Você se arriscou por mim! Eu te agradeço e muito! Muito!
Foi aí que senti uma baita vontade de abraçar ele enquanto ainda dizia aquilo, bem ali na escada... que vontade danada de fazer isso!
Mas se eu fizesse isso, eu podia estragar tudo...
Ele me respondeu sorrindo enquanto parecia passar, meio sem jeito, a mão nos seus cabelos:
- Só ajudei a minha amiga...
Heim? Como é que é? Gostei muito de ouvir isso! Nham... nham... e eu tinha que aproveitar aquela oportunidade, pois poderia ser a minha única:
- Sou sua amiga? Que bom, isso é uma feliz novidade pra mim... porque você nem me cumprimentava mais, como se eu fosse uma nada...
Consegui! Consegui dizer aquilo! Não sei de onde eu tirei coragem, mas eu consegui! Yes! Aproveitei mesmo aquela chance!
Álex ergueu uma das suas sobrancelhas.
Fez uma cara de constrangido, como se não soubesse mesmo o que falar... tossiu de leve... e só depois disse:
- Selene... olha... eu tenho um gênio difícil... eu não sou uma boa companhia para você... não é nada fácil as pessoas gostarem de mim...
Eu? Nem me reconheci! Pois eu tava argumentando com ele na velocidade dum raio:
- Você tá muito enganado, Álex! É mega fácil gostar de você! Você é mesmo um carinha mega legal, sabia?
Putz! Eu fui longe demais, longe demais!
Avancei o sinal, droga, droga!
E agora me subia era aquele calorão pro meu rosto!
Fiquei muda e dura igual a uma estátua: nem consegui mais virar meu pescoço nem meus olhos pra ele!
Eu tinha ido longe demais! Que vergonha! Droga, droga!
Álex?
Sorriu pra mim... e daquela forma linda! Como ver isso vicia...
Quando chegamos à sala de aula, ele fez algo que nunca ninguém mais fazia há décadas em Happy Harbor:
Abriu gentilmente a porta pra mim entrar à sua frente, como um autêntico cavalheiro dos tempos antigos!
Eu agradeci, completamente sem jeito... sentindo mais forte aquele calor todo no meu rosto e nas orelhas: mode pimentão maduro on!
A aula?
Transcorreu normal. Mas você acha que eu tava prestando alguma atenção nela?
Sei...
Eu olhava era pro canto onde Álex tava sentado, toda hora!
E nossos olhares se cruzavam! Olhares de... carinho!?
Cara, aquilo era... era o máximo pra mim... era mega lindo!
Até que, de repente, notei que Álex fez uma cara de muita preocupação... uma cara mega séria...
Parecia que ele tinha visto... ou lembrado, sei lá... de algo muito, muito ruim! O rosto dele ficou... sombrio... acho que até... tenso?!
A partir daquele momento, nossos olhares pararam de se cruzar...
Eu o buscava e ele não olhava mais pra mim...
Até que, por um momento, seu olhar e o meu se tocaram novamente.
Nova decepção!
Não havia nos olhos dele mais aquele carinho... havia o quê?
Frieza!
O olhar era tão gélido como o do iceberg que afundou o Titanic!
E ele colocou seus óculos escuros... e passou a me ignorar... como se eu fosse uma nada!
Não entendi mais porcaria nenhuma!
Minha cabeça começou a dar voltas!
Que porcaria mesmo! O que tava acontecendo ali, afinal?
Aquilo ia acabar me deixando bem louca!
O que eu fiz de errada? De carinho pra frieza, em minutos! Por quê? O que eu fiz?
Na hora do intervalo, quando a professora de Literatura saiu da sala, não me aguentei!
Ele me devia explicações! E muitas!
Me levantei rápida e fui até o canto onde ele tava sentado.
Fiquei de pé, bem na frente dele, e minha indignação me deu a coragem que eu necessitava pra lhe encarar mega firme – o que a indignação de uma garota sentindo-se rejeitada não é capaz de dar pra uma baita medrosa como eu? – e lhe interroguei:
- Qual é o seu problema, heim, Álex?
Ele? Confortavelmente sentado, tirou seus óculos escuros. Colocou-os no bolso interno do seu longo sobretudo negro de couro.
Álex me fitou com aqueles seus lindos olhos verdes – praticamente hipnóticos! Preciso resistir agora! Preciso! Preciso! – e ergueu sua sobrancelha esquerda, dizendo:
- Eu tenho um problema, é?
Hei! Por acaso eu senti ali um certo ar de... deboche?!
Deboche?! Ele me lança uma cara de deboche!
Você me paga, safado:
- Sim, um problemão! Nas semanas anteriores você me tratou como uma nada... de repente você salva a minha pele daquele marginal... e hoje tava me tratando mega bem até há poucos momentos... depois me trata como uma nada de novo... qual é a sua, heim?
Ele ficou me encarando, sem mover um músculo sequer do rosto...
Parecia uma imagem pausada dum vídeo!
Droga! Aquilo me irritou ainda mais!
Eu? Fiquei sustentando o olhar dele, congelado naquele imobilismo!
O que a indignação não faz, heim?
Sustentei aquele olhar sem pestanejar!
Mas como senti que ele não ia sair daquele imobilismo, me deixando ali plantada como uma palhaça, resolvi cutucar ele:
- Por acaso você tem Transtorno de Humor Bipolar? Por isso tem horas que você me trata como se eu fosse uma nada e tem horas que você me trata bem? Ou são as drogas dos seus barra pesada que você anda tomando que te deixam assim, heim?
Álex, inesperadamente, soltou um longo sorriso!
E falou, bem baixinho, só pra si mesmo, mas eu ouvi:
- Hum... drogas dos meus barra pesada...
Foi então que percebi que ele tava fazendo muita força pra se controlar: se segurou muito pra não dar uma baita risada!
Como é que é? Ele queria rir?!
O que era tão engraçado, heim? Me fazer de palhaça?!
Então ele se ajeitou na cadeira, colocado o corpo bem pra trás.
Ergueu as pernas e colocou-as sobre a sua classe. Seus coturnos enormes ficaram bem na minha frente.
Ele colocou os braços pra trás, as mãos na nuca.
Parecia até aqueles milionários, donos de uma megacorporação, lá nas suas salas envidraçadas no 98° andar, em Manhattan, vislumbrando panoramicamente toda a cidade...
E com aquela maldita cara de... deboche!
Deboche! Cachorro safado!
Tava debochando de mim até na voz:
- Qual é a minha?... Hum... vejamos... Digamos que descobri que você é um imã para encrencas... facilmente tocável por tragédias... precisa aprender a tornar-se intocável... e até aprender a se cuidar, você precisará de mim...
Eu fiquei mega irritada com aquilo que ele falou!
Uma fera! Esbravejei:
- Hei, espera aí! Tá me dizendo que preciso duma babá agora, é?
Ele? Sua língua era terrível, cachorro safado:
- Eu não disse nada sobre babás... essas palavras são suas, saíram de sua própria boca...
E disse me dando um sorriso debochado!
Aquilo me irritou ainda mais!
Sentia agora um outro tipo de calorão subindo pelo meu rosto! Mas daquele tipo perigoso: usado pra acariciar retrovisores de Harley...
Qual era a dele, heim? Agora tava achando que eu precisava duma babá pra cuidar de mim?
Bem... talvez ele até tivesse certo sobre eu ser um imã pra encrencas... principalmente na escola, desde a minha 1° série... e ontem, foi o ápice, a cereja do bolo: Moses...
Tá bom, tá bom! Eu dou meu braço a torcer: eu realmente era um imã pra encrencas desde a infância, droga!
Tá, ele acertou mesmo, porcaria! Mas daí ele insinuar que eu não sabia cuidar de mim mesma, já era demais!
Eu sempre me virei na minha vida! Eu nunca fui uma filhinha de papai que recebia tudo nas mãos, não!
Quando a coisa apertava pro meu lado, era sempre eu que tinha que dar um jeito! Era sempre eu que me virava!
É claro que eu sabia cuidar de mim, oras!
Dei as costas pra ele: furiosa!
Fui até minha classe, peguei minha mochila e desci!
Não fui pro estacionamento, nos fundos do colégio, mas pra frente do Becker.
Passei pela portaria. O ar da noite tava mega gostoso.
Precisava respirar! E muito!
Tinha uma lancheria bem na frente do Becker, na New Silver Street. Mas eu já tava sem grana alguma... nem pra tomar uma Coca-cola© ordinária eu tinha grana mais!
Felizmente, em apenas algumas horas: as corridas perto de Little Waterfall.
Minha salvação financeira! A diferença entre a fila de desempregados, buscando recolocação, e a fila da sopa...
Por que eu tinha tanta certeza de que ia fazer uma boa grana?
Porque, apesar de tudo – de minha covardia e todos os seus bônus extras – quando eu tava em cima da minha Luna, eu acreditava no meu taco! Eu sabia do que eu era capaz!
Sim, eu era uma ótima guerreira no alto da minha valorosa montaria: ágil, sem medo, esperta, audaz! Muito carinha não tinha a coragem de fazer nem metade das manobras que eu fazia, não mesmo!
Olhei pra aquela lancheria, repleta de colegas meus...
Eles tavam comendo... senti aquele cheiro mega gostoso no ar...
Não, eu tinha que sair dali: não podia sentir o cheiro de algo que eu não podia mais pagar...
Resolvi dar uma volta na quadra do Becker: espairecer a cabeça com o ar geladinho da noite.
"Calma, garota, calma... Não deixa nada, nada mesmo retirar a sua concentração... você precisa de toda a atenção voltada pra essa madrugada... Você precisa se concentrar, precisa vencer várias carreiras das corridas pra poder se manter!
Respira fundo, respira... isso... isso..."
Tava respirando fundo, enquanto me sugestionava muito pra me acalmar... até que funcionou, sabe?
Logo voltei pro Becker. Subi as escadas.
Fui pro meu cantinho na sala de aula.
Fiquei ali, com o pescoço duro: sem olhar pro lado de Álex, até o último período.
Mas num momento de fraqueza... dei uma espiadinha...
Por que eu fui fazer isso, droga?!
Percebi, com o cantinho dos meus olhos, que Álex nem tava dando bola alguma pra mim, mas sim tava era conversando – e sorrindo gentilmente... pra ela! Ele papeava com uma daquelas cadelas no cio, que resolveu sentar pertinha dele...
Ela tava se atirando tanto pra ele que só faltava mesmo sentar no colo dele!
Ai, que nojo daquilo!
Diabo do cacete! Inferno mesmo!
No início da aula, ele havia até aberto a porta da sala pra mim, como um legítimo cavalheiro!
E agora? Eu nem existia mais pra ele!
Que raiva que isso me dava! Que ódio! Inferno dos diabos!
Mal terminou o último período, coloquei como um relâmpago meu caderno e minha caneta na mochila. Saí voando da sala de aula, sem sequer olhar pra trás!
Quando percebi, já tava era montada na Luna, dirigindo pela Assys Brazil Avenue, rumo ao Norte!
Sempre me autossugestionando:
"Guria, esquece esse cachorro do Álex! Ele não tá nem aí pra ti!
Se concentra só no que é importante agora: arranjar grana!
Em poucas horas tu vai ter a melhor chance de arranjar uma grana alta!
Corredores de fora, ávidos por boas apostas! Polícia em greve! Será perfeito!
Foco, foco! Pensa só nisso, pois é só isso que importa agora!
Foco! Foco! Atenção! Concentração!"
E assim eu fui até em casa: me sugestionando...
Tentando apenas visualizar na minha mente a Assys Brazil Avenue naquela madrugada, repleta das motos dos meus adversários – até de outras cidades! – e de apostadores ricos caçando emoções proibidas, às custas dos ferrados pela Depressão Econômica Global como eu... mas apostadores que pagariam minha comida...
Mas, que inferno... quando eu menos esperava... aquele cachorro do Álex aparecia na minha cabeça de novo... que bosta, porra!
Sai da minha mente, droga!
Finalmente cheguei em casa...
Me escondi no meu quartinho.
Eu tava faminta... e não tinha mais nada em casa pra comer... nada!
Tava verificando minha pequena carteira de documentos, ver se tinha alguma nota perdida em algum lugar... geralmente, ao invés de colocar minha grana na carteira comum, eu colocava na discreta carteirinha de documentos, que eu levava escondida num bolso secreto do meu sobretudo...
Afinal, assaltos e furtos eram a maior rotina em Happy Harbor e, se me pegassem, levavam a carteira "falsa" e não me levavam os documentos – que eram horríveis de difíceis e caros de se refazer naquela burocracia nojenta! – e nem meu dinheiro.
Fucei, revirei minha carteirinha pequena de documentos... alguma nota, alguma mísera moeda, por favor, apareça... Mas nada!
Com a carteirinha na mão, espiei a casa de Pink Pig... tava tudo escuro... Jóia! Ela não tava em casa!
Fui até a porta dos fundos dela e, embaixo dum vasinho de cactos, lá tava ela:
A chave da porta dos fundos!
Entrei ligeira, furtivamente, e fui direto pra geladeira!
Minha salvação: tinha pão fatiado e mais um salame!
Fiz um sanduíche, correndo – e mexi na geladeira de modo que Pink Pig não suspeitasse que faltava nada – e saí da casa dela a mais rápida que eu pude!
Pus a chave exatamente na mesma posição em que encontrei sob o vasinho. Crime perfeito!
Mal entrei no meu bunker e enfiei o sanduíche na boca quase todo duma só vez!
Ah... que prazer! Que alívio! Como aquilo era bom!
Eu tava faminta!
Foi a minha única refeição naquele dia inteirinho...
Que alívio... aquele abençoado sanduíche ia me dar a concentração necessária pra correr bem! Porque fazer algo tão faminta... putz... você perde toda a concentração!
Tomei bastante água da torneira... vários copos!
Isso ia ajudar a acabar de vez com qualquer sensação de fome.
Peguei minhas ferramentas de mecânica.
Fiz uns ajustes finais na Luna.
O tanque tinha combustível o suficiente pras primeiras carreiras de corrida. Na primeira rodada que eu ganhasse, eu o abasteceria de forma decente, pra continuar...
Inspecionei a Luna uma última vez: ela tinha que tá perfeita!
Pus meu despertador pra uma da manhã: tentar dar um cochilo.
Nem tirei a roupa do corpo: só tirei o sobretudo e as botas.
Apaguei a luz e tentei dormir... Mas que droga, não conseguia!
Tinha coisa demais pululando na minha cabeça...
Muito barulho na minha mente!
E você já deve tá imaginando com a cara de qual certa pessoa todo esse barulho tinha, né? Arfff...
Então resolvi ficar apenas quietinha no escuro, descansando os olhos, até que o despertador tocasse...
Quando ele tocou, o tranquei. E falei pra mim mesma:
- Selene, ora de fazer grana, money! Vamos pra peleja, derrotar os outros cavaleiros!
