Postagem 13. Juventude Transviada

(Rebel Without a Cause, 1955, EUA)

Já deviam ser umas cinco horas da manhã!

Naquela madrugada?

Eu tava era com o diabo no corpo!

Eu tinha vencido todas as carreiras, todas as rodadas de corrida que eu participei!

Todas em que me inscrevi. Ou você acha que eu disputei todas?

Lógico que não: eu não era burra... como eu já disse, eu posso ser tudo o que você quiser: menos burra!

Eu estudava e selecionava meus oponentes! Seus movimentos na pista, suas motos, o estilo dos carinhas que me dariam mais trabalho, os trapaceiros... até o olhar – e o jeitão deles caminharem – eu estudava...

Sim: o olhar e a forma duma pessoa caminhar falam muito sobre o teu oponente... um rico discurso emudecido de palavras.

Assim, venci todas as disputas em que me inscrevi!

Eu tava mesmo era muito, mas muito doidona! Impossível!

Acho que eu tava descarregando todas as minhas frustrações, revoltas – e tudo o mais que infernizava a minha merda de vida! – nas duas rodas fogosas da minha Luna!

Se eu pudesse? Deixava uma infernal trilha de chamas por onde os pneus do meu mecânico corcel negro beijavam! Igual ao cavaleiro Sol Negro da história de Saraí: só que ao invés de patas em chamas, queimando a relva, a moderna borracha da Firestone assando em brasas o asfalto!

Seria espetacular!

Eu?

Tava a própria encarnação da fúria em duas rodas! – e por vezes, numa única roda, quando eu empinava a minha Luna, hahaha!

Haviam dezenas de motos disputando o racha naquela madruga, e talvez centenas de pessoas assistindo: um monte de gurizada, regulando com a minha idade, e até uns caras mais velhos...

Tinha muita gurizada naquele evento: quase cinco vezes mais do que eu via nos rachas mais comuns.

Aquela greve policial? Tinha sido providencial!

Consequência lógica: nunca havia participado de corridas clandestinas em que rolasse grana tão alta numa única madrugada!

Eu? Já tinha conseguido o equivalente a meses de trabalho nos áureos tempos da Shadow's! Os bolsos do meu sobretudo tavam recheados de gordinhas notas de dólares!

Na manhã seguinte, você sabe qual a primeira coisa que eu iria fazer?

Encher o carrinho de compras no supermercado!

Matar o que queria me matar: a fome, hahaha!

Eu já tava incrivelmente satisfeita! Meu bolsos?

Mega gordinhos! Wow!

Também, lógico: eu tava absolutamente endiabrada naquela madrugada! Poucos fizeram o que eu fiz:

Manobras mega arriscadas!

Curvas mega fechadas!

Costurando como uma insana entre as enormes falhas e buracos do asfalto da Assys Brazil Avenue – praticamente uma pista de MotoCross! – quase deitando com minha Luna enquanto desviava deles!

E tudo sem capacete! O vento frio da madrugada fazia amor diretamente comigo, seduzindo meus cabelos, beijando meu rosto!

A única sem capacete! Eu tava realmente mega doidona!

Lógico que vários guris – antes tão arrogantes no alto de suas motos – se assustaram comigo, com as manobras que eu tava fazendo naquela noite!

Eu? Era a única guria que tava disputando as carreiras!

A única representante do gênero feminino ali... e ainda por cima dando um banho naqueles caras!

Selene Stern: a última Valkyria, como que materializada dos sonhos de Wagner em seu "O Crepúsculo dos Deuses"! Wow!

E garanto, garanto mesmo: noventa por cento daqueles caras não faziam nem a metade do que essa Valkyria aqui conseguia fazer em cima da sua Luna!

Eles? Tinham medo de se quebrarem: medo de morrer fazendo tudo aquilo... Não passavam duns bundões!

Medo que eu não tinha mais mesmo... quem teme a Morte, quando não se tem absolutamente mais nada a perder?

Eu? Tava a encarnação perfeita duma suicide girl! Pra me tornar uma obra completa só faltava tatuar uma guerreira Valkyria, uma pintura negra nas minhas costas branquinhas!

Perda do temor da Morte...

Talvez fosse isso que se passava na mente dos pilotos kamikazes japoneses, em 1945, quando lançavam seus aviões – sem trem de pouso e recheados de explosivos! – contra os porta-aviões americanos...

Gritando "banzai" enquanto explodiam...

O inimigo tava às portas de seus lares, maculando o solo sagrado do Japão Imperial: suas filhas, suas esposas, tavam em perigo... o que as tropas inimigas fariam se pusessem as mãos nelas?

Ninguém sabia, mas imaginavam...

Tudo o que lhes sobrava poderia ser vilipendiado cruelmente pelo invasor... quem se deixa dominar pelo medo numa hora dessas, quando as hienas te colocam contra um paredão e nada mais te sobra senão lutar até a morte?

Acuada contra um paredão: eis o que fez nascer essa suicide girl!

E era uma vitória atrás da outra!

Foi uma noite e tanto!

Às 5h10min da madrugada, eu tava contando meu dinheiro pela última vez, montada em cima da Luna.

Era hora de parar: já havia faturado mega alto!

Eu? Aprendi uma coisa mega importante em qualquer jogo: a hora de parar é quando você tá ganhando. Quando você ainda tá por cima...

Porque a Roda da Fortuna – eis uma antiga sabedoria do Décimo Arcano Maior do Tarot de Marselha! – muda muito rápido, volúvel, caprichosa.

Jamais brinque com ela!

E eu não precisava ser gananciosa. Aliás, nunca fui assim. Eu já tinha o suficiente pra mim sobreviver por bons meses!

Quem sabe até mesmo o tempo suficiente pra arranjar um novo emprego?!

Wow!

Minha noite tava perfeita! Até que...

Até que estacionou do meu lado um cara... montado numa Suzuki importada vermelha.

Era Richard...

Não aquele Richard. O da Ayaan, não. Era outro Richard...

Aquele ali era um filhinho de papai!

Morava numa big mansão em Ypanemah Beach, bairro de luxo, vizinho a New Bethlehen.

Richard? Eu o conhecia desde o tempo em que eu ainda estudava no extremo Sul de Happy Harbor...

Infelizmente, eu já tinha o desprazer de conhecê-lo bem...

Lembranças de New Bethlehen: lá na frente da minha escola, Richard Saco de Esterco – amável codinome que eu sempre lhe dava em meus pensamentos – em cima da sua primeira moto, ainda sem carteira por ter apenas quinze anos naquela época, pousado como um abutre fedorento num galho morto, caçando as guriazinhas que saíam da aula...

Na frente daquela escola, ele agia como um boyzinho rico e glutão perante uma fina confeitaria:

"Vejamos... qual dessas delícias eu vou pegar hoje, comer gulosamente, pra na manhã seguinte defecá-la na privada... e estar novamente pronto pra comer a próxima da fila!"

Aos meus treze anos, quando eu comprei meu sobretudo negro de couro, minhas longas botas negras e passei a me pintar cuidadosamente – sim, eu me pintava com muito estilo desde os treze, pois na época cheguei até a pesquisar em livros de História da Arte pra aprender como as antigas egípcias pintavam os seus olhos e rosto! – não é que aquele verme acabou se encanando em mim por um bom tempo?

Aquele chulé resolveu grudar no meu pé!

Por acaso ele achava que eu era uma idiota?

Tá, até admito: aquele estrume ambulante era bonito sim, de rosto e de corpo... Tá, ele era gostoso sim... também tinha muita grana sim... mas ao invés de cérebro, o que havia ali dentro da sua caixa craniana? Um pênis de burro, jegue ou asno!

Eu não me achei no lixo!

Você acha que eu ia deixar um verme daqueles me devorar e depois me jogar na privada, como fez com todas as outras? Mesmo com todas as coleguinhas da minha sala de aula em New Bethlehen suspirando por ele? E com inveja de mim, porque eu era a "escolhida"?

Pras garotas do colégio, andar com Richard era sinônimo de ascensão social...

Tipo assim: deixar de ser uma "plebéia" pra virar uma "nobre"...

Esquece!

Não me achei no lixo mesmo!

Preferia ser pior que uma plebéia: optava ser até uma pária da sociedade de castas indiana do que olhar pra cara daquele verme!

Garotas do colégio... tinham um código de ascensão social que eu nunca entendi direito...

Sempre senti que buscar a Sabedoria e o Amor é que me levariam a alguma ascensão, mas não a social... seria uma ascensão bem mais valiosa e imperecível: um crescer perante mim mesma...

Não é a toa que só Ayaan gostasse de mim na escola... eu me esforçava, juro mesmo, mas nunca consegui entender os códigos de valores das minhas colegas...

Queria mesmo compreender, me adaptar, mas não conseguia...

Afinal: o que esperar de alguém tão freak como eu?

E Richard?

Ficava lá na frente do colégio, de tocaia, esperando a hora da aula terminar, pra me cantar...

E enquanto ele me esperava lá na frente, Ayaan me avisava, e eu saía da escola era pulando o muro dos fundos, hahaha!

Deixava aquele verme lá, plantado, me esperando!

Palhaço estúpido... minha profecia de Richard's – todos uns chatos! – sempre se reafirmava quando eu via aquele idiota!

Um bundão enjoado!

Quando ele estacionou sua Suzuki vermelha ao meu lado, olhei pra ele apenas de canto de olho, sem lhe dar confiança alguma.

Só de soslaio...

O tratei como uma mera alucinação. Que garota, lúcida, perderia seu tempo falando com alucinações?

Guardei meu dinheiro no bolso secreto interno do meu sobretudo. Ele? Viu aquele bolinho de notas que eu escondia e sorriu pra mim:

- Você teve uma noite e tanto hoje, Selene... Você tava muito linda... Achei você demais hoje!

Eu? Grunhi pra ele um monossílabo.

Grunhi? Não! Rosnei:

- É...

O que aquele idiota tava fazendo ali, inscrito nas corridas?

Aquele bundão nadava em dinheiro!

Ia sempre dormir de barriguinha bem cheia, vivendo às custas das empresas do papaizinho dele... nunca trabalhou na vida, tal qual um nobre parasita do Ancien Régime, antes da Revolução Francesa estourar!

Tava ali só pra incomodar mesmo!

E é óbvio: eu não me inscrevi em nenhuma rodada em que ele participou. E já tava virando minha Luna pra ir embora dali.

Foi quando ele me disse:

- Você se saiu bem... mas eu duvido que você, mesmo tão linda, ganhe uma carreira de mim!

Eu nem olhei pra ele.

Disse com a voz mais gelada que o inverno antártico:

- Finish por hoje. Fica pra outra vez.

"Pra outra vez"? Nem devia ter sido tão educada, mas era a preciosa herança de Rachel... "Outra vez", pra mim, queria dizer "nunca"!

Foi aí que ele disse aquilo... Aquilo! E num tom mega grosseiro:

- Ah, qual é? Vai se borrar de medo de mim, Vandinha?

Vandinha? Vandinha?!

Aquele... aquele maldito apelido!

Verdadeira marca em brasa de criador de gado na minha pele!

Aquela marca à ferro quente adquirida na escola de New Bethlehen!

Richard, seu enorme... saco de estrume fedorento!

Depois de tantos anos livre de ver a sua cara imunda, em menos de dois minutos você vinha estragar a minha noite com aqueles fantasmas que eu queria tanto enterrar pra sempre?

Comecei a ficar mega irritada com aquilo...

Sabe aquele calor – aquele perigoso! – subindo pelo seu rosto?

Foi então que o cretino completou:

- Vai... vai embora, Vandinha! Eu sei que você é uma covarde mesmo e não aguenta saber que vai perder pra mim... Vai pra casa, Vandinha, montada nessa sua vassoura de bruxa caindo aos pedaços!

Quê!?

Como é que é?!

Aquele bostinha, filhinho de papai, tava achando que tava falando com quem, heim? Com as vagabundas dele, é?!

Tava na hora de alguém lhe mostrar que só porque ele tinha grana isso não lhe dava o direito de ficar pisando nos outros!

Ele merecia uma lição! Ele ia ver quem era "Vandinha"!

O encarei mega firme nos olhos! Dum jeito que jamais fiz antes pra ele, em todos aqueles anos... sei lá... não sei dizer como eu consegui fitá-lo assim, mas percebi na cara dele que ele ficou... mega estranho!

- Te vejo na linha de partida – rosnei pra ele, com uma voz que... sei lá... parecia a de alguém que queria comer o fígado dele!

Richard fez uma careta estranha – seria mega assustada? – depois que eu o encarei e rosnei daquele jeito!

Aquele idiota pensava o quê, heim?!

Que porque tava numa Suzuki importada, caríssima, ia me vencer naquele terreno mega acidentado, cheio de falhas na pista, repleto de buracos e crateras da Assys Brazil Avenue na divisa com Little Waterfall?

Aquilo ali já era um MotoCross!

Não era pra bundões como ele! Tinha que ser "muito macho" – no meu caso, "muito fêmea"! – pra se dar bem ali!

Quem ele pensa que é pra falar comigo daquele jeito!

E pra esculachar a minha Luna? A minha Luna!

Seu... seu... seu... Que porcaria! Não achei um palavrão forte o suficiente pra você! Você me paga! E vai ser hoje!

Em instantes um povo enorme tava todo acumulado ao redor da linha de partida.

Eu tava tão endiabrada naquela noite que até surgiu uma torcida pra mim! Pode?!

Acho que isso aconteceu porque eu era a única garota naquele bando todo de corredores.

Vários guris e gurias gritavam: "Se-le-ne, Se-le-ne"!

E eu cheguei até a pensar que tinha alguns carinhas que tavam me olhando de um jeito diferente... como se tivessem sentindo até algum desejo por mim, sabe?

Nossa, aquilo era tão... legal!

Putz... depois de me sentir tão rejeitada e feia naqueles últimos dias... confesso que aquilo era realmente inesperado pra mim!

Putz grila! Aquilo fez um bem gigantesco pro meu ego!

Que baita bem!

Torcida... e admiradores?!

Comecei a me sentir até... uma gata: mega gostosona, hahaha!

Bah! Como eu tava precisando sentir isso... precisando mesmo!

Richard e eu, agora parados lado a lado na linha de partida: as máquinas de nossas montarias aceleravam!

Um carinha mais velho ficou meio que de lado, com seu braço erguido...

Até que o carinha abaixou o braço: eu saí com tudo!

Meus cabelos, mesmo curtos, dançavam indomáveis com a ventania que beijava o meu rosto!

Eu devia parecer uma doida, um verdadeiro cometa dark, com meus cabelos negros em sintonia com meu longo sobretudo negro, ambos tremulando gloriosos ao vento!

Acelerava freneticamente! Os pulmões de Luna relinchavam!

Cada falha... cada buraco... cada cratera no asfalto: fugiam de mim com uma enorme agilidade!

Quase deitava minha Luna no chão, fazendo as manobras, gritando ferozmente!

Meu grito de guerra?

Idêntico ao dos antigos índios sioux, quando guerreavam a cavalo, em feroz luta contra o invasor branco, naquelas imensas pradarias da última fronteira americana!

De cantinho de olho, espiei no retrovisor: já havia deixado o palhaço do Richard bem pra trás! Acho que ele até já tinha caído da moto, derrubado por uma falha na pista!

Seu cretino! Seu bundão! Hahaha!

Você só tinha garganta, porque fibra mesmo você nunca teve!

Quem era a covarde agora, heim?!

Richard, o garanhão, o grande gostosão, no alto de sua caríssima moto importada, perdendo pra uma mulherzinha na sua humilde moto nacional?

Minha Luna e eu éramos uma dupla invencível!

Nunca ninguém ia esquecer disso: a derrota dele pra uma mulherzinha! A queda do gigante Golias pra baixinha David!

Os celulares, os tablets e companhia limitada?

Tavam registrando tudinho daquele momento!

As ex-namoradas dele iam fazer a maior festa quando aquelas imagens caíssem na rede, hahaha!

Não acredito! Me desforrei daquele canalha!

Depois de todos esses anos, finalmente: provei o delicioso sabor adocicado do licor da vingança!

A vitória já era minha!

Deixei comendo poeira um bundão canalha pilotando uma moto muito mais potente que a minha – e que custava muitas vezes mais que minha leal Luna! Hahaha!

Eu gritava, sentindo aquele maravilhoso vento gelado da madrugada deliciosamente me tocando... fazendo um gostoso amor comigo, me abraçando todinha!

O supremo êxtase da liberdade!

Meu coração batia à toda, como um lindo coral afinado de tambores duma aldeia sioux no rito da vitória dos caçadores! Vitória!

Toda minha! Wow!

Eu até já começava a me aprontar pra, em instantes, fazer minha radical curva mega fechada, voltando pra linha de partida: chegada triunfal!

Já tava trafegando no pedaço bem asfaltado da Assys Brazil Avenue, quase chegando no ponto combinado pra fazer a minha curva... Até que...

Foi aí que aconteceu!

A primeira coisa profunda e verdadeiramente sinistra de toda a minha vida!

Aquilo que deixaria, de verdade, até o interior dos meus ossos repleto de horror!

Algo assustador, como nunca sonhei que um dia poderia acontecer!

Foi então que aconteceu... o evento que mudou completamente, pra sempre, todos os rumos e o destino da minha vida!