Postagem 14. Um Drink no Inferno

(From Dusk Till Dawn, 1996, EUA)

Alguns metros à minha frente, bem no meio da pista da Assys Brazil Avenue, uma moça toda vestida de vermelho apareceu.

Uma morena, de pele mega branquinha e longos cabelos pretos lisos, simplesmente surgiu assim: do nada!

E ficou ali, parada, de frente pra mim e minha Luna, enquanto minha moto avançava em sua direção!

Buzinei... buzinei... e ela? Nem parecia ouvir... continuava ali, toda paradona, no meio da pista!

O corpo dela tava ligeiramente arqueado pra frente, com os braços meio amolecidos caídos, como se tivesse num tipo de transe...

Será que aquela guria tava chapada? Só podia!

Cada drogado que aparecia por aí...

Eu tinha que desviar rápida, senão eu ia acabar matando atropelada aquela surda, toda perdida naquele seu barato... Eu, heim!

Mas desviar dela ia ser mega fácil: era só ela continuar paradona no meio da pista, daquele jeito!

Mas foi então que aconteceu!

Um sopro de vento úmido e salgado – como brisa do Mar, sabe? – vindo debaixo dela, lhe fez os cabelos da franja levantarem, e sei lá porque, eu consegui ver que na sua testa branquinha como mármore havia uma pequena cicatriz – mas que hora pra mim reparar num detalhe idiota desses!?

E eu nem tive tempo de pensar, de desviar, de respirar, do coração bater, nem nada, porque subitamente a mulher ergueu lateralmente seus braços, em sintonia com aquele sopro de ar úmido e salgado, e uma coisa horrorosa aconteceu!

Demoníacas asas negras, membranosas como as dum morcego gigante, saíram das costas dela!

E ela imediatamente saltou em minha direção!

Seu rosto parecia ter escapado das profundezas do inferno: olhos absolutamente vermelhos e demoníacos faiscavam de um rosto agora acinzentado – que também adquiria um focinho igual ao dum morcego hematófago enorme! – armado de grandes dentes caninos, com aquela bocarra de presas furiosas saltando em direção ao meu pescoço!

Foi tudo incrivelmente rápido!

Eu nem sei dizer o que aconteceu!

Joguei com tudo o volante da Luna pra esquerda!

Cruzei a divisa das pistas e avancei furiosa na contramão!

Não me lembro de mais nada, a não ser de ter perdido completamente o controle da minha Luna!

Simplesmente eu não enxerguei mais nada nos próximos segundos!

Eu só ouvi um enorme estouro, violentíssimo, de batida, e uma fortíssima explosão!

Kabum!

Levantei meus olhos e minha Luna havia furiosamente se chocado e explodido contra o muro dum ferro-velho!

O clarão da minha Luna, sendo devorada insaciavelmente pelas chamas, iluminou a madrugada sombria!

E eu... eu tava caída...

Eu tava caída bem em cima...

Eu tava caída bem em cima de Álex!

Álex?!

Álex! De onde você veio?!

Eu o olhei, completamente apavorada!

Foi então que percebi, numa fração de segundo, que ele tava abraçado em mim e távamos os dois ali caídos, no asfalto da Assys Brazil Avenue, perto da calçada!

E a uns cem metros de mim jazia a minha Luna, destroçada naquele muro: minha Luna, minha pobre Luna não existia mais!

Ferragens incandescentes crepitando na solidão da madrugada!

Eu tava sendo abraçada por aquele corpo enorme de Álex, todo vestido de negro, que agora mais parecia um colchão vivo dark me protegendo!

Eu não conseguia explicar o que houve: foi tudo tão rápido!

Que loucura!

Parecia até que Álex havia amortecido meu impacto contra o asfalto... usando seu próprio corpo?!

Como seria possível isso?

Eu nem conseguia pensar!

Pois mal dava pra respirar: esqueci até que eu tinha pulmões!

Álex me ergueu do chão, numa agilidade incrível, enquanto ele mesmo se erguia igualmente veloz.

Ele me ergueu do asfalto como se eu fosse uma folha de papel!

Olhou pra mim, pra todo o meu corpo!

Me tocava com suas mãos frias! Apalpou minha cabeça em fração de segundos, como se, sei lá, procurasse ferimentos em mim!

Quando pareceu satisfeito em me examinar – tal qual um médico militar de campanha, no meio duma guerra! – ele bradou furioso:

- Sua burra! Quer se matar desse jeito tão idiota?!

Eu... eu... tava completamente apavorada!

Disse pra ele, sem conseguir pensar nada:

- Não foi culpa minha! Foi a coisa! Aquela coisa ia me agarrar!

Álex fez uma carranca furiosa... como se fosse uma fera selvagem que acabava de sentir a presença de outra fera!

Acho que nem Wolverine, dos X-men, quando tava furioso, teria feito uma carranca como aquela!

Álex rosnou pra mim:

- Onde você viu a "coisa"?

Eu apontei pra alguns metros atrás de mim, me virei e... pra minha surpresa, não havia ninguém!

Não havia nada, nem ninguém lá!

Álex ordenou furioso pra mim:

- Vai já para casa Selene! Saia já daqui!

Eu tava completamente apavorada! Eu nem conseguia pensar!

Por isso, estupidamente, eu ainda perguntei:

- E a minha Luna?

Álex gritou comigo:

- Saia já daqui, Selene! Saia já daqui antes que eu te arraste pelo braço até a sua casa!

Eu tava com os músculos do corpo completamente duros! De tanto pavor que eu tava sentindo!

Nisso, Álex me deu um empurrão! Um empurrão bem forte, justamente em direção à minha casa, e gritou de novo comigo:

- Saia já daqui antes que seja tarde! Agora corre! Corre!

Álex se virou pra trás, exatamente na direção em que eu havia mostrado onde a coisa me atacou!

Parecia até que tinha um tipo de neblina marinha se formando ali, com algumas estrias azuladas como se fossem, sei lá – fios de água? – bem naquele lugar, vindos do nada!

Álex começou a rosnar pra aquela direção, como se fosse uma fera, uma besta-fera!

E exclamou baixo, pra si mesmo, em francês:

- Merde, merde, merde!

Foi então que ele voltou um pouco o rosto pra mim, enquanto parecia tomar uma postura de luta, com o corpo voltado pra direção onde aquela neblina marinha se formava rápido, e gritou comigo, rosnando:

- Corre já daqui que eu seguro ela! Corre, droga!

Quando ele rosnou pra mim e me deu aquela ordem, tomado... tomado por uma fúria selvagem, eu finalmente consegui mover os meus músculos!

E comecei a correr! Comecei a correr da forma mais veloz que minhas pernas permitiam!

Enquanto corria desesperada vislumbrei clarões, atrás de mim, e senti fortíssimas lufadas de vento úmido e salgado!

Mal virei meu rosto pra trás e vi que a Assys Brazil Avenue tava virada em chamas!

Chamas! Imensas línguas de Fogo espiraladas, envolvidas e envolvendo tufões de Água e Neblina Marinha, tomavam completamente o asfalto, como se Fogo e Água Salgada tivessem se digladiando num combate terrivelmente feroz!

Eu podia ouvir, bem ao longe, os gritos de pânico da gurizada das corridas: "Fogo, fogo!"

Ouvia o som das suas motos e carros em apavorada debandada!

Não olhei mais pra trás, correndo a toda velocidade que pude!

Em minutos, eu já havia passado por todos os ferros-velhos que haviam na Assys Brazil Avenue, e os cães de guarda daqueles locais latiam e uivavam dum jeito horroroso que eu nunca vi os bichos fazerem antes!

Os cachorros tavam completamente enlouquecidos!

Como se tivessem em pânico! Como se tivessem pra serem devorados por alguma coisa, a qualquer momento!

Finalmente eu consegui chegar até a estreita rua que ligava White Wing com a Assys Brazil Avenue.

E quando tomei aquela rua, completamente escura, corri à toda, como se eu tivesse fugindo dos portões do próprio inferno!

Eu devo ter corrido uns dois quilômetros, num desespero que eu nunca havia sentido antes!

Meu coração parecia que ia saltar pela minha boca, quando eu cheguei na frente da casa de Pink Pig!

Eu não aguentava mais... não aguentava mais! Nem sei como eu consegui abrir aquele portão, sem conseguir respirar!

Dentro do pátio, coloquei as mãos sobre os joelhos.

Meu coração não batia: pulava em fúria no meio do meu peito!

Meus pulmões não davam conta de me dar ar: eu tava sufocando!

E uma dor fortíssima, como se uma faca tivesse sendo enfiada na lateral da minha cintura, me fez cruzar completamente cambaleante o pátio de Pink Pig.

O coração saltava, o ar me faltava e a lateral da minha cintura parecia que ia se abrir de dor!

Me arrastei pelas paredes da casa de Pink Pig, até chegar no meu quartinho no quintal.

Nunca foi tão difícil pegar a chave da minha porta e enfiar na fechadura: minhas mãos tremiam mais que vara verde! A porta simplesmente não parava no lugar pra mim enfiar a chave!

Quando consegui abrir a minha porta, entrei de arrasto, e a tranquei automaticamente.

Foi quando cai de joelhos no chão do meu quartinho!

Eu não conseguia respirar!

E meu coração: saltando!

Fiquei ali, ajoelhada no chão, sei lá por quanto tempo, até que eu consegui tomar algum ar de novo...

De repente, me veio à mente a imagem daquilo! A Coisa!

Monstruosa! Horripilante! Horrível!

Aqueles olhos vermelhos, aquele focinho e aqueles dentes enormes... saltando bem em direção ao meu pescoço!

Minha Deusa, não!

Não podia ser verdade!

Não! As amaldiçoadas alucinações da minha infância...

As alucinações que quase me enlouqueceram... tudo havia voltado!

Minha maldição havia voltado! Voltado!

Não, minha Deusa, por favor, não! Não!

Eu não quero viver aquele pesadelo de novo! Não!

De repente, Álex surgiu na minha mente...

Será que ele havia visto aquele monstro também?

Sim! Sim! Ele havia visto!

Por isso ele tava tão furioso, me mandando embora! Então não podiam ser minhas antigas alucinações que voltaram, porque só eu as via!

Por isso ele havia tomado aquela postura de ataque! Por isso ele disse que a seguraria, enquanto me mandava correr, me mandava fugir!

Não, eu não tava tendo aquelas alucinações que me atormentavam desde os seis anos! Não!

Não... aquilo era concreto... era palpável... era sólido!

Senão, Álex não teria me mandado correr!

Aquela mulher demoníaca, com asas de morcego, olhos vermelhos, focinho animalesco e dentes enormes arreganhados contra mim não me saía da mente! Nem adiantava fechar os olhos: lá tava ela!

A Coisa!

Ela ficou impressa na minha mente, como se fosse um arquivo de imagem de filme de terror gravado em pedra na tela do no meu tablet!

Eu tava desesperada! O que era aquilo?

De repente, todas as minhas leituras góticas me vieram à cabeça... todos os livros de monstros da literatura gótica que eu já havia lido, dos clássicos aos novos!

Todas as cenas de filmes de monstros que eu já havia visto em toda a minha vida, passaram pela minha mente!

Todos os documentários que eu já havia assistido, sobre fatos envolvendo predadores antropófagos, desfilaram no winchester da minha cabeça em segundos!

Eu não acreditava, mas aquilo era real, era real!

Era real porque Álex também viu: por tudo que é mais sagrado, eu jurava que elas não existiam, mas era verdade, elas existiam sim:

Vampiras!

Eu havia visto uma vampira!

Ela havia saltado em cima de mim, ela queria grudar o meu pescoço! Ela ia me comer!

Se eu não desviasse a minha moto com tudo, ela teria saltado bem no meu pescoço e acabado comigo!

Minha Deusa, Deusa!

Eu tava vivendo um pesadelo! Só podia ser um pesadelo!

Eu peguei minha mão, ainda no chão, e a bati com força no piso! Se minha mão doesse, seria o sinal de que eu tava acordada, de que aquilo não era um pesadelo, porque a gente não sente dor real nos pesadelos.

- Ai!

Minha mão doeu quando eu soqueei o piso do meu quartinho!

Minha Deusa, Deusa!

Aquilo era real! Era real!

O que os dark, os gothics e os espiritualistas esotéricos diziam não era lenda, era verdade!

Era verdade! Os vampiros realmente existiam! Eles existiam!

Eu quase havia sido morta por uma deles!

Eu não podia mais nem fechar os meus olhos! Não podia!

Cada vez que eu fechava meus olhos eu via aquela imagem, impressa na minha mente, daquela criatura, de branquíssimos dentes caninos enormes, afiados, e olhos em fúria completamente vermelhos, saltando em direção a mim e minha Luna!

Eu finalmente consegui me levantar do chão e, cambaleante, fui pro banheiro... abri a torneira da pia e deixei a água escorrer...

Água corrente sempre me acalmava...

Água corrente... sim! Água corrente!

Me lembrei do clássico livro de Bram Stoker: vampiros não gostavam de água corrente!

Foi então que também me lembrei do livro "As Valkírias", do Mago brasileiro Paulo Coelho: ele contava nesse livro que, quando era jovem e praticou o satanismo, o dia que ele se arrependeu e quis abandonar a Magia das Trevas, demônios espirituais o atacaram! E o Mago se enfiou debaixo do chuveiro e lá ficou por horas, desesperado, lendo o livro sagrado do Deus Único!

Sob a água corrente!

O chuveiro!

Eu tava desesperada, em pânico, temendo mais do tudo que aquela vampira viesse atrás de mim!

O chuveiro, a água corrente!

Corri pro boxe do banheiro, com roupas, sobretudo, botas e tudo, e abri o registro do chuveiro no máximo que ele suportava!

E me enfiei debaixo da água! Imaginei que aquela água toda devia ser um escudo protetor, que iria me salvar daquela... daquela Coisa!

Lembrei que Paulo Coelho ficou lendo aquele famoso Livro de Capa Preta – com um Sinal de "Mais" bem no meio da capa – em voz alta no chuveiro, por horas.

Mas eu odiava aquele livro! Eu nunca iria ler aquilo!

Eu nem tinha aquela porcaria – tão amada por queimadores de bruxas! – na minha casa!

Então me grudei na minha cruz Ankh de prata, e no meu Pentagrama de prata!

As coloquei pra fora de minha camiseta preta, em cima do meu peito, e me agarrei nas duas, e comecei a orar – em inglês arcaico, ao Grande Deus Cernutus e à Suprema Deusa Tríplice – todas as orações de proteção de Bruxa que eu conhecia!

Eu tava com as pernas completamente trêmulas... não conseguia mais ficar de pé...

Então me ajoelhei no boxe, enquanto a água do chuveiro não parava de cair em cima de mim, me ensopando completamente!

E eu não parava de murmurar em voz baixinha – com medo de ser ouvida pela vampira! – todas as preces místicas de proteção que eu conhecia e todas as ordens mágicas de banimento que eu já havia praticado em minha vida!

E eu me grudei – enquanto o chuveiro não parava de jorrar água sobre mim – na minha Ankh e no meu Pentagrama, com uma força tão grande que chegou a sangrar a palma da minha mão!

As gotinhas de sangue rolavam da minha mão, lavadas pela água corrente que não parava de cair!

Eu tava num estado de nervos tal que eu comecei a chorar, implorando a Deus, à Deusa, que me protegessem!

Chorava e orava, orava e chorava de medo, do mais intenso pavor que eu já senti em toda a minha vida!

E eu fiquei ali, embaixo do chuveiro, não sei por quanto tempo...

Eu não parava de rezar: já tava quase rouca, de tanto que eu orava!

Nunca rezei tanto, em tão pouco tempo, em toda a minha vida!

Até que eu finalmente me dei conta...

O Sol começava a nascer!

O Sol! O Sol!

Nunca, na minha vida inteira, eu tinha me sentido tão feliz em ver os raios de Sol, da alvorada, entrando lentamente pela janelinha do meu banheiro!

O Sol! O meu salvador! Vampiros não podiam com os Sol!

Eu tava salva! Salva!

O Sol!

O meu antigo inimigo agora era o meu fiel salvador!

Tentei me levantar mas, como fiquei ajoelhada sei lá quanto tempo no boxe, minhas pernas tavam completamente dormentes... formigando demais!

Precisei usar meus braços pra colocar minhas pernas pra frente, enquanto eu tentava me sentar no piso do boxe...

O chuveiro ainda despejava água na minha cabeça...

Quando readquiri o movimento das minhas pernas eu me levantei, meio tonta, e fechei o registro do chuveiro.

Eu inclinei pra trás a minha cabeça e encostei-a na parede do boxe, exausta...

Pelos Deuses Antigos!

Vampiros!

Eles existiam de verdade!

Olhei pros raios de Sol, entrando por aquela janelinha...

Suspirei, incrivelmente aliviada!

Foi só nesse momento que eu me dei conta de que eu tava completamente gelada de frio: como eu abri o meu chuveiro à toda, ele não deu conta de aquecer a água... e eu fiquei sei lá quantas horas tomando banho de água fria, com roupa, botas e tudo!

Fiquei tanto tempo debaixo daquela água fria que as pontas dos meus dedinhos tavam completamente enrugadas!

Comecei a tirar a minha roupa ensopada. Eu tremia de frio!

Peguei minha toalha de banho e comecei a me secar. Quando eu me enxuguei, peguei no meu roupeiro uma nova muda de roupas.

Eu ainda tava tremendo de frio!

Peguei o meu sweater preto mais quente e o vesti.

Meu sobretudo? Não daria pra usar: tava ensopado!

Mas eu ainda tava tremendo: não sei se de frio ou de medo!

Peguei água da torneira do meu quartinho, coloquei na chaleira e pus a ferver.

Enquanto isso, me enrolei no meu cobertor.

Eu ainda tava grudada na minha Ankh e no meu Pentagrama de prata.

Prata...

Isso não funcionava contra vampiros... Bram Stoker dizia, em seu livro, que Drácula chegava a andar com um castiçal de prata, em suas mãos, no seu castelo...

Nesse momento minha chaleira chiou: a água aqueceu!

Eu peguei uma xícara e, de tão atarantada, não coloquei café, nem chá, nem nada: tomei direto a água quente!

Finalmente eu comecei a me aquecer!

Uma ordinária xícara de água quente, sendo segurada por ambas as mãos: meu drink no inferno pra espantar o frio e tremor do pavor...

Olhei pro meu relógio: já passavam das sete horas.

O Sol já brilhava, seguro de si, lá fora.

Nesse momento foi que eu me lembrei: Álex!

Minha Deusa, Álex!

Ele ficou lá fora com aquela Coisa! E se a Coisa pegou ele?

E aquele incêndio! E se Álex sofreu queimaduras?!

Imediatamente eu larguei meu cobertor no chão!

Corri pra porta. Tomei o pátio.

Eu corri até o portão, deixei tudo aberto, e corri pela rua estreita! Corri a mais rápida que eu podia!

Finalmente cheguei até a Assys Brazil Avenue.

O trânsito de carros tava ainda pequeno: ainda era cedo.

Comecei a vasculhar a avenida com os olhos, à procura de Álex.

Não vi nada!

Então eu caminhei mega ligeira até o local onde Álex havia me salvo, perto de onde a Luna bateu – no muro do ferro-velho Charles Chaplin.

Quando cheguei até aquele ferro-velho, exatamente onde a Luna bateu e explodiu, eu encontrei o muro todo destruído e com enormes manchas de incêndio!

Mas não encontrei um único parafuso da Luna! Nada!

E exceto ali naquele muro, não haviam sinais de incêndio nem manchas de fogo em nenhuma outra parte da Assys Brazil Avenue!

Como?! E aquelas línguas de fogo enormes, espiraladas, que chegaram a iluminar a madrugada enquanto eu corria pra casa?!

Como elas não deixaram nenhum rastro de incêndio?

Eu continuei procurando Álex com os olhos, por todos os lados da avenida! Aflita, até pra dentro dos ferros-velhos eu espiava!

Os cães de lá? Tavam mega calmos agora.

Nenhum latido, nenhum uivo, nada!

Se coçavam de suas pulgas, na maior tranquilidade!

Até que eu cheguei exatamente no lugar onde eu havia caído da Luna.

Foi então que me espantei com o que eu encontrei!

Bem no asfalto, pertinho da calçada onde eu tava, havia um enorme afundamento no chão!

O asfalto tava afundado, como se um caminhão mega pesado tivesse sido jogado bem ali!

E bem do lado do buraco, daquele afundamento profundo no asfalto, havia uma marca!

Eu me aproximei... olhei pra aquela marca no asfalto, ao lado do buraco: inacreditável!

Ela tinha a forma de uma mão!

Eu me agachei ao lado dela e coloquei a minha mão em cima daquela marca: era uma mão bem maior que a minha, e eu conhecia o tamanho e formato daquela mão!

Era a marca da mão de Álex!

Eu não acreditei no que tava vendo!

Mas era real, real! Álex havia feito aquela marca no asfalto, como se este fosse feito de espuma!

Eu olhei pra marca da mão dele e pro buraco no asfalto da avenida... e finalmente eu entendi tudo!

Quando Álex me abraçou, me tirando da Luna – não sei como! – ele caiu bem ali, onde tava aquele buraco, e usou o braço esquerdo pra amortecer a queda – exatamente como os batimentos que se usa na arte marcial do judô! Eis a marca da sua mão esquerda no asfalto!

Mas, minha Deusa, o impacto da queda dele e eu, naquele asfalto, deve ter sido uma coisa absurda!

Deveria ter sido um impacto de, sei lá, toneladas!

Como Álex não foi destruído pelo impacto?

Como seu braço e sua mão não se esfacelaram em milhões de pedaços, quando houve o impacto?

Pelo contrário: foi Álex quem destruiu o asfalto!

Eu coloquei minha mão sobre a marca da mão dele novamente... sim, era real!

Eu apalpei o buraco ao lado... era real, real!

Eu tonteei e me sentei no cordão da avenida.

Minha cabeça tava girando!

Minha Deusa, Álex... você não podia ser humano!

Nenhum ser humano teria sobrevivido a um impacto daqueles sem sofrer um arranhão!

Pelo contrário: além de você não sofrer nenhum arranhão você tinha me salvado, porque eu também não tinha sofrido um arranhão sequer!

Álex... você... você... você não era humano!

De repente – sentada ali naquele cordão da calçada da Assys Brazil Avenue, como se eu fosse uma moradora de rua – milhões de coisas assaltaram a minha cabeça:

Aquela marca absurda da mão dele no asfalto...

Aquele buraco que ele fez, com o impacto do seu próprio corpo, protegendo o meu...

A força descomunal com que ele ergueu Moses pelo pescoço, com um só braço, como se aquele desgraçado fosse uma palha...

Os dentes caninos enormes que eu jurava ter visto ele aproximar do pescoço de Moses... e ele ter quebrado o reboco da parede da escola quando bateu aquele desgraçado contra a parede...

O canivete com a lâmina derretida, como se tivesse sido jogada numa fornalha...

A mão incrivelmente gelada que ele tinha...

Os olhos flamejantes de Álex na primeira noite de aula no Becker...

As histórias incríveis que Hélène me contou do bisavô de Álex – e que não envelhecia nunca naquelas fotos!

A cara de Álex, igual, exatamente igual a de seu bisavô!

A linguagem antiga com que Álex se expressava, como se ele fosse um professor de Línguas Eruditas vindo da década de 1940...

Tudo fazia sentido agora! Tudo!

Álex! Você não era humano... Não!

E agora, finalmente, eu sabia exatamente o que você era!