Postagem 15. Os Miseráveis
(Les Misérables, 1982, FRA/ALE)
Quando o Sol – aquele que eu sempre odiei até então! – tava a pino, no máximo do seu esplendor, próximo ao meio-dia, eu me senti a mais segura possível que eu poderia numa situação daquelas.
A vampira não poderia me pegar!
Tinha apanhado minha grana – que eu ganhei nas corridas – e secado as notas com um paninho. Depois, terminado de secá-las ao Sol da minha janela... pois eu havia colocado as notas no bolso interno do meu sobretudo e, quando me atirei no chuveiro, elas molharam!
Perto do meio dia, as cédulas já tavam secas.
Peguei uma boa grana e enfiei na minha mochila negra, deixando o restante escondido no meu roupeiro.
Coloquei minha cruz Ankh e meu Pentagrama pra dentro do meu sweater preto.
Olhei pra fora do meu quarto: Pink Pig havia chegado em casa.
Chaveei meu bunker, passei com minha mochila no ombro por Pink Pig – que tava no pátio, estendendo umas roupas dela – e não lhe disse uma única palavra!
Cruzei o pátio, passei pelo portão e tomei a estreita rua principal de White Wing.
Fui até a Assys Brazil Avenue. Lá, caminhei até a esquina com a 21th Avenue, onde havia um ponto de táxi.
Sinalizei pra um taxista – meio baixinho e gordinho, que tava sentado, lendo jornal, no banquinho de madeira do ponto – mostrando-lhe que eu queria embarcar.
Nós entramos naquele típico táxi de Happy Harbor.
Aqueles famosos veículos vermelhos com para-choques pretos: nossas liteiras rubro-negra.
Vermelho: pura harmonia de tons com o que se revela na cor do precioso sangue em minhas veias...
Embarquei no banco de trás. Me sentia acuada demais pra ir sentada no banco da frente, com alguém perto de mim...
O taxista se virou pra mim:
- Pra onde?
- Lamy Village. Próximo à Reserva Ecológica Mountbones.
Eu tinha que ver Álex.
Eu tinha que ver Hélène.
Eu tinha que contar-lhes que eu sabia de tudo.
Eu tinha que contar-lhes que eu sabia o que Álex era!
Quando o táxi chegou em Lamy Village – e chegou bem rápido até, em menos de uma hora – o Sol brilhava no céu como um orgulhoso rei! Eu nunca havia me sentido tão feliz em olhar pro Sol e sentir o calor dele me aquecendo... e me protegendo!
Confesso: minha relação com o Sol transformou-se... uma verdadeira transmutação alquímica...
Se antes nossa relação era tão límpida como uma água suja, agora havia se tornado no mais purificado e precioso sangue... aliás, o meu sangue, pois era ele quem o Sol agora protegia!
Paguei uma fortuna pro taxista – ao menos, pra uma pobretona desempregada como eu, era uma fortuna uma viagem daquelas de táxi.
Mas era o único jeito de chegar no Casarão de Hélène bem rápido, com o Sol alto – era só assim que eu me sentia segura agora!
O táxi foi embora.
Eu tava agora bem defronte ao portão do antigo Solar, aquele Casarão que eu conhecia desde menina.
Toquei a campainha, que ficava ao lado daquele enorme portão de bronze, ricamente adornado.
Em alguns instantes, a famosa velhinha do Solar – Hélène! – apareceu à porta. Quando ela me viu, me reconheceu imediatamente e sorriu largamente, abanando.
Eu?... Eu não consegui sorrir... tava uma pilha de nervos!
Ela veio caminhando calmamente, pela trilha de basaltos por entre o jardim e, antes de se aproximar de mim, me disse amável:
- Olá, Selene! Eu sabia que iria te ver em breve, mais uma vez!
Eu? Só respondi isso, com os músculos do rosto mega duros, de tão tensos:
- Oi...
A velhinha abriu o portão pra mim.
Eu entrei depressa.
Foi então que ela me fitou cuidadosamente.
Olhou pro meu rosto e exclamou:
- Menina, o que aconteceu com você? Você está tremendo!
Eu? Quando ela me disse isso, não consegui me aguentar... eu tava tão nervosa que comecei a vomitar os meus pensamentos, sem conseguir controlá-los:
- Eu sei o que Álex é! E eu sei que você também sabe!
A velhinha pareceu não estar nem um pouco espantada com o que eu dizia! Ela simplesmente olhou pra mim e me perguntou, com aquele seu vivo sorriso matreiro:
- Você sabe o que ele é?
Eu confirmei, afirmando com a cabeça, mega séria!
E Hélène, pra meu espanto, sorriu, e assim me respondeu:
- Eu sabia que você iria matar a charada bem rápido... Mas por favor, entre! Você está tremendo, querida! Eu tenho um chá ótimo para essas situações... afinal eu sei exatamente pelo o que você está passando... também fiquei chocada quando descobri tudo isso, na minha adolescência!
Nós cruzamos o caminho de basaltos.
Passamos pelas dark roses.
Instintivamente peguei uma dark rose, arranquei-a delicadamente e a levei comigo, por entre meus dedos.
Hélène viu isso e não disse nada. Ficou apenas me olhando.
Guardei a rosa na minha mochila.
Bram Stoker: Abraham Van Helsing e suas pétalas de Rosas Selvagens no túmulo de Lucy e na cripta do Conde... Proteção!
Acho que Hélène sacou na hora o que eu tava fazendo... por isso ela ficou calada, naqueles instantes em que enrugou muito o cenho da testa... e só depois me perguntou, muito curiosa, antes de entrarmos:
- Afinal de contas, Selene, o que você realmente crê que Álex é?
Eu respondi com a velocidade dum raio!
Eu tava vivendo o meu verdadeiro e genuíno momento "Bella Swan": você acha que eu iria perder um momento precioso desses, oras?
Eu não abriria mão dele por nada desse mundo! Assim, disse com uma gigantesca seriedade e convicção:
- Álex é um vampiro!
A velhinha? Ao ouvir isso?
Gargalhou! E como gargalhou!
Ria e ria! E como ria!
Eu?
Não entendi mais nada!
Do que ela tava rindo tanto, afinal?
Até que ela disse, daquele jeitinho só seu, mega sapeca e matreira, ainda entre as risadas:
- Oh... algumas romancistas americanas de certos best sellers tão vazios de Significação e Sabedoria... essa Hollywood repleta de ilusões e fantasias da computação gráfica... essas séries de TV cada vez mais apartadas da realidade do Kosmos... tudo isso realmente tem feito tanto a cabeça de nossas crianças de hoje... pois hoje em dia, tudo é vampiro! Mas tudo está bem... pois, paciência, assim é a vida!
E continuou a gargalhar!
Eu não entendia mais nada, enquanto nós duas entrávamos dentro do antigo e belíssimo Casarão! Nada mesmo!
Enquanto entrávamos, Hélène sorriu debochadamente, e disse:
- Lembre-se de Shakespeare, Selene... só que imagine o que o grande dramaturgo diria hoje, em plena "era dos vampiros":
"Oh, meu caro Horácio, há muito mais coisas entre a terra e o céu do que comporta vossa vã filosofia... vampiresca!"
Eu? Não entendia mais nada, enquanto Hélène zoava abertamente com a minha cara!
Távamos sentadas na sala de estar.
Naquela mesma sala onde haviam muitos retratos e pinturas.
Naquela mesma sala em que eu fiz aquele fiasco de desmaiar...
Távamos sentadas exatamente nas mesmas poltronas da minha primeira visita.
Hélène e eu távamos tomando o tal chá especial que ela me falou. E realmente: tava me sentido menos tensa...
Foi quando a velhinha me perguntou, em tom jocoso:
- O que fez você decidir que Álex é um "vampiro"?
E eu lhe contei todas as minhas "provas"... tudo o que antes pareciam meras cismas haviam se tornado consistentes provas materiais: caninos crescendo, os olhos flamejantes, o canivete, as fotos, a pele fria...
Mas contei principalmente as provas que eu tive nesta madrugada, quando a Coisa me atacou!
Foi quando eu falei do ataque da Coisa, com detalhes – inclusive do meu inusitado "novo método Selene Stern de como banhar-se no chuveiro" – que Hélène suspendeu completamente seu tom jocoso e exclamou séria:
- Pobrezinha! Por isso você estava nessa imensa pilha de nervos quando chegou aqui!
Só "pilha de nervos", Hélène?
O próprio Jean Valjean, massacrado e implacavelmente perseguido a vida inteira pelo cruel Inspetor Javier, tendo uma vida desgraçadamente miserável na França pós-revolucionária, era fichinha perto do que eu tava passando agora!
Victor Hugo que se cuide: eu tava tendo o meu verdadeiro momento "Jean Valjean em Os Miseráveis" – depois do meu terrivelmente frustrado momento "Bella Swan", confesso! –mas me recuso terminantemente a pagar direitos autorais a Victor Hugo...
Sarcasmo... Porcaria! Só mesmo o doce licor venenoso do sarcasmo pra manter a minha sanidade mental naquele tormento!
Hélène?
Largou sua xícara de chá... e me disse, muito séria:
- Quando eu era jovem, Selene, antes dos meus vinte anos, certa vez pude ver pessoalmente um dos "vampiros" que você viu nessa madrugada... eles são mesmo terrivelmente assustadores!
Eu perguntei:
- Por que você os chama de "vampiros", entre aspas?
- Selene, existem relações entre o mundo dos vivos, os encarnados, e o mundo dos mortos, os descarnados, muito antigas e profundas com aqueles oriundos das Trevas mais densas... e muitos os confundem ingenuamente com "vampiros" e "demônios"...
Eu tava começando a ficar tensa de novo com aquela conversa...
Cenas da minha infância e adolescência que eu queria esquecer pra sempre começaram a brotar na minha memória...
Preciso ficar calma, preciso, preciso!
Respira, Sê, respira!
Foi então que perguntei, enquanto respirava:
- Se Álex não é um vampiro, o que ele é?
A velhinha?
Sorriu suavemente, mas sem deboche algum... e disse:
- Se eu lhe contasse, você não acreditaria... é melhor você ver por si mesma, dentro do seu tempo!
Que droga, Hélène! Você tava me deixando mais confusa! E me obrigando a respirar ainda mais!
Foi então que, respirando ainda mais profundamente, por um instante eu olhei pras fotos antigas na parede...
Olhei justamente pra foto em que o "bisavô" de Álex tava com a menina Hélène, com seus dez anos, no seu colo. E indaguei:
- Era Álex... sempre foi Álex, né?
Hélène deu um doce sorriso... suspirou longamente... e respondeu, com uma voz imersa numa linda mistura de paz e gratidão:
- Álex me encontrou em 1940, na França dominada pelos nazistas... ele encontrou uma menina frágil, completamente sozinha no mundo e desamparada... e a adotou como sua filha...
Eu não disse nada.
Não era necessário.
Apenas implorei com um olhar pra que Hélène me contasse a sua história... a sua verdadeira história.
Ela?
Compreendeu meu olhar, e começou a narrar...
Terceiro Interlúdio:
Com a palavra: o Velho!
Há milhares de anos... na África...
Última noite de Lua Cheia daquele ano, tão antigo que jaz sepulto no vale dos outros anos que o sucederam...
Sou apenas um velho Babalaô – trajando minhas singelas roupas brancas – mas que mantenho a atenção das minhas crianças com meus dois poderosos encantamentos: o carisma do meu olhar e a vivacidade dos meus gestos!
Os olhinhos dos meus aprendizes da Aldeia brilhavam, refletindo as chamas daquela ardente fogueira que crepitava na savana.
Podia-se até ver, na pupila daqueles olhinhos atentos sentados em círculo, o reflexo deste velho sacerdote: com minha pele negra, cabelos prateados e alma afiada!
Uma lenda, muito, muito antiga, emanava de meus lábios:
Havia, há muito, muito tempo atrás na África – antes mesmo das pirâmides desejarem ser sonhadas no atual vale do Rio Nilo – uma poderosa civilização!
Estes grandiosos e antigos sábios, construtores e guerreiros viviam às margens do imenso, sagrado e hoje desconhecido curso Ocidental do Rio Nilo, num tempo em que os próprios Orixás, Guias e Guardiões andavam junto às pessoas nas ruas e conviviam junto delas em suas habitações! E, por partilharem seus passos, lado a lado com a humanidade, eles eram chamados... Orixás Andantes!
Naquele tempo, época dos Orixás Andantes, no Mundo do Terceiro Ângulo Cósmico, o curso do Sagrado Rio Nilo corria por vales mais amplos e profundos e por cursos inimagináveis, ao Oeste, diferentes dos que conhecemos hoje...
E, no mais extenso desses vales, dois poderosos reinos se formaram... o Poderoso Reino do Norte, na margem Norte do Sagrado Rio, e o Glorioso Reino do Sul, na margem Sul...
Porém, aqueles eram os últimos dias em que os Orixás, os Senhores da Natureza e do Kosmos, os teares da Teia da Vida, caminhariam entre os homens, respirando junto deles, comendo junto a eles, chorando e rindo junto a eles...
Os últimos dias dos Orixás Andantes sobre a Terra... os últimos dias do Mundo do Terceiro Ângulo Cósmico...
Pois os Orixás determinaram que uma nova e dolorosa fase da maturação espiritual da humanidade precisaria se iniciar para que os homens um dia atingissem o seu feliz destino: tornarem-se igualmente Seres Divinos... mas, para isso, o ângulo precisaria mudar: nasceria o Mundo do Quarto Ângulo Cósmico...
Porém as pessoas comuns jamais suspeitavam que aqueles eram os últimos dias em que todos estariam juntos à mesma mesa... não imaginavam que o tempo dos Orixás Andantes estava por terminar!
E foi justamente naqueles últimos dias do Terceiro Mundo que, por vontade dos Orixás Andantes, no Glorioso Reino do Sul e no Poderoso Reino do Norte, nasceram três crianças muito especiais!
No Poderoso Reino do Norte nasceu o único filho do doente Rei... e o menino, filho de um Rei fraco e mórbido, cresceu forte e saudável.
Um verdadeiro milagre, como a transformação do sujo e poeirento minério de ferro que era o Rei – pela forja dos Orixás – na espada límpida e reluzente que era o Príncipe: pois o Príncipe na verdade era a própria benção do Senhor da Espada e da Tecnologia: Ogum!
Ogum enviara Seu filho para nascer no Reino do Norte, em um derradeiro esforço para sanar a loucura do Rei e renovar o mundo, unindo na Harmonia da Natureza as margens Norte e Sul do Sagrado Rio na Teia da Vida.
Porém, pouco antes que o Príncipe nascesse, seu pai, doente e decrépito, revoltou-se absolutamente com os Orixás por não ter um herdeiro, e os destratou!
Em resposta aos maus tratos, os Antigos Senhores do Kosmos então retiraram-Se do Poderoso Reino do Norte para sempre!
Enfurecido, o Rei ordenou – por vaidade e capricho! – que todos os antigos sábios, portadores dos mais sagrados conhecimentos dos Orixás, Guias e Guardiões do Reino do Norte, fossem presos e executados!
Houve um regime de terror no Poderoso Reino do Norte!
O rubro das veias partidas inundou as ruas e pintou tetricamente as paredes!
E o Rei do Norte inventou, em seus delírios de vaidade, o seu próprio deus, um deus que não tivesse mais ligação alguma com a Natureza, que ele agora afirmava ser má e traidora:
E assim se iniciou o culto do Deus Único no Poderoso Reino do Norte!
E apaixonado por sua invenção, o Rei iniciou uma guerra contra todos os outros pequenos reinos do Norte que cultuavam os Orixás. E por onde sua sombra real passava, imagens, templos, sabedoria e sacerdotes da antiga conexão com a Natureza eram reduzidos a pó...
E quando o seu inesperado filho nasceu – por benção dos próprios Orixás Andantes! – o decrépito Rei do Norte acreditou ter sido uma recompensa do Deus Único por sua cruzada, e prosseguiu ainda com mais fé em sua insana guerra, avançando com cada vez mais afã rumo ao Norte!
Porém, o velho tutor do príncipe do Poderoso Reino do Norte, escravo pessoal do Rei por dívidas, secretamente, era um sábio estudioso dos conhecimentos sagrados dos Orixás dos vários pequenos reinos do Norte. Nos tempos de sua juventude, em que fora mercador e livre, o tutor colecionou um precioso acervo de sabedoria e que, por mantê-los guardados em segredo, salvou-os da sanha destruidora do decrépito Rei.
O Rei, cada vez mais distante em campanhas ao Norte, pouco viu seu filho crescer. O vínculo afetivo formou-se então entre o velho tutor e o menino. E assim, veladamente, o velho tutor foi ensinando, à noite, ao jovem príncipe herdeiro, o amor e o respeito às Divindades da Natureza... e de dia os arrogantes sacerdotes do Deus Único, instituídos pelo rei, lecionavam para o menino.
O garoto estava confuso: o que seguir? A quem seguir?
Aos deveres de Estado, como representante do Deus Único na Terra – deveres ensinados pelos Pontífices do Rei – ou aos apelos do seu coração, que ansiavam pela Beleza e Harmonia da Teia da Vida que o tutor – a quem ele amava como pai – lhe mostrava tão ternamente?
Porém o velho tutor não era um Iniciado... ele apenas conhecia a sabedoria superficial e não tinha os Dons para manipulá-la... e o jovem príncipe nunca pode ser verdadeiramente iniciado...
Por sua vez, no Glorioso Reino do Sul, nasceram dois irmãos, igualmente muito especiais: o Príncipe e a Princesa... Como a mãe deles morreu pouco após o Príncipe nascer, a Princesa, sua irmã mais velha, ajudou a educá-lo...
Eles cresceram...
Ela, a Filha da Dama do Mar, se tornou uma jovem muito bela e muito sábia: a Grande Yalorixá de Yemanjá Ogunté! E no momento de sua sagração como Grande Sacerdotisa, Sua Mãe Ancestral, a própria Yemanjá Ogunté, deu-lhe pessoalmente, vinda de Suas próprias mãos, a Sua espada: Kupanga Omyi Benbe!
Ele, o Filho do Senhor do Fogo, se tornou um jovem sacerdote guerreiro muito forte, muito justo e muito esperto: o Grande Babalorixá de Xangô Aganju e Príncipe do Sol! E no momento de sua sagração como Grande Sacerdote e Príncipe Solar, Seu Pai Ancestral, o próprio Xangô Aganju, deu-lhe pessoalmente, vindo de Suas próprias mãos, o Seu machado de duas lâminas: Oxé!
E os dois irmãos, quando tornaram-se os guardiões dos conhecimentos mais sagrados da Sabedoria Ancestral dos Orixás do Reino do Sul, receberam das próprias mãos dos Orixás Bará-Exu, Xapanã, Ossanha e Oxalá a benção da imortalidade física enquanto a desejassem. Com tal dádiva, ambos se tornariam a Biblioteca Viva dos Orixás Andantes, com a missão de nunca permitir que as novas gerações se esquecessem de sua Conexão Sagrada com a Teia da Vida, no dia em que o último dos Orixás Andantes partisse da Terra.
Por sua vez, o Príncipe do Sol, quando atingiu a maioridade, foi sagrado comandante em chefe do exército do Glorioso Reino do Sul. Na cerimônia de sagração, o próprio Ifá lhe vaticinou: a guerra logo chegaria ao Glorioso Reino do Sul!
Sabedor disso, e das intenções do Rei do Poderoso Reino do Norte de varrer da Terra os Orixás e a Conexão com a Natureza, o Príncipe do Sol iniciou uma longa expedição por todo o Glorioso Reino do Sul, a fim de reorganizar as defesas, a economia, a tecnologia e a produtividade do reino para os tempos difíceis do porvir.
Com a sanguinária guerra ao Norte, apenas no Sul ainda viviam os Orixás Andantes, os Guias, os Guardiões, e Sua Sabedoria, e o Príncipe do Sol trabalhou dia e noite para proteger esta preciosa herança para a Humanidade!
Nessa árdua expedição, o Príncipe do Sol tanto trabalhou pela inovação tecnológica e pela rede de sistemas defensivos do reino que recebeu, das mãos do próprio Ogum, duas sagradas espadas, sutilmente curvas: a Espada do Dia e a Espada da Noite! Mas foi alertado por Ogum que apenas uma criatura dentre todas as coisas e criaturas do mundo, um dia, poderia quebrá-las, pois eis que ela era amada e protegida pelo próprio Ogum.
O Príncipe também tanto trabalhou pela reorganização da justiça, da educação e da nobreza no reino que recebeu, das mãos do próprio Xangô, as presas e a juba do leão! Mas foi alertado por Xangô que a criatura que um dia quebraria uma de suas duas espadas seria a terceira e última peça da Biblioteca Viva, sem a qual os Orixás Andantes não poderiam mais voltar à Terra. E que por isso essa criatura também ganharia dos outros Orixás a benção da imortalidade física.
Também tanto trabalhou o Príncipe, reorganizando a economia, para que os celeiros e a caça permanecessem abundantes na guerra próxima, mantendo seu povo alimentado, que recebeu, das mãos do próprio Oxossi, as asas do Gigantesco Pássaro Negro que Oxossi um dia abateu com uma única flechada! Mas foi alertado por Oxossi que, assim como o Pássaro Negro alava-se produzindo a noite, que ele evocasse os poderes das asas somente entre o crepúsculo e o alvorecer.
Também tanto trabalhou o Príncipe para que as pessoas manifestassem tolerância e compaixão entre elas, pregando a união entre as pessoas, que recebeu, das mãos da própria Oxum, a metade de um coração de diamante... e soube que ela já havia dado a outra metade do coração de diamante para uma moça que ele em breve conheceria. Mas foi alertado por Oxum que, quando o coração de diamante estivesse completo, quem ele menos imaginava ficaria desequilibrado ao ver isso e futuramente romperia uma Sagrada Aliança.
Pouco depois o Príncipe, trajado como um simples operário, ajudava e supervisionava a construção de um grande aqueduto no planalto do Rio da Lua Branca... ao final daquele dia, exausto, enquanto refazia-se próximo à Foz – bem onde havia a cachoeira que desaguava as águas do Rio da Lua Branca, sendo que por isso construíram exatamente ali o Templo de Oxum Pandá – o Príncipe viu algo...
Próximo ao Templo, na beira da cachoeira, perante o imenso estuário que acolhia as águas do Rio, e com os raios avermelhados do Sol poente no horizonte, uma figura solitária fazia um ritual...
Era uma jovem que, empunhando a espada – que lhe foi dada pelas próprias mãos de Sua Mãe Ancestral, Oxum Pandá: a Espada Adâ! – realizava movimentos por vezes suaves e sensuais, por vezes velozes e certeiros, como se dominasse a Arte da Sedução e a Arte da Guerra ao mesmo tempo!
O Príncipe ainda não sabia, mas aquela moça era a própria Yalorixá do Templo de Oxum Pandá do Rio da Lua Branca!
O Príncipe? Encantado com os movimentos da sacerdotisa, aproximou-se para saudá-la, até que... viu algo em seu peito: era a metade do coração de diamante!
E a sacerdotisa? Viu no peito dele, igualmente, a outra metade!
E os dois se apaixonaram perdidamente!
Porém, ao saber disso, a Princesa, sua irmã, entristeceu-se muito...
Mas ainda eram tempos de paz...
Porém, com a conquista de todos os pequenos reinos do Norte, o Rei do Poderoso Reino do Norte voltava a atenção de sua cruzada para o Sul... ele jamais cogitaria antes enfrentar o Glorioso Reino do Sul... mas as vitórias agora o embriagaram!
E houve guerra entre o Poderoso Reino do Norte e o Glorioso Reino do Sul!
As tropas do Poderoso Reino do Norte, tão numerosas quanto o número de grãos das areias do mar e tão extensas quanto o próprio Oceano, cruzaram o Sagrado Rio em doze pontos, invadindo as terras do Sul em doze locais simultaneamente!
Porém, exatamente como sua astúcia militar previra e trabalhara arduamente, o imenso exército do Norte não conseguiu vencer as linhas de defesa, a logística, as novas construções e as novas tecnologias que o Príncipe do Sol havia implementado em seu reino!
Foram combates terríveis! A ponto de, no mais decisivo deles, o Príncipe ter perdido o seu Oxé – soterrado por uma imensa avalanche na gigantesca pedreira! – quando ele o utilizou com todo o poder dos Trovões contra as violentas e imensas tropas do Poderoso Reino do Norte, assim impedindo que as pedras da Grande Muralha do Reino do Sul fossem derrubadas!
Após aquela cruenta batalha, a guerra chegou a um impasse rapidamente... ambos exércitos estavam quase já sem armas e mantimentos... e o Rei do Norte foi forçado a propor a paz e cruzar o Sagrado Rio, de volta ao Norte... mas com uma condição: que a linda Princesa do Glorioso Reino do Sul se casasse com o Príncipe do Poderoso Reino do Norte.
O decrépito Rei do Norte tencionava, com isso, convencer a Princesa a converter-se ao seu novo Deus Único e minar a fé no Reino do Sul!
E o Rei do Sul viu nisso uma oportunidade de criar uma forte dependência econômica do empobrecido e faminto povo do Reino do Norte – flagelado pelas longas guerras de seu insano Rei – com a pujança do Reino do Sul, seduzindo o povo do Norte para futuramente unificar facilmente os dois reinos.
E o casamento foi realizado...
A Princesa, a Grande Yalorixá de Yemanjá Ogunté, sentiu-se profundamente traída... havia se tornado mero objeto em questões de Estado...
O Príncipe do Reino do Norte apaixonou-se perdidamente pela linda e graciosa Princesa. Mas ele estava muito perturbado: o conflito interno entre a Teia da Vida e o Deus Único o tornaram um homem despedaçado!
E o conhecimento fragmentado dos Orixás que seu tutor lhe ensinou, quando se misturaram em sua cabeça com a doutrina do Deus Único, lhe inspiraram novas e estranhas concepções. E ele forçou a Princesa a adotá-las.
Ela, porém, resistiu bravamente!
Jamais conseguiu perceber Harmonia alguma naquele Kosmos apartado da Natureza, inventado pelos Teólogos do Deus Único!
Sabendo de sua recusa, por ordem do Rei do Norte, a Princesa secretamente foi presa – sem que nem mesmo seu marido, em expedição para conter uma revolta ao Norte, soubesse! – e foi torturada e doutrinada pelos Pontífices do Rei, por sete dias e sete noites, sem que sequer pudesse dormir!
A Teia da Vida e a Harmonia do Kosmos em suas veias a abandonaram, dando lugar às Trevas da loucura: a Yalorixá de Yemanjá Ogunté foi sepultada... nascia a Princesa das Trevas!
Ela convenceu-se de que tudo estava errado no mundo, e que uma nova era necessitaria ser imediatamente construída!
Para isso, quando seu marido retornou da expedição, ela habilmente o convenceu a assassinar seu próprio pai e assumir o trono, com o título de O Rei das Trevas.
E assim foi feito!
O decrépito Rei do Norte tornara-se parte do mesmo pó a que antes condenara todos os seguidores dos Orixás, Guias e Guardiões!
E ao seu marido, o novo Rei, disse a Princesa das Trevas:
'Da mesma forma como as chamas incendeiam uma floresta, no espetáculo poético da Morte, limpando o tabuleiro para que nova relva nasça, no espetáculo poético da Nova Vida, uma nova forma de guerra deveria surgir para que o Mundo Novo, Perfeito e Correto nascesse: com novas nações e novos seres viventes!'
E a Princesa das Trevas profanou preciosa parte da Biblioteca Viva, manipulando Forças que desestabilizaram toda a Teia da Vida!
Um novo exército de criaturas e bestas foram trazidas por ela do Além, foram profanadas e dominadas, e a construção do mais horrendo e poderoso exército jamais criado na Terra se iniciara!
Naquela imemorial madrugada, no ápice do ato da profanação, o Rei das Trevas foi transformado, pela própria Princesa, na primeira e mais poderosa besta-fera do mundo: o Portador da Destruição... e a Princesa se transformou na primeira Senhora das Criaturas das Trevas do mundo: a Devoradora de Homens!
Mas a besta das bestas era uma arma tão horripilante que causava horror até mesmo em sua criadora! Portanto, a Devoradora de Homens colocou uma coleira no pescoço da besta, para mantê-la sob seu total controle e para que a besta das bestas não causasse terror à sua própria criadora!
Naqueles dias, todos os Orixás Andantes já haviam abandonado o mundo.
Apenas dois ainda restavam: Ifá e Ori!
E naquela tétrica madrugada, Ifá e Ori imediatamente acordaram o Príncipe do Sol! Ifá lhe contou o que aconteceu! E vaticinou: em breve, de todos os Orixás Andantes, apenas Ori permaneceria no mundo, mas num lugar tão escondido que as pessoas sequer se dariam conta de procurá-lo lá.
Dito isso, Ori imediatamente desapareceu da vista do Príncipe do Sol, e ficou para sempre oculto em seu esconderijo secreto no mundo!
Agora, Ifá era o último Orixá Andante cujas pegadas ainda eram visíveis e o som de seus passos audíveis no mundo. E Ifá ainda disse, enquanto o Príncipe do Sol ainda estava em seu leito: você é o único homem que ainda tem o conhecimento e o poder para deter a Princesa e o Rei das Trevas...
Ainda não havia amanhecido e o Príncipe do Sol já estava diante dos seus generais do Glorioso Reino do Sul, planejando a ofensiva final! Nunca antes uma estratégia militar tão perfeita fora planejada e executada em tão poucas horas: tudo sob os olhos atentos de Ifá, sempre ao lado do Príncipe.
Antes do meio-dia o Príncipe já partia rumo ao Norte.
Foi a última vez, quando ele cruzou os portões da Grande Muralha do Sul, que seus olhos e os de Ifá se cruzaram...
E naquele fatídico crepúsculo, as forças secretas de elite do exército do Glorioso Reino do Sul, com o Príncipe do Sol à frente, surpreendentemente infiltraram-se, isolaram e atacaram o Palácio do Reino das Trevas, para deter aquela loucura e reequilibrar a Teia da Vida. A queda do Reino das Trevas se iniciara, nas mãos da genialidade militar do Príncipe!
Mas, naquele mesmo crepúsculo, enquanto o Palácio do Reino das Trevas era tomado, Ifá, o último Orixá Andante, deixou a sua última pegada sobre as areias à beira do Sagrado Rio... e partiu para o Além!
O mundo dos homens agora teria apenas... as pegadas dos homens!
E foi naquele exato momento, naquela noite e madrugada de Lua Cheia, quando uma suave onda de Oxum soprada por Yansã desfez a última pegada do último Orixá Andante na beira do Sagrado Rio, que aconteceu!
Houveram horríveis estrondos na Terra! Estrondos com ondas de choque! Estrondos de Água desabando!
A Água do Grande Rio foi engolida por uma muralha sem fim de Água vinda do Mar-Oceano!
Durante os tremores da Terra sendo devorada pela Água, enquanto o Príncipe do Sol lutava bravamente contra o poderoso Rei das Trevas – a besta das bestas, colossal, de sete metros de altura! – a Princesa, sua irmã, aproveitou uma fração de segundo e traiçoeiramente, ferindo-o pelas suas costas, despedaçou o Supremo Conhecimento da Biblioteca Viva!
E quando isso aconteceu, os dois irmãos perderam a sua Grande Conexão com a Infinita Teia da Vida e ficaram para todo o sempre marcados por essa perda:
Suas lindas e cálidas peles negras tornaram-se tão brancas quanto as conchas dos búzios e tão frias quanto as neves dos cumes do Kilimanjaro!
O Príncipe do Sol e a Princesa das Trevas agonizavam: os primeiros médiuns da face da Terra nasciam...
E, em meio àquela agonia dos dois, o Rei das Trevas tomou sua amada em suas gigantescas garras e a carregou para longe, enquanto as gigantescas muralhas do Grande Mar-Oceano, naquela madrugada horrível, engoliam tudo o que existia no Grande Vale, por toda a parte...
E tudo desapareceu para sempre, devorado por um abismo!
Este foi o fim do Terceiro Mundo... aquele que foi destruído pela Água...
Surgia o Quarto Eixo Angular Cósmico...
Nascia o Quarto Mundo... um mundo que viveria até cinquenta anos depois que os Homens de Armadura Branca pousassem a Águia no Mar da Tranquilidade... nesse tempo o Quarto Mundo, pouco após o Grande Terremoto, seria destruído pelo Fogo... o Fogo da Terra que faria as pessoas entoarem suas súplicas à Missa do Fogo... e, das cinzas dos céus que a tudo sepultou, o Quinto Eixo Angular Cósmico estabeleceria o Quinto Mundo, onde os Orixás Andantes voltariam a caminhar sobre a Terra, promovendo a Humanidade à Divindade, e as pessoas finalmente entenderiam a Felicidade...
Com a morte do Terceiro Mundo, ninguém soube o que aconteceu com a Princesa e com o Rei das Trevas... nem o que houve com o Príncipe do Sol e com a Yalorixá de Oxum Pandá depois disso...
Muitos acreditaram que a Princesa e o Rei das Trevas escaparam do Grande Cataclismo, e saíram para povoar o mundo com seus filhos nascidos das Trevas: os Senhores da Desconexão, os Apóstolos do Medo... levando as Trevas a todos os recantos do mundo dos homens!
Alguns acreditaram que a Yalorixá de Oxum Pandá, alertada por Ifá, também escapou ao Grande Cataclismo, fugindo para os Antigos Grandes Planaltos... e lá ela teria reunido alguns sobreviventes e fundado uma poderosa e sábia civilização...
E uns poucos... os mais sábios... acreditaram que o Príncipe do Sol se transformou no Sol Negro: vivendo para todo o sempre no encalço da Princesa e do Rei das Trevas... caçando-os pela eternidade, para proteger a todos nós...
Calei-me.
Apenas fitava, em silêncio, as chamas da fogueira ardendo... mas em seguida encarei, desconfiado, a Lua Cheia que nos observava...
Meus pupilos, no caminho dos Conhecimentos Iniciáticos Mais Sagrados da Aldeia, estavam igualmente emudecidos: espiavam-se uns aos outros, e aos ruídos da escuridão da savana, com os olhinhos extremamente arregalados!
Afinal, aquela era uma lenda muito, muito antiga...
O problema das lendas muito, muito antigas, é que, às vezes, nelas pulsam o rubro sangue da própria História...
